Minha Estante #30 – Ademir Luiz

Olá, terráqueos!

Completando trinta edições, a coluna favorita dos colecionadores de quadrinhos do Brasil tem como convidado o comparsa Ademir Luiz.

Os frequentadores habituais do nosso site já devem ter lido alguns de seus excelentes textos e percebido que Ademir é um grande escritor e estudioso da cultura em geral. Agora está na hora de conhecer um pouco do seu acervo, não só de quadrinhos, mas também de DVDs e livros.

Espero que todos curtam a conversa e passem a seguir, respeitar e divulgar os 13 mandamentos da Ética do Livro!

Olá, Ademir! É um prazer contar com sua presença aqui na coluna.

Como dizia o grande filósofo e sambista Mumu da Mangueira, “estamos aisis”.

Para começar gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores.

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior”. Belchior à parte, sou goianiense, professor dos cursos de História e de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Fiz doutorado em História, estudando a Ordem dos Templários, o que me permite falar mal de O Código Da Vinci com propriedade. Publiquei um romance (Hirudo Medicinallis), um livro de contos (Pequenas Estórias da Grande História) e um volume de ensaios (Arquivo de Heresias). Escrevo artigos de crítica cultural na imprensa, e me tornei colaborador do Pipoca e Nanquim quando, participando de um congresso em São Paulo, por puro acaso, encontrei o Daniel Lopes, o Bruno Zago e o Alexandre Callari na Comix.

Você já chegou a utilizar HQs como referência bibliográfica para alguma pesquisa ou de maneira didática no ministrar de alguma aula?

Constantemente. Estou sempre citando HQs em sala de aula, o que, provavelmente, me dá fama de “professor aloprado”. Mas algumas são realmente fundamentais para ajudar a pensar certas disciplinas. Por exemplo: Asterios Polyp é interessantíssimo para estudantes de Arquitetura e Urbanismo. Não se trata apenas da profissão, mas da Arquitetura enquanto escolha de vida. Asterix é uma ótima reconstrução ficcional do mundo antigo. As tiras da Mafalda, apesar de serem excessivamente panfletarias às vezes, são perfeitas para discutir política. Participo de um projeto de pesquisa chamado “História e Mídias de Massa”, onde analisamos o impacto histórico-social de filmes, RPG, games e, claro, quadrinhos.

Que projeto bacana, só queria ter participado de um grupo desse na faculdade.

Lembra-se qual foi a primeira HQ que leu na vida, aquela que você leu e percebeu que não tinha mais volta, passara a gostar de quadrinhos.

Como quase todo mundo no Brasil, comecei lendo revistas do Mauricio de Sousa e da Disney que, eventualmente, caiam na minha mão. Achava legal, mas não me impressionavam. Tirando algumas exceções, achava os desenhos fracos e os enredos repetitivos. Passei a escolher os quadrinhos que lia quando, fazendo pequenos trabalhos, como entregar jornais ou coisas do gênero, juntava dinheiro para ir a sebos no centro da cidade. Nessa época, comprei muito Recruta Zero e revistas Marvel e DC. Percebi que os super-heróis possuíam mitologias mais complexas, que havia continuidade de uma história para outra. Isso me deixou intrigado. Acho que foi essa sensação de estar explorando uma cosmogonia que me capturou para as HQs.

E qual foi a primeira vez que pensou “essa aqui eu vou guardar pra ler de novo, é muito boa!”?

Acho que foi a reformulação que o John Byrne fez do Super-Homem, após a Crise nas Infinitas Terras. Até hoje é minha versão preferida do Escoteiro Azul.

Quantas HQs você tem?

Sou um dos idiotas que, na passagem da adolescência para vida adulta, se livrou de parte considerável da coleção de HQs. Por conta disso, hoje não tenha tantas. Deve girar em torno de 400 títulos. Mas admito que vasculho sebos recomprando coisas que me desfiz nessa fase de negação da Síndrome de Peter Pan. E tenho comprado muitos encadernados, com republicações de histórias clássicas.

Além de HQs sua estante divide espaço com uma bela biblioteca de romances e dvds, né?

Como o conhecimento é rizomático e, potencialmente, infinito, não existe biblioteca grande o bastante. Como tenho comprado livros desde a adolescência, consegui formar um acervo razoável, mas que está sempre em expansão. Procuro adquirir as obras tidas como essenciais pela tradição erudita, fazendo-as dividir espaço com outras ligadas a meus interesses particulares e profissionais. Chamo minha coleção de “Biblioteca Jorge Luis Borges”, em homenagem ao grande escritor argentino que se tornou símbolo de amor ao objeto livro. Infelizmente, não tenho noção da quantidade de títulos no acervo. Por ser mais recente, cataloguei os DVDs que fui adquirindo. Giram em torno de três mil filmes. A filmoteca, por sinal, recebeu o nome de “Stanley Kubrick”. Meu cineasta preferido.

