Jogos Letais – Crítica

Já faz um tempo que quero escrever um texto sobre Van Damme e tendo acabado de assistir seu último filme, o ótimo Jogos de Assasinato, senti que este seria o pretexto ideal. Antes de ir direto ao longa, quero fazer um longo parênteses para falar um pouco sobre a carreira do belga.

Van Damme tem diversas fases em sua filmografia. Em seu quinto filme, Retroceder Nunca, Render-se Jamais, ele fez o papel do vilão e apesar de ficar pouco em cena, chamou a atenção, o que lhe valeu o papel principal em O Grande Dragão Branco, biografia do lutador Frank Dux. No filme, Van Damme pode contracenar com grandes lutadores e mostrar do que era realmente capaz. Na época ele era recém saído ainda dos campeonatos de karate na Europa e estava em plena forma. Com Van Damme, vimos coisas que ninguém havia feito antes, o que incluía as voadoras e giratórios mais bonitos da história do cinema.

Em seus primeiros anos, o ator fez muitos filmes B, vários para a extinta Golan-Globus, contudo foi uma grande fase. Se essas produções pecavam pelos orçamentos apertados e precariedade, eram ao menos criativas, com boas cenas de luta e ação, um apelo dramático razoável, e sempre traziam algo de novo ao gênero. A verdade é que Van Damme foi o grande responsável por colocar as artes marciais na moda novamente no final da década de 1980, e se por um lado ele nunca foi um astro de ação tão grande quanto Arnold Schwarzenegger e Sylvester Stallone, por outro estava bem à frente dos demais (com exceção, talvez de Steven Seagal). Desta época podemos citar Cyborg – o Dragão do Futuro, Kickboxer – o Desafio do Dragão, Duplo Impacto, Garantia de Morte e Leão Branco – Lutador Sem Lei. Todos filmes sem profundidade, mas que se tornaram pequenas pérolas preciosas e favoritos dos aficionados por filmes com temática marcial.

Na entrada dos anos 90, Van Damme estava no auge e seus filmes modestos deram um salto para superproduções. É o caso de Soldado Universal (primeiro grande sucesso de Roland Emmerich), O Alvo (filme que foi responsável por levar John Woo para os EUA), Vencer ou Morrer (excelente drama no qual ele contracena com Rosanna Arquette), Timecop – o Guardião do Tempo (uma intrincada ficção científica cheia de efeitos especiais e baseada e uma história em quadrinhos), Street Fighter – A Última Batalha (que apesar de ser péssimo, custou um bom dinheiro e adaptou o famoso game) e Morte Súbita (seu último grande filme da boa fase).

Van Damme era sinônimo de boas produções de ação (e boas bilheterias), porém daqui para frente, entrou em um vertiginoso declínio. Sua estreia como diretor em Desafio Mortal foi decepcionante, ainda mais quando ele alardeava aos quatro ventos que iria fazer o maior filme de artes marciais de todos os tempos, que superaria até mesmo Operação Dragão – o clássico de Bruce Lee. Risco Máximo e O Legionário foram filmes razoáveis que se perderam no festival de besteiras que ele participou, como A Colônia, Golpe Fulminante, Inferno e Soldado Universal – o Retorno (este último uma verdadeira lástima que testa a paciência até do fã mais xiita). Replicante e Agente Biológico foram novas bombas e quando ele lançou um filmaço em 2003, In Hell, com uma atuação contundente, direção visceral e roteiro profundo, ninguém quis assistir.

A má fase continuou e nos anos seguintes o belga se envolveu com uma série de produções descartáveis todas feitas diretas para o mercado de DVD. Ele tentou repetir a fórmula de sucesso de O Alvo e importou vários diretores orientais, sem sucesso algum. Sua vida pessoal já vinha naufragando há algum tempo com problemas com drogas, escãndalos e litígios, de forma que o ator parecia destinado a desaparecer. Os anos de abusos cobraram seu pedágio, sua fisionomia envelheceu bastante deixando marcas profundas no rosto e corpo. Van Damme estava no fundo do poço.

Então, em 2008, veio a grande virada com JCVD, co-produção entre França e Bélgica na qual o ator interpreta a si próprio e performa um verdadeiro exorcismo de todos os seus demônios diante das câmeras. O filme foi ovacionado por público e crítica, emocionou até os detratores do astro, e o colocou de volta no mapa. Van Damme anunciou que dali para frente cuidaria de sua carreira com cuidado e só faria bons filmes. Quando ele recusou um papel em Os Mercenários ao lado de Stallone para fazer Soldado Universal 3 – A Regeneração, todos logo disseram que JCVD havia sido um golpe de sorte e que o baixinho devia estar era maluco. Claro, todos disseram isso até ver o filme, uma pancada do começo ao fim, que se revelou uma das grandes surpresas do ano. Com roteiro coeso, direção inspirada e lutas fenomenais, o filme mostrava que o baixinho ainda tinha muito a oferecer, mesmo no quesito ação.

