Fargo alcança a grandeza em sua segunda temporada

Por Guilherme Roussenq

Antes de começar a analise da temporada em questão, preciso fazer duas coisas. Primeiro, uma confissão: não acreditava que Fargo daria tão certo. Quando a FX anunciou que adaptaria o clássico filme de humor negro/crime dos irmãos Coen para o formato de série de TV, e aos cuidados de um quase desconhecido Noah Hawley, pensei que, no máximo, a obra televisiva teria bons momentos mas não chegaria ao nível da criação original. Aconteceu que a temporada de estreia, assim como True Detective, foi um sucesso, com atores renomados, ótima produção, além de bem escrita e dirigida. Sendo assim a expectativa para a temporada posterior foi muito alta.

A segunda coisa é uma declaração: reverenciarei essa 2ª temporada para sempre!

O motivo de tanta adoração é que a atual história começou com uma cena deletada de um fictício filme de faroeste dos anos de 1950 intitulado Massacre of Sioux Falls no qual Ronald Reagan supostamente havia atuado. Logo após há uma montagem do famoso discurso do então presidente Jimmy Carter sobre o mal-estar dos Estados Unidos no final dos anos de 1970 enquanto visualizamos imagens e cenas dos personagens atuais ao som de “Oh Well”, da banda inglesa Fleetwood Mac. Em poucos minutos já era possível perceber que essa temporada de Fargo seria, no mínimo, tão boa quanto a anterior. A partir dai foi uma crescente que a colocou entre as melhores temporadas recentes de qualquer série.

Mas primeiro vamos falar da trama. Ela se passa no ano de 1979, em Luverne (Minnesota), Fargo (Dakota do Norte) e, finalmente, Sioux Falls (Dakota do Sul). Luverne é dominada criminalmente pela família Gerhardt, porém ela logo entrará em conflito com o Sindicato (aqui um sinônimo para máfia) de Kansas City, que pretende expandir seus domínios. Ao mesmo tempo, Lou Solverson (Patrick Wilson) e Hank Larsson (Ted Danson) investigam o bizarro crime ocorrido na lanchonete Waffle Hut e que formará o mosaico da história.

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Enquanto a temporada anterior lembrava um crossover entre Fargo (filme) e Onde Os Fracos Não Tem Vez, a atual foi moldada em um uma história mais original, sendo o caso que se formou foi introduzido pelo Lou envelhecido da temporada de estreia (interpretado por Keith Carradine). Tirando proveito de ser uma série de antologia, onde cada temporada conta um caso diferente, dessa vez ela introduziu uma gama ainda maior de personagens interessantíssimos e novas ambientações mas, sem deixar de fora o que já era esperado, como o humor negro, as explosões de violência, os personagens desajustados procurando afirmação e momentos bizarros como o início que descrevi.

Os casais Solverson e Blumqvist são pontos de apoio no desenvolvimento da história. Lou é que podemos chamar de mocinho, bom marido e policial dedicado. Ex combatente no Vietnã, não se abala quando é chamado a cena do crime no restaurante e troca uma conversa ocasional com seu sogro Hank. De fato, tudo que ele quer é encerrar o caso e voltar para o lar ao lado da esposa Betsy (Cristin Milioti), que luta contra um câncer e parece ser a morte mais anunciada da série. Nesse aspecto ele é a ordem em meio ao caos que está se formando e lembra muito a Marge Gunderson do filme original, que luta para tentar impedir a desordem aumentar e restaurar a paz ao seu redor. Já o Peggy Blumqvist (Kirsten Dunst) é o aposto, sendo que é ela uma das iniciadoras do banho de sangue que acontecerá. Compulsiva, determinada, manipuladora e, futuramente, sociopata, Peggy é casada com Ed (Jesse Plemons), e os dois têm que lidar com os erros que põem sua segurança em risco. Aliás, é conduzido por eles o “Loplop”, oitavo episódio da temporada e um dos melhores.

Já do lado da família Gerhardt temos a matriarca Floyd (Jean Smart) que assume o poder das atividades ilegais após o derrame do marido Otto (Michael Hogan). Ela tem que lidar com Dodd, filho mais velho e o principal articulador da luta contra o Sindicato, enquanto procuram o desaparecido caçula Rye (Kieran Culkin), que será uma das grandes ligações de toda trama. A família se completa com enigmático Bear (Angus Sampson), seu filho Charlie (Allan Dobrescu) e rebelde Simone (Rachel Keller), filha de Dodd. As duas personagens femininas são pontos fortes, na medida em que tentam se afirmar no mundo masculinizado do poder e tocam em excelentes pontos em relação a sociedade patriarcal.