Quais são os principais itens da sua coleção de quadrinhos, aquelas séries ou volumes que você bate no peito e fala “Essa eu tenho completa!”?

Não tenho grandes raridades, mas algumas curiosidades, como a reprodução exata da HQ mais cara do mundo, a Action Comics número 1, com a estréia do Super-Homem. Tenho as edições brasileiras originais de Ronin e O Cavaleiro das Trevas. Vários números da lendária revista Circo, que revelou grandes nomes no humor brasileiro. Sem ser quadrinhos, consegui completar a coleção da finada revista Set – Cinema e Vídeo, um marco na divulgação de cinema no Brasil.

Como você guarda suas revistas e quais técnicas usa para conservá-las?

Não sou desses que lacram à vácuo em câmaras frias. Faço o mínimo necessário para tentar preservar, sobretudo as edições mais antigas. Os quadrinhos e as revistas em geral ficam na parte fechada das estantes, guardadas dentro de sacos plásticos. Só.

Já fez alguma loucura para conseguir algum exemplar?

Loucura! Acho que não. Sou muito cartesiano. Meus amigos dizem que sou tão calmo e controlado que meu sistema imunológico produz Prozac naturalmente. Devo ter sangue vulcano.

Você lê algum mensal hoje em dia ou só compra edições especiais?

Atualmente, não. Tenho comprado apenas encadernados. Embora esteja curioso com a reformulação da DC. A proposta do Grant Morrison para o Super-Homem parece-me interessante.

Tem alguma “mania de colecionador”, seja para guardar, emprestar ou mesmo na hora de comprar?

No quesito emprestar, desenvolvi o que chamei de ética do livro. São treze mandamentos, validos também para CDs, DVDs, HQs, revistas e congêneres. São eles:

1 – Se pegou emprestado, devolva;
2 – Trate o livro alheio como gostaria que o seu fosse tratado. Não rasure, suje ou rasgue;
3 – Só pegue emprestado se for mesmo ler. Não jogue em um canto ou coloque em uma fila;
4 – Se perdeu, compre outro e devolva;
5 – Se pegou por impulso e sabe que não vai ler, devolva;
6 – Se vai pegar sucessivamente emprestado, está na hora de comprar seu próprio exemplar;
7 – Se for uma ferramenta de trabalho, seja rápido;
8 – Não pegue sucessivamente emprestados livros da mesma pessoa, sem devolver os anteriores;
9 – Não constranja seu próximo pedindo emprestado livros raros ou com valor sentimental;
10 – Não empreste livros que pegou emprestado;
11 – Demorar para devolver é o mesmo que não devolver;
12 – Esquecer de devolver é o mesmo que surrupiar;
13 – Não misture com seus livros.

Demais! Isso deveria virar lei.

Quais são, em sua opinião, os roteiristas mais importantes de todos os tempos? Aqueles que realmente foram geniais e revolucionaram os Quadrinhos?

Allan Moore é um sayajin nível cinco, com o mérito de nunca ter se vulgarizado. Acho Spirit supervalorizado, mas Will Eisner foi brilhante em álbuns como Um Sinal do Espaço e O Edifício. Em literatura Neil Gaiman possui um estilo pedestre, mas para escrever quadrinhos é excepcional. Jodorowsky foi genial em Bórgia. Frank Miller virou piada, mas não podemos esquecer que ele fez Cavaleiro das Trevas, Batman: Ano Um e Queda de Murdock. O próprio John Byrne é um gênio que, talvez por ter se exposto demais, acabou perdendo respeito. Stan Lee é outro que deixou de ser grande autor para ser um pequeno personagem pop. Em termos de quadrinhos autorais, Maus, de Art Spiegelman, aproxima-se da grande arte. Sem esquecer os álbuns de Joe Sacco, como Palestina e Sarajevo.

Qual foi o último quadrinho que leu? Gostou?

O mais recente foi uma relíquia que achei num sebo. A edição especial número 4 da Heavy Metal, lançada em 1997, totalmente dedicado a lendária Druuna. Se gostei? Uma palavra: Druuna…

Conta ai pra gente quais suas 10 HQs favoritas de todos os tempos.

