Woody Allen – Para Hollywood com dinheiro

Com cerca de 50 filmes no currículo e 76 anos de idade, Woody Allen continua sua maratona de produzir pelo menos um longa-metragem por ano. Nos últimos tempos o cineasta tem filmado longe de seu palco principal, Nova Iorque. Aventura-se pela Europa em busca de novos cenários para as suas histórias, mas sem deixar de lado a perspectiva do olhar norte-americano em meio às cidades do Velho Mundo. Possivelmente devido a questões financeiras e patrocínio, filmou em Londres (Match Point, em 2005), Barcelona (Vicky Cristina Barcelona, 2008) e Paris (Meia-Noite em Paris, 2011). A próxima parada da ponte aérea foi Roma. O resultado foi o recém-lançado Para Roma com Amor.

A crítica de imprensa parece quase unânime: todos resenhistas afirmam que poucos aprovaram o filme, mas ele mesmo gostou. Em seguida começa a tecer elogios a obra anterior de Woody Allen, justificando os possíveis erros desse filme em função da trajetória completa do diretor. Um tanto condescendente, sem dúvida. Mas é compreensível: criticar um sujeito tão legal quanto Woody Allen é sempre desagradável. Todos nós temos dívidas com esse velho neurótico, safado e incrivelmente hilário!

Para Roma com Amor conta diferentes historietas que se passam na capital italiana, tendo um guarda de trânsito como pretenso narrador. Pretenso porque só aparece no início e no fim, deixando a impressão de ser uma peça não muito bem encaixada no conjunto. O filme começa como se tornou praxe nos filmes europeus de Allen: mostrando cartões postais da cidade financiadora. É preciso notar que dessa vez a escolha dos ângulos não foi tão feliz quanto em Meia-Noite em Paris. Em muitos momentos Roma parece simplesmente uma cidade velha, não a Cidade Eterna.

Povoando o cenário temos uma galeria de personagens tipicamente “woodyallenianos”, feitos por um cast de primeiro nível, que inclui estrelas internacionais, estrelas locais, veteranos e novatos. Um dos pontos fortes da produção é o elenco. Allen continua atraindo ótimos atores, que recebem o salário mínimo do sindicato, mas ganham respeitabilidade por colocarem no currículo um filme com o Mestre do diálogo irônico.

Aparecem muitos arquitetos na filmografia de Allen. Deve gostar da profissão. O arquiteto da vez é feito pelo ex-galã Alec Baldwin, que aproveita as férias na Itália para reviver seu passado. Caminhando pesadamente pelas ruelas de Roma, encontra um jovem estudante de arquitetura conterrâneo, vivido por Jesse Eisenberg. Miraculosamente o veterano arquiteto torna-se um conselheiro intrometido na relação do rapaz com sua namorada (Greta Gerwing) e sua amiga atriz (Ellen Page), que chega de viagem após o término de um relacionamento com um gay. Como contraponto, surge um recatado casal (Alessandra Mastronardi e Alessandro Tiberi) em lua-de-mel. Os recém-casados vivem experiências que não estavam em seus planos. Ambos são tentados a infidelidade. O marido encontra a tentação nas formas generosas de uma garota de programa espanhola e a esposa com um ator e, depois, com um ladrão de hotéis. Penélope Cruz, que ganhou um Oscar sob a tutela de Woody Allen, faz a prostituta que acaba se passando por uma mulher “séria”. Finalmente, surge o monótono Leopoldo, interpretado sem nenhuma monotonia pelo sempre elétrico ator e diretor Roberto Benigni, um homem comum que se torna uma celebridade cercado por paparazzi.

Centrando suas lentes nesse conjunto de personagens, Woody Allen explora alguns de seus temas favoritos: relacionamentos amorosos e a cultura das celebridades. Consta que a principal inspiração do projeto foi o clássico medieval “Decamerão”, de Boccaccio. Por isso o tema central, embora não único, é o sexo. Em dupla, em trio, fantasias, infidelidade, pago, gratuito, com culpa, sem culpa, diversas modalidades sexuais aparecem. Estranhamente, em se tratando do confesso onanista Allen, não há, explicitamente pelo menos, o sexo solitário.

Mantendo a tradição, alguns alter ego de Woody Allen surgem em cena. Benigni exagera no histrionismo e perde a coroa de Melhor Woody para o novato Jesse Eisenberg, que recebeu uma indicação ao Oscar por A Rede Social (2010) e que demonstra ser um ator promissor. Mas, é claro, o original é sempre melhor. Uma boa surpresa é a presença do personagem interpretado pelo próprio cineasta. Desde Scoop – O Grande Furo (2006) não atuava. Allen marca o seu retorno fazendo um produtor cultural aposentado, diretor de óperas, que vai para Roma, junto com sua esposa (Judy Davis), para conhecer o noivo italiano de sua filha. O casal de jovens é interpretado por Alison Pill e Flavio Parenti. O ator Woody Allen rouba a cena. Sua primeira aparição no filme é marcada por sua atuação tradicional, torcendo as mãos, falando rápido, e sempre hilária. No vôo com sua esposa, ele tem uma crise, revelando sua fobia de avião. Chegando a Roma, descobre um “talento”.

