Apocalipse Now Redux – Genial Elefante Branco

Nos últimos anos surgiu uma moda entre os diretores de cinema, em grande parte devido ao mercado do DVD. Relançar seus antigos filmes de sucesso modificados, a chamada “versão do diretor”. As obras reeditadas recebem esse nome porque seriam as versões que os diretores pretendiam lançar originalmente e não puderam, devido a pressões do mercado, falta de tecnologia para dar forma a sua imaginação ou mesmo tempo hábil para trabalhar. Os resultados costumam gerar polêmica. Se positivos ou negativos depende muito da visão de cada espectador.

Os exemplos falam por si. Em Blade Runner – Caçador de Andróides, Ridley Scott retirou o constrangedor final “Pollyana” e a horrenda narração em off, mas em compensação incluiu uma confusa cena com um unicórnio com o chifre balançando, que significaria tolamente que o próprio caçador de andróides é também um andróide, diluindo uma das principais idéias do filme: o choque do homem com os monstros de sua própria criação, as máquinas. No novo Guerra nas Estrelas, agora chamado de Episódio 4 – Uma Nova Esperança, George Lucas teve um arroubo politicamente correto e modificou a cena na qual o bom canalha Han Solo atirava a sangue-frio em um mercenário alienígena (chamado Greedo) em pleno boteco espacial. Agora Greedo atira primeiro e o bonzinho Solo apenas se defende, tendo a infelicidade de matar seu adversário. O mesmo aconteceu com Steven Spielberg que transformou digitalmente em walk-talkies os revolveres dos agentes que perseguem o E.T. Finalmente, temos O Exorcista, onde William Friedkin incluiu cenas novas que aprofundam os personagens, colocando-as ao lado de imagens de capeta aparecendo em cantos escuros dos cenários, num efeito que parecem meros exibicionismos técnicos, introduzidos unicamente para agradar as platéias do novo milênio, acostumadas com os sustos fáceis da computação gráfica.

Outro exemplo é Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola. O filme foi lançado originalmente em 1979, depois de filmagens infernais e longuíssimas sessões de edição igualmente horrendas. O “work in progress” de Coppola chegou a ganhar o apelido de “Apocalipse Never”, pois parecia destinada a jamais ver a luz do sol. Felizmente, não foi o que aconteceu e o mundo foi brindado com um dos dez melhores filmes do todos os tempos, ganhador da Palma de Ouro em Cannes. Vinte e dois anos depois, Coppola lançou uma nova versão de seu clássico de guerra, que chamou de Apocalipse Now Redux, afirmando ser este o filme que teve medo de mostrar em 1979, diante de tanta pressão. A quem interessar possa: redux é uma palavra latina que significa “renascido”, “de volta”.

Nenhuma “versão do diretor”, até hoje, foi tão radical. Foram acrescidos 53 minutos. O resultado é um filme muito diferente, tanto no ritmo quanto no tom. Se é melhor ou pior, como escrevi acima, é uma questão polêmica. O fato é que até então não vi nenhuma crítica negativa. A aceitação parece ser unânime. Ou quase unânime. Eu me decepcionei. Acho que Apocalipse Now Redux é uma obra de arte maculada por um ataque de megalomania. Um elefante branco. Um elefante branco genial é verdade, pois há muito de bom na nova versão e, de resto, o material original é tão brilhante que nem colocando pagodeiros e apresentadoras de programas infantis em participações especiais, como fazem Didi e Xuxa, conseguiriam estragá-lo completamente.

Vamos aos fatos. No caso, os fatos são as modificações feitas.

As primeiras são quase irrelevantes. Uns poucos segundos mostrando o coronel Kilgore, imortalizado na interpretação vigorosa de Robert Duvall, ajudando alguns vietnamitas feridos pelo ataque de sua cavalaria aérea. Na seqüência o que temos é uma heresia. Kilgore é despido de toda sua aura épica e alucinada e é transformado em um idiota comum, um estereótipo sem qualquer profundidade psicológica., raso como um pires, na cena em que Lance, o soldado surfista, recusa-se a surfar nas ondas estragadas pelo napalm e foge levado pelo capitão Willard, de Martin Sheen, que aproveita para roubar sua prancha. Na última vez em que aparece de fato está tendo um chilique, jogando um megafone para o alto. Na versão de 1979, saia de cena de forma magnífica. Dizia “adoro o cheiro de napalm pela manhã. É cheiro de vitória… (e depois completava desconsolado) Um dia esta guerra vai acabar”. Um corte seco e, em seguida, tínhamos Willard, em sua narração em off, respondendo-lhe que sim, que aquela guerra iria acabar um dia e que isto é tudo o que os soldados comuns esperam: voltar para casa. As duas falas permanecem, mas tão distantes uma da outra que perdem sua relação intrínseca. No lugar ficou o bobo roubo da prancha que, se por um lado, é divertido, por outro nada acrescenta ao filme.

Em seguida, logo após o show das coelhinhas da Playboy, temos um solo do senhor Limpo, do então jovem Laurence Fishburne, onde ele narra a história de um sargento americano que matou um tenente vietnamita aliado porque o “amarelo” estragou sua revista pornográfica. É o acréscimo mais significativo em minha opinião. Nele fica patente todo o preconceito que os soldados americanos tinham contra os orientais, fossem aliados, fossem inimigos. Mais determinante do que o lado da trincheira é a cor da pele. Notável o fato de que o porta-voz do preconceito racial nessa cena é um negro pobre e iletrado. Brilhante ironia.