Van Damme voltou à cadeira de diretor de forma competente com The Eagle Path, fez uma ponta em Kung Fu Panda 2 dublando a voz do Mestre Croc, e em 2011, lançou este Jogos de Assassinato, comprovando que a virada pretende ser permanente. Agora sim, vamos ao filme.

Dirigido por Ernie Barbarash (Cubo Zero) e com um orçamento de apenas oito milhões de dólares (baixíssimo para os padrões de Hollywood), este filme mostra como ainda hoje é possível fazer bons longas de ação à moda antiga, sem que eles pareçam datados.

Não há mocinhos em Jogos de Assassinato. Mesmo. Nenhum. Van Damme é o mocinho, porém ele é ruim que nem o Diabo, então dá para imaginar os vilões. Há estereótipos; os policiais corruptos são corruptos prá valer e passam por cima de toda e qualquer autoridade; o mafioso que sai da cadeia é, como diria Dee Snider, a Sick-Mother-Fucker; a prostituta vizinha é uma jovem atormentada que quer mudar de vida, mas indicará um caminho de redenção para o protagonista (ou não); mas nada disso impede que a trama se desenrole de forma inteligente, nem faz com que você perca o interesse.

Na história, o ator interpreta um assassino profissional chamado Vincent Brazil; quieto, calmo e reservado, ele é extremamente competente no que faz, perfeccionista e obsessivo. Vincent é contratado para matar um criminoso chamado Polo Yakur (Ivan Kaye), recém saído da prisão. O que Vincent não sabe é que Polo foi solto a mando de agentes corruptos da Interpol que querem usá-lo para atrair outro alvo, Roland Flint.

No passado, Flint havia se infiltrado na organização de Polo onde atuou por dois anos. Suas investigações levaram ao desmantelamento da organização e à prisão de Polo, porém antes que a polícia o pegasse, este foi até a casa de Flint, violentou e espancou sua esposa, deixando-a em um profundo coma e só não matou Flint por que a polícia chegou a tempo. Polo foi preso e Flint desapareceu com sua esposa catatônica e uma fortuna de dinheiro da Interpol. Não vemos nada disso, apenas construímos a história por meio de alguns rápidos flashbacks e fragmentos de informação; mas é o bastante. O caso é que os agentes corruptos querem ao mesmo tempo apagar suas pistas fazendo uma queima de arquivo, e reaver o dinheiro, então soltam Polo de uma prisão na Ucrânia como isca para desentocar Flint.

Intrincado? Não se preocupe, fica pior quando Vincent e Flint acabam cruzando o caminho um do outro (claro, eles têm o mesmo alvo), se atrapalham mutuamente e no final decidem forjar uma tênue aliança.

Van Damme está muito bem no papel de um assassino que não faz o tipo atormentado, muito pelo contrário, aceita plenamente quem ele é e o que faz. Seu personagem carece de qualquer relação humana, qualquer conexão com sentimentos (muito bem expresso na cena do beijo) ao ponto de ele se comparar a um médico em determinado momento. Em sua mente, ele cumpre um dever, nada além disso. Quando a história dá uma reviravolta totalmente inesperada, Vincent questiona pela primeira vez seus valores: de que vale viver, se a pessoa for incapaz de sentir.

A trama paralela que envolve a vizinha dele não é babaca e, eventualmente, contribui para o andamento da história – isso sem contar que gera um momento chocante. O filme usa o tempo todo um filtro marrom claro, que dá a impressão de ser uma película antiga, desgastada e fria – como o próprio Van Damme. A trilha sonora é excelente, melancólica, opressora, e ajuda a nos arrastar para esse mundo sórdido onde não se pode confiar em ninguém. Flint, interpretado por Scott Adkins, não é mero apoio para Van Damme. Seu personagem é bem desenvolvido (talvez até mais que Vincent), suas motivações e a razão de sua obsessão; ele ama sua esposa, mas continua sendo um homem duro e bruto, disposto a sair da segurança do anonimato em prol de perseguir uma vingança. Seu tempo em tela é quase tão grande quanto o do próprio Van Damme, a exemplo do que ocorre em Soldado Universal 3, no qual o astro divide seu espaço com outros atores. Ao que parece Van Damme deu uma boa mordida na torta de humildade e aprendeu sua lição.

As lutas são poucas, porém bem coreografadas, com destaque para o violento embate entre Flint e Vincent. Os que esperam ação vertiginosa e descerebrada correm o risco de se decepcionar; os que buscam um thriller sério com elementos realistas, provavelmente adorarão. Se após JCVD, a intenção de Van Damme era fazer bons filmes, ele está conseguindo.