Quadros – Resenha

Quadros (2015) – Mike Deodato Jr.

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Direto ao ponto: Quadros é o novo lançamento da editora MINO (L’amour e Lavagem), assinado por Mike Deodato Jr. Esta resenha irá de encontro, por se opor, à unanime concepção de que Quadros é uma obra autoral. Qual o sentido de expor uma opinião que não corresponde ao que a maioria da crítica especializada está debatendo? Ora, insistir que o campo dos quadrinhos não precisa ser unívoco e estar fundado apenas na opinião de um excluso núcleo de especialistas que ditam as impressões de como se deve sentir a própria experiência estética de determinado produto.

O que impressionou na reverberação das notícias sobre este gibi fora a indiscriminada manifestação de opiniões redundantes e que massivamente exploravam o mínimo do que Quadros poderia oferecer: a transmissão de vivências sobre o estar entre a indústria cultural e a produção autoral. O problema aqui é que quando se parte do pressuposto de que temos em mão uma obra “autoral” deixamos de lado a grande potencialidade deste gibi em sua coerência interna, ou seja, naquilo em que sua forma assume facetas de seu próprio conteúdo. Esta coerência está nas diversas escolhas realizadas ao longo de um indeterminado tempo e de um imensurável espaço no qual Quadros foi realizado – como podemos observar ao acompanharmos o prefácio, os textos introdutórios de cada história e o posfácio editorial.

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Se tomarmos a hegemônica concepção de que Quadros é uma obra autoral, precisaremos justificá-la para tanto e é ai que escorregaríamos em nossos argumentos. Pensamos na categoria “autor” como sendo aquela em que reuníamos uma polaridade na qual em uma das pontas encontramos o “estilo”, no sentido de um traço ou um marca de singularidade que repetir-se-á ao longo do tempo, com alguma liberdade de variação. No outro polo encontraríamos a eficácia de uma “transmissão”, ou seja, o efeito de se transmitir traços ou marcas, para além do próprio “estilo”, mas incluindo-o. A “transmissão” seria na experiência estética aquele ponto no qual o espectador para além de um simples efeito pedagógico, poderia através de uma experiência de incorporação dos traços transmitidos, construir uma própria marca singular da qual talvez se desenrolasse em um “estilo” próprio[1].

Uma obra “autoral”, portanto, seria aquela que além de incluir ambas as polaridades, fosse capaz de deslizar de um polo ao outro, fazendo com que a marca singular do sujeito por trás da obra, também fosse transmitida. A questão é que o resultado final deste deslizamento é o desaparecimento deste mesmo sujeito – o “autor” em questão. Desaparecimento este em que a obra torna-se referência de si mesma e o autor distancia-se daquilo que produziu. Este é o ponto em que esta resenha se distancia da opinião geral: neste gibi, Mike Deodato Jr não desaparece enquanto “autor”, pelo contrário, foi necessária sua inclusão por meio de entrevistas para que o quadrinho fosse coerente. Isso significa que não basta que Mike fale em primeira pessoal e que conte de suas vivências, explicando suas ideias aos leitores para que esta obra seja considerada autoral. Afirmar que o gibi publicado pela MINO é o trabalho mais “autoral” de Deodato é afirmar que TUDO o que o ele produziu, inclusive seu trabalhos para Marvel são “menos autorais” o que é uma insipiência.

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Quadros é um gibi que tende mais à “transmissão” do que ao “estilo”, fazendo dele talvez o ponto de equilíbrio entre seus trabalhos na Marvel, por exemplo, onde seu traço singular, seu “estilo” ganhou destaque internacional. O gibi conta com quinze histórias, desenhadas e roteirizadas por Mike. Haviam sido publicadas em seu blog, sem continuidade e buscavam extrapolar noções convencionais da forma tradicional de se contar histórias. Quando publicadas no blog possivelmente tinham o caráter experimental que foi mantido na edição de luxo. Algumas histórias possuem apenas uma página, outras terminam de maneira um tanto brusca e outras precisaram assumir forma de pôster para manter-se o formato original. As histórias acompanham introduções, realizadas através de entrevistas feitas com o próprio artista. Estas introduções contam muito de suas vivências enquanto artista de uma grande empresa da indústria cultural, ao mesmo tempo que diz de suas angústias e fragilidades como artista “autoral”.

As artes são maravilhosas e bastante divergentes entre si. Por exemplo, em Dor o leitor encontra uma história em tons de azul e gelo, com traços um pouco desajeitados, contornando fragilmente as cores expressivas e borradas ao fundo. Já em O que importa temos um traçado mais incisivo, com o preenchimento de cores “despreocupado” que busca favorecer a estética mais infantil proposta na investida. Em Vida, morte e… a arte é completamente outra: fundo branco em cada quadro, preenchimento em preto que dá as formas dos personagens, de maneira soturna e impressionantemente detalhada. Os roteiros também variam, abordando diversos temas como vingança, sexo, paternidade, aventura, drogas, vida, morte e outros. Porém, temos que concordar que apenas as histórias e os roteiros não fecham uma obra autoral. Caso tivéssemos apenas as histórias compiladas em uma simples edição, teríamos algo como um “sketchbook encorpado”.

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Isso não passou desapercebido pelos editores responsáveis pela publicação que buscaram uma alternativa que oleasse as histórias trazendo para dentro da edição as entrevistas em forma de introduções. Assim sendo, poderíamos até cogitar a ideia de que as histórias, somadas as entrevistas confeririam ao gibi o caráter de ser “mais autoral”, mas o trabalho editorial precisa ser reconhecidamente um mérito de várias mãos e várias cabeças, impossível de resumir-se em “um autor”. O trabalho editorial de Quadros é o que torna este gibi um produto de alto valor de exposição. Mais uma vez a MINO aposta na ideia tão bem sucedida deixar com que o gibi inteiro, inclusive a capa, por exemplo, seja contabilizada na experiência estética – como já haviam feito em Lavagem. Desta vez optaram por fazer uma jaqueta transparente na qual vemos o nome do quadrinho, a assinatura de Mike e o selo da editora. Quando retiramos o gibi para leitura, na capa e na quarta capa encontramos apenas a arte de Mike Deodato Jr., limpa e em alta qualidade. Essa é uma ação editorial muito interessante, pois estas artes nunca seriam publicadas em larga escala desta maneira.

Internamente o quadrinho é esteticamente montado em amarelo e branco, sendo balanceado pela coloração das próprias histórias e pelos textos de introdução que estão em preto. A ideia de balancear as páginas com os “quadros” amarelos agrada – critério mais pessoal de avaliação -, assim como a não formatação dos textos introdutórios. Essa opção remeteu-me a própria ideia de blog, da qual origina-se a empreitada do gibi. Algumas histórias merecem destaque: Dor, Ciclo vicioso, Roupas, Pai, Ninguém na escuta, Vida, morte e… e Elo. A história Ponto Final que assim como Ciclo vicioso foi publicada em forma de pôster sofreu algumas críticas devido à ocorrência de “rasgos” ao ser aberta para leitura.

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Como os “rasgos” de Ponto Final começaram a ser recorrentes em várias resenhas e críticas, precisa-se dar mais atenção à história, já que aquilo que não cessa de se inscrever, mesmo que sob a forma de “rasgo” imanta interpretações, principalmente para um leitor atento a temas psicanalíticos. Supreendentemente encontra-se na introdução desta história a afirmação de Mike sobre sua relação com a “autoria” e com “morte”. O artista diz que Ponto Final é a primeira história de uma “nova leva”, que talvez tenham como ideia fixa o conceito de morte. Se como afirmamos o ponto de deslizamento entre “estilo” e “transmissão” atravessa a questão da morte do autor, ou seja, seu desaparecimento da própria obra, suspeitamos que Mike está no caminho certo. Queixa-se de estar “estagnado” e cansado de “trabalhar para os outros”, sente-se impelido a dedicar-se mais em trabalhos “autorais”. Ora aqui encontramos o próprio autor, aquele que deveria desaparecer do texto e que como nos está indicado, direciona-se à trabalhos mais “autorais”, apenas recentemente.

Mike conta que aos 17 anos foi convidado a fazer uma história de Lampião, mas que ainda se sentia despreparado por não ter desenvolvido seu próprio “traço”. No fim da introdução diz: “quero fazer histórias longas, mas quando eu souber o que fazer. Quando eu me sentir à vontade”. Mike nos diz aqui sobre a distância entre “estilo” e “transmissão”. Indica que quando mais novo, lhe faltava um “estilo”, seu traço singular. Quadros é um gibi de “transmissão”, mas não sintonizado com o desejo do autor-Mike. Em diversas entrevistas sobre a publicação nos disse que sentia-se no mercado independente novamente, fazendo histórias despreocupadas que falavam muito sobre seus sentimentos e suas ideias. Porém, o próprio Mike parece reconhecer que quando se sentir à vontade no espaço entre “estilo” e “transmissão”, Mike Deodato Jr. fará uma obra “mais autoral” – esperamos ansiosamente.

[1] Inspiração: deixa entrar Sol nesse porão (2013) de Camilo Solano talvez seja o melhor exemplo de equilíbrio entre “transmissão” e “estilo” nas publicações independentes dos últimos anos.

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