Videocast 172 – Império Romano

Olá a todos,Sejam bem-vindos a mais um videocast do Pipoca e Nanquim. Esta semana, demos um mergulho na história antiga e escolhemos o inusitado tema ROMANOS. Há bons quadrinhos saindo atualmente, como X-O Manowar e, o clássico, Asterix, mas há também muitos filmes que merecem ser mencionados, como Satyricon (clássico absoluto de Fellini), Ben-Hur (um dos maiores papeis das carreira de Charlton Heston) e Alexandria. Como não podia deixar de ser, a série Roma também merece menção especial, como um dos melhores exemplares do gênero.

É isso aí, galera, Pipoca e Nanquim oficialmente agora às segundas-feiras.Um abraço a todos e até a semana que vem!

COMENTADO NESSE VIDEOCAST

– Sites parceiros: Filmes com Legenda, Super Novo, Mob Ground, Contraversão, Iradex.
Videocast #115 – Stanley Kubrick
Videocast #22 – Ridley Scott (onde falamos de Gladiador)
Livro “Ícones dos Quadrinhosno Catarse, compre o seu!

FILMES E SÉRIES COMENTADAS

Roma – 2 temporadas (2005-2007)
Alexandria (2009)
Ben-Hur (1959)
Centurião (2010)
Spartacus Deuses da Arena – 1 temporada (2011)
Spartacus Sangue e Areia – 3 temporadas (2010-2013)
Spartacus (1960)
Satyricon (1969)
Asterix e Obelix Contra César (1999)


QUADRINHOS COMENTADOS

Juiz Dredd Megazine (Mythos)
X-O Manowar (HQM)
Asterix, O Gaulês (Editora Record)


SPARTACUS – CRÍTICA

Começou a ser exibida recentemente nos EUA a terceira temporada de Spartacus, uma série que pode não ser a melhor maravilha do universo (estando no nível de monólitos como Game of Thrones e Breaking Bad), mas ao menos merece algum destaque por se caracterizar como boa diversão, dotada de alguns momentos audaciosos e grandes atuações. Na verdade, a taxa de aprovação da série no site IMDB é surpreendentemente alta: 8,7.

Eu disse “surpreendente”? Talvez. Muita gente torceu o nariz para Spartacus quando a série estreou já no seu primeiro episódio, taxando-a de uma cópia mal feita de 300, o excelente filme de 2006 de Zack Snyder cuja estética inovadora e violência estilizada, na época, balançou Hollywood e tornou o longa um enorme sucesso de público e crítica. Bem, cabe dizer que essas pessoas estão absolutamente certas. Ou melhor, não estão totalmente erradas.

spartacus+photosO caso é que a opção feita pelos produtores de Spartacus, quer tenha sido uma homenagem ou descarada picaretagem, realmente força o espectador num primeiro momento a dirimi-la como um 300 mal feito que, para piorar, não goza nem das qualidades do diretos Snyder e nem do orçamento polpudo de uma mega-produção de Hollywood.

A câmera lenta excessiva nas cenas de luta, seguida de aceleração das imagens, sangue em CGI que espirra em abundância na tela com a consistência de água, saltos acrobáticos dos personagens fazendo caras e bocas, imagem metalizada e, até mesmo o figurino, tudo remete a 300. Então, resta a pergunta: Por que alguém deveria assistir a alguma coisa que é, obviamente, uma cópia de segunda categoria?

Talvez por que a cópia não seja, afinal, tanta cópia assim, ainda que isso só fique evidente alguns episódios para frente.

Spartacus tem duas vantagens que levam facilmente (quase) qualquer espectador a continuar acompanhando a série: a atuação selvagem e perfeita de John Hanna no papel de Batiatus e a beleza da eterna Xena, Lucy Lawless, como Lucretia, sua esposa. Além disso, a série traz doses cavalares de nudez e sexo (em geral com mulheres lindas), momentos bastante engraçados e bizarros, e um profundo senso de irmandade – todas coisas que respeito. Então, da minha parte, resolvi tentar superar o trauma da cópia malfeita e continuar. E fico feliz por tê-lo feito.

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Lucy-Lawless-SpartacusNão que a série abandone qualquer uma das características inspiradas em 300 citadas acima – na verdade, ela até as acentua. Mas tudo torna-se tremendamente mais divertido com o passar do tempo. O espectador acaba se acostumando com o exagero, que se torna a principal característica estética da série, se diverte com os diálogos (muitas vezes os roteiristas brincam e colocam expressões coloquiais do dia a dia contemporâneo na boca dos romanos que viveram antes de Cristo) e se deixa envolver pelas maquinações políticas de um bando de hienas que querem devorar umas às outras e ascender ao poder de Roma.

