Face Oculta – Política e aventura na melhor tradição fumetti

Face Oculta (Volto Nascosto, no original) trata-se de uma série dividida em 14 volumes criada por Gianfranco Manfredi (autor de O Mágico Vento) lançada em outubro de 2007 na Itália pela Sergio Bonelli Editore.

O protagonista da história é Ugo Pastore, filho de um bem sucedido comerciante italiano que vai até a Etiópia fazer negócios com a corte regente. Lá, o garoto começa a se indignar com as péssimas condições sociais da colônia, comportamento esse que acaba chamando a atenção do líder dos rebeldes locais, Face Oculta. Manfredi aproveita esse contexto para lançar uma ácida visão crítica sobre o sistema colonial italiano, de forma que não se poupa de retratar as mazelas que cercaram a ocupação. O próprio Manfredi na introdução da edição explica que o contexto histórico é verídico e a ficção se apoiou bastante nesse contexto histórico.

De fato, o contexto geopolítico por trás da ocupação italiana à Etiópia é muito importante para a trama. Fatos como o expansionismo italiano durante o século XIX e o Tratado de Wuchale (que lançou as bases para a cooperação comercial entre os dois países) são essenciais para a construção da história.

face-oculta-pags (2)

A opção da Panini de lançar a série agora no Brasil é ótimo para o mercado de bancas, posto que ele carece de material de qualidade fora do eixo EUA-Brasil. Além disso, trata-se de uma história singular, que envolve política e ação, coisa muito pouco abordada nos quadrinhos. O cenário também não deixa de ser interessante: a Etiópia. É um barato ver a retratação da corte italiana, dos desertos e das cidades coloniais, formando um conjunto de elementos que enriquecem ainda mais a história e os personagens.

face-oculta-pags (1)A trama é repleta de diálogos interessantes, especialmente um em que Ugo explica para Face Oculta a história da origem de Roma (aquela mesma do Rômulo e Remo). Além de toda a tensão que envolvia a passagem, impressiona a forma como essa história vai se relacionar com o transcorrer da cena. Nos diálogos ainda é possível extrair aspectos da cultura de repressão e descaso das autoridades italianas para com os nativos. Durante tais passagens, praticamente assumimos o ponto de vista de Ugo, e junto com ele o leitor se horroriza com todo o cenário existente. Ao contrário do que poderia se esperar, Manfredi se manteve afastado de uma abordagem maniqueísta do conflito, de modo que o colonizador seria o mau e os nativos bons. Nada disso. Os rebeldes, por exemplo, usam de métodos bastante questionáveis como forma de resistência. Enfim, a reflexão nesse ponto pode partir para as mais diversas abordagens.

O resultado foi uma história ágil, interessante e com uma arte bem feita de Goran Parlov (Nação Fora-da-Lei, de Jamie Delano). A edição feita pela Panini é muito boa, ao passo que se valeu de um formato diferenciado (16 x 21 cm), capa cartão, miolo papel off-set (diferentemente do papel jornal geralmente usado nos fumetti), bem como de uma introdução escrita pelo próprio Giancarlo Manfredi que serve como uma espécie de carta de intenções para a série.

A única reserva no momento é a indefinição da Panini quanto a periodicidade do título, cuja segunda edição já foi lançada, mas os demais continuam incertos. Fica então a torcida para que o título tenha sucesso e o ritmo de publicação se mantenha, pois Face Oculta se revelou uma das melhores revistas periódicas lançadas atualmente pela editora, junto com o mangá Monster e o mix Vertigo.

face_ocultaFace Oculta #01 – Os Saqueadores do Deserto (Volto Nascosto #01 – Eu predoni del deserto)

Nota I 8,5

Sergio Bonelli Editore | outubro de 2007

Panini Comics | novembro de 2012

Roteiro: Gianfranco Manfredi

Arte: Goran Parlov

Capa: Massimo Rotundo

Compre aqui!

 

Encontre mais artigos como esse no site Dimensão Nona Arte.