Entrevista com José Aguiar, autor de Vigor Mortis Comics

Olá a todos!

É com muito prazer que trazemos a vocês mais uma baita entrevista. Conversamos com o quadrinista e ilustrador José Aguiar, autor de Folheteen (Editora Devir), Quadrinhofilia (HQM), e do recente Vigor Mortis Comics (Zarabatana), ilustrador de dois álbuns da série de aventura Ernie Adams (Editions Paquet – França),  A Revolta de Canudos (Escala Educacional) e Ato 5 (Quarto Mundo). Além disso tudo, publica sua tira Folheteen no jornal Gazeta do Povo e é coordenador da Gibicon – Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba.

Então não perca tempo e conheça melhor esse grande quadrinista e seus trabalhos sensacionais!

Conta pra gente um pouco da sua história. Como foi seu começo de carreira? De onde surgiu a decisão de fazer quadrinhos?

Eu sempre quis fazer quadrinhos. Sem exagero algum, nunca quis fazer outra coisa na vida, embora tenha feito uma ou outra meio diferente. O começo se deu quando publiquei aos 14 anos num suplemento infantil num jornal daqui de Curitiba. Aos 16 publiquei minha primeira tira remunerada. Desde então sempre publiquei em jornais locais. Mas a minha “virada” foi em 2004 quando ilustrei Ernie Adams, álbum escrito por Wander Antunes para a França. Depois veio Folheteen, o segundo volume de Ernie Adams, Revolta de Canudos, Quadrinhofilia, Ato 5 e agora Vigor Mortis Comics.

Você já fez fanzine, publicou em revista de coletâneas, pequenas e grandes editoras, aqui no Brasil e no mercado Francês e Espanhol e também publica tiras no seu blog. Com toda essa bagagem acumulada, como você avalia o mercado de quadrinhos nacional atual?

Lendo a sua pergunta parece que tenho muita coisa feita, mas pessoalmente acho que  ainda  estou no começo. As experiências fora foram pontuais, mas me fizeram amadurecer um pouco, e até me deram certa visibilidade em casa. Creio que enfim nosso “mercado”está começando a acreditar em si mesmo. Tem surgido  mais editoras com propostas sérias e os veículos de comunicação tem dado mais relevâncias às HQs. Só nos falta conquistar mais leitores. Mas esse é um processo que virá. Nos últimos cinco anos mudamos radicalmente para um rumo melhor. Há muito a  amadurecer ainda, mas há espaço para inovação e profissionalismos. Tanto de editores, quanto de autores.

Os incentivos culturais também ajudam muito não é? Você publicou Folheteen com a ajuda I Concurso de Histórias em Quadrinhos do Senac-SP e Vigor Mortis também contou patrocínio do Mecenato Municipal da Fundação Cultural de Curitiba. Que dica você pode dar aos quadrinistas que almejam patrocínios como estes?

No caso de Folheteen, o prêmio me abriu as portas na Devir. Não houve um incentivo fiscal ou financeiro. Mas, claro, foi um ponto de virada importante para que eu pudesse concretizar meu ideal de fazer um trabalho solo. Sou muito grato à Devir pela oportunidade. No caso de uma lei de incentivo, como a que viabilizou Vigor Mortis Comics temos uma situação ideal de produção, onde o artista pode receber durante o processo criativo. Não só um adiantamento de direitos autorais, que normalmente não cobre os custos de produção, como é usual. Além disso, por se tratar de um projeto que envolve cronogramas, orçamentos e apoiadores, implica em maior responsabilidade e também profissionalização do artista. Vigor Mortis Comics foi o primeiro projeto que administrei como editor além de autor. Foi uma grande responsabilidade e satisfação exatamente por isso.

As histórias da jovem Malu, mostradas na tiras Folheteen são muito bem construídas e refletem como poucas os anseios adolescentes, em quem você se inspira pra fazer essas tiras?

