Isaac, o Pirata – Publicação que precisa continuar

Se você é uma pessoa como eu, que além de ler quadrinhos tem mais outras mil coisas pra fazer, você vai pegar o álbum Isaac, o Pirata, da Conrad, dar uma ligeira folheada e se deparar com mais de 200 páginas cheias de quadros e balões, calculando com isso que levará pelo menos uns dois dias para acabar a leitura. É aí que você vai se surpreender, como eu. A leitura é tão prazerosa que flui rapidamente e te mantém preso a obra, incapaz de abandoná-la antes de chegar ao final.

Em um breve resumo, trata-se da história de Isaac, um pintor em inicio de carreira e noivo de uma bela mulher, que nutri desejos de se aventurar pelo mar e ficar reconhecido por pinturas que registram grandes aventuras. Essa possibilidade surge quando é convidado por um estranho a sair em uma curta viagem a bordo de um navio mercante, encarregado de documentar em desenhos e pinturas toda a jornada. Ele então se despede de sua noiva com a promessa de voltar em breve, famoso e cheio da grana. O que Isaac não sabia, é que acabaria a bordo de um navio pirata numa longa expedição rumo à Antártida, comandado por um capitão obstinado em escrever seu nome na história com a descoberta de novas terras no continente gelado, objetivo perseguido por várias navegações a partir do século XV.

No mar, o pintor vai conhecer lugares exóticos, testemunhar grandes batalhas, sobreviver a fortes tempestades, conhecer novas mulheres e sofrer de saudades por sua noiva Alice, deixada em terra. Aliás, impossível não se apaixonar (até certo ponto) pela mulher trabalhadora que é a futura esposa de Isaac, que continua a vida como pode enquanto espera o regresso de seu noivo, sendo cortejada sem descanso por seu novo patrão, que lhe deu emprego com segundas intenções.

O autor francês Christophe Blain conduz a trama com segurança e densidade, alternando entre dois segmentos, o de Isaac com a tripulação pirata e Alice a sua espera em casa. Sua obra é repleta de elementos consagrados das antigas aventuras de bucaneiros dos anos 30 e 40, além de também encontrar inspiração nas histórias de Tintim, do belga Hergé. É quase uma autobiografia, pois o próprio Blain serviu como desenhista em embarcações da marinha francesa, várias de suas experiências em alto mar e nas cidades portuárias na qual ancorou serviram de base para a narrativa de Isaac.

Seu traço é sem par, segundo o próprio autor, ele buscou um equilíbrio entre roteiro e arte, seu objetivo é contar uma boa história sem pretensão de desenhos extremamente precisos, a fim de resolver um problema que todo quadrinista sofre: a mão que concebe a imagem deve ser capaz de acompanhar o cérebro que cria a história. Com isso ele desenvolveu um estilo muito particular, que justamente por não tentar ser perfeito acaba agradando, e muito. Seus personagens são caricatos, com rostos de linhas básicas (uma bolinha e um pontinho para os olhos, nariz de uma linha só, algumas rachuras), seus cenários são meio tortos, mas o equilíbrio desejado foi atingido, tudo se complementa e o resultado final é magnífico. Gostei logo que bati os olhos.

Alguns dos melhores momentos do álbum se dão quando os marinheiros chegam ao pólo sul. Lá eles se deparam com uma aurora boreal (fenomenal até mesmo no PB de Blain) e pensam que é o lugar para onde vão os espíritos dos marinheiros, dão risada do jeito engraçado de andar dos pingüins (criaturas desconhecidas até então) e encontram uma tripulação sueca encalhada nas águas congeladas. Outro trecho muito bom é quando somem os desenhos que Isaac fez de sua noiva, roubados pelos piratas para servirem de alívio sexual, se é que assim dá pra entender.

Mas o post se chama “publicação que precisa continuar” porque a Conrad compilou neste volume apenas três, dos cinco tomos lançados na França. O tão aguardado reencontro de Isaac com Alice não acontece, aliás, nem os franceses puderam ver isso ainda, pois o autor não terminou sua história até agora. Ao que parece, a Conrad aguarda o lançamento do sexto tomo para reunir mais três em seu segundo volume. Fica a torcida para que isso aconteça mesmo e que a editora não abandone o título, o que eu, particularmente, acho difícil. Mesmo com o sucesso estrondoso obtido na Europa, vencendo o prêmio de melhor álbum no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em Portugal, e no Salão de Angoulême, que é o equivalente francês do Eisner Awards, a obra não ganhou o destaque merecido aqui no Brasil, tornando-se uma jóia de poucas coleções.

Duas pisadas na bola da edição da Conrad são que, não há qualquer menção de que esse é apenas o volume um e que a história tem continuação, e não fica avisado que somente a nossa versão é em preto e branco, diferente do original todo colorido. Claro que isso serve para baratear o custo final do livro, mas podia ter pelo menos uma nota explicando a decisão (talvez alguns extras em cores).

Mesmo com tudo isso, Isaac, o Pirata é excelente e tem que ser lido por qualquer fã de quadrinhos. A França sempre produziu HQs de qualidade, principalmente nesta última década, que vem emplacando vários quadrinhos nas listas de livros mais vendidos, com milhares de lançamentos anuais e dezenas de milhões de cópias vendidas dentro do país. Lá, qualquer um gosta de um bom quadrinho.

Assista o videocast e ouça o podcast em que indicamos a leitura de Isaac: o Pirata. Para comprar clique aqui.

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  1. Eu trombo com esse quadrinho toda vez que vou em um sebo aqui da minha cidade, mas realmente nunca dei muita atenção, mas depois desse post acho que vale a pena dar um conferida sim, valeu.

  2. Este chegou a ser publicado no Brasil ?
    Interessei muito na história e no próprio estilo da narrativa e ilustrações, mas gostaria desta publicação em PB e não das coloridas

  3. Exatamente Diogo, como sito no fim do texto, saiu em PB pela editora Conrad, corre comprar que vale a pena.
    Sçao 244 páginas por R$42,00, mas você encontra com descontos em vários sites.