Lanterna Verde: Crônicas – Publicação que Precisa Continuar

Lanterna Verde não é o nome de um personagem especifico, mas sim de um cargo. Existe a Tropa dos Lanternas Verdes, uma força policial intergaláctica encarregada de patrulhar e proteger todo o universo, composta por seres inteligentes oriundos de diversos planetas. O principal Lanterna Verde, considerado o maior dentre todos, é Hal Jordan, da Terra, responsável pelo setor espacial 2814.

O personagem Hal Jordan foi criado pelo roteirista John Broome e pelo desenhista Gil Kane em 1959, sob requisição do editor da DC Comics Julius Schwartz. O objetivo era revitalizar um esquecido nicho de super-heróis criado em décadas anteriores, porém introduzindo elementos de ficção científica, que era uma grande tendência na época. Assim, super-heróis antigos publicados durante a década de 40, ganharam uma nova roupagem e foram relançados com nova origem, novo uniforme e outra identidade.

O primeiro personagem a passar por essas mudanças foi o Flash. O velocista com capacete de asinhas conhecido como Jay Garrick (criado em 1940) deu lugar a Barry Allen, de uniforme vermelho e dourado, também criado por John Broome (em parceria com Robert Kanigher). Hal Jordan é a reformulação do primeiro Lanterna Verde, Allan Scott, cuja publicação havia sido interrompida em 1948. Foi o início do que hoje é conhecido como Era de Prata dos quadrinhos.

A primeira aventura do novo Lanterna se deu na revista Showcase 22. Na história, Harold “Hal” Jordan, um piloto de provas da companhia Ferris Aeronáutica, é encontrado pelo anel do alienígena Abin Sur, membro da Tropa dos Lanternas Verdes e encarregado do setor 2814, cuja nave espacial caiu no planeta Terra. Transportado até o moribundo Abin Sur pela energia verde, Jordan é incumbido de substituí-lo na tropa e recebe o anel dos Lanternas Verdes, a arma mais poderosa do universo, e também uma bateria em forma de lanterna ferroviária, na qual a força do anel precisava ser recarregada a cada 24 horas.

Utilizando-se da luz esmeralda do espectro emocional, o que corresponde à força de vontade de seu portador, o anel fornece o poder de conjurar qualquer coisa que a imaginação de seu detentor puder conceber, na forma de uma sólida energia verde. Concede também a capacidade de voar, criar campos de força, sobreviver no vácuo e compreender dialetos de qualquer espécie. De posse deste artefato, Hal Jordan se torna um dos maiores super-heróis da Terra e do universo.

Essas aventuras foram lançadas no Brasil em edições encadernadas de luxo chamadas Lanterna Verde: Crônicas, pela editora Panini. Até o momento saíram apenas dois volumes, um em 2009 e outro em 2011, aproveitando a estreia do filme da Warner. O capricho editorial desses álbuns é primoroso, com papel de qualidade, capa dura, boa diagramação, ideal para colecionadores que gostam de manter uma bela estante. Faltou apenas um conteúdo extra com explicações históricas da obra, nesse quesito temos apenas uma página no final com biografias rasas dos envolvidos com as histórias na época do lançamento.

É delicioso passar uma tarde conferindo essas ingênuas histórias da Era de Prata. Mesmo sendo curtinhas, fechadas e subordinadas a um rígido código de censura, elas transbordam originalidade. Dá pra imaginar uma criança pegando pela primeira vez um quadrinho desses em mãos no ano de 1959, não teria como evitar ser completamente fisgado e sair apaixonado pela revista. Aqueles seres de outro planeta, as naves, as invencionices do anel do Lanterna, os combates. O que hoje pra nós é simples, anos atrás era o ápice da diversão de jovens e até mesmo adultos.

O jeito de ler esses álbuns é absorver tudo com a mentalidade do período em questão. Adquirir essa coleção achando que irá curtir roteiros com complexidade e conceitos de hoje em dia, certamente resultará em decepção. Abra sua mente e seja testemunha de algumas das histórias responsáveis por gerar grandes nomes e gênios da nona arte décadas depois, que por sua vez fizeram de você um leitor e colecionador de quadrinhos. Sim, pois muitas das HQs que nos divertem hoje em dia são pensadas por pessoas que se encantaram com essas páginas de Crônicas e outras.

