Jurassic Park e o Paradoxo do Real

O legal de se interpretar um filme é o de conseguir encontrar algo para além do que está nítido. Na maioria das vezes há sempre um discurso mais ou menos claro de qual é a “mensagem” do filme. Porém, interpretá-lo também pode ser a tarefa de encontrar em pequenos detalhes, ou seja, em erros de continuidade, em cenas simples ou até nas próprias piadas da produção encontrar um sentido, mais amplo do que o comum. Encontrar nestes pequenos detalhes, intencionais ou não, outros discursos que possam desvelar outros sentidos para a interpretação dos filmes. Existem alguns filmes que me aprisionam em uma obsessão contínua de assisti-los, por diversas vezes. São aqueles filmes que não consigo ignorar, por exemplo, quando estão passando na Televisão, podem estar no começo, meio ou fim. Tenho que assisti-los. O Último Samurai é um deles, que já comentei aqui no Pipoca (link).

Há no filme Jurassic Park uma micro-cena, de apenas alguns segundos, que na minha perspectiva têm muito a dizer sobre o filme e sobre psique humana. Logo após o primeiro ataque do Tyrannosaurus Rex, os personagens Robert – o guarda florestal – e Ellie – a paleontóloga – voltam ao parque para resgatar as pessoas atacadas. Lá encontram o físico/matemático Iam e o resgatam. De imediato Iam percebe o famoso “tremor de impacto” na pegada do Tyrannosaurus e os três precisam mais uma vez “sair correndo para se salvar”. A fuga do grande animal é feita em um Jipe à gasolina que por pouco consegue escapar do fim trágico nas mandíbulas do grande monstro. Nesta perseguição, um tanto quanto drástica, há uma piada muito sútil que quebra a tensão da cena para aqueles que conseguem captá-la. Quando estão sendo perseguidos pelo animal, Iam olha para o retrovisor lateral do carro e visualiza a fera, que está a investir um ataque aos fugitivos. O engraçado desta cena é que no próprio retrovisor está escrito a frase: “Objetos no espelho estão mais próximos do que parecem”, ou seja, que o espelho deforma as coisas – a imagem difere da realidade.

A psicanálise e principalmente o psicanalista Jacques Lacan muito falaram sobre a questão da imagem e do espelho. O principal para pensarmos o filme é a diferenciação entre o real e o virtual, ou seja, um objeto frente a um espelho “é” duas vezes: uma enquanto objeto real e outra enquanto imagem/virtual. Esta imagem virtual estaria relacionada mais com a fantasia do que um dado de realidade concreta de existência. O espelho enquanto superfície plana que reflete algo, não esta mostrando a realidade, mas é apenas um objeto que é entendido pelo observador como uma representação muito fiel da realidade – há um tanto de “impressão pessoal” nisto, portanto fantasia. A fantasia é onde dois podem ser um – pessoa, objeto, espaço, realidade. Talvez o melhor exemplo disso fosse o livro “Alice no país dos Espelhos” livro “par” do “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll. Alice quando adentra no espelho descobre em seu interior uma “realidade ao contrário” e que em muitos aspectos parece ser apenas uma “fantasia” dela própria.

A própria ideia de fantasiar-se, para uma “festa a fantasia” é a ideia de poder ser dois em um. Todos já passamos pela angústia perfeitamente expressa por Noel Rosa: “Com que roupa eu vou…”, quando temos que ir a uma festa deste tipo. Ficamos pensando em quem gostaríamos de ser. O que sempre ocorre é a escolha de uma fantasia por admiração ou por desapreço. Por admiração optamos por representar um herói ou uma profissão que admiramos, por exemplo. Em desapreço, optamos pelo humor e elaboramos fantasias que tirem sarro de alguém ou alguma situação pelo viés da crítica. Mas os efeitos da fantasia não são tão simples assim e as coisas no espelho – como nos conta Alice – estão ao contrário. Se você fantasiar-se de Che Guevara ou Batman por que os admira, em certo aspecto está denegrindo o valor e a seriedade destas figuras a um mero conjunto de vestimentas que pode ser usado por qualquer um. Por outro lado, se você o faz exatamente para denegri-los obtém o efeito inverso e pode ser compreendido como alguém que escolheu sê-los por um dia, por pura admiração.

O bilionário que investiu pesado na biogenética para criar do Parque dos Dinossauros – John Hammond – nos entrega de bandeja o final desta reflexão em um momento mais introspectivo-filosófico do filme. Conta a Ellie que seu primeiro emprego fora com um circo de pulgas automatizado – esta pista nos é dada bem no início do filme quando o advogado pergunta à Hammond se os cientistas na apresentação do parque seriam robôs e o bilionário se ofende e afirma: “tudo neste parque é real”. Conta que as crianças ao verem este circo de pulgas, juravam enxergar “pulgas” que não estavam ali. Logo a fantasia das crianças contaminava os pais que começavam a enxergar os insetos também. Hammond diz que com o parque dos dinossauros tentava criar algo real, que pudesse ser tocado e sentido. Ellie em uma brilhante elucidação afirma: “Ainda é uma ilusão, isso tudo é uma ilusão”, querendo afirmar que o controle sobre a natureza através da ciência era uma ilusão, ou seja, uma fantasia. Mas também podemos associar esta cena com a frase no retrovisor e arriscarmos a compreensão de que: a fantasia ressalta o paradoxo do real. Em outras palavras, se o espelho deforma as coisas – se quando nos fantasiamos de alguém podemos ter o feito contrário do que desejamos – talvez a realidade seja a deformação das coisas pela possibilidade de serem oposto do que são. A própria definição de paradoxo.

Esse é o espelho de Spielberg, ou melhor, esse é o truque de espelho do diretor. A produção de efeitos especiais – antes da profusão CGI – estava muito próxima às técnicas ilusórias de espetáculos teatrais e de mágica – a própria utilização de espelhos era uma técnica muito utilizada. Quando o mágico vai iniciar seu truque e nos avisa: “nada nessa mão e nada nesta outra…” ele está deslocando nossa concentração para a validação de que a mágica a ser feita será causada por magia e não por truques, desta maneira não seria nada surpreendente se o verdadeiro “truque de mágica” estivesse escondido nas próprias mãos do mágico e quando somo tentados a prestar atenção nelas – achando que o truque está em outro lugar – caímos na ilusão. O mágico utiliza de nossa própria desconfiança como espelho para criar uma ilusão. Em outros termos, seria o que pode ser vulgarmente chamado de “psicologia reversa”, que encontra sua mais divertida versão nos desenhos do Scooby-Doo. Adolescentes dirigindo um carro chamado “máquina do mistério” encontram um castelo mal-assombrado e no caminho para a nova aventura encontram um nativo do território que diz: “Esse lugar é assombrado, NÃO vão para lá, deem meia volta e voltem pelo caminho que vieram”, ou seja, seria o mesmo que dizer: “Meninos, por favor, sigam em frente e aproveitem a estadia”. Spielberg coloca nas falas de Hammond o prelúdio para seu grande truque com espelhos quando faz a personagem afirmar: “aqui não usamos robôs!”.

Para um filme de 1993 Jarassic Park será para sempre relembrado por seu realismo. Até hoje se pode assistir ao filme e em nenhum momento duvidar da existência do Tyrannosaurus ou dos Velociraptors – mérito que nem mesmo os outros filmes da franquia conseguiram atingir novamente. A textura e o comportamento destes animais excluem a possibilidade de fraude, ao contrário de muitos outros dinossauros criados em CGI em outros filmes. E como Spielberg fez este truque o que está por trás desta ilusão? Não é a toa que os recursos para descobrir a fraude é oferecido ao espectador no primeiros minutos de filme: São robôs – uma fortuna em engenharia mecatrônica. Mesmo, após assistirmos ao um making off e termos a total clareza de como foram feitas as cenas com os animais artificiais, o contexto narrativo nos induz – sempre – a essa conclusão, antes que a tenhamos por nós mesmos. Além de criar uma cortina de fumaça com a história biogenética, que possuí profundidade o suficiente para nos convencer, Spielberg de antemão levanta a suspeita de fraude por animações eletrônicas pela boca do Advogado. A questão da clonagem também nos induz à ilusão. A princípio nos avisam: não é o dinossauro de verdade é uma copia dele, mas muito parecida, mas que não o “é”. É o seu duplo. Não é a atoa que a crítica à biogenética levantada pelo filme segue essa linha da questão do “duplo”. Quando afirma que a biogenética não conseguiu controlar a probabilidade destes dinossauros poderem ser um “duplo” no sentido da troca de gênero – devido ao DNA anfíbio – para poder acasalar. Um dinossauro fêmea transvestido de macho – tal qual nas “festas a fantasia”. O que fica? A ilusão é o próprio paradoxo do real.

