Eisenstein e a invenção da linguagem cinematográfica

É digno de nota que depois de um século XIX glorioso, com Dostoiévski, Tolstoi, Tchaikovsky etc, a maior contribuição artística da Rússia pós-revolucionária tenha ocorrido no desenvolvimento da linguagem cinematográfica, a mais “capitalista” das artes. Gorki escreveu suas principais obras antes de 1917, Nabokov e Stravinsky produziram no exílio. Portanto, ao lado do já famoso poeta Mayakovsky, os cineastas Sergei Eisenstein e Andrei Tarkovski foram os maiores artistas criativos do regime soviético. Tão brilhantes e originais que acabaram censurados, perseguidos ou, simplesmente, expurgados por ele.

Se os franceses, a partir de 1889, por meio dos irmãos Lumière e dos estúdios Pathé, apresentaram oficialmente o cinema ao mundo e os americanos criaram os principais códigos da linguagem cinematográfica, transformando-o em um grande negócio, foram os soviéticos que primeiro tentaram compreender e explorar seus limites enquanto meio de expressão. Impressionado com as inovações que o diretor norte-americano D. W. Griffith introduziu no polêmico filme O nascimento de uma nação (1915), como o uso de panorâmicas e montagem alternada, afastando o cinema do mero “teatro filmado” que era até então, o cineasta russo Lev Kulechov direcionou suas pesquisas para a compreensão do fenômeno popular que o cinema começava a se transformar. Seu célebre “efeito Kulechov”, criando o efeito de fome, medo, frio, raiva etc, justapondo tomadas idênticas do rosto de um homem com imagens que induziam a criação de sentido, mostrou que a arte cinematográfica é, sobretudo, montagem. Por exemplo: apresentando a face do homem e depois um prato de comida, o público pensaria que ele estava faminto. As tomadas eram neutras, sua organização seqüenciada dava-lhe significado, que poderia ser dramático, patético ou cômico.

Sergei Eisenstein (1898 – 1948), natural da Letônia, com formação em engenharia e ex-combatente do Exército Vermelho, levou experiências como essa à prática. Trabalhando para o Estado, almejava transformar o cinema de entretenimento vazio em ferramenta política. Conseguiu, indo muito além do mero realismo socialista. Dirigindo filmes como A Greve (1924) e Outubro (1928), pretendia transmitir o espírito revolucionário de sua própria época. Com Alexandre Nevsky (1938), sobre a resistência russa contra as invasões germânicas durante a Idade Média, incentivou os soviéticos a resistirem ao ataque nazista na Segunda Guerra Mundial. Tendo realizado quatorze longas-metragens, sua obra-prima incontestável é O Encouraçado Potemkin, um dos filmes mais influentes de todos os tempos, produzido em 1925 para comemorar os vinte anos do levante ocorrido na cidade de Odessa contra o Czar Nicolau II. Evento considerado uma espécie de ensaio para a revolução de 1917.

O enredo do filme é conciso. Um grupo de marinheiros, retornando à Rússia após serem derrotados em uma guerra contra o Japão, se amotinam em função da carne podre servida na ração. Lutam contra os oficiais. A insurreição espalha-se pela cidade e recebe apoio popular. O povo lhes doa alimentos. O governo czarista lança o exército contra a multidão de rebeldes. Ocorre um massacre de civis. O encouraçado bombardeia o teatro da cidade (QG dos generais inimigos e templo da arte burguesa). Ao amanhecer, os amotinados recebem apoio de outros navios e, juntos, navegam rumo ao futuro. À revolução. Fim.

Para contar essa história, o diretor russo fez uso de recursos até então inéditos. Aplicou o que chamaria de “montagem das atrações”. Em uma série de ensaios, Eisenstein explicou que sua teoria cinematográfica apropriava-se da dialética marxista: propunha o choque da tese e da antítese, sua superação, gerando uma síntese. Os cortes são abruptos: ponto, contraponto, fusão. Para ele, o impacto provocado por um filme acontecia em função do ritmo, não do enredo narrado. O diálogo mostrado nos letreiros é reduzido ao mínimo. Sempre protestos, expressões de desespero ou exaltações à luta. Não há tempo a perder. As panorâmicas contemplativas de Griffith foram substituídas por rápidos planos gerais.