O traço de Gil Kane é um show a parte, mesmo para os padrões atuais. Faço uso aqui de um trecho do livro Quadrinhos no Cinema, de autoria do trio Pipoca e Nanquim:

“Seu vasto conhecimento de anatomia, expressões faciais e perspectiva permitiam que explorasse ângulos inusitados e posições inimagináveis para outros desenhistas. A performance de seu Lanterna Verde durante os voos era graciosa e elegante, como os movimentos de um nadador, com os cabelos esvoaçantes na direção do vento. Sua diagramação das páginas fugia do comum de seis quadros retangulares iguais, ele mudou a forma e o tamanho dos painéis para oferecer uma experiência mais visceral e emocional. A cena ditava a arte em vez de ser forçada a uma estrutura rígida de layout.”

Quadrinhos no Cinema Vol.1, págs. 91-92

Veja a capa de Green Lantern #2 ao lado e comprove você mesmo a habilidade de Kane em passar para o papel posições e ângulos além dos convencionais em um voo de Hal Jordan.

Os principais conceitos que conhecemos hoje em dia do Lanterna Verde foram concebidos nessas revistas. A Tropa, os poderes do anel, os Guardiões do Universo, a Bateria Central, o Planeta Oa, a energia verde da força de vontade, o vilão Sinestro, etc, tudo isso é de autoria de Broome, que sempre foi genial em contar histórias de ficção cientifica. Hal ganha o anel de Abin Sur em sua história de estreia, e três números depois aparecem os Guardiões pela primeira vez, já na primeira edição solo do personagem.

Toda a mitologia extraterrestre do herói foi ainda mais explorada (e expandida) por outros escritores após a década de 70, pois, mesmo com toda a riqueza desses elementos, no início suas aventuras eram mais embasadas no planeta Terra, em sua luta contra os vilões e pela conquista do coração de Carol Ferris (outro personagem com autoria de Broome), filha do diretor da empresa Ferris Aeronáutica, onde Jordan era empregado como piloto de provas. Das 13 histórias de Crônicas #1, por exemplo, somente duas são espaciais.

É uma penas que essa série esteja sendo lançada a conta-gotas aqui no Brasil. Em três anos tivemos apenas duas publicações, e pelo andar da carruagem, corremos o risco de nunca vermos a terceira. Na Argentina, a editora Planeta DeAgostini já publicou doze exemplares, com o mesmo esmero que as da Panini. Parece que os Hermanos dão mais valor a clássicos como esses.

Se você é um colecionador, perceba o valor dessas e outras coleções como Biblioteca Histórica Marvel e as adquira sem receio, pois acima de aventuras bobinhas e ingênuas, são pedras preciosas fora do estado bruto, por terem sido lapidadas para esse formato luxuoso. Compre, essa é uma publicação que precisa continuar.

Confira nosso especial sobre Lanterna Verde, com videocast e podcast.

Lanterna Verde – Crônicas #1

Editora: Panini Comics

Autores: John Broome (roteiro) Gil Kane (arte)

Preço: R$ 44,00

Número de Páginas: 168

Lançamento: dezembro de 2009

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Lanterna Verde – Crônicas #2

Editora: Panini Comics

Autores: John Broome (roteiro) Gil Kane (arte)

Preço: R$ 48,00

Número de Páginas: 168

Lançamento: junho de 2011

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Joquempô – Publicação que precisa continuar

Recentemente eu acompanhei uma série que passava no canal à cabo AXN chamada Flashforward. Vi muita gente criticando essa série na internet e, apesar de compreender as críticas, jamais concordei com elas. Por isso muito me surpreendeu quando soube que a série seria cancelada após a primeira temporada; ou seja, EU FIQUEI SEM SABER O FINAL DA HISTÓRIA.

Foi algo deveras decepcionante, como se Lost tivesse sido cancelada logo após os primeiros 20 e poucos episódios. Compreendo as questões mercadológicas que estão por trás da decisão de cancelar uma série, mas na condição de expectador (e fã), obviamente não as endosso.

Enfim, Flashforward me dava a impressão que mal havia começado a esquentar e BUM, foi cancelada. A mesma sensação eu tenho com esta grande revista publicada pela Devir, Joquempô – exceto que neste caso, ela não foi cancelada, o segundo número apenas não saiu. E isso é frustrante, pois comecei a ler Joquempô, uma HQ escrita por Rogério Vilela e desenhada por Nelson Cosentino, sem nenhuma expectativa, contudo fui arrebatado pela trama e, quando tudo parecia prestes a engrenar, BUM, a história acaba – o que nos deixa ansiosos pelo próximo volume. Enfim, Joquempô PRECISA CONTINUAR.

A trama deixa o leitor meio em desespero ao não entregar quase nada sobre o que está acontecendo, mas tudo começa com um quadrinhista que acorda de um coma de três anos e meio. É o ano de 2014, a Copa do Mundo no Brasil está chegando (e Ronaldinho é o técnico da seleção), o carnaval foi estendido por 10 dias, Hugo Chavez é uma ameaça quase fora de controle, tudo isso (e muito mais) narrado por meio de telejornais num recurso similar ao que Miller usa em Cavaleiro das Trevas para ambientar a história.

Anjos e demônios (ou ao menos parecem ser) aparecem e desaparecem interagindo com os personagens da trama, enquanto Marcel, nosso quadrinhista, é envolvido à sua revelia em uma espécie de jogo envolvendo numerologia e enigmas – tudo maravilhosamente bem narrado e desenhado. Joquempô tem grandes chances de se tornar algo realmente importante na história do quadrinho nacional – claro que, para isso, ele tem que continuar.

Sua trama parece ser tão complexa quanto a das séries que citei – Lost e Flashforward – mas não se engane ao pensar que trata-se apenas de uma coleção de retalhos e referências. O autor teve um grande trabalho de pesquisa em cima dos temas que aborda e isso fica claro a cada quadro, sendo que vários deles guardam boas surpresas, revelando coisas que o texto não conta. É preciso estar atento para perceber.

Joquempô é mais uma HQ que se deu bem ao receber o incentivo do Proac – o que me deixa bastante feliz ao ver que produções de qualidade estão resultando desse incentivo do governo. A qualidade da impressão é boa e a ilustração da capa eu acho sensacional, apesar do verde brilhante esquisito atrás do logotipo que não tem um grande apelo comercial e na verdade espanta os leitores, pois dá uma cara de “amador”. Não se engane com esse verde feio da capa, Joquempô não tem nada de amador. É uma história madura e penetrante, que merece ser conhecida – e continuada.

Isaac, o Pirata – Publicação que precisa continuar

Se você é uma pessoa como eu, que além de ler quadrinhos tem mais outras mil coisas pra fazer, você vai pegar o álbum Isaac, o Pirata, da Conrad, dar uma ligeira folheada e se deparar com mais de 200 páginas cheias de quadros e balões, calculando com isso que levará pelo menos uns dois dias para acabar a leitura. É aí que você vai se surpreender, como eu. A leitura é tão prazerosa que flui rapidamente e te mantém preso a obra, incapaz de abandoná-la antes de chegar ao final.

Em um breve resumo, trata-se da história de Isaac, um pintor em inicio de carreira e noivo de uma bela mulher, que nutri desejos de se aventurar pelo mar e ficar reconhecido por pinturas que registram grandes aventuras. Essa possibilidade surge quando é convidado por um estranho a sair em uma curta viagem a bordo de um navio mercante, encarregado de documentar em desenhos e pinturas toda a jornada. Ele então se despede de sua noiva com a promessa de voltar em breve, famoso e cheio da grana. O que Isaac não sabia, é que acabaria a bordo de um navio pirata numa longa expedição rumo à Antártida, comandado por um capitão obstinado em escrever seu nome na história com a descoberta de novas terras no continente gelado, objetivo perseguido por várias navegações a partir do século XV.

No mar, o pintor vai conhecer lugares exóticos, testemunhar grandes batalhas, sobreviver a fortes tempestades, conhecer novas mulheres e sofrer de saudades por sua noiva Alice, deixada em terra. Aliás, impossível não se apaixonar (até certo ponto) pela mulher trabalhadora que é a futura esposa de Isaac, que continua a vida como pode enquanto espera o regresso de seu noivo, sendo cortejada sem descanso por seu novo patrão, que lhe deu emprego com segundas intenções.

O autor francês Christophe Blain conduz a trama com segurança e densidade, alternando entre dois segmentos, o de Isaac com a tripulação pirata e Alice a sua espera em casa. Sua obra é repleta de elementos consagrados das antigas aventuras de bucaneiros dos anos 30 e 40, além de também encontrar inspiração nas histórias de Tintim, do belga Hergé. É quase uma autobiografia, pois o próprio Blain serviu como desenhista em embarcações da marinha francesa, várias de suas experiências em alto mar e nas cidades portuárias na qual ancorou serviram de base para a narrativa de Isaac.

