Gibits 3: Jogos da Mônica para 16 bits

Não é todo mundo que sabe que já saíram três jogos da Mônica para videogames de 16 bits, no caso, Master System e Mega Drive. Quem jogou e lembra, sabe que são maneiríssimos. Mas fora a diversão, tem algumas curiosidades sobre esses jogos que valem muito mencionar.

O primeiro, Mônica no Castelo do Dragão, foi produzido pela Tectoy (é, hoje em dia se escreve junto), empresa de brinquedos que representava a Sega aqui no Brasil (e que fazia um puta trampo, diga-se de passagem). Eles já haviam desenvolvido a Estrelinha Mágica em pareceria com a MSP (que vendeu horrores no ano em que foi lançada) e, mais tarde, resolveram que a Mônica merecia aparecer pixelada. Só que produzir um jogo do zero era inviável no país naquele tempo, então a Tectoy, que já havia trabalhado na tradução do Phantasy Star para o Master System, conseguiu um “hack licenciado” (não é o jogo original, mas uma adaptação autorizada) de Wonder Boy in Monster Land, segundo jogo da franquia Wonder Boy, e transformaram em Mônica no Castelo do Dragão. Os sprites (gráficos/animações de personagens) foram alterados, adaptaram os textos e voilà, Mônica em 16 bits! Não teve nenhum grande bafafá sobre clonagem entre os jogadores porque o Wonder Boy ainda não tinha pintado no Brasil, então, até onde todo mundo sabia, o jogo da Mônica era totalmente novo. De qualquer maneira, se houvesse algum comentário seria fruto de ignorância, pois não se tratava de uma clonagem, e sim, adaptação. Não era uma prática popular na época, mas também não era inédita, a Nintendo havia feito o mesmo adaptando Doki Doki Panic, transformando-o em Mario Bros. 2. No caso da Mônica, é curioso que até dá pra ver que algumas coisas permaneceram em inglês, como o topo da tela durante as fases e os textos nas salas onde a Mônica entra. No original, o personagem principal usava uma espada, que foi substituída pelo Sansão na mão da Mônica. Muito legal.

Mônica no Castelo do Dragão

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Wonder Boy in Monster Land

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A Estrelinha Mágica piscava e emitia sons quando você a colocava na palma da mão

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Apensar de ter a palavra “dragão” no título e o último chefe também ser a criatura mitológica, a imagem da tela de abertura mostra a Mônica encarando o Capitão Feio, vilão dos quadrinhos da Turma, que vive nos esgotos. O manual do jogo também menciona o Capitão, mas ele não aparece em momento algum. Foi muito esquisito na época, mas a Tectoy explica no manual, que conta o enredo da aventura, que o braço direito do Capitão Feio nesta empreitada maligna é o Dragão Cospe Fogo. Parecia meio que desculpa esfarrapada, mas, na verdade, a empresa já tinha uma sequência engatada e a presença do Feio seria corrigida.

Tela de abertura do jogo

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O jogo é bastante difícil, cheio de segredos e itens indispensáveis, sem os quais você não chega até o final. Além disso, a jogabilidade tem alguns problemas, mas nada sério. O jogo era divertidíssimo, agradou muita gente, e estes leves “poréns” não impediam ninguém de alugar o cartucho várias e várias vezes. Além disso, teve uma campanha publicitária bem forte, com propagandas nos gibis e uma coisa ainda mais maneira: uma adaptação da história num gibi da Mônica, chamada Mônica e o Terrível Exército do Capitão Feio, na qual o vilão aparece!

Eis algumas páginas da história

 

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Propaganda do jogo nos gibis da Mônica

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A capa do jogo também mostra o carinho que as empresas tiveram no investimento. Olha que teteia!

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Mas não parou aí. Em 93 a Tectoy lançou uma sequência direta do jogo, chamada Turma da Mônica: O Resgate, também para o Master System. De novo, o jogo foi desenvolvido em cima da franquia Wonder Boy, desta vez, Wonder Boy III: The Dragon´s Trap. Agora, dá pra jogar com outros personagens da turma, o que é pra lá de divertido. Cada um com arma e habilidades próprias, o que diversifica muito a dinâmica da parada. O Chico Bento dá tiros com sua espingarda, o Bidu bate com um osso, sobe paredes e entra em espaços que os demais não conseguem, o Cebolinha usa uma espada e é mais rápido do que os outros debaixo da água, a Magali é a mais forte e usa um rolo de macarrão pra bater nos monstros, e o Anjinho voa e tem uma espada de fogo como arma. Os gráficos estão melhores e os sprites diferenciam muito um personagem do outro. Esse jogo não teve adaptação pra um gibi da Mônica como o anterior, porém, tem uma história no próprio manual que explica o que aconteceu, e isso é muito massa!