A história é ambientada em Cápua e se passa praticamente inteira dentro de um Ludus (centro de treinamento de gladiadores) de propriedade de Batiatus, uma herança do seu honrado e renomado pai. É para lá que um escravo capturado na Tracia é levado, Spartacus, um homem de espírito indomável que subitamente se vê separado do amor da sua vida pelos romanos. Spartacus (interpretado por Andy Whitfield) tem potencial para se tornar um guerreiro poderosíssimo, contudo ele não quer saber de nada disso e se recusa a se submeter às vontades de Batiatus. Assim, dentro do Ludus, é que a verdadeira diversão começa.

Há um grupo enorme de gladiadores, “liderado” pelo galês Crixus (Manu Bennett), que jamais fora derrotado na arena. No começo, achei que a atuação de Bennett era forçada e chata, mas depois comecei a perceber certos nuances no personagem, o olhar, a expressão corporal, a voz sempre sussurrada, e concluí que o ator faz um grande trabalho com seu personagem, tornando-o muito mais do que uma máquina de matar perfeita. Aliás, cabe um parêntese dizendo que Bennett recentemente viveu o vilão Exterminador, na série do Arqueiro verde, Arrow.

post-107385-1319378866Todos no Ludus são treinados pelo cão fiel de Batiatus, o Doctore (Peter Mensah), que tenta manter os guerreiros na linha e prepará-los para a arena, e cuja participação vai crescendo gradativamente na série.

Batiatus levou seu Ludus praticamente à falência por causa dos seus excessos e da sua inabilidade como gestor, mas fará de tudo para recuperar os bons dias e superar as glórias que seu pai (a quem vive à sombra) obtivera. Sua esposa pede, escondida de seu marido, favores sexuais a Crixus, que por sua vez, ama a escrava pessoal dela, Naevia (Lesley-Ann Brandt). Claro que se Lucretia descobrir isso, todos estarão em maus lençóis.

Crixus pega birra imediatamente por Spartacus que, por sua vez, quer a qualquer custo tirar a vida de Glaber (Craig Parker), o Pretor que invadiu a Tracia e o capturou. Glaber aparece pouco nesta primeira temporada, mas sua ofídia esposa Ilithyia (Viva Bianca) desempenha importante papel na trama. Em poucos episódios, uma enorme intriga está armada, envolvendo todos das maneiras mais sórdidas e intrincadas possíveis.

A primeira temporada, chamada Sangue e Areia, acaba com um banho de sangue empolgante e inimaginável, e com uma enorme reviravolta na história.

Para a segunda temporada, um problema grave irrompeu. O protagonista Andy Whitfield foi diagnosticado com um linfoma em 2010, e deu início imediato ao tratamento. Disposta a esperar sua recuperação, a produção resolveu filmar uma minissérie em seis episódios chamada Deuses da Arena, que se passa antes dos eventos de Sangue e Areia e narra a ascensão de Batiatus ao poder. A recepção do público foi boa (mesmo sem a presença do personagem principal), mostrando que os roteiristas e produtores haviam criado um universo coeso e atraente que, de certo modo, era independente do seu protagonista. O herói destes episódios é Gannicus (Dustin Clare), um gladiador que fora verdadeira uma lenda antes da chegada de Crixus e Spartacus e que havia conseguido sua liberdade. A série é tão boa quanto a primeira temporada e potencializa tudo, desde os palavrões até as cenas de sexo, incluindo muito sangue falso, as tramoias e boas lutas na Arena.

spartacus_blood_and_sand_2010_2722_posterInfelizmente, Andy Whitfield faleceu em 2011, devido a complicações da sua doença e, para a segunda temporada da série, Vingança, os produtores o substituíram pelo ator Liam McIntyre, cujo carisma é relativamente menor que o de Andy, mas que ainda assim consegue fazer um bom trabalho. Eles também apostaram no sucesso de Gannicus e trouxeram o personagem de volta, criando espaço para todos brilharem na trama.

Embora demore a engrenar e, por volta do episódio três e quatro fique um pouco pedante, essa segunda temporada chama a atenção quando o personagem Glaber decide parar de se esquivar e de ficar por baixo perante sua esposa (que maquina nas suas costas) e o Senado de Roma, e mostra sua verdadeira cara. É quando o ator Craig Parker dá um show. Ele se torna um monstro perigosíssimo e implacável. Sua presença é a melhor coisa dessa temporada e cada vez que ele aparece, não dá para desgrudar os olhos da tela. O personagem Spartacus se perde em discursos chatos (e excessivos), decisões arbitrárias, um idealismo que beira a cafonice, e irrita pela forma com que trata a jovem e bela Mira (Katrina Law), escrava que está apaixonada por ele. Ainda assim, de quando em quando, ele se redime com o público, ao agir como verdadeiro herói, lembrando por que viemos a gostar dele em primeiro lugar.

O final da segunda temporada está entre os melhores já produzidos em séries de ação da televisão norte-americana. Sem exagero. É brutal, visceral, não faz concessões, muito bem filmado e épico! A cena envolvendo Lucretia e Ilithyia ficará gravada na mente de todos que assistirem, tamanha a audácia da produção. Fica, portanto, a dica para todos que quiserem conhecer uma série que nem de longe tenta ser uma recriação acurada dos tempos de Roma (como é o caso da minissérie homônima), mas que empolga e funciona como bom entretenimento, regada à sexo, violência e intrigas, com boas atuações e uma produção razoavelmente bem cuidada.

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Kubrick e a Literatura

Woody Allen, ou melhor, um personagem interpretado por ele, o que é quase a mesma coisa, afirmou que “Bergman é o único gênio do cinema”. Em se tratando de Allen não podemos dizer que é um erro, mas um exagero retórico. O cinema, apesar de ter sido inventado à apenas pouco mais de cem anos, sendo uma “arte” ainda jovem, já teve seu quinhão de gênios genuínos e farsantes geniais, reis nus, mas também monarcas elegantemente vestidos.

Admiro imensamente Bergman, Lean, Welles, Coppola, Scorsese, Visconti, Tarkovski, Kurosawa e ao próprio Woody Allen, porém, o maior cineasta de todos os tempos foi Stanley Kubrick. Ele reunia apuro técnico e profundidade psicológica de modo incomparável. Perfeccionista, realizou apenas quatorze filmes em quarenta e nove anos de carreira, contando o curta-metragem sobre boxe Day of the Fight, de 1950, e sua estreia semi-amadora em longas Fear and Desire, de 1953.

Sua filmografia é um desfile de obras-primas. Quase sempre adaptações literárias. Um dos talentos de Kubrick estava em melhorar os enredos que inspiravam seus filmes. Escreveu um roteiro original para A Morte Passou por Perto (1955), mas já em O Grande Golpe (1956) partiu de um romance pulp intitulado Clean Break, de Lionel Break. Glória Feita de Sangue (1957) saiu diretamente dos livros de História franceses.

Atuando como diretor contratado, não teve controle sobre o roteiro de Spartacus (1960), escrito por Dalton Trumbo, mas conseguiu entregar um filme tão instigante quando o best-seller de qualidade de Haword Fast. Em Lolita (1962) foi tão longe quanto poderia ir para os padrões morais da época, sem trair o clássico de Nabokov. Dr. Fantástico (1964) saiu de um livro-tese sobre a Guerra Fria, chamado Alerta Vermelho, de Peter George, onde o humor involuntário produzido pelos militares norte-americanos acabou transformando drama em comédia.

A inspiração para 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968) foi o conto A Sentinela, de Artur C. Clark, mas o livro homônimo seria escrito paralelamente ao roteiro, para dialogar e expandir o universo do filme. Reza a lenda que Kubrick recusou assinar o romance em co-autoria com Clark. Homem de cinema, autor ou co-autor de seus roteiros, não alimentava pretensões literárias.

Em Laranja Mecânica (1971) filmou o ultra-horror-show romance de Anthony Burgess, substituindo seu final redentor por um desfecho cínico e pessimista. Em 1975, impossibilitado de produzir um épico sobre Napoleão, Kubrick adaptou o clássico da literatura picaresca Barry Lyndon, de W. M. Trackeray, transformando seu protagonista em um personagem trágico. Seu desafio seguinte foi dar densidade dramática a um verborrágico romance de suspense de Stephen King, criando o perturbador O Iluminado (1980) com o ator que encarnaria seu Napoleão, Jack Nicholson. Nascido Para Matar (1987) veio na seqüência, potencializando a narrativa realista do livro de memórias The Short-Times, do veterano da Guerra do Vietnã Gustav Hasford.

Infelizmente, o último trabalho da carreira de Kubrick não foi um canto do cisne, mas um monumental elefante branco intitulado De Olhos Bem Fechados (1999), inspirado no freudiano Breve Romance de Sonho, de Arthur Schnitzler. Pela primeira vez, desde seus tempos de artista em formação, Kubrick errou duplamente: o livro é muito melhor do que o filme e o filme em si é, nitidamente, imperfeito. Como explicar isso? Freud explica. Ou melhor, citando Robert E. Howard, “isso é outra história”.

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]