Chuck Dixon, Um Escritor (No Limite Do) Eficiente – Café com Quadrinhos #08

Será? Eu, particularmente, aposto que sim.

Qualquer leitor que arrisque falar nos melhores roteiristas de quadrinhos do gênero mainstream, sempre citará, nesta ordem: o triunvirato-mor (Alan Moore, Neil Gaiman e Frank Miller), os hypes de tempos atuais (Brian Michael Bendis, Mark Millar, Mark Waid, Jason Aaron, Warren Ellis, Geoff Johns, Garth Ennis, Grant Morrison, Peter Milligan, etc.) e outros que mais parecem pertencer ao time de “segundo escalão”, a série B dos escritores – entre irregulares, regulares ou um pouco mais do que isso.

É nessa última categoria onde sempre se encaixou Chuck Dixon. Passo a falar rapidamente sobre este cara e alguns de seus trabalhos que mais me agradaram.

Nascido Charles “Chuck” Dixon, em 1954, natural da Filadélfia. Como tantos, um fanático por revistas em quadrinhos desde a tenra idade.

Leitor “compulsivo” de histórias Marvel e DC das décadas de 1960 e 1970, aos trinta anos de idade realizou sua meta originária de trabalhar nesse segmento do entretenimento: estreava no mercado escrevendo a curta série Evangeline, com arte de sua então esposa Judith Hunt, para a editora Comico Comics (atualmente conhecida como CO2 Comics, um site dedicado a webcomics).

Era o início de uma carreira prolífica. Uma mediania literária constante que não garantiu holofotes em demasia, mas pouco gerou apagões criativos. Pelo contrário: seu nome é costumeiramente associado a histórias simples, eficazes e despretensiosas.

Uma qualidade em falta no atual panorama das HQs, importante ressaltar.

Poucos anos depois, adaptou o texto de O Hobbit (clássico romance de J.R.R. Tolkien) para uma minissérie em quadrinhos, com arte de David Wenzel. No Brasil, a história saiu em volume único pela batuta da editora Devir.

Mais ou menos nesses idos tempos, começou a trabalhar para a Marvel – o sonho de muitos naquela época.

Histórias curtas em A Espada Selvagem de Conan chamaram a atenção dos editores; logo assumiu os roteiros de Justiceiro e Cavaleiro da Lua, com relativo sucesso em ambos. Tais empreitadas não passaram despercebidas para os olheiros da principal concorrente da Casa das Ideias, e a DC Comics convidou o escritor para elaborar uma minissérie do mais famoso siderkick de seu plantel: Robin (Tim Drake), que tão logo se tornou um trio de minisséries estreladas pelo parceiro de Batman.

Foi sua porta de entrada para criar aventuras com o praticamente todo o imenso universo do Morcego, configurando-se no auge de toda a sua carreira.

Escreveu séries regulares de Robin, Bat-Girl, Asa Noturna e Mulher-Gato – em pouco tempo tornando-se um dos mais prolíficos escritores da DC nos anos 1990 e talvez em toda a história da empresa (só emparelhando com Dennis O’Neil e Bill Finger nesse quesito).

No seu interminável currículo de trabalhos prestados a praticamente todas as editoras norte-americanas, numa gama de personagens e um sem número de histórias, Dixon é mais lembrado pela coautoria de uma das sagas mais emblemáticas do Batman, a famigerada “A Queda do Morcego”, além de ter criado (junto ao artista Graham Nolan) o vilão Bane – um dos antagonistas que o herói encapuzado enfrentará no seu novo filme em produção, o terceiro da franquia do diretor Christopher Nolan.

Fora os dois pilares do mercado de quadrinhos americanos, o cara mandou bem em várias outras histórias.

Na Dark Horse, escreveu a ótima minissérie Star Wars: General Grievous, publicada na antiga série regular da Ediouro entre 2005 e 2006, focando o comportamento e a psicologia distorcida desse vilão da nova geração de Guerra nas Estrelas.

Chegou mesmo a escrever um especial de Aliens, “PIG” – uma mistura scifi de Babe: O Porquinho Atrapalhado com… com Aliens mesmo. Muito tosco, mas divertido.

Iniciou a extinta série El Cazador (CrossGen, seis edições) com temática pirata, bem antes do gênero estar em alta com a franquia Piratas do Caribe e gerou ótimas críticas antes do fechamento da editora. Ricamente fundada em fatos históricos, a sensacional arte ficava por conta de Steve Epting – atualmente, mais conhecido pela fase do Capitão América escrita por Ed Brubaker, e nos desenhos de Projeto Marvels.

Mais recentemente, ficou à frente dos textos na série faroeste The Good, The Bad and The Ugly, da Dynamite. Fã confesso do gênero, o roteirista sabe escrever muito bem algumas pequenas sagas na lei do colt – o Elseworld The Punisher: A Man Named Frank serve como exemplo.

Costumo associar Chuck Dixon como aquele tipo de escritor que TODA editora deveria ter fixamente em seu quadro, para emergências. Bem verdade que o cara criou péssimas HQs, mas, em sua maioria, “manteve o barco sobre as ondas” quando alguma série andava mal das pernas e não havia alternativa, senão substituir a equipe criativa.

A DC que o diga: volta e meia, ele é chamado pra arrumar a casa em alguma série de segundo escalão, algum personagem coadjuvante. Só trabalhando na periferia, arriscando o perímetro principal e, por vezes, angariando méritos.