Obrigado! Fico muito contente em saber que outro pós-adolescente se identifica com a tira além de mim!  Espero que os “teens” também gostem! Por sinal, muito dela vem da minha vida pessoal, do que me lembro dessa fase. A tira é um lugar onde falo um pouco de mim misturando com as experiências de amigos e familiares. Assim ninguém se compromete 🙂
Espero que, quando tiver  um bom número de tiras acumuladas, lançar uma coletânea. Mas antes tenho o projeto do novo álbum com uma HQ longa de Folheteen em processo de captação de recursos. É algo que espero viabilizar logo.

Agora vamos conversar um pouco sobre a acachapante Vigor Mortis Comics

Para José Aguiar, o que é Vigor Mortis Comics?

Acachapante? Só um “marvete” poderia dizer algo assim!

Puxa vida, para mim Vigor Mortis Comics é  uma mistura improvável, porém sincera, de elementos insanos e doentios com um amor sem limites pelos quadrinhos e pelo teatro.

Vigor Mortis Comics também conta com a arte do excelente DW Ribatski, qual foi o motivo de chamar mais um artista para o projeto?

Além de que gosto do trabalho do DW desde os tempos em que era meu aluno na Gibiteca de Curitiba? Ele havia criado morto-vivo Oswald para a peça Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos, do Paulo Biscaia. Não haveria por que deixá-lo de fora desse caldeirão sangrento. A idéia sempre foi ter um contraponto ao meu trabalho. Creio que essa soma de estilos tão distintos é um dos charmes do livro.

Sem dúvida que é um dos charmes, a arte dele é sensacional!

Como surgiu a idéia de transpor o universo teatral criado por Paulo Biscaia para os quadrinhos?

O repertório das peças da Vigor Mortis sempre foi feito de elementos pop, seja nas músicas, nas referências ao cinema ou às HQs. Mas a idéia de migrar de uma linguagem para outra só veio depois de 2007, quando o diretor da companhia, Paulo Biscaia, me chamou para trabalhar na peça Graphic. Lá surgiu o personagem Artie, um ex-aluno de oficina de quadrinhos que se tornou um frustrado desenhista de manual de instruções. Ele criou um personagem chamado de Homem-Sombra, um amontoado de clichês de quadrinhos de super-heróis.  Mas muito divertido de desenhar
Nessa mesma peça o DW fazia os desenhos de outra personagem. Sem falar que ele já tinha criado Oswald – O Morto-Vivo para a peça Morgue Story – Sangue, Baiacu e Quadrinhos. Como ele era criação de uma quadrinista bem-sucedida tínhamos uma oposição de personagens bem bacana  que dava base para um universo coeso. Coisa que Biscaia já fazia ao colocar referências comuns a lugares, personagens e situações em seus espetáculos.
Chegamos à conclusão de que os quadrinhos poderiam ser uma maneira de mostrar um lado desse universo que seria impossível nos palcos. Uma maneira de dar sobrevida aos personagens. Formulei um projeto que inscrevi na Lei do Mecenato Municipal de Curitiba. Depois de aprovado e feito a captação de recursos iniciamos o projeto em 2010 através da minha empresa Quadrinhofilia Produções Artísticas.

Mas essa relação quadrinhos-teatro não é tanta novidade pra você né, pois 2005 seus roteiros para o herói Gralha foram transpostos para os teatros, o inverso do que aconteceu com Vigor Mortis. Conta um pouco pra gente um pouco sobre isso.

Foi uma experiência estranha. Eu estive longe do processo. Me senti como um Stan Lee durante as adaptações Marvel dos anos 70 e 80.

E o livro Reisetagebuch – Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha vai ser publicado? Pode contar pra gente alguns planos futuros próximos de serem realizados?

Esse projeto também foi aprovado na mesma lei do Mecenato Municipal que Vigor.  Assim como Folheteen está buscando empresas locais que apóiem sua realização.  Espero ter boas novas para  ambos os projetos até o fim deste ano.

Pela Editora Nemo estou ilustrando Dom Casmurro com texto de Wellington Srbek e depois farei sozinho 20 Mil Léguas Submarinas para a Leya.

