Garth Ennis: Irlandês, Iconoclasta E Sabe-se Lá o Que Mais – Café com Quadrinhos #09

Muitos tentam e poucos alcançam o nível desse cara.

Digo e reafirmo que Garth Ennis, quando lhe dar na cabeça ser conveniente, gera uma capacidade/qualidade de escrita impressionante em uma época de extrema demanda. Se fôssemos aqui tratar de sua bibliografia completa, no mínimo a cafeinada coluna estenderia seu sabor por mais três ou quatro edições (não que a ideia seja ruim, mas tempos hodiernos demandam celeridade, eficiência e variedade de forma moderada).

Afinal de contas, quem é esse maluco? Vamos lá: nascido em 16 de Janeiro no abençoado ano de Nosso Senhor de 1970, em Belfast (capital da Irlanda do Norte), veio ao mundo Garth Ennis.

Veja bem: o rebento viu a luz numa época conturbada para a sociedade norte-irlandesa. O país atravessava anos de forte crise política e estagnação econômica, grupos de revoltosos e partidários em ferrenha oposição tomavam as ruas no que mais parecia uma pintura do caos – conflitos armados eram o cotidiano de muitos civis inocentes que foram pegos no fogo cruzado das ideologias conflitantes.

Esse tormentoso panorama histórico, toda uma geração rebelde e cultura subversiva, além do aspecto sarcástico niilista de decadência social e tédio pelas tradições, serviriam de esteios na confecção de muitos roteiros do futuro escritor ruivo.

“Futuro” porque ainda nem começamos a falar do seu passado. Mas isso se resolve agora.

No mercado de quadrinhos britânicos entre o final dos anos 1970 e início da década de 1980, o carro-chefe era a famosa revista 2000 AD, criada poucos anos antes, composta de séries curtas e serializadas. Paralelas ao seu sucesso, publicações derivadas foram sendo lançadas aos poucos. Uma delas foi Crisis (1988-1991), que serviu como campo de testes para tramas mais maduras, onde enredos sócio-políticos inteligentes e conscientes eram vistos em sua rentabilidade naquele disputado mercado.

Ennis debutou seu talento com Troubled Souls, em 1989, com quase noventa páginas ao longo de uma dúzia de capítulos. Ilustrado por John McCrea (seu velho comparsa de HQs), o conto era centrado na história de um jovem irlandês protestante e apolítico, frequentemente envolvido nos conflitos que assolavam sua terra natal.  Outras pequenas séries vieram em seguida, sempre focando aspectos religiosos e culturais daqueles idos anos, mas que continuam extremamente atuais.

Competência reconhecida, ingresso para algo maior. O autor migrou para o cume da pirâmide, em dose dupla: passou a escrever histórias do Juiz Dredd, maior atração da 2000 AD, que era a principal antologia no segmento da nona arte britânica. Substituiu o cocriador John Wagner por vários anos.

Em pouco tempo, mudou de ares. A DC Comics o contratava para escrever um de seus personagens mais bizarros, John Constantine, da série Hellblazer pelo selo Vertigo. Um longo run com mais de 50 edições, vários arcos esporádicos e edições especiais deixaram sua marca de forma definitiva na carreira do mago beberrão.

Para a maioria dos fãs, inclusive os brasileiros, sua mais premiada fase foi justamente sua estreia no arco “Hábitos Perigosos” (edições 41 a 46 do título original, cuja última publicação no Brasil se deu no encadernado homônimo lançado pela editora Pixel, em 2008). Diagnosticado com um câncer de pulmão, em fase terminal, Constantine parte numa bizarra correria em busca da cura, até que ela vem através de um genial plano contra três entidades infernais – desde já um dos melhores pactos com o rubro já tido numa HQ.

Um típico caso de que seria trágico, senão fosse (muito) cômico.

Sua recente carreira em solo americano abriu várias portas para o autor porra-louca. Pela própria DC Comics/Vertigo, escreveu aventuras de Etrigan, Hitman (60 edições), Batman, e alguns crossovers entre tais personagens.

Pela metade dos anos 1990, surgia com sua magnum opus: Preacher, em 66 edições, 5 especiais e 1 minissérie (66 + 5 + 1 (6) = 666). A saga do pastor Jesse Custer, na companhia da ex-namorada Tulip e do vampiro alcóolatra Cassidy, é quase uma metáfora em torno da desordem dos valores morais e sociais, na busca pela prometida redenção. Tudo isso, claro, regado a sexo, assassinato, putaria, violência exacerbada e puro humor negro corrosivo.

Com desenhos de Steve Dillon e capas de Glenn Fabry, a série faturou três Eisner Awards: Melhor Série Contínua, Melhor Roteirista e Melhor Capista. Um suposto filme anda sendo alvo de notícias esporádicas e raras de credibilidade, contudo.

E falta bem pouco para o leitor nacional conferir o aguardado desfecho dessa verdadeira odisseia artística e editorial. Cruzem todos os dedos.

Após anos escrevendo uma penca de coisas pra DC, sua principal concorrente estendeu a mão e convidou o escritor definitivamente (ele já havia elaborado um especial Justiceiro massacra o universo Marvel, publicado aqui pela Pandora Books). Dando-lhe carta branca para renovar o anti-herói Justiceiro, a Casa das Ideias jogou no colo de Ennis uma oportunidade única. E ele não desperdiçou.

Começou bem. Em 12 edições, reapresentou Frank Castle ao universo Marvel após uma fase celestial de qualidade extremamente duvidosa. De volta ao básico e bem ao estilo do roteirista, “Bem vindo de volta, Frank” angariou ótimas críticas.