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A capa dessa sequência não deixa barato pra primeira, dá um bizu:

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Chico Bento muito legal no jogo

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Mais uma curiosidade: a Tectoy adaptou o Master System Compact, da Sega, e apontou para o público feminino, batizando-o de Master System Girl. O Master System Compact era preto, como o console original, o Girl, rosa. É. Descarado assim. Segregação triste e desnecessária, né? Houve duas versões do sistema: a primeira trazia Mônica no Castelo do Dragão na memória e a segunda Turma da Mônica: O Resgate e o primeiro jogo do Sonic.

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Mais tarde, a Tectoy migrou a adaptação para o Mega Drive, feita em cima do Wonder Boy in Monster World, quarto jogo da franquia. Em A Turma da Mônica na Terra dos Monstros, alguns personagens da turma voltam a aparecer, mas desta vez, nenhum é selecionável. Eles são salvos pela Mônica e a auxiliam, cada um com habilidades específicas. O jogo mantém a pegada aventura/RPG e tem gráficos lindos, provavelmente os melhores dos três. Mais uma vez temos um manual caprichadasso com uma história embutida, explicando o enredo. Se você tem esses materiais ainda, você é um sortudo.

Capa do jogo

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Gráficos maiores e mais definidos neste terceiro jogo

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Não é preciso relativizar a situação da época pra ver que são três jogos muito bons, mas se colocarmos o devido contexto, percebemos que a Tectoy fez um baita trabalho com a MSP no desenvolvimento desses jogos. Houve muita atenção nas alterações dos sprites, souberam localizar muito bem o jogo e criaram manuais e um gibi divertidíssimos. Recomendo todos os jogos pra quem não conhece.

Gibits 1 – Ranx: The Video Game

Eu pensei em começar esta coluna com o primeiro jogo de super-herói publicado em um vídeo game, mas resolvi mostrar um mais inusitado. Explico: o primeiro jogo de super-herói que encontrei na pesquisa para esta coluna foi o Superman para o Atari 2600, de 1979. Só que eu queria mostrar todos os jogos baseados no personagem e só depois passar pra outro. Como o azulão tem muitos jogos em várias plataformas, resolvi seguir um caminho que permita oferecer outras coisas interessantes antes. Além disso, tive a ideia pra fazer a coluna Gibits quando descobri o jogo abaixo, então, nada mais justo do que começar por ele.

Eis, então, Ranx: The Video Game.

O jogo foi desenvolvido e publicado em 1990 pela Ubi Soft (responsável por alguns jogos do Batman, Assassin´s Creed e Star Wars) para as plataformas Atari ST, Amiga e PC (DOS), ou seja, computadores caseiros.

É baseado na HQ Ranxerox, de Stefano Tamburini e Tanino Liberatore, (um dos meus gibis favoritos), mais especificamente no arco Ranx in New York. Fora isso, quase não rola informações sobre o jogo (muito pouco mesmo), provavelmente pelo fato de que é um abandoware, o que significa que a distribuição e/ou desenvolvimento da parada foi cancelada, seja porque a empresa abriu falência, porque a plataforma deixou de ser fabricada, questões de direitos autorais, o que for.

Aqui vocês podem ver um pouco do jogo:

Viu? Eu falei que era pouco. De qualquer maneira, a ideia é publicar textos curtos mesmo, apontando mais pra quem desenvolveu os jogos, as plataformas que os comportam e as curiosidades sobre ele. E se curiosidade é um dos alvos-chave, nada mais coerente do que o jogo do Ranx.

Game on!

Festival Internacional de Quadrinhos 2015! | Vlog do PN #115

O Danielzinho Lopes esteve no FIQ 2015 e aproveitou para gravar um vlog direto do evento, com participação especial de Paulo Cecconi e Camilo Solano! Se vocês curtirem, em breve faremos um vídeo mostrando tudo que o Daniel trouxe na mala (e é coisa pra caramba!)

LINKS:

– Videocast Pipoca e Nanquim #95 – FIQ 2011: http://pipocaenanquim.com.br/videocas…

– Só Nanquim #05 – Direto do FIQ 2013: https://www.youtube.com/watch?v=3znAs…

– Site oficial do FIQ 2015: http://fiqbh.com.br/

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Professor Zéfiro

carlos-zefiroPassado pouco menos de uma semana do aniversário do saudoso Alcides Aguiar Caminha, o Carlos Zéfiro, achei pertinente fazer um texto rápido em homenagem.

Para a nova geração, pessoas talvez abaixo dos trinta anos, é possível que a palavra “Zéfiro” passe despercebida, sem nenhum sentido imediato atrelado a ela. Porém, para os jovens do fim da década de 1950, carrega o significado do principal professor de putaria a quem se tinha acesso.

Carlos Zéfiro era o pseudônimo de Alcides Caminha, adotado por causa da questão da censura. Naquelas épocas, a veiculação de quadrinhos pornográficos e eróticos era uma prática subversiva, punível com cadeia. Os gibis de Zéfiro eram, portanto, contrabandeados da maneira que fosse possível. Ironicamente, uma das formas de esconder as publicações era passá-las de mão em mão dentro de folhetos religiosos (um dos motivos pelos quais as publicações ganharam o nome de “catecismo”). Amém.

