Alvo Humano – Se não leu, leia!

Colaborador: Marcelo Santos Costa (@m_cello)

“Quem sou eu?”, questiona o narrador na primeira frase. “Sou uma reputação. Sou uma fotografia granulada de um homem com dois buracos negros de bala no lugar dos olhos”.

Chirstopher Chance nasceu como um personagem secundário para preencher a revista Action Comics ainda nos anos 70. Detetive particular e guarda costas profissional, Chance é mais conhecido como Alvo Humano por sua habilidade em personificar clientes que o procuram para protegê-los de possíveis ameaças.

Um pouco esquecido na arte sequencial e com um seriado para TV cancelado, o selo Vertigo da DC Comics resolveu revitalizar seu personagem com uma minissérie voltada ao público adulto no final dos anos 90.

O responsável seria alguém de certo peso que já tinha sido capaz de roteirizar seis anos seguidos o emblemático Shade, o Homem Mutável para o selo. Este homem era Peter Milligan, que deixou de lado o clichê “guarda costas de ação série-B” para explorar o perfil psicológico deste que vive de outras identidades para ganhar a vida.

Este encadernado lançado pela Opera Graphica traz o primeiro arco do quadrinho, no qual somos apresentados a uma série de dualidades que serão mais bem exploradas à frente. Dois personagens parecem contar a mesma história; a mudança de cor racial entre branco e negro; a questão do sexo heterossexual e homossexual; e, por fim, dois Christopher Chance em carne e osso frente a frente – o verdadeiro e o imitador.

Além na narrativa cativante, a primeira parte é repleta de pontos altos através dos desenhos de Edwin Biukovic. A sequência em que o reverendo Earl é alvejado em sua própria igreja é primorosa. Com os braços levantados em forma de cruz, ele leva uma arma em cada mão para terminar seu sermão.

Há ainda uma rápida referência ao Cavaleiro das Trevas, quando pequenos quadros emulam televisores que exibem o noticiário do dia. O traço noir de Biukovic é proposital e refere às atmosferas criadas pelo então desenhista da série 100 Balas, Eduardo Risso.

A seguir, a narrativa continua a se aprofundar na questão psicológica dos personagens. Somos apresentados a dois matadores de aluguel: Tom McFadden, parceiro e discípulo de Chance no disfarce profissional e Esmeralda, que assume o papel de executiva Emma para sustentar o marido e a filha.

Enquanto o primeiro se aprofunda tanto na interpretação do próprio personagem que acaba por perder os traços de sua própria quintessência; a segunda perde-se nas páginas de literatura que seu marido, aspirante a escritor, produz.

O emblemático reverendo Earl também passa por essa transformação. Mesmo servindo de exemplo à sociedade, combatendo o tráfico de drogas, não consegue esconder que já molestou garotinhas em sua própria igreja.

E aqui está a maior duplicidade até então: disfarçado de história adulta com bang-bang no selo Vertigo, Alvo Humano traz em sua superfície uma história violenta com questões de amizade, sexo e morte. Mas na verdade, seu âmago mostra o que há de mais comum no ser humano: os dois lados que todos nós temos.

Todo caminho que trilhamos pode levar a frutos bons e ruins, mas o mais importante são as nossas escolhas, o que escolhemos ser e parecer perante a sociedade – e o doloroso caminho da busca de identidade quando tentamos ser alguém diferente.

Um dos textos adicionais apresentados nesta edição explora a questão da dualidade de maneira sobrenatural. René Ferri, ex-tradutor e redator da OG, compara a história com a lenda mitológica alemã Doppelgänger, trazendo à tona casos conhecidos de pessoas que encontraram com o seu ‘duplo’ ou ‘cópia’ na vida real.

Mesmo contando com outros excelentes textos informativos e opinativos, de gente como Gonçalo Júnior e Rodrigo Salem, faltou um pouco mais de cuidado ao colocar esta obra no mercado.

O preço (R$ 50) é salgado, e pode afastar muitos curiosos. A edição conta com alguns erros ortográficos, uma costura mal realizada e uma impressão que não respeita os vedadeiros tons de cor.

Além do mais, é possível encontrar o mesmo arco de histórias na versão importada contendo o segundo arco por quase a mesma faixa de preços. Mesmo com a pisada de bola, a edição nacional é um investimento que pode agradar interessados nesta surpreendente história.

Título: Alvo Humano

Autor: Peter Milligan (texto) e  Edwin Biukovic (arte)

Editora: Ópera Graphica

Ano: 2006

Páginas: 116

Marcelo Santos Costa é editor do site EGW, colaborador do Universo HQ e da revista O Grito!.