Monstros e Kung-fu

Por Rafa Campos. 

PUNHO DE FERRO 1c1Em time que está jogando não se mexe. No Brasil também não se fala mal, com o risco de não ser cumprimentado nas festinhas, o que no caso do mundo dos quadrinhos seria ótimo. Se bem que uma pessoa que vai para uma festa dos quadrinhos merece ser cumprimentada por alguém do metier dos quadrinhos. Bom, me perco aqui.

Punho de Ferro era um dos meus heróis da infância, com aquela versão gay/ballet contemporâneo de fantasia shaolin. E ainda acendia a mãozinha! Ui!

Os super-heróis fazem uma parte muito importante na formação homoerótica dos meninos, o que só melhora os homens no futuro, principalmente os heteros. Com Punho de Ferro não era diferente. A sensação de vazio de suas reminiscências, quando ele consegue a Joia da Serpente que o consagra um mestre do kung fu, sua parceria com o sensacional Shang Chi e sua parceira posterior com o mais sensacional Luke Cage (pouco divulgado no Brasil, país escravocrata por excelência) faziam minha cabeça. A parceira com Cage, por sinal, merecia uma enorme reedição. Duas bichas mercenárias com pele e punho de ferro, uma no estilo kung fu, outra no melhor blaxplotation. Mas ainda divago.

A versão lançada pela Panini Marvel de Kaare Andrews, que só por ter feito texto e arte já merece o destaque, tem coisas boas e coisas ruins. As coisas boas fazem parte de um padrão do universo Marvel desde sempre, e não são boas a princípio – como nada em arte – mas são boas quando alguém sabe fazê-las bem. Entre as coisas boas de Kaaren, portanto, contam os lugares comuns de subjetividade e reminiscências, de angústia da responsabilidade que todo herói ianque imperialista deve ter, ainda que Kaaren, por ser canadense, herde isso de seu aparente modelo artístico, Frank Miller. O chauvinismo de Miller aparece em várias partes da trama, mas muito bem construído, o que anula críticas morais, já que é uma obra de ficção e não estamos aqui julgando o imperialismo e o racismo americano, mas um gibi.

A influência de Frank Miller, entretanto, ultrapassa sua cota de excelente funcionário do universo Marvel no quesito textos, e se estende até a parte onde o americano era genial, o desenho. Miller teve uma ideia simples; um rafe, ou rascunho, uma estrutura de desenho de quadrinhos no lugar do adoçamento das formas da arte final. Manter a estrutura aparente da obra de arte, como, de resto, fizeram todos os impressionistas e seus irmãos espirituais, os arquitetos-engenheiros do século XIX.

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O que acontece, entretanto, é que Miller, quando fez isso com o Demolidor, e depois com o Cavaleiro das Trevas, estava fazendo arte. Ou seja, estava modificando a forma de seus leitores de encarar os quadrinhos. Kaaren repete Miller nos desenhos, ainda que primorosos, portanto está fazendo cultura. Ele é regra, e não exceção. Também é regra na parte mais desagradável de sua obra, que é o superacabamento, a superinterpretação digital de seus desenhos, que passam por filtros, layers do Photoshop e toda a parafernália eletrônica que torna insuportável abrir uma revista nos dias de hoje, para esse velho e ressentido leitor que vos fala. Se Kaaren tivesse somente repetido os desenhos de Miller na cara dura, como uma declaração de que, afinal, Miller é um gênio do desenho e copiá-lo bem não poderia ser tão ruim, seria muito melhor. Tentar maquiar sua submissão ao modelo de Miller com uma adequação aos dias atuais é o que rebaixa o seu trabalho a uma obra de qualidade, boa o suficiente para ser inserida dentro do paupérrimo universo dos super-heróis contemporâneos. Em arte, é sempre melhor estar aquém.

Esse que vos fala, por ele mesmo, acabou extraindo muito mais prazer de desenhistas talvez tecnicamente inferiores a Kaaren, como Bissete e Rich Veitch, na maravilhosa reedição do Monstro do Pântano, pela própria Panini. Mas esse prazer veio muito mais das cores sensacionais de Tatjana Wood, do que do traço dos desenhistas. Aquelas cores absurdas, aleatórias, infantis e de mau-gosto dos quadrinhos, que fizeram a alegria de Picasso e Pollock, e exasperaram os acadêmicos de então. Os mesmos acadêmicos que hoje em dia preferem histórias politicamente direcionadas para justificar o mau-caratismo da política americana. Porque arte é sempre quase pura, mesmo quando feita por porcos chauvinistas como Miller, e cultura é sempre absolutamente porca, mesmo quando feito pelas mãos limpas dos assassinos do marketing.

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  1. Gosto muito do universo do Punho de Ferro, mas particularmente, essa saga ai da Marvel Now foi a pior hq da Marvel que eu já li, muito ruim tanto nos desenhos como no roteiro, estragaram o personagem e seu universo.