Gosto de rankings. Como o Umberto Eco observou, somos fascinados pela “vertigem das listas”. Hoje a lista seria a seguinte: no topo O Cavaleiro das Trevas. Em segundo Watchmen, seguido por Batman: Ano Um. Em quarto Os Supremos. Depois, duas obras de arte Bórgia e Maus. Voltando para o massa-véio, Marvels em sétimo e Hábitos Perigosos, com John Constantine, em oitavo. Em nono Camelot 3000 e em décimo a melhor saga dos últimos tempos: Guerra Civil. Menção honrosa para uma série muito mal ilustrada, mas que eu tenho verdadeiro fetiche: Guerras Secretas. Não são as melhores. São minhas preferidas.

E qual foi a maior raridade que já comprou pelo menor preço? Aquela ocasião em que sai da loja e pensa “Puta M$#**@!! Não acredito que paguei 2 reais nisso!! Sou o cara mais sortudo do mundo!”

Já encontrei algumas pequenas pérolas bem baratinhas. Exemplos, a gênese dos crossover, Grandes Encontros Marvel & DC – número 1 mostrando uma aventura conjunta com o Super-Homem e o Homem-Aranha. O casamento da Moça-Maravilha, em Novos Titãs #22. A melhor saga de Sonja, reunida em Grandes Heróis Marvel #13.  O caminho de Conan para o trono da Aquilônia, publicada em arco na Espada Selvagem de Conan. Não vejo muito sentido em quadrinizações, mas sempre gostei e comprei a de O Império Contra-ataca, publicada na revista do Hulk entre os números 25 e 27 da Editora Abril. E vai por aí.

Você guarda muita “porcaria” ou se desfaz imediatamente do que acha ruim?

Guardo alguma coisa, nem tudo. Principalmente quando, apesar de ruim, possui importância cronológica. O casamento do Super-Homem, por exemplo. O roteiro é fraco, mas é, literalmente, histórico. Algumas eu guardo por pura nostalgia, como a coleção completa da revista dos Thundercats.

Tem algum item que quer muito ter, mas está impossível de encontrar?

Tenho procurado aquelas antigas HQs dos Trapalhões, publicadas nos anos de 1980. Eram fantásticas! Um humor entre o fino e o negro! Tinha várias, mas, infelizmente, me desfiz delas no descarte. Estou à caça.

Quase acabando! Você já protagonizou alguma história inusitada envolvendo quadrinhos, autores ou mesmo super-heróis?

Quando era adolescente escrevi e desenhei diversas HQs imitando personagens do cinema e dos quadrinhos, como Mad Max, Tuff Turf, Super-Homem, X-Men, tiras de humor ao estilo Chiclete com Banana etc. Para minha surpresa, reli-as recentemente e algumas me pareceram bem legais, nem todas são dignas de vergonha. O fato é que resolvi retomar esse tipo de produção. Estou preparando um romance gráfico em parceria com o artista plástico Tiago Duarte. Terminei o roteiro do primeiro volume de uma tetralogia. Atualmente, estamos realizando os estudos para estabelecer o visual dos personagens.

Ademir, muito obrigado pela entrevista! Deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Gostaria de agradecer aos Pipocas e aos leitores pelos comentários que fazem em meus textos, além do interesse que demonstraram nos meus livros, quando foram comentados no Videocast 98. Um recado? Lembro-me daquela pergunta que fizeram ao Conan. O que é bom na vida? O bárbaro respondeu: “Destruir nossos inimigos, vê-los em fuga, ouvir o lamento de suas mulheres e saquear sua coleção de quadrinhos”.

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Minha Estante é um espaço pra você, colecionador de HQs, mostrar sua coleção, falar sobre prazeres e vicissitudes desse hobby, conhecer outros aficcionados e proporcionar aquela inveja boa.

Convidamos a todos que possuem belas coleções de quadrinhos a mostrarem elas aqui!

É só mandar um e-mail para [email protected] dizendo alguns detalhes (números de revistas, itens raros e particularidades) que em seguida combinamos a entrevista.

Até a próxima!


Umberto Eco E Os Quadrinhos

Colaborador: Kleiton Gonçalves

O pensador Umberto Eco é um interessado em histórias em quadrinhos, tendo-os como um valioso objeto de estudo da comunicação em massa, dentro de seu principal ramo filosófico: a semiologia.

O último romance do italiano – considerado por alguns o maior intelectual vivo – A Misteriosa Chama da Rainha Loana, não apenas utiliza um pouco da linguagem dos quadrinhos, mas, além disso, tem os gibis como um dos objetos de sua narrativa, ao lado da propaganda, literatura clássica e moderna, música e cinema.

