Ah, quem dera fosse publicado por aqui – Café com Quadrinhos #05

Nem somente do gênero mainstream e café sobrevive o vício de um fanboy.

Sempre que vejo sites estrangeiros sobre quadrinhos, tantos os jornalísticos quanto os das próprias editoras, ainda fico impressionado com a quantidade absurda de lançamentos lá fora que sequer cogitam aportar em terras brasileiras. Quando o lado “fã” tenta falar mais alto, normalmente relembro que muitas dessas séries, talvez, não encontrem um retorno mercadológico lucrativo por aqui.

Realmente, uma pena.

O jeito, então, é melhorar aquele bom e velho inglês dos tempos colegiais e correr atrás dos encadernados importados, na base do suor e da paciência.

Mas como sonhar ainda não custa nada, vez ou outra me pego imaginando algum futuro lançamento tão desejado. Para isso, trago alguns exemplos.

Na época do “pirulito que bate, voa”, seria heresia perder algum episódio vespertino dos super-heróis japoneses da saudosa TV Manchete. Dentre todos eles, o meu favorito sempre foi o Black Kamen Rider (1987-1988), ou Kamen Rider Black no original. Ainda hoje tenho cólera quando relembro que, chegando ao penúltimo episódio, no dia seguinte retornava desde o primeiro.

Quando aguardava o programa começar pra ver como terminaria a derradeira refrega entre o Shadow Moon (controlando a Battle Hopper) e o “Senhor Black”, aparecia a legenda com o nome “Episódio 01 – A Metamorfose”. Era foda mesmo (com direito ao meme do FU).

Então, muitos anos depois, após finalmente ter visto o lendário último episódio, soube que o seriado era derivado de um mangá publicado simultaneamente lá no Japão, na antologia Shõnen Sunday, de autoria de um dos mais famosos mangakás da terra do sol nascente: o falecido Shotaro Ishinomori (criador, dentre outros, da série Cyborg 009, que passou há poucos anos no Cartoon Network).

Pesquisando pela internet, e muitas vezes agradecendo o tradutor do Google, consegui achar alguns poucos artigos críticos sobre essa rara história em quadrinhos nipônica.

Segundo dizem, ela seria mais sombria, com um clima mais denso e pessimista do que já fora o seriado televisivo – lembrando que, apesar da temática infanto-juvenil da época, Black Kamen Rider era de longe um dos melhores roteiros dos Tokusatsus dos anos 1980: histórias cativantes, invejável galeria de monstros semanais, vilões que encarnavam a própria malevolência e com visuais incríveis, músicas sensacionais, além de coreografias e cenas de ação muito bem feitas, sem contar o forte apelo emotivo.

Além disso, o visual do Issamu Minami (Kotaro Minami lá fora, mas sejamos nostálgicos aqui) nessas páginas, quando transformado, era bem mais parecido com um gafanhoto humanoide, próximo ao bestial. Não chegou a ser como o aterrorizante visual do filme Kamen Rider Shin (1989), mas seria bem mais mutante do que sua versão live-action conhecida pelo público brasileiro.

Se essa obra pode ser atualmente considerada como pouco provável em se tornar realidade por aqui, a próxima tem melhores chances – e, creio eu, mais seguidores.

Já viram os maravilhosos álbuns encadernados da série The Chronicles of Conan, The Savage Sword of Conan e outras clássicas séries que a editora Dark Horse anda relançando no mercado americano? Olha, seria um presente e tanto aos leitores brasileiros, e uma oportunidade de ouro para reorganizar a antiga cronologia do bárbaro cimério.

Em relação à segunda série mencionada, tive a oportunidade de folhear um desses tomos importados e fiquei maravilhado com o trabalho realizado. Mesmo já tendo lido e relido incontáveis vezes muitas daquelas histórias da fase clássica com Roy Thomas no texto, a qualidade do material e o esmero despendido ali quase me fizeram crer que se tratava de algo inédito.

Mas, infelizmente, as HQs de Conan no Brasil andam em baixa de uns tempos pra cá: cancelamentos e lançamentos esporádicos (caros) têm sido uma constante. Quem sabe as publicações dessas famosas histórias da era Marvel não reacendessem o interesse em revisitar a Era Hiboriana?

Da mesma forma, seria ótimo poder ler no bom idioma lusófono a coleção The Lone Ranger, que terminou recentemente com 24 edições + 4 edições especiais lançadas pela editora Dynamite Entertainment. Um faroeste de altíssima qualidade, bom frisar.

Quem teve a oportunidade, pôde testemunhar que essa série atualiza o pistoleiro para as tendências dos tempos atuais, mas sem menosprezar os elementos básicos que o caracterizaram nas encarnações anteriores no rádio, na TV e nos quadrinhos.

Apesar de não matar, o “Zorro” sabe muito bem como aplicar justiça de forma implacável, mantendo seu caráter altruísta e justiceiro. Sem contar a melhor versão do índio Tonto jamais vista, em qualquer mídia. Leiam e comprovem.

Por fim, venho acumulando anseios em ver uma obra traduzida que não é exatamente uma história em quadrinhos, e sim um livro ilustrado. Belamente ilustrado.

Trata-se de Bernie Wrightson’s Frankenstein, um magistral trabalho de retratação artística do romance original de Mary Shelley com várias ilustrações primorosas, de páginas inteiras. Com certeza um dos melhores contos de terror de todos os tempos.

Imagine então, ao lado do texto original, algumas splash pages em preto e branco no traço de um dos maiores artistas do gênero nos comics? Sensacional é pouco. Um lançamento desses por aqui viria bem a calhar, ainda mais com lastro numa tradução e adaptação ao estilo do que a editora Martin Claret fez em solo nacional.

Apesar de ter trazido unicamente estes quatro exemplos, faço rápida menção especial a três outros bem mais recentes: a coleção The Complete Dracula, Sherlock Holmes: Trial of Sherlock Holmes e The Complete Alice in Wonderland, todos publicados pela mesma Dynamite Entertainment, com roteiros de John Reppion e Leah Moore (filha do famoso barbudo britânico).

Algumas destas tratam de adaptações integrais e fidelíssimas às obras literárias originais, com artes estupendas. No caso de Alice, os maravilhosos desenhos são de autoria da brasileira Erica Awano, responsável pela parte artística do título nacional de sucesso Holy Avenger.

Sobre o Drácula, há a presença de um capítulo especial originalmente escrito por Bram Stoker e publicado postumamente em 1914, intitulado O Convidado de Drácula.

Há outras obras que poderiam ocupar mais algumas linhas desta coluna (ouvi alguém mencionar a coleção de adaptações das famosas pinturas de Frank Frazetta, lançada pela Image Comics?), porém o assunto ficaria muito extensivo e nossa pretensão aqui não é o esgotamento do tema.

Por fim, com relação às HQs supracitadas, só resta-me dizer: ah, quem dera fossem publicadas por aqui…

E você, caro leitor, quais seriam as suas preferências?