Não é nenhuma pena de ouro, mas dificilmente mancha o papel em que escreve.

 

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  1. Na época em que li O Cavaleiro das Trevas, achei Frank Miller o "cara".
    Hoje considero Skreemer muito melhor do aquela arrasadora hq.
    Ultimamente, Miller tem escrito muitas hqs ruins como Cavaleiro das Trevas 2, Grandes Astros Batman e Big Guy e Rusty (que nem a ótima arte de Geoff Darrow salva).
    E faltou citar o Brad Meltzer, que deu uma revitaizada no UDC com Crise de Identidade.
    Já o Chuck Dixon é aquele cara que está na beirada do precipício: se alguém cutucá-lo com força, ele cai.
    Uma hq dele que eu gostei bastante foi o Arqueiro Verde, publicado aqui na revista Shazam!.
    Sem dúvida, toda editora deveria ter um escritor como ele.
    Até mais.

  2. Meu deus do céu, um fã do… Chuck Dixon ?????

    Eu… eu… eu… fico até sem palavras para tentar entender um apreciador de um dos roteiristas mais MEDÍOCRES dos quadrinhos de TODOS os tempos !!!!

    Cara, tá certo que todo mundo (ou quase todo mundo) elogia os autores por vc citado, mas é a primeira vez que vejo alguém defendendo esse pústula. Para mim é do mesmo nível de um Judd Winick por exemplo. Roteirista que serve, no máximo para tapar buraco de uma edição e olhe lá.

    Eu não consigo entender como esse cara conseguiu ficar tanto tempo escrevendo histórias da Bat-família, por exemplo. Pq era uma pior que a outra, com roteiros rasos e sem sal.

    Se fosse técnico de futebol, seria um Caio Jr., um PC Gusmão. Se fosse um time, um Atlético -PR, um Avaí. Não são um Íbis, o pior time do mundo, mas não ganharão nada além de um campeonato estadual aqui ou acolá.

  3. O roteirista pode ser ruim, mas é por conta das circunstâncias em que foi colocado para atuar, pois também o acho competente.

  4. Caro Rory,

    Entendo e compreendo perfeitamente sua apreensão com o escritor. Como deixei bem claro, o cara já escorregou feio – MUITO, MUITO FEIO – e é perfeito para histórias "tapa buraco", tramas simples e por vezes divertidas em várias oportunidades. Mas, em comparação aos outros trabalhos dele (e há de concordar que o Dixon é um dos mais prolíficos escritores dos quadrinhos, ao lado de Garth Ennis, Alan Grant e outros), até que o mesmo mantém a média, um feijão com arroz básico no sal. Nada genial, mas diverte e entretém.

    E esse, afinal, não é o objetivo das HQs?

    E mais: ele não escreveu somente pro gênero mainstream não. Busque outras histórias, outros gêneros, abra sua mente, flexibilize suas leituras: os anos 1990 foram péssimos pros quadrinhos de super-heróis. Já em outros gêneros… eu não apostaria nisso.

    Ele escreveu histórias ruins? Nossa, tenho uma lista em ordem alfabética aqui. Teve histórias medianas? Nossa, tenho uma lista em ordem alfabética aqui. Fez histórias boas? Nossa… enfim, idem.

    Mais: sempre gostei desses escritores "série B" como Dixon, Ron Marz, Alan Grant, Doug Moench (tá certo que esse anda defasado mesmo, admito), Devin Grayson, e outros (se lembrar de algum, diga e me ajude). E todos eles não ficaram presos à MARVEL ou DC; criaram boas tramas em editoras diversas – e não somente pros quadrinhos, bom frisar, mas isso seria assunto pra outros textos.

    Em suma, o mercado é bem maior do que os dois pilares que a maioria costuma se apoiar na leitura. O leque tá aberto, mas não é somente nas varetas mestras que podemos abrandar o calor…

  5. Dennis,

    Nisso concordo com você.

    Certa vez, escrevi uma resenha da edição importada BATMAN – VENGEANCE OF BANE #1 (que saiu por aqui em Superpowers #32, da Abril, em 1994). O cara (Dixon) simplesmente deu uma origem fuleira, besta, tosca e forçada pro vilão.

    Teve que tirar da cartola um coelho premiado e tentou ser convincente, e pode ATÉ ter sido isso naquela época de vacas magras, mas com a objetividade dos dias de hoje – e consequente melhora na qualidade de muitas HQs – aquilo não passou de entretenimento raso E extremamente comercial.

    Mas, dentro daquela limitação criativa, com roteiros em detrimento da arte exagerada, o cara fez o que pode com as cartas que tinha na mão. Eis minha conclusão no citado artigo, publicado no Universo HQ:

    "Chuck Dixon apresenta um roteiro competente dentro das já citadas limitações criativas em voga na época, e bem ao seu estilo: sem fazer feio nem ousar demais, entregando a encomenda da maneira como editores e leitores queriam".

    "Pode não ser uma origem dais mais inventivas – ainda mais para um personagem que surgiu só com intuito de alquebrar o Cavaleiro das Trevas e garantir um filão de lucro para sua editora -, porém cumpre seu papel em apresentar a gênese de Bane de modo satisfatório".

    "O que, para essa época, é importante destacar, já estava de bom tamanho".