Nesta obra, o protagonista Yambo – um culto e conceituado livreiro dedicado a obras raras, assemelhando ao próprio Umberto Eco – perde sua memória afetiva após um acidente automobilístico. Por recomendação médica, dá um tempo à vida conturbada da grande cidade e ruma para a pequena vila onde cresceu, junto ao seu avô, outro grande interessado por mídias impressas. Esse é o ensejo para a grande obra que está por vir. Lembranças do próprio autor da vida na Itália fascista, onde a única fuga, além do afeto familiar e das aventuras bucólicas, eram antigas histórias infantis, tanto em prosa quanto em quadrinhos, em especial as norte-americanas.

Remexendo no esquecido acervo de seu falecido avô, o protagonista se depara com edições antológicas de Wall Disney, Flash Gordon, Fantasma, Terry e os Piratas, Mandrake, Dick Tracy, Happy Hooligan, Os Sobrinhos do Capitão, Gato Félix e tantos outros personagens que povoaram o imaginário de uma geração educada pela Guerra – em sua constância e final, mas sempre com o temor de uma nova deflagração.

Embora extremamente culto e afim com obras eruditas raras, são justamente os gibis que fazem despontar pedaços da memória afetiva de Yambo. O próprio título do romance refere-se ao quadrinho – definido pelo personagem como a “história mais boba que uma mente humana poderia conceber” – que leva à tona uma enxurrada de memórias afetivas. Antes mesmo dessa revelação, ainda na primeira parte do livro, é uma historieta simples do Mickey Mouse (O Tesouro de Clarabela) que promove as primeiras evocações emotivas do erudito livreiro.

O livro é ilustrado com gravuras diversas, propagandas, capas e miolos de quadrinhos.

Os comentários acima acerca da obra funcionam para destacar a inclinação de Eco ao estudo dessa forma de comunicação. Entretanto, em outras de suas obras, a linguagem quadrinística está presente. Cito, por exemplo, Baudolino, a partir do vigésimo sexto capítulo e algumas passagens dinâmicas e insólitas presentes no intricado O Pêndulo de Foucault.

Além disso, é bom citar a breve introdução de Eco à última obra de Will Eisner, O Complô, bem como o prefácio comparativo à edição completa de Mafalda, do querido argentino Quino.

Encerramos no plano teórico do autor, citando a coletânea de estudos Apocalípticos e Integrados, onde um capítulo completo é dedicado ao estudo da mitologia contemporânea dos Super-Heróis, sob o título O Mito do Superman. Pouco depois, vimos esse tema estendido no estudo O Super-Homem de Massa, onde personagens revestidos pela polidez heróica são analisados, evocando-se quaisquer produções artísticas, a exemplo da literatura convencional e pulp, bem como a folhetinesca em geral.

Em nosso país, é interessante citar alguns autores influenciados, em sua produção literária, pela linguagem dos quadrinhos. Dois grandes exemplos são: Luís Fernando Veríssimo e Jô Soares. O primeiro, aliás, já nos premiou com quadrinhos de elevado nível, a exemplo Ed Mort (em parceria com o cartunista Miguel Paiva), Aventuras da Família Brasil e As Cobras. Quanto a Jô Soares, a linguagem às vezes exagerada e dinâmica dos quadrinhos pode ser vista em seu segundo romance, O Homem que Matou Getúlio Vargas. Além disso, em seu Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, as pistas para se descobrir o vilão são espalhadas em referência aos personagens Hans e Fritz (os pestinhas que ocupavam a tira Os Sobrinhos do Capitão). O gosto de Jô Soares pelos quadrinhos também pôde ser notado há muito tempo, quando traduziu, para estas bandas, o gibi Barbarella (ano 1969).

Mas os quadrinhos, na literatura nacional, são objetos para outra postagem.

Notas

1. As obras de ficção de Umberto Eco aqui citadas são publicadas, no Brasil, pela editora Record.

2. Os gibis O Complô e Toda Mafalda foram publicados, aqui, respectivamente, pelas editoras Companhia das Letras e Martins Fontes, em capa dura e com excelente tratamento gráfico.

3. Todas as tiras de Ed Mort foram compiladas em álbuns grandes pela editora L&PM. Já as tirinhas da Família Brasil tiveram dois álbuns, um pela L&PM e outro pela editora Objetiva. Esta última, aliás, foi responsável pelo volume As Cobras – Antologia Definitiva, um encadernado com direito a papel especial de alta gramatura.

4. A edição de Barbarella, traduzida por Jô Soares, aparentemente, nunca teve uma republicação. Mas seus romances são regulamente reimpressos pela Companhia das Letras.

5. Demais observações sobre biografia de Eco, suas produções artística e acadêmica, bem como esquadrinhamento do que vem a ser mencionado ramo do pensamento filosófico (semiologia), podem ser facilmente encontrados em diversos sites (recomendo a Wikipédia).

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Kleiton Gonçalves é autor do blog Ordem do Eterno Grau de Neófito , sem nenhum seguidor.