Infelizmente, a felicidade da inclusão desta cena serve de gancho para a seqüência mais gratuita do filme: o encontro sexual com as coelhinhas. Antes de tudo, é preciso admitir que esta seqüência é bastante espirituosa, patética no bom sentido, lembrando o fantástico Mash, de Robert Altman. O problema é que destoa do restante do filme. Por quê? Simples: fica parecendo que o barco do Patrão é o único que percorre o rio. Tudo acontece com eles. Lembremos o fato de colocaram Willard para percorrer o rio de barco justamente para que passasse desapercebido. Onde fica o sentido do disfarce? É um pressuposto básico do enredo. Ademais, sejamos sinceros, na cabeça daqueles soldados, depois de um encontro com a playmate do ano, que impacto teria o encontro com o balofo coronel Kurtz? Ele simplesmente se tornaria irrelevante, corriqueiro. Enfim, esta parte é tão descolada do conjunto que só serve para mostrar onde Lance conseguiu sua maquiagem de camuflagem. O que, convenhamos, é muito pouco.

Mas o pior vem depois, a longa seqüência da plantação francesa. É um verdadeiro banho de água fria. Corta completamente o ritmo acelerado que o filme de 1979 tomava, se preparando para chegar ao clímax. Morto o senhor Limpo, pouco depois morreria o Patrão. Sentia-se um clima de perigo no ar, antevendo a proximidade cada vez maior de Kurtz. É muito fácil defender essa seqüência apontando sua pretensa profundidade filosófica. O próprio Coppola comparou seus personagens com “fantasmas de Buñuel”, o que por si só serve como sua justificativa intelectual. Mas a verdade é que se trata de um equívoco. É um núcleo monótono, tagarela ao extremo e ilógico. A cena do jantar, por exemplo, é de uma artificialidade gritante. Todos os personagens saem da mesa de maneira teatral, em meio a discursos raivosos, com o único objetivo dramático de deixarem Willard e a viúva alegre sozinhos. Chega a ser constrangedor ver um cineasta do talento de Coppola se prestar a um recurso tão simplório para alcança seu objetivo. Aliás, os “fantasmas de Buñuel” deveriam ensinar a família de Scarlet O’hara o segredo de como se manter comendo com talheres finos e toalhas limpas em plena guerra, como se nada estivesse acontecendo.

De qualquer forma, o que vem a seguir é ainda mais inacreditável: a cena da sedução. Aqui se salta de um complexo drama de guerra para cair, inexplicavelmente, em um pornô soft estilo Emanuelle. O que significa dizer que temos em cena o estranho coquetel composto de discursos infindáveis, psicologia de almanaque, frases feitas, um pouco de drogas para parecer transgressor e, como cereja do bolo, nudez discreta e chique. Resultado: agora entendemos porque Willard queria tanto voltar para selva, depois de assinar o divorcio. Ela mais parece um bordel para recém-separados. Há sexo fácil para todo lado. E olha que na versão de 1979, Willard e seus rapazes ficavam em abstinência total.

Depois de muitas digressões, em que o efeito catártico do filme original praticamente se perde numa sucessão de quebras de ritmo, finalmente a equipe de atletas sexuais de Willard alcança a tribo pagã de Kurtz. O efeito não é mais o mesmo. Os incidentes ao longo da jornada foram tantos e tão improváveis que tiraram grande parte do impacto da chegada, antes apoteótica.

É onde temos a última e interessante inclusão. A cena onde Kurtz lê um trecho de uma reportagem da revista Time para Willard, seu prisioneiro. É muito boa, apesar de destoar das outras aparições de Marlon Brando, mostrado sempre no escuro, envolto no “coração das trevas”, para citar a novela de Joseph Conrad que inspirou a premissa do filme. É o tipo de imagem que trai o espírito do personagem, conforme delineado pelo diretor. Apesar de ser uma cena muita bem escrita, não tinha porque entrar na versão de 1979, e não entrou. O mesmo se poderia dizer da versão ano 2000, mas entrou. Certamente, Coppola mudou de idéia quanto a sua visão cinematográfica de Kurtz. Ou, simplesmente, não considera mais necessário esconder a obesidade de seu astro.

Certa vez Oscar Wilde disse que “a crítica é a única forma civilizada de autobiografia”. Nesse sentido, Apocalipse Now não é apenas um filme, é um acontecimento artístico que faz parte da vida de seus verdadeiros espectadores. Opinar sobre seus destinos é, portanto, um ato natural. Redux não é uma mera edição simplificada para a televisão ou uma “versão do diretor” em que quase nada muda. É, reafirmo, outro filme. Mais até, trata-se de uma  declaração de que o original, virtualmente, não tem mais validade. Segundo Coppola, “Redux”, “é a versão definitiva”. Claro que na posição de criador Coppola tem todo o direito de fazer o que quiser com sua obra. Eu, por outro lado, na condição de espectador, também tenho o direito de não concordar. Agora, só espero que Coppola, atual dono de vinícola, diretor de pérolas recentes como Jack e O Homem que Fazia Chover, virtualmente aposentado do cinema, não resolva mexer em O Poderoso Chefão.

Para terminar, respondo de público uma pergunta que me fazem com alguma freqüência. Logo no início de meu romance, Hirudo Medicinallis, ocorre uma cena em que o personagem principal, Lord Düsseldorf, entra em um cinema onde está passando o épico de guerra de Coppola. Qual versão? A obra-prima de 1979 ou o elefante branco genial Redux. Nem penso duas vezes. O original é o meu filme. Afinal, o apocalipse só pode mesmo estar chegando quando um homem de gênio decide modificar uma obra de arte intocável. Colocar um bigode na centenária, verdadeira e única Mona Lisa.

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]