Não era difícil esconder; possuíam de 24 a 31 páginas, no formato de ¼ de ofício, e todos os garotos tinham (ou queriam ter) o máximo de números possível.

Os desenhos de Zéfiro não eram anatomicamente corretos, nem esteticamente estudados e trabalhados. Porém, além de ser um pioneiro na divulgação da cultura erótica no país, suas histórias possuíam camadas que iam além do puro estímulo sexual, e mostravam nuances do psicológico cultural da época que não eram admitidos por ninguém. Em resumo: o sexo casual era prazeroso, não somente para o homem, mas para todos os envolvidos, fossem eles tios, tias, membros do mesmo sexo, ou a moça recatada.

Além de passar os dias trabalhando (era funcionário público) e as noites desenhando, Caminha foi letrista de músicas conhecidas, como a belíssima A Flor e o Espinho.

Hoje em dia é difícil encontrar “catecismos” originais por aí. Além de tiragem média de 5 mil exemplares na época, as mães, tias e namoradas que encontravam as publicações não pensavam duas vezes antes de jogá-las no lixo.

Zéfiro, em virtude da censura e moral da época, teve pouco reconhecimento durante o período em que sacrificou horas para a criação de seu material, mas seu impacto na cultura é importantíssimo e inegável. Hoje, com a vulgarização de qualquer meio existente pela internet, os quadrinhos que proporcionaram horas de prazer pra garotada, foram objetos de estudo e são obras raras ganham ainda mais força como status de arte.

Algumas mídias de referência e informações sobre o autor:

Um livro sobre o trabalho de Zéfiro foi lançado em 1983 pelo Ota Assunção, chamado O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, no qual ele reúne vários exemplares que conseguiu para discorrer sobre o trabalho do autor.

Há também um documentário chamado Zéfiro Explícito, contendo depoimentos da mídia especializada, fãs, amigos, e até do jornalista Juca Kfuri, responsável pela revelação da identidade de Caminha.

Uma bela homenagem foi feita pelo quadrinhista Shiko em sua última publicação, Talvez Seja Mentira.

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Lado B (ou uma História de Amor para Walkman)

81bCcG8gnAL._SL1500_É simples, não é? É uma história de amor à la Hornby. Dá pra resumir rapidamente: as músicas, a festa, os amigos, a mina, a fita… é simples. Só que nem tanto.

Lielson Zeni, o autor de Lado B (ou uma História de Amor para Walkman) propõe que os recursos de linguagem e a forma sejam o grande atrativo da obra. “Não é a história, é o tratamento que é dado que importa”, é o que eu sempre digo. E o Lielson parece concordar.

Lado B é um livro prazeroso, ágil e divertido. Não é uma obra densa, que se leva mais a sério do que deve, na qual o autor tenta se posicionar como um nome forte na constelação de escritores brasileiros. O que é ótimo, porque isso acontece com certa frequência. Mas é nessa despretensão que está a graça do livro, pois, mesmo sendo breve e leve, de modo algum pode ser classificado como uma obra rasa.

Conforme supracitado, Lielson opta por exaltar os recursos da linguagem, e isso confere uma qualidade rara ao livro. Não há linearidade, não há tédio. O autor mescla narrativa em primeira pessoa, terceira pessoa, aplica elementos de metalinguagem, usa recursos gráficos para indicar números de telefone, transcreve até a moderna linguagem internáutica dos chats, com seus códigos e emoticons.

E ainda tem o tempero especial: as inúmeras referências. Sejam filmes, músicas, clássicos da literatura, elas estão lá, espalhadas no meio dos textos, usadas para expressar sentimentos e opiniões, as palavras e expressões famosas servindo de canal para o autor.

Enfim, daria pra discursar bastante sobre Lado B, e seria muito gostoso; discutir as referências, analisar a linguagem, dissecar as intenções… enfim, um bate-papo digno de mesa de bar.  Mas ainda é uma obra que tem que alcançar mais pessoas. Logo, como a intenção desta resenha é divulgar, vamos parar por aqui.

O livro foi lançado em 2013 pela Mojo Books, que entrou no mercado nacional em 2006 já com um diferencial: a primeira editora brasileira 100% digital.  Hoje, com publicações impressas, possui vários livros de novos autores no catálogo, incluindo HQs. O acabamento, com lombada quadrada, é extremamente competente e não perde para editoras de renome. Alexandre Lourenço contribui com três ilustrações para o livro.

Concluo sugerindo que adquiram o livro. Não é uma leitura comum, é rico em informações (vá atrás das referências. E não, não é necessário notas de rodapé. Você já é grandinho, use a internet a seu favor) e uma verdadeira aula sobre como a língua portuguesa pode ser usada de diferentes maneiras para contar uma história. Se não quiser comprar, não me pare no bar pra falar sobre o livro.

Você pode adquiri-lo no site da própria editora (aproveita pra olhar o catálogo):

http://mojobooks.com.br/shop/lado-b-de-lielson-zeni/