Mais de imediato, para julho, estou na curadoria do evento Gibicon – Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba.  Ou seja, trabalho não falta!

Ilustração do projeto Reisetagebuch - Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha

Ilustração do projeto Reisetagebuch - Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha

Quais sãos os quadrinhos que leu e pensou “Putz que obra! Queria ter escrito isso”, aqueles que mais gostou de ler na vida?

Das que gostaria de ter escrito posso citar as tiras do Calvin, Superman – Identidade Secreta, Ken Parker,  A Queda de Murdock,  Lobo Solitário

Uma que queria ter desenhado, só por diversão, era Marvel Zombies. Outros personagens que gostaria de poder desenhar são o Dr. Estranho,  Sandman e Dylan Dog. Na verdade o Dylan eu já desenhei numa das HQs do meu álbum Quadrinhofila. Mas coloquei um bigode nele para disfarçar. E raspei o do seu ajudante, o Grouxo. Confere lá, na HQ “Pirata!

Muito obrigado pelo papo, José! Por último deixe uma mensagem para os leitores do Pipoca e Nanquim.

Que posso dizer além de que pipoca e nanquim combinam mesmo! Continuem nessa mistura improvável e dêem aquela força que o quadrinho nacional merece! Obrigado a vocês pela deliciosa entrevista, mas agora com licença que tem nanquim escorrendo de minha boca.

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Para conhecer mais trabalhos do José Aguiar visite seu blog, clicando aqui!

Ou siga-o no twitter: @quadrinhofilia

Entrevista com Celso Menezes, autor de Jambocks!

Olá, leitores!

Hoje vocês irão conferir mais uma excelente entrevista aqui no Pipoca, dessa vez batemos um papo com Celso Menezes, roteirista de Jambocks! a excelente HQ que aborda a participação da FAB (Força Aérea Brasileira) na Segunda Guerra Mundial. Imperdível para quem gosta de uma boa história sobre guerra! 

A prazerosa conversa passou por temas diversos como, parceria com o artista Felipe Massafera, pesquisas e referências históricas para o projeto, condições dos veteranos após o conflito,  ProAc (Programa de Ação Cultura, que aliás irá continuar incentivando os quadrinhos em 2011!),  MSP Novos 50 e até um TOP5 Quadrinhos de Guerra. 

O Celso Menezes é um cara tão gente fina que além da conversa franca, disponibilizou com exclusividade ao Pipoca e Nanquim, seu projeto do Jambocks vencedor do ProAc 2010, para vocês analisarem e usá-lo com base para elaboração de um. 

Espero que gostem.
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Olá, Celso! Obrigado por topar a entrevista. 

Conta pra gente um pouco da sua história e quando começou a gostar de quadrinhos. 

Eu comecei a gostar de HQs desde criança. Pra minha sorte meu pai gostava de quadrinhos e isso foi essencial para eu tomar gosto pela coisa bem cedo. Pra minha sorte e azar dele já que eu acabei destruindo algumas HQs de sua coleção. Mas eu cresci lendo coisas de ótima qualidade como Will Eisner, Moebius, coisas da Metal Hurlant (A Heavy Metal francesa.. que eu só via as imagens já que até hoje as únicas palavras que sei em francês são croissant e abajour). Como quase todos os nerds, eu separava uma parte (se não toda) do dinheiro pra comer na escola pra comprar HQs. Por muito tempo colecionei Turma da Mônica, Disney e Os Trapalhões. Mais tarde vieram os heróis e nunca mais parei, sempre procurando coisas novas, velhas, diferentes e iguais. 

Minha história não é interessante. Resumindo sou um nerd formado em publicidade que agora, aos 32 anos teve seu primeiro livro publicado. Mas minha biografia – que tem na orelha do Jambocks – é mais precisa, para quem possa se interessar… 

Como surgiu a idéia de ambientar seu primeiro roteiro de quadrinhos na participação dos brasileiros na Segunda Guerra? 