Quando escrevi sobre essa temporada ter muitos personagens interessantes, tinha em mente, principalmente, Mike Milligan (Bokeem Woodbine) e Hanzee (Zahn McClaron). O primeiro é capanga negro que se veste com acessórios de caubói e é empregado do Sindicato de Kansas City. Dado a monólogos filosóficos, é um prazer vê-lo explicar a um personagem o sentido filológico da palavra “revolução” ao mesmo tempo que traça um círculo com seu dedo indicador. Originalmente, Milligan foi escrito como um personagem ítalo-americano de 50 anos, mas Woodbine impressionou tanto em seu teste que Hawley acabou dando o papel para o ator e a escolha não poderia ter sido mais acertada. Ele construiu um personagem dono de si, sereno, calmo, sabendo lidar com situações adversas e sempre tendo escapatórias. Aliás, seu final é de um estilo de angustia kafkaesco que lembra muito o de Vic Mackey em The Shield.

Já o taciturno Hanzee é diferente de Milligan em estilo, mas igual em termos de serem os dois únicos personagens não brancos da história. Nativo americano e servindo aos Gerhardt desde pequeno é ele o responsável por grandes momentos de violência, seja por conta própria ou indiretamente, mas, diferente de Lorne Malvo da temporada passada, é um personagem mais trágico, com um passado que lhe fez ter reflexões sobre sua identidade. Hanzee vai ganhando mais destaque com o passar dos episódios e a interpretação do ator é excelente. Sem grandes falas e diálogos, suas transmissões emocionais são feitas por meio de (poucas) expressões faciais.

Além deles existem outros que têm seus momentos de brilho como o já citado xerife Hank, que está presente em todos episódios da temporada, o advogado Karl Weathers (Nick Offerman) que lembra muito Walter Sobchak de O Grande Lebowski, Joe Bulo (Brad Garret) de Kansas e os calados gêmeos Kitchen*, inseparáveis companheiros de Mike Mulligan.

Da trama, sabemos que Lou, Ben Schmitd e, claro, a pequena Molly Solverson estarão vivos em 2006, ano que transcorre a 1ª temporada. Por conta disso Hawley brinca com a expetativa quanto ao destino final dos outros e a contagem e corpos é enorme. O toque de estranheza fica por conta de aparições extraterrestres, que eram tema comum nos noticiários dos anos 1970 e que terá uma participação decisiva em alguns momentos.

Os easters eggs  para deleite dos fãs dos irmãos Coen continuam, tem a famosa cena do diálogo no posto de gasolina de Onde Os Fracos Não Tem Vez, bem como a cena do motel, a palavra friendo, as quatro famílias de Arizona Nunca Mais, incêndio como em Barton Fink  além de momentos que ecoam filmes clássicos como Matar ou Morrer, coisas de Wes Anderson, uma morte que lembra Ajuste Final e Sopranos , além de ligações com a temporada anterior. A lista é enorme para quem gosta de procurar.

Também é interessante notar as reinterpretações de músicas utilizadas em outros filmes dos Coen. Logo na season premiere há uma versão de “Go To Sleep You Little Baby'” cantada pelo próprio Noah Hawley. Logo adiante há uma versão diferente de “Down in the Willow Garden” da utilizada em Arizona Nunca Mais e “I Just Dropped In (To See What Condition My Condition Was In” de O Grande Lebowski, etc. A primeira vez que utilizam uma canção original do filme de 1996 é apenas na season finale com a tocante composição tema de Carter Burwell. O restante da seleção de músicas é brilhante, indo de Black Sabbath até Jeff Tweedy, sempre ajudando a ressaltar as cenas.

Enfim, com excelentes roteiros, misturando um toque de faroeste com filme de máfia, ótima direção, produção e atuação, a 2ª temporada de Fargo já é um clássico por conta própria. Mais uma vez mostra o alto nível das produções televisas e ainda será referência para todos que se arriscarem a adaptar filmes para esse formato. Uma nova temporada já foi anunciada pela FX, porém só está programada para ir ao ar em 2017. Não tem problema, até lá ainda temos essa brilhante temporada para ser revista.

“Ok then”

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(*) Segundo o IMDB os irmãos Kitchen se chamam Gale e Wayne, interpretados por Brad e Todd Mann, respectivamente, porém eles nunca foram citados pelo primeiro nome ao longo da série.

 

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