Divertida Mente | Crítica

Por Willian Marinho Gonçalves

Em todo seu currículo de animações, a Pixar segue basicamente a mesma receita de bolo: herói (ou heróis) sai da sua zona de conforto, passa por uns maus bocados, encontra-se no fundo do poço para retornar triunfante e mudar tudo ao seu redor e a si mesmo. Em suma, a Jornada do Herói em sua versão mais básica. Mas o que torna o estúdio tão especial, a ponto de sua influência quase ofuscar outros estúdios de animação? Seguindo a analogia do bolo, são seus inúmeros recheios. E no caso de Divertida Mente, o recheio da vez são as emoções, na maneira mais pura.

Respondendo a uma pergunta simples (o que se passa dentro da cabeça de uma pessoa?), Divertida Mente trabalha a confusão das emoções dentro de Riley, uma menina que vê sua vida mudar de uma hora para outra e não consegue lidar com isso. Embora todas as cinco emoções – Raiva, Nojinho, Medo, Tristeza e Alegria – tenham sua importância dentro da trama, são nas duas últimas que toda a carga do filme é focada, mostrando um paralelo interessante ao que acontece a vida de Riley. Ninguém é alegre o tempo inteiro, assim como não é triste o tempo inteiro.

 

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Dando Cores aos Sentimentos

O grande trunfo de Divertida Mente está na praticidade em explicar as inúmeras nuances da mente humana. Do pensamento abstrato que brinca com as formas de arte plásticas e audiovisuais ao subconsciente tratado como uma prisão obscura, tudo é mostrado de maneira simples e sutil, servindo como um colírio divertido aos olhos das crianças e um verdadeiro informativo dinâmico aos adultos.

O maior destaque nesse ponto são as cores. São através delas que todo o entendimento do filme é alcançado, do estado de espírito de Riley, passando pela maneira como são organizadas as memórias, até as personificações das emoções. Nada é explicado didaticamente, e fazendo uma associação simples entre formas e cores, você é levado facilmente ao parque de diversões montado para explicar um pouco da mente humana. Robert McKee deve estar orgulhoso. E os professores de psicologia e psicanalise também.

 

A Memória como uma Grande Cidade

Somado ao uso das cores, está a maneira como a mente e as memórias são organizadas em Divertida Mente. Aliás, o título nacional do filme (lá fora se chama Inside Out), apesar de estranho e infantil em um primeiro momento, faz sentido ao observar o universo interno de Riley, o que fica mais claro quando temos um rápido nuance das mentes de outras pessoas.

No caso de Riley, toda a sua mente é tratada como uma grande cidade, com vilas, fábricas, e “funcionários” que mantém toda a mente de Riley no lugar. Explicações de como são feitos os sonhos, os segredos, os laços afetivos, e até mesmo aquela maldita musiquinha que ora sim, ora não, surge em sua cabeça para tirar o juízo, são mostradas de maneira dinâmica e até engraçada. E mesmo os momentos tristes da trama, com o lado obscuro da mente, são compreensíveis e amargamente aceitáveis.

 

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Sentimentos também têm Sentimentos

Vi em uma das várias montagens feitas no Facebook sobre como a Pixar consegue trazer fortes sentimentos a figuras até então não imaginadas. Os brinquedos de Toy Story têm sentimentos; os monstros do armário de Monstros S.A têm sentimentos; os robôs de Wall-E têm sentimentos; e os sentimentos de Divertida Mente têm sentimentos.

Seguindo por uma linha um pouco diferente de seus filmes anteriores, Divertida Mente não possui um “vilão” encarnado. O grande conflito do filme são como as emoções lidam com uma mudança abrupta e incontrolável, e na divergência entre Alegria e Tristeza. E isso não seria bem explicado se as cinco emoções que levam a trama não tivessem suas nuances boas e ruins. Observando o todo, todas elas são importantes para a formação de nossa personalidade.

Sim, mesmo o mais carrancudo dos homens possui um Nojinho, não tente negar. Chega a ser um exercício social identificar quais das emoções age com mais frequência em você, e quais agem em outras pessoas. No fundo, você entende que não é possível viver de forma adequada sem todas elas. No meu caso, vou passar a ter um pouco menos de antipatia por pessoas com excesso de alegria, e ser mais compreensível com seres mais tristes.

Quanto a dublagem, essencial para caracterizar todas esses pontos retratados, é muito boa. Na versão nacional, o trabalho não foi um incômodo, ao contrário do que a opção de estrelas da televisão sugere. Miá Mello (Alegria), Otaviano Costa (Medo), Léo Jaime (Raiva) e Dani Calabresa (Nojinho) sequer são sentidos em seus papéis. Contudo, não posso dizer o mesmo de Katiuscia Canoro (Tristeza), já que não conheço seus trabalhos anteriores. No geral, sua dublagem é boa, com pequenos deslizes em alguns pontos.

 

Dois Filmes em Um

Divertida Mente é um filme excelente para ser assistido por adultos e crianças ao mesmo tempo. A nova produção da Pixar consegue se comunicar com ambos os públicos de maneiras específicas, e da mesma forma que clássicos como Wall-E, Up!, Vida de Inseto e tantos outros filmes, vale a pena ser assistido em fases diferentes da vida, cujas visões de mundo são apuradas e os detalhes antes divertidos se tornam interessantes pelo cuidado com que são colocados.

Aqui detalho um caso especial na seção em que assisti. Alguns sites dizem que Divertida Mente se trata de uma história destinada a adultos para conhecerem crianças, dado o nível de conteúdo que a obra apresenta. Eu discordo pela situação que tive o prazer de perceber enquanto assistia o filme: no clímax, uma criança se desculpava para sua mãe, pois havia chorado com o que assistia em tela. Enquanto a mãe se emocionava com a confissão do seu pequeno, não pude deixar de sentir o mesmo, já que a criança não devia ter mais do que cinco anos de idade. Emoções não precisam ser racionalizadas, apenas sentidas.

 

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