Eu me mudei pra Mogi Mirim por causa da minha namorada e vi uma matéria sobre o Felipe no jornal da cidade. Na mesma semana saiu uma Mundo dos Super-Heróis com capa dele. Pensei “hmmm.. acho que achei um cara pra conversar sobre quadrinhos aqui em Mogi..”. Eu já tinha até sido apresentado pra ele por um amigo em comum, mas quando esse amigo disse que ele era um “grande desenhista” eu achei que era exagero, nem dei bola. Eu adicionei ele no MSN (que saiu na Mundo) e em cinco minutos já estávamos bolando alguns projetos. Logo em seguida fui visitar meu pai e achei uma National Geographic falando sobre o Brasil na 2ª. Guerra e pensei “poxa, tai um assunto legal e que não é explorado”. Aí comentei isso com o Felipe e ele ficou louco. Falou “vamos fazer uma HQ sobre a participação da FAB (Força Aérea Brasileira) na 2ª. Guerra!!”. Nem acreditei que ele tinha se interessado. Fiquei muito feliz com a empolgação dele. Depois que eu descobri que o irmão dele é da Aeronáutica. E isso acabou direcionando o projeto para falar só sobre a FAB (mas vai ter algumas citações sobre a FEB, a Força Expedicionária Brasileira). 

 

O Felipe Massafera caiu como uma luva para a arte do álbum, seus desenhos são arrasadores! 

Eu tive a idéia de fazer algo sobre a participação do Brasil na guerra, mas nem imaginei que ele fosse se interessar já que os projetos dos nossos sonhos eram todos baseados em cultura pop norte-americana. Fiquei realmente surpreso com a reação dele. E imagina a minha felicidade de ver essa empolgação. A nossa idéia, originalmente, era gastar uns cinco anos fazendo o Jambocks e depois apresentar para alguma editora, mas logo que tivemos a idéia surgiu o Proac, a gente ganhou e tivemos que mudar totalmente o cronograma. Eu penso, hoje, que se o Proac não tivesse surgido é capaz que o Jambocks nunca existisse. Em primeiro lugar porque o Felipe está cada dia mais ocupado (atualmente ele está fazendo uma mini-série do Abin Sur pra DC Comics, além de algumas capas do Lanterna Verde) e em segundo lugar porque os poucos veteranos vivos já estariam mortos dentro de uns 5 anos. Então eu acredito que tudo deu certo na hora certa para que o projeto existisse e fosse feito pelo Massafera. 

E pra mostrar como funciona o nosso esquema, na prática, no Jambocks, eu criei este post aqui

 

E as pesquisas históricas, deram muito trabalho? 

Deram, sim. E só foram possíveis graças ao prêmio do Proac. Algumas pessoas questionam que a gente ganhou dois Proacs, que o Proac deveria abrir espaço para pessoas que nunca publicaram e tal. Eu concordo plenamente. Inclusive eu ganhei o primeiro Proac sem nunca ter publicado nada na vida. Mas acontece que um projeto deste porte, pra ser bem feito, precisa de dinheiro. E eu e o Felipe somos muito perfeccionistas, vocês não imaginam o quanto. Tudo que aparece no Jambocks! aconteceu de verdade. E sai caro você fazer uma boa pesquisa. Os poucos veteranos que estão vivos moram predominantemente no Rio de Janeiro e nós somos do interior de São Paulo. Os (poucos) livros sobre a FAB não contam algumas coisas que você só fica sabendo ao falar pessoalmente com alguém que esteve lá. Ou até contam coisas que não são reais. Tem uma passagem que eu já vi três versões diferentes sendo que duas delas foram contadas pela mesma pessoa. Então, mesmo lendo livros e pesquisando você pode cometer erros. O Jambocks, antes da pesquisa, ia ser uma edição só. Quando eu fui pro Rio fazer a pesquisa de campo percebi que seria injusto não contar algumas coisas e no final decidimos contar em quatro partes. E a pesquisa nunca acaba. Semana passada comprei um livro raro escrito por um dos pilotos que traz algumas coisas que eu desconhecia. Aliás, o Proac ajuda e viabiliza o projeto, mas eu, por exemplo, gastei muito dinheiro do bolso com viagens e material de pesquisa e o Felipe não cobrou nada pela arte (ele ganha uma pequena porcentagem pelas vendas, como eu). Nós fazemos por amor aos quadrinhos e pela importância que acreditamos que o tema tem. 

