Para Jogar: L.A. Noire

A palavra “inovação” é regra para qualquer game desenvolvido pela Rockstar. Em jogos como Grand Theft Auto (GTA III, Vice City, San Andreas, etc), apesar de a estrutura básica ser a mesma, em cada sequência você tinha a sensação de estar participando de uma experiência completamente inédita. Não precisamos nem entrar em detalhes sobre Red Dead Redemption, não é? Em L.A. Noire a empresa resolveu dar novo significado para “inovação”: um conto de detetive passado na Los Angeles dos anos 40, desenvolvido e criado nos moldes do cinema noire, com o objetivo de resolver crimes através de interrogações e com tecnologia ainda não utilizada em games.

Que os artistas gráficos de games conseguiram aperfeiçoar objetos como carros, prédios e também a luz natural já não é novidade. Mas algo que ainda não conseguiram atingir foi um rosto humano realista o suficiente ao ponto de confundir o olho do gamer. Na maioria das vezes, o mais realista que se chega são as cenas de apresentação do jogo. Em grande parte de L.A. Noire, a Rockstar conseguiu confundir meu olho o suficiente para me prender no enredo do game e me sentir familiarizado com os personagens dessa história realmente memorável. Eu fui muito cético quando os rumores começaram a surgir sobre o “realismo impressionante” do game e, assim como nosso amigo Bruno Zago mordeu a língua com X-Men: First Class (eu também!), eu praticamente arranquei a minha língua fora quando vi a qualidade gráfica facial do jogo.

Todo esse cuidado e precisão com a qualidade facial não e só para impressionar. Interpretar mentiras, medos, verdades e as mais diversas emoções humanas na expressão dos personagens de L.A. Noire são indispensáveis para a solução do game durante as extensivas interrogações. Além de interrogar testemunhas, fica encarregado a você examinar a cena do crime, fazer uso das evidencias para pegar suspeitos na mentira entre outros inúmeros fatores durante o desenrolar do jogo que devem ser levados em conta para a resolução de um caso.  Isso tudo nem é a parte mais divertida do jogo: são apenas elementos metódicos misturados em aspectos tradicionais de jogos da Rockstar. Antes, durante e depois das interrogações, você se vê no meio de uma perseguição pelos prédios de Los Angeles tanto de carro quanto a pé, tiroteio em terceira pessoa e até sair no tapa com testemunhas. Realmente não da para categorizar L.A. Noire em uma única categoria.

Quando a narrativa é o motor da história, o enredo tem a obrigação de ser impecável. O tipo de enredo que introduz personagens excepcionais e segura a atenção do jogador. Do momento em que você, na pele de Cole Phelps, passa de guardinha de rua que decide burlar as regras para desvendar um caso até virar detetive, a história segue um ritmo muito bem executado, cheio de viravoltas, mini-mistérios e flashbacks da história central que deixam qualquer um nas pontas dos pés tentando decifrar o que realmente esta acontecendo. Alguns mistérios são simplesmente bizarros.

Com a tecnologia Motion Scan, a variedade de personagens e suas características únicas nunca enjoam. Graças a essa captação facial, os atores ficaram livres para atuar de maneira poderosa e convincente nunca antes presenciada em games. Fica muito fácil esquecer que tem um controle em suas mãos durante os diálogos tamanho é o realismo dos personagens. Simplesmente não existe game com uma estrutura cinematográfica melhor.

É claro que a nova tecnologia é provavelmente o fator de L.A. Noire que mais chama atenção, o que não quer dizer que houve detrimento de outros aspectos. A era pós-guerra em que o enredo do game se encontra foi recriado com o máximo de atenção aos detalhes. Veículos, vestimentas, arquitetura e até expressões idiomáticas são meticulosamente executadas.

Você ganha pontos por extrair respostas verdadeiras dos suspeitos seja na intimidação ou apostando na consciência pesada das testemunhas. É o tipo de jogo que exige muito do seu cérebro e principalmente da sua malícia na hora de interpretar linguagem corporal em geral. Cada caso pode terminar de várias formas. Em alguns casos, seu questionamento pode levar um suspeito a entregar tudo o que ele sabe sobre o assunto e em outros, você pode acabar por deixar a testemunha insultada e ela se fecha e resolve só abrir a boca com um advogado do lado. No final de cada fase, você é informado do que poderia ter feito para conseguir as respostas de maneira diferente.

L.A. Noire realmente cumpre o que prometeu: inovação irrevogável no mundo dos games criando um ponto de referência para futuros desenvolvedores. Enredo excelente, atores que interpretaram muito bem seus personagens e tecnologia realmente inovadora são o que fazem deste jogo um marco. Uma experiência excepcional que realmente deve ser jogada para confirmar todo seu potencial.

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Leonardo Chacel é formado em Publicidade. Depois de cinco anos como livreiro, chutou o pau da barraca e virou tatuador e gamer porque jogar e desenhar é o que faz de melhor. Além de escrever sobre games para o P&N escreve sobre música (só as boas) em seu blog Overdose Contínua.