Prosseguiu pela série Marvel Knights: The Punisher, em 37 edições, muitas delas ao lado de seu parceiro de longa data Steve Dillon. Logo após, iniciou a comentada fase MAX por 60 edições e histórias aclamadíssimas em sua maioria – vide o vilão Barracuda, um escroto e cômico antagonista imortalizado no traço do croata Goran Parlov.

Ao lado da série principal, elaborou a minissérie Nascido Para Matar, retratando os dias finais de Castle no Vietnã e o estopim para suas motivações homicidas e vingativas. Bem antes disso, no especial O Tigre, um menino de nome Frank Castle já antecipava tal comportamento na sua infância vivida no Brooklyn.

E anos depois, no futuro pós-apocalíptico da trama O Fim, um velho Justiceiro ainda caminha em meios aos destroços do que um dia fora a humanidade… Para eliminar o refugo inútil e corrupto dela. Ainda deu tempo pra escrever, sinceramente, um dos melhores roteiros do Justiceiro na tensa história A Cela.

Indubitavelmente, Ennis reconstruiu o conceito do personagem e deu-lhe caráter definitivo, refletindo influência obrigatória para futuros trabalhos.

Ainda na Marvel, desandou a escrever várias outras tramas. Restringindo o texto apenas nas mais emblemáticas, citamos: Hulk Smash, as duas minisséries com o Motoqueiro Fantasma (arte de Clayton Crain), Thor Vikings (sensacional história com desenhos de Glenn Fabry, pelo selo MAX), Fury e Homem-Aranha.

A iconoclastia expressa no título desta coluna é vista, principalmente, em suas versões para o gênero mainstream. Ennis não perdoa e malha sem piedade os valores e princípios defendidos pelos super-heróis de colantes coloridos.

Exemplo disso? Que tal a série The Boys? Inicialmente publicada pelo selo WildStorm, a encrenca pareceu demais para os padrões puritanamente duvidosos da hierarquia superior desta, mas logo a editora Dynamite Entertainment tratou de continuar a escandalosa série. No Brasil, já saiu o primeiro volume intitulado “O Nome do Jogo”, pela Devir, com arte conhecida de Darick Robertson.

Nessa esteira, seguiu-se o álbum A Pro, a aventura de uma prostituta com superpoderes envolvida com um pastiche da Liga da Justiça.

Se o humor negro é uma de suas marcas registradas, Ennis sabe trabalhar esse mesmo aspecto – entre outros com conotação mais adulta e histórica – quando se trata de HQs de guerra. De longe seu tema favorito, onde sua pena jorra histórias de altíssima qualidade.

Ainda na DC, escreveu War Stories, coleção de edições especiais ambientadas na Segunda Guerra Mundial, ilustradas por diversos artistas, entre eles: Chris Weston, David Lloyd, John Higgine e Dave Gibbons; uma minissérie do Soldado Desconhecido, publicada aqui em duas edições; Adventures in the Rifle Brigade, em duas minis com arte de Carlos Ezquerra; A Guerra é um Inferno, revitalizando o antigo Águia Fantasma da Marvel, entre outros.

Pela Dynamite, escreveu um quarteto de minisséries intitulado Battlefields, sempre com capas variantes de John Cassaday e narrativas distintas, entre drama, aventura e comédia. Na Image, foi um dos criadores do anti-herói The Darkness, alter ego do mafioso Jack Estacado, na década de noventa.

Com a Virgin Comics, trouxe de volta o paladino espacial inglês Dan Dare. Junto a Dark Horse, escreveu dois contos de Star Wars – um deles o sensacional “Trooper”, mostrando o treinamento de um desses soldados imperiais até a ofensiva contra os rebeldes, mostrada no início do filme Episódio IV: Uma Nova Esperança.

Mais recentemente pela Avatar Press, vem contribuindo com a série Crossed (desenhos de Jacen Burrows), sua versão para tramas de “zumbis”, junto ao escritor David Lapham. Antes, a dupla havia feito a minissérie 303.

Fora do ramo de quadrinhos, veio a estrear como roteirista e diretor de filmes, com o curta-metragem Stitched, servindo de ponto de início para uma HQ de mesmo nome pela batuta da mesma Avatar. É esperar pra ver.

O maluco tem site oficial, mas a última atualização se deu em 2007. Logo, nada confiável.

Enfim, muita coisa há pra se falar ainda, outras boas séries, mas fica para uma próxima pauta. Garth Ennis ainda tem gás pra escrever muita, muita coisa. Decerto que há aquelas obras comerciais (todos temos que pagar contas, afinal) e momentos ruins na carreira, mas são exceções que confirmam a regra:

O irlandês, quando quer, é f… fantástico.

 

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  1. Olha, podem falar o que for, mas ainda acho que a melhor coisa que o Ennis fez na vida, de longe, foi Hitman – e a primeira fase dele no Justiceiro no Marvel Knights. O melhor desse cara é quando ele não se leva a sério.

  2. Ennis pra mim é o maior roterista de quadrinhos suas obras nem sempre são as mais geniais, porem ao ver o seu humor negro, ou como faz uma otima abordagem politica em seus textos.
    Não existe nada que eu ja tenha lido de Garth Ennis ruim.
    Sou um fã assiduo ate o fim.

  3. Pô, eu acho o Garth Ennis muito fodão também!
    Tem gente que torce o nariz pra Hitman, putz, acho essa HQ sensacional!
    Sonho em um dia vê-la compilada em um formatão de luxo.

    Agora vamos ver se esse filme vai prestar, tomara que ele seja tão despudorado no cinema quanto o é nas HQs.

  4. Achei que não conhecia nada do Ennis, mas no fim das contas li quase tudo, exceto o Hellblazer e o Preacher (to aguardando a boa vontade de uma editora nacional lançar o final). A ultima coisa que li dele foi SuperGod onde ele não se controla e cria origens bizarras para os heróis daquele universo