Seu traço é sem par, segundo o próprio autor, ele buscou um equilíbrio entre roteiro e arte, seu objetivo é contar uma boa história sem pretensão de desenhos extremamente precisos, a fim de resolver um problema que todo quadrinista sofre: a mão que concebe a imagem deve ser capaz de acompanhar o cérebro que cria a história. Com isso ele desenvolveu um estilo muito particular, que justamente por não tentar ser perfeito acaba agradando, e muito. Seus personagens são caricatos, com rostos de linhas básicas (uma bolinha e um pontinho para os olhos, nariz de uma linha só, algumas rachuras), seus cenários são meio tortos, mas o equilíbrio desejado foi atingido, tudo se complementa e o resultado final é magnífico. Gostei logo que bati os olhos.

Alguns dos melhores momentos do álbum se dão quando os marinheiros chegam ao pólo sul. Lá eles se deparam com uma aurora boreal (fenomenal até mesmo no PB de Blain) e pensam que é o lugar para onde vão os espíritos dos marinheiros, dão risada do jeito engraçado de andar dos pingüins (criaturas desconhecidas até então) e encontram uma tripulação sueca encalhada nas águas congeladas. Outro trecho muito bom é quando somem os desenhos que Isaac fez de sua noiva, roubados pelos piratas para servirem de alívio sexual, se é que assim dá pra entender.

Mas o post se chama “publicação que precisa continuar” porque a Conrad compilou neste volume apenas três, dos cinco tomos lançados na França. O tão aguardado reencontro de Isaac com Alice não acontece, aliás, nem os franceses puderam ver isso ainda, pois o autor não terminou sua história até agora. Ao que parece, a Conrad aguarda o lançamento do sexto tomo para reunir mais três em seu segundo volume. Fica a torcida para que isso aconteça mesmo e que a editora não abandone o título, o que eu, particularmente, acho difícil. Mesmo com o sucesso estrondoso obtido na Europa, vencendo o prêmio de melhor álbum no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em Portugal, e no Salão de Angoulême, que é o equivalente francês do Eisner Awards, a obra não ganhou o destaque merecido aqui no Brasil, tornando-se uma jóia de poucas coleções.

Duas pisadas na bola da edição da Conrad são que, não há qualquer menção de que esse é apenas o volume um e que a história tem continuação, e não fica avisado que somente a nossa versão é em preto e branco, diferente do original todo colorido. Claro que isso serve para baratear o custo final do livro, mas podia ter pelo menos uma nota explicando a decisão (talvez alguns extras em cores).

Mesmo com tudo isso, Isaac, o Pirata é excelente e tem que ser lido por qualquer fã de quadrinhos. A França sempre produziu HQs de qualidade, principalmente nesta última década, que vem emplacando vários quadrinhos nas listas de livros mais vendidos, com milhares de lançamentos anuais e dezenas de milhões de cópias vendidas dentro do país. Lá, qualquer um gosta de um bom quadrinho.

Assista o videocast e ouça o podcast em que indicamos a leitura de Isaac: o Pirata. Para comprar clique aqui.

A Saga do Monstro do Pântano – Publicação que precisa continuar

Meu primeiro contato com A Saga do Monstro do Pântano na fase de Alan Moore ocorreu no luxuoso encadernado da Pixel Media: capa dura, papel couché, colorido, com introdução do próprio autor, notas explicativas, além  de uma história inédita no Brasil. A editora tinha planos de lançar nesse formato todas as 45 edições de Moore, mas fecharam as portas sem sequer lançar o segundo. A única forma de continuar a leitura é com os antigos encadernados da Brainstore, que vão até o volume 3. Mas havemos de convir que, pra quem começou a ler com a Pixel, ter que prosseguir nas edições preto e branco da Brainstore é deveras brochante (nem vou citar a Abril). A salvação depende apenas da Panini. Oras, se a editora adotou alguns dos títulos abandonados pela Pixel para dar continuidade, como Preacher e Hellblazer, porque não fazer o mesmo com Monstro do Pântano? Seria excelente! Mais do que isso, é uma obrigação!