Lembro que há alguns anos, assisti o excelente documentário Senta a Pua! dirigido por Erik Castro e baseado no livro do brigadeiro Rui Moreira Lima e era claro nos relatos dos veteranos a tristeza do esquecimento e o descaso de todos pela história deles. Você chegou a conversar com alguns desses veteranos né?! O que eles acharam do projeto? 

Então. Quando eu resolvi ir pro Rio tive a imensa sorte de topar com dois caras que me ajudaram pra caramba. Um é o historiador Fernando Mauro e o outro é o Luis Gabriel, dono do site “sentandoapua.com.br” e filho de veterano. Eles me apresentaram para os veteranos (como o Rui Moreira Lima, que você citou) e me contaram várias histórias que não estão nos livros. Mas o que você disse é verdade, há um descaso generalizado pelos combatentes brasileiros. E não é só por nós, civis. Eu enviei diversos e-mails para setores da FAB e não tive respaldo algum para fazer minhas pesquisas. Não estou nem falando de dinheiro. Estou falando de ajuda para solucionar dúvidas, por exemplo. E o documentário do Erik de Castro pelo menos deu um pouco de dignidade para esse pessoal, que estava morrendo sem ter seu valor reconhecido. Inclusive o Jambocks é um pouco mais didático do que eu gostaria que fosse, mas como vou contar uma história se o pano de fundo é desconhecido da maioria das pessoas? Espero que o Jambocks ajude a mudar isso. Torço muito para que um dia ele seja colocado nas escolas para que as crianças desde cedo saibam mais sobre essa passagem da nossa História e através do nosso livro tenham interesse em pesquisar mais a fundo. 

Brigadeiro Rui Moreira Lima muito satisfeito em receber a HQ Jambocks de Celso Menezes

Presenteando o veterano Miranda Correa, grande aviador que conseguiu afundar um submarino alemão!

O piloto veterano Meira também aprovou o projeto da HQ, com isso os três pilotos da missão ainda vivos no Brasil receberam a devida homenagem.

Agora em 2011 foi confirmado novamente o PROAC para HQs, como foi entrar nesse projeto e que dicas poderia dar para quem está pensando em mandar seus roteiros para conseguir o patrocínio? 

Antes de tudo, queria dizer como funciona o Proac. O Proac é um incentivo do Governo do Estado de São Paulo e dá R$25 mil para 10 projetos de quadrinhos já. Fazendo as contas você descobre que até o final deste ano vai haver um investimento de R$ 1 milhão. Em quatro anos. É uma quantia respeitável e um reconhecimento do poder público sobre a importância deste tipo de arte. Depois que abre o edital, as pessoas enviam seus projetos e um júri composto por cinco pessoas – e que é mudado TODO ANO para não haver vício ou favorecimentos – debate e decide quais são os 10 projetos que merecem o prêmio. 

O Jambocks ganhou duas vezes o Proac e o que eu fiz foi estudar muito o edital e tentar preencher os requisitos exigidos da melhor forma possível. Como em qualquer espécie de licitação, em primeiro lugar você precisa ter a documentação em dia. O primeiro Proac foi bem complicado nesse quesito. Hoje está bem mais fácil (e isso é ótimo porque nós, que trabalhamos com arte, não costumamos ser bons em burocracia). 

Passada esta etapa, vem a do projeto em si. Tentem deixá-lo do jeito mais interessante possível. E mostre que você é capaz de fazer algo realmente bacana. Peça para o artista caprichar nas artes conceituais e você, escritor, escreva de maneira simples e direta. 

Observe quem ganhou os trintas Proacs de HQs até agora. O que eles têm em comum? O que eles têm de diferentes? Porque será que eles foram escolhidos? 