Jurassic Park pode ser compreendido como uma metáfora do pensamento paradoxal e uma exemplificação da teoria do Caos – muito bem representada pelo personagem de Iam. Quando Hammond criou um parque de ilusões, as pessoas acreditavam nas ilusões e quando criou um parque de coisas reais, todo mundo acreditou na ilusão – de que daria certo, que se teria controle sobre o parque. As consequências do ato humano não correspondem à lei nenhuma elaborada pelo próprio homem, na melhor das hipóteses vai simplesmente ser muito parecido com o que se esperava – considerando o desvio padrão é claro. A questão que fica é que diante do espelho as coisas parecem estar mais próximas do parecem, talvez isto se dê por que imaginamos estar distanciados desta imagem deformada, como se ela não nos representasse fielmente. E se o que é mais fiel nesta imagem refletida for exatamente a deformidade? E se o Tyrannosaurus do retrovisor estiver realmente mais próximo do que aparenta?

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  1. É de se pensar o quanto certos obras cinematográficas mexem conosco a partir de um segundo ou enésimo olhar. Perceber um ou outro detalhe despercebido anteriormente para se dar conta de que havia uma pequena margem para uma ampla reflexão posteriormente. Sobre o filme em questão, confesso que nunca fui fã de dinossauros, que assisti a este filme depois que a técnica do CGI já havia se consagrado durante a década de 1990, que suas sequências falharam em alguns pontos em reproduzir o senso de ameaça e suspense do original, mas, ao ler seu texto, fiquei com esta ideia de rever o filme e tentar tirar uma insight como o seu. É óbvio que a bioengenharia ainda é um assunto atual e que toda a construção de um parque povoado por dinossauros a partir de uma tecnologia de ponta remonta ao enquadre psicopatológico de um Complexo de Deus, além de expor o quanto os seres humanos não estão imunes a sofrer com as consequências de suas ambições ao colocá-las no mundo ( e a história da ciência é pródiga em mostrar exemplos de como o ser humano não se conteve em criar algo maior do que si mesmo). Sobre a questão da ilusão retirada do pensamento lacaniano, talvez seja esta a intenção do ser humano que vive imerso dentro dela: encontrar uma ruptura, um furo em que possa atravessar e, assim, ter a possibilidade de deparar-se com o real, seja por intermédio de uma forma de conhecimento que explore e adentre as profundezas da dúvida e do mistério, seja refugiando-se em seu próprio inconsciente enquanto filtra certos elementos externos na tentativa de evadir a ilusão.

    • Luiz que belo comentário!

      São comentários empenhados assim que me estimulam a continuar escrevendo!!! Obrigado!!!
      Fico feliz em te mobilizar a assistir o filme mais uma vez… na minha concepção vale a pena!

      Concordo com suas proposições! Definitivamente o “complexo de Deus” é abordado descaradamente pelo filme, há diversas sequências, lindas, que falam desta questão. O Almoço com os especialista – famoso pelo “filé à chilena” – é uma cena clássica sobre está questão.

      Sobre sua afirmação da questão lacaniana e a relação entre o imaginário e o real – foi perfeita, eu não poderia tê-la exemplificado melhor!

      Alias, indico aos leitores que utilizem o comentário do Luiz como apêndice desse texto!

      Luiz muito obrigado pelo comentário, foi muito honesto e atencioso.
      Dê uma circulada pelo site – caso ainda não o tenha feito – tem muitos textos interessantes.
      Volte sempre ao site, logo publicarei mais textos!

      Abraço

  2. Interessante… esse segundo ponto de vista sobre JP…

    Nunca tinha reparado nessa cena do retrovisor…

    Pensei que em determinado ponto do artigo tu ia explicar, pq na hora de fugir do T-res o maluco foi pro banheiro fazer o número 2.

    • J Fernandes, infelizmente não assisti “A invenção de Hugo Cabret”, erro meu. Mas considero que suas ponderações fazem muito sentido e estão de acordo com o que propus neste texto. Porém, acredito que também existam outros estilos além da “ilusão” como recurso à seduzir os espectadores.

      Gosto do pensamento do Zizek sobre esta questão, de que na verdade os filmes não nos seduzem, mas sim constroem o que entendemos como Desejo.

      Muito obrigado pelo seu comentário!

      Visite o Site e veja mais textos.

      Abraço

  3. Freud, Lacan, Marx, Zizek, Foucault, Hitchcock, Romero, Kubrick e Tarantino se sentiriam estuprados e esfaqueados ao verem que se misturados, iriam dar em um moleque limitado e sem pressupostos nenhum para falar de qualquer coisa da vida! O pior texto que já vi na minha vida… E olha que já li muita merda por aí.

    • Anonimo,
      Obrigado pela Atenção, Leitura e Crítica.
      Concordo com você, definitivamente não há como um moleque limitado como eu fazer jus a estes nomes. O que eu faço é simplesmente ler seus textos e ver seus filmes, muito mal e escrever textos piores ainda. São realmente textos sem sentido e que não querem dizer nada, além da puro desejo meu de escrever.

      Você é o porta-voz da razão neste site e meus textos realmente são uma merda.
      Espero que a má qualidade dos meus textos não o impeçam de ler mais textos do site, de outros autores que possuem qualidades assombrosas que não posso nem se quer almejar.

      Por favor, faça mais comentários.
      Obrigado.

  4. Sem leis- sem simbolico = sem estudo do autor desse texto.

    Muito interessante o resumo do filme, muito competente em descrever algo que já está dado. Porém, extremamente desnecessário cada análise emparelhada com a psicanálise de Lacan. Primeiramente, não duvido que o autor goste e se interesse pelo assunto, porém é necessário mais estudo e aprofundamento para tentar falar e impor uma análise. Pelo que pesquisei, o Diego é um recém formado, então é compreensível a falta de rigor teórico presente no texto, já que o autor não deve ter nenhuma especialização do assunto.

    Também verifiquei no texto do “método perigoso” alguns erros exclusivamente teóricos, como o método de associação de palavras. Pelo que pude desenvolver em anos de estudos, o método é associação livre… Engraçado que no filme que Jung é totalmente criticado o “grande” psicanalista tenha confundindo as bolas. Já que foi Jung que propôs a associação de palavras.

    Bom, era fã do site e com certeza esse colunista tem muito a aprender, mas precisa estudar um pouco… Talvez muito. Infelizmente o site parece não pesquisar e saber sobre os colunistas que aqui escrevem, isso é algo a se perder com certeza. É claro, é só mais um desabafo de um ex leitor.

    • Renan,
      Obrigado pela leitura e pela crítica!
      O público do pipoca não se constituí somente de leitores do mundo psi, por isso meus textos se apresentam dessa maneira “solta” teoricamente.

      Obrigado pela correção no texto de o Método Perigoso! Realmente errei feio em chamar o Método de Associação livre por Associação de palavras! Já fiz a correção.

  5. Valeu boy, da hora o post! Tenho a mesma brisa quanto a impossibilidade de não assistir este filme quando ele está passando, assim como com Ultimo Samurai, um dos meus favoritos (aliás um dos primeiros que eu chamei de “favorito”), embora nunca soubesse porque.

    Gostei da abertura da discussão através de um filme tão fácil e pop, principalmente a parte das fantasias. Não captei tudo da análise, mas suave, lerei de novo logo menos. abraço