É imensa a importância da série nessa fase. Foi o primeiro título de horror, desde os anos 50, a ser voltado para um público maior de idade, o que mais tarde culminou na inauguração do selo Vertigo de quadrinhos adultos. Graças a Monstro do Pântano, Alan Moore ganhou fama nos EUA, reconhecido como um grande autor, o passo inicial para todos os seus trabalhos posteriores, que lhe concederam a alcunha de gênio dos quadrinhos. O potencial demonstrado pelo britânico nesse trabalho fez com que as principais editoras norte-americanas voltassem os olhos para a Europa, em busca de outros nomes para seus quadrinhos. Neil Gaiman, David Lloyd, Grant Morrison, Warren Ellis e muitos outros surgiram daí pra frente. Séries consagradas como Sandman, Os Invisíveis, Homem-Animal e Starman devem sua existência a Monstro do Pântano. Além disso, um importante personagem das HQs adultas nasceu nessas páginas, o mago John Constantine.

O Monstro do Pântano foi criado por  Len Wein e Berni Wrightson em 1972. É a história de um jovem cientista chamado Alec Holland, que estava trabalhando junto com sua esposa em uma fórmula “bio-restauradora” para acelerar o crescimento das plantas. Entretanto, alguém sabotou sua experiência e todo o laboratório explodiu com os dois dentro. A mulher morreu na hora, mas Alec saiu correndo em chamas e se jogou em um pântano, com suas roupas encharcadas pela fórmula. O pântano reagiu à química e o homem se transformou no Monstro do Pântano. Típico assim.

Em 1976, após 24 números, a série foi interrompida, voltando apenas em 1982, com roteiros de Martin Pasko. Na vigésima edição dessa fase, em 1984, Alan Moore entrou no lugar de Pasko, que deixou o título à beira do cancelamento. Aliás, foi justamente por isso que Moore foi chamado. O barbudo era relativamente desconhecido nessa época, com histórias publicadas apenas na Inglaterra, para os editores a maneira ideal de conhecer seu trabalho era em uma série já condenada, onde não havia nada a perder.

O que o escritor fez com o título surpreendeu a todos, é realmente brilhante! Na vigésima edição ele precisava encerrar o arco de histórias iniciado por Pasko, o que fez “matando” o Monstro do Pântano, somente para no número seguinte dar início a sua reformulação. De cientista em corpo de monstro, o personagem passou a ser um monstro que pensava ter sido um cientista. Alec Holland deixou de existir no dia da sabotagem de seu experimento, o composto químico apenas afetou a vegetação do pântano, que se moldou em uma forma humanóide e se apoderou da essência de Holland, originando uma criatura confusa com convicção de que antes era uma pessoa comum. Ao voltar de sua “morte”, consciente de que jamais foi humano, ele passa a atuar como o Elemental que sempre deveria ter sido, um ser conectado com toda a natureza, conceito muito mais amplo que o anterior.

Não havia precedentes para a narrativa que Moore empregou na época, é fascinante! E até hoje continua assim, se você ler agora ficará tão impressionado quanto quem leu no auge da publicação. A genialidade de Moore sempre esteve no fato de empregar em suas histórias recursos somente permitidos pela arte sequencial, impossíveis de serem reproduzidos em qualquer outro meio. Só lendo para descobrir o quanto é bom! Tão bom, que de série prestes a ser cancelada subiu para a mais vendida da DC – cerca de 100 mil exemplares por mês!

A arte de Steve Bissette e John Totleben também contribui muito para a grandeza da obra. A diagramação dos dois é ousada, os textos do título se mesclam ao cenário (como em Spirit), os quadros têm transição natural, seja por seu formato e posição ou por meio de elementos vazados, e os desenhos passam o clima ideal, dá pra sentir o cheiro de lodo do pântano. Pode até parecer feio a princípio, mas quando você ler verá como a sincronia entre texto e arte é perfeita.

Está certo que Monstro do Pântano já teve seu final publicado no Brasil pela Abril, mas assim como as edições da Brainstore, essas não contam pois não tiveram o devido tratamento. Quem sabe um dia poderemos ter a coleção completa no formato luxuoso iniciado pela Pixel, eu e milhares de leitores brasileiros seriamos eternamente gratos a Panini.

Para saber mais sobre Alan Moore e Vertigo clique nos links e assista nossos videocasts.