Na “montagem das atrações”, mais importante do que estabelecer a identificação emocional da platéia com os personagens era conseguir comunicar o significado de suas ações conjuntas. Não importa as individualidades, o fundamental é a construção de personagens coletivos. Em O Encouraçado Potemkin, inexistem tipos complexos, todos são arquétipos. O almirante é um déspota, o capelão um Rasputim patético. O próprio líder da rebelião, Vakulinchuk, é mostrado por um viés simbólico. A cena em que velam seu corpo nas docas, sob o lema “por uma colher de sopa”, o introduz como um elemento de coalizão entre os marinheiros e os habitantes da cidade. É um meio, não um fim. Torna-se um Lênin morto. Um símbolo da luta. O verdadeiro herói do filme é o povo: a união dos amotinados, citadinos, marinheiros aliados etc. Um herói sem rosto e, por isso mesmo, com todos os rostos. Na prática, haveria dois protagonistas coletivos, o encouraçado e a cidade de Odessa, que se oporiam a um terceiro, o vilão, igualmente coletivo, o Estado czarista.

A “montagem das atrações” alcança o auge na célebre seqüência do massacre na escadaria de Odessa, uma das cenas mais copiadas e homenageadas da história do cinema, citada, por exemplo, no policial Os Intocáveis e na ficção científica Brazil, o Filme. Nela, os soldados czaristas avançam, atirando contra civis desarmados. Encarnam o impessoal “Estado-Leviatã”, com os rostos ocultos pelos quepes, matando por simples ato burocrático, de modo rápido e eficiente. Uma mãe é alvejada e solta um carrinho de bebê, que desaba escada abaixo. Na fivela de seu cinto, o sinal do pelicano, que dá sua carne para os filhotes comerem, símbolo máximo do sacrifício materno.

A arquitetura da cidade, sua escadaria imensa, simbolicamente infinita, indica a impossibilidade de fuga. É impossível esconder-se do braço do Estado. Fatalmente, Ele vai encontrar o rebelde e puni-lo. Sozinho, o cidadão comum pode fugir, mas não pode se esconder. São representados pelo indivíduo sem pernas que, desesperadamente, e inutilmente, tenta proteger-se dos tiros. Notadamente, os principais personagens da seqüência, a mãe e o bebê, não aparecem antes nem reaparecem depois no filme. Servem ao sentido daquela cena. Que indica a necessidade urgente da ação coletiva, em detrimento do pânico individual que rapidamente transforma-se em pandemônio generalizado.

Outro momento no qual um elemento cênico torna-se personagem é na seqüência final. O Potemkin avançando contra os navios da frota czarista. Diante dos ataques vistos em terra, o confronto no mar parece inevitável. Acontecendo, o encouraçado ficará em pedaços. Eisenstein trabalha o suspense até o limite da tensão. O navio converte-se em Moby Dick em disparada. Por fim, próximo do instante fatal, os revoltosos conclamam seus companheiros de armas para se unirem à causa. O apelo é atendido e o Potemkin passa pelos outros navios, agora aliados, incólume.

Para mim, o grande mistério do filme encontra-se em uma cena quase no início. Alguns amotinados serão enforcados no mastro do navio. Olham para cima e vêem fantasmas pairando sobre o convés. O que significa isso? As mais diversas explicações podem ser esboçadas: seriam  lembranças de outros enforcamentos, espíritos de enforcados chamando-os à luta, cavaleiros do Apocalipse, anjos da morte etc. Nenhuma delas parece-me definitiva. O fato é que Eisenstein era um comunista ateu. Não acreditava em fantasmas. Contudo, considerando que esse filme, que já esteve proibido em quase todo Ocidente capitalista, perdeu boa parte de seu poder de inflamar as massas revolucionárias, é bom que mantenha alguns mistérios, como forma de chegar às novas gerações. Afinal, como escreveu Glauber Rocha: “os grandes filmes, como as grandes obras da pintura, continuarão passando no cinema – museus ou salas de arte – é assim com O Encouraçado Potemkin, que será sempre mais visto que James Bond, porque continua se exibindo a trinta anos e, se há dois milhões que vêem Bond em um mês, há dez milhões que vêm vendo O Encouraçado todos esses anos”. É mesmo muito importante fazer parte desses milhões, dessa multidão sem rosto, dessa massa coletiva de espectadores.

ENCOURAÇADO Potemkin, O (Bronenosets Potymkin, URSS, 1925). Direção: Sergei Eisenstein. Drama. Preto e Branco, mudo. 74 minutos.

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Ademir Luiz é doutor em História, professor da UEG e autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]

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