Pra ajudar um pouco, estou disponibilizando para os leitores do Pipoca e Nanquim o meu projeto do Jambocks que ganhou o Proac 2010. Fiquem à vontade para usá-los de base para o Proac 2011. 

  • N.E: Para baixar o projeto do Jambocks clique aqui e  para ver os esboços de Felipe Massafera clique aqui. Sensacional!!

Jambocks foi planejado para sair em quatro volumes, tem alguma novidade sobre o próximo lançamento?? (Estamos loucos pra continuar lendo essa história!!) 

A idéia é lançar um por ano. O segundo deve sair no começo do 2º semestre. Assim que tiver alguma novidade concreta eu aviso os amigos do Pipoca. O que eu posso adiantar é que vai falar sobre o treinamento do pessoal da FAB no Panamá. Aí encerramos a base que prepara tudo para a parte 3, que é a atuação do Grupo de Caça na 2ª. Guerra. 

Você e o Felipe estarão no albúm MSP Novos 50, muita alegria em receber esse convite?! Pode dar uma pista de quem será o protagonista da história ou falar um pouquinho do roteiro dela? 

Foi muito legal receber a notícia. E o Sidão (Sidney Gusman, o editor do MSP) consegue fazer o momento ainda mais especial. Eu tinha topado com ele na Bienal do Livro do ano passado, em São Paulo e me apresentei. Ele disse que o meu nome e o do Felipe estavam numa pré-lista para o próximo MSP. Nem acreditei, achava que ele nem conhecia o Jambocks. Semanas depois encontrei ele na Fest Comix e no meio de uma conversa com outras pessoas ele disse “Tem gente que fica esperando chegar um e-mail meu convidando para o MSP. Isso nunca vai acontecer. Eu só convido por telefone.”. Passaram-se algumas semanas e ele me manda um e-mail: “Oi, Celso. Você poderia me passar seu telefone?”. Meu coração disparou. Enviei o número e segundos depois o telefone toca. Eu atendo, nervoso, e do outro lado o Sidão: “E aí, Celso.. tudo bem? Então… o que você acha de participar do próximo MSP?”. 

Eu fiquei imensamente feliz porque além do reconhecimento o MSP é um projeto que eu sonho desde garoto. Sempre pensei “e se artistas autorais fizessem a Turma da Mônica”? E o Sidão é o cara que tornou esse sonho (de muitos, imagino) realidade. 

Quanto ao(s?) personagem ou história, se eu falar alguma coisa provavelmente meu corpo será encontrado numa valeta no dia seguinte. O Sidão me disse que tem todos os filmes do 007 e que ele usa as técnicas do agente secreto para manter sigilo sobre seus projetos. Além disso ele tem todos os filmes da Xuxa para torturar quem torna público algum detalhe dos projetos. Sinto pelos leitores do Pipoca, mas ainda prefiro ter minha sanidade mental e minha integridade física. 

Mas posso dizer que a história que eu e o Felipe criamos vai tirar proveito do estilo dele. Pronto. Estou ouvindo os passos do Sidão em minha direção… 

Celso Menezes ao lado de Sidney Gusman

Além de Jambocks! e o MSP, você tem outros projetos no âmbito das HQs? 

Idéias não me faltam, mas no momento estou concentrado nos Jambocks, que já me tomam tempo demais. Mas é capaz que surja um projeto muito legal em breve. E inédito no Brasil, até onde eu sei. Aviso se tiver novidades. 

Aproveitando seu conhecimento, faz pra gente um Top 5 Quadrinhos de Guerra, aqueles espetaculares, que deveriam ser lidos por todo mundo. 

Vou tentar fugir um pouco do óbvio. Em primeiro lugar, tudo o que eu li do Joe Sacco e Sargento Rock (pelo Joe Kubert) é uniformemente bom, então acho que quem topar com qualquer coisa deles vai ter uma boa leitura. 

Além deles.. 

  • Ás Inimigo, Um poema de guerra do George Pratt. Lