O Turista – Crítica

Eis um filme que tinha tudo pra der certo. Reuniu dois dos melhores atores de Hollywood para contracenarem juntos pela primeira vez, Angelina Jolie e Johnny Depp, sob direção do alemão Florian Henckel von Donnersmarck, reconhecido pelo premiado filme A Vida dos Outros, de 2006, e com os mesmos roteiristas dos sucessos Assassinato em Gosford Park e Os Suspeitos, além de bons coadjuvantes como Paul Bettany, Timothy Dalton e Steven Berkoff. Tudo pra dar certo, mas não deu.

Na trama, Elise (Angelina Jolie), é a amante de um milionário procurado pela Scotland Yard por sonegação de 700 milhões de libras em impostos. Esse cara, conhecido como Alexander Pearce, está desaparecido no mundo há um ano e passou por uma série de cirurgias plásticas que mudaram completamente seu rosto, sendo então um completo desconhecido por todos. Mas agora ele quer voltar para Elise, mas para isso ela precisa despistar a policia, que pretende usá-la para chegar até seu amado. O plano é fazer todos pensarem que Alexander é outra pessoa, aí que entra o humilde professor de matemática Frank Tupelo (Johnny Depp), o turista do filme, que está de passagem por Veneza. Pra complicar, descobrimos que toda a fortuna do misterioso procurado foi roubada de um mafioso russo, Reginald Shaw (Steven Berkoff), que obviamente quer a grana de volta e vai usar todos os seus recursos para caçar o pobre turista. Como vocês podem ver, o argumento é interessante, uma adaptação de filme francês de 2005, chamado Anthony Zimmer – A Caçada, pena que foi tão mal desenvolvido.

Não que seja um completo fiasco (é quase isso), mas as expectativas levantadas por uma equipe como essa eram muitas, o que aumenta a decepção. Se fossem outros atores em cena e não tivesse a direção de Donnersmarck, a crítica certamente ia pegar mais leve.

Em seu segundo longa metragem, o diretor falhou em dar ao filme sua própria identidade, não soube se decidir entre romance, comédia e ação, não usou sequer um terço do talento que empregou em seu trabalho anterior. A imagem que fica é de que o alemão sucumbiu às vontades dos executivos de Hollywood e precisou fazer uma bagunça, colocando todas as fórmulas testadas dos blockbusters onde elas não cabiam.

O roteiro também não ajuda, é fraquíssimo e feito para ressuscitar clichês de antigos filmes de espionagem: mafiosos com capangas tapados, bailes de gala, o beco escuro, a entrada triunfal, o glamour da cidade européia, etc. Só faltou a perseguição de carros, que foi substituída por barcos já que a história se desenrola em Veneza. Seria até legal se o diretor optasse por zombar sutilmente do gênero, mas não é o que acontece, os clichês não surgem de forma natural, são empurrados goela abaixo do espectador e ainda querem ser levados a sério. Uma das provas disso e a cena do baile, em que Johnny Depp surge do nada e rouba Jolie para uma dança, ao que imediatamente todos abrem espaço para os dois ficarem bem no centro do salão. Vergonha alheia! O roteiro é tão meia boca, que até a reviravolta do final não surpreende ninguém, já da pra antecipar tudo na metade da história.

E falando nos atores principais, eles apenas entregam mais do mesmo. Depp é o herói sem jeito estilo Jack Sparrow e Jolie é a diva misteriosa e perigosa. Além disso, os dois não funcionaram como um casal. No começo é até compreensível que um não esteja a vontade perto do outro, o roteiro permite isso, afinal é tudo uma farsa armada pela personagem de Angelina Jolie – ela precisa fingir que está a fim dele que por sua vez está atordoado por ser abordado de repente por uma mulher tão elegante – só que a falta de sincronia perdura até o final, quando o casal já passou por alguns perrengues e a farsa é posta de lado. Eles simplesmente não conseguem convencer o público de que puderam se apaixonar em poucos dias. O momento que ela diz baixinho “eu te amo”, apenas movendo os lábios, é forçado demais. Novamente: vergonha alheia.

O único elemento impecável do filme é a fotografia. As poucas locações de Veneza que aparecem são belíssimas, tudo muito bem filmado. Os panoramas feitos do alto vão te deixar com vontade de viajar o quanto antes até a cidade italiana dos amantes. A beleza de Angelina Jolie também foi explorada da melhor forma possível, a atriz está mais linda do que nunca, espetacular. Hollywood consegue cada vez mais fazer dela uma das mulheres mais cobiçadas do mundo.

Com um trabalho de equipe tão decepcionante quanto esse, fica claro porque as três indicações ao Globo de Ouro geraram tanta polêmica, surpreendendo até mesmo aos envolvidos. Pra quem busca apenas diversão descompromissada no cinema, os tiroteios, perseguições, piadas bobas aqui e acolá e a beleza de Jolie (ou Depp) até que podem servir.