O pai do noivo (Fabio Armilato) é um agente funerário que se revela um exímio cantor de ópera. Só que com um detalhe: ele só canta (esplendorosamente) bem debaixo do chuveiro. Mas isso não será obstáculo para um diretor de ópera e produtor cultural cheio de idéias e sem medo de parecer “a frente de seu tempo”. O agente funerário acaba, literalmente, “cantando na chuva”, alcançando o tão sonhado sucesso. Entretanto, o produtor ganha status de louco e algumas críticas pouco lisonjeiras nos jornais. Típico de personagens de Woody Allen, que mesmo quando triunfa, ao mesmo tempo, de alguma forma fracassa.

A cultura das celebridades é apresentada no filme de modo irônico e surreal. Woody Allen critica a fábula moderna, prevista por Andy Warhol, de que “todos teriam direito a quinze minutos de fama”, mesmo sem ter necessariamente algum talento, dom ou inteligência. A fama retroalimentando a fama. A fama por ser famoso. Não ser famoso por ser especial, mas ser especial por ser famoso. Um dos ídolos de Woody Allen, o diretor italiano Frederico Fellini trabalhou a mesma questão em La Dolce Vita com a personagem de Anita Ekberg, uma estrela de cinema perseguida por jornalistas. Em Para Roma com Amor, a mesma situação é vivida pelo Leopoldo Pisanello de Roberto Benigni, que mesmo sem ter feito nada de significativo se torna uma personalidade onipresente em todas as mídias.

Após o sucesso de Meia-Noite em Paris (2011) que lhe rendeu o Oscar de melhor roteiro original, não é possível conceber Para Roma com Amor enquanto um ótimo filme. É comum ouvir que uma comédia fraca de Woody Allen é sempre melhor do que a média de filmes que se tem por aí. Essa é uma meia verdade. Não vale, por exemplo, para o escabroso O Escorpião de Jade. Em Para Roma com Amor os problemas, embora irritantes, não são imperdoáveis. É um filme divertido e sem grandes pretensões. Mas a teia de tramas deixa um pouco a desejar. As histórias são interessantes, mas falta aprofundamento. Não que as histórias deveriam necessariamente se cruzar, mas sabendo que Woody Allen é um exímio contador de narrativas que ocorrem paralelamente, como provou em Hannah e suas Irmãs e Crimes e Pecados, aqui incomoda a nítida falta de senso de conjunto.

O mesmo pode ser dito das cenas de humor pastelão. O citado exército de “críticos que gostaram do filme apesar de poucos terem gostado” justificam essa opção lembrando que Woody Allen fazia esse tipo de humor no início da carreira. Não parece ser verdade. Lembrando do humor físico desenvolvido em filmes como O Dorminhoco e Bananas não parece que ninguém ali desabava da cadeira ou deixava o celular cair no bueiro, a coisa era mais sofisticada. Ao estilo Irmãos Marx, desde os anos de 1960, Woody Allen faz “pastelão” para ironizar a pobreza estética do pastelão. A presença do “pastelão simples” em Para Roma com Amor é, sim, muito estranho e equivocado.

Em Para Roma com Amor, Woody Allen mais uma vez exercita seu hábito de desperdiçar idéias, livrando-se delas rapidamente, sem trabalhá-las. Por exemplo, a história do cantor de ópera bastaria para preencher um filme, podendo contar com infinitas possibilidades de desdobramentos. O mesmo vale para a trama sobre o fenômeno da celebridade instantânea. Mas certamente, Woody Allen é um homem de muitas idéias, pode dar-se ao luxo de jogá-las ao vento.

A abertura de créditos de grande parte dos filmes de Woody Allen possui uma trilha sonora recorrente: o jazz. Dessa vez o jazz é acompanhado de música italiana. Tanto erudita quando popular. A trilha sonora não deixa a desejar. No decorrer do filme podemos ouvir “Nel blu dipinto di blu (Volare)”, “Arrivederci Roma”, “Nessun Dorma”, “Amada Mia”, “Amore Mio” dentre outras, que embelezam ainda mais as imagens de Roma. Apesar de haver alguns clichês a escolha da trilha sonora é de bom gosto.

Woody Allen é um cineasta livre para fazer seus filmes. Ele tem total autonomia artística para as suas produções, algo que preza muito. Mesmo que nem sempre rendam altas cifras, a sua satisfação está em realizar um projeto seu. Em entrevista para o seu biógrafo Eric Lax, Woody Allen afirma não ter feito nada de significativo artisticamente. Afirma que não deu nenhuma contribuição real ao desenvolvimento do cinema enquanto linguagem artística, e que não sabe como foi que durou tanto nessa indústria venal. Seu maior interesse é a literatura e o teatro. Em cinema considera-se um trabalhador disciplinado. Essa auto-imagem de Woody Allen pode ser questionada pela crítica, que costuma isentá-lo. Mas isso importa pouco. Woody Allen acerta e erra, como todo artista. Em Para Roma com Amor ficou no meio do caminho. O filme é melhor nas partes do que no todo. Ele já dirigiu coisas muito piores e outras infinitamente melhores. O fato é que se  este novo filme tem algo de decepcionante, isso ocorreu, sobretudo, porque se seguiu ao delicioso Meia-Noite em Paris. As expectativas estavam muito altas.

Woody Allen pode gostar de Roma, mas Paris está no centro de sua carreira. Em Roma é um turista, de Paris ele possui a chave da cidade. Os franceses são regularmente “acusados” de serem os principais responsáveis pela elevação de Woody Allen ao status de gênio. Em Dirigindo no Escuro o próprio cineasta brincou com isso. O crítico e diretor francês François Truffaut, em seu livro O Prazer dos Olhos, escreve um artigo intitulado “Woody Allen, o pessimista alegre”, onde afirma que em uma Hollywood que regride intelectualmente para proporcionar choques puramente físicos nos espectadores, salva a honra cineastas cômicos que priorizam os personagens, o pensamento e os sentimentos. Segundo Truffaut, Woody Allen faz parte desse grupo seleto, pois apresenta suas idéias sobre a vida e a arte em seus filmes.

Talvez, e reforçamos esse talvez, a resposta que todos desejam evitar é que Woody Allen só fez Para Roma com Amor para cumprir o contrato que tinha com os financiadores italianos. Nem ele nem ninguém esperava o sucesso popular de Meia-Noite em Paris. As portas voltaram a se abrir para ele nos estúdios norte-americanos. Não vai precisar visitar gabinetes de ministros do turismo com pastas na mão por algum tempo. Estando de novo na crista da onda, demorar demais para cumprir os compromissos previamente estabelecidos na Europa, como costuma dizer seus personagens, poderia “interromper o fluxo de caixa”. De fato, mais do que um filme fraco ou ruim, Para Roma com Amor parece ser um filme feito com pressa. Algumas cenas são dirigidas e escritas com óbvio desleixo (a primeira visita de Alec Baldwin ao casal de estudantes é uma das mais nítidas nesse sentido). O desperdício das participações especiais (sobretudo a de Ornella Muti) também denuncia a pouca preocupação em refletir melhor sobre o projeto. De resto, a quantidade de diálogos em italiano mostra que o longa foi feito para o mercado internacional, não para as multidões de estadunidenses que assistiram Meia-Noite em Paris. Comparativamente, um mercado bem menor. Não resta dúvida de que Woody Allen pretende redescobrir a América. Marchar para o Oeste. Rumo a Hollywood, agora com dinheiro.

Texto escrito em parceria com Roberta Ribeiro, mestranda em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisadora da obra de Woody Allen. 

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  1. Conheço o Pipoca e Nanquim faz tempo, mas pela primeira vez li uma resenha e particularmente não tenho tanto a falar sobre a mesma. Sei que é muito difíciloutra pessoa dizer isso, mas para mim Para Roma com Amor está sendo o filme do ano. Extremamente divertido, com piadas bem simples que outros filme do diretor e ao meu entender funciona como 4 filmes de comédia diferente em um só. Respeito a opinião de vocês e de qualquer outro que desgostou do filme, mas ao tirar pela sessão em que vi este, a grande maioria do público não parou de rir nenhum momento.

    Esse ano tivemos filmes divertidíssimos entre os block buster em que se destaca Vingadores e Batman, mas por incrível que pareça, e aí existe um surpresa também de minha parte, o filme que mais me divertiu até agora foi o do Woody Allen. Por isso gostaria de mostrar através deste comentário que independente das críticas ao menos eu gostei muito e a maioria que viu o filme na mesma sessão que eu também se divertiu bastante.

  2. Como a vida é engraçada , antes Woody Allen era sinônimo de bilheteria baixa… Hoje seus filmes conseguem triplicar , quadruplicar em bilheteria o que foi custeado no orçamento, como podemos ver nessa relação de filmes ” Europeus”… e é ai, que eu me pergunto oque mudou? Nada… Woody Allen é sempre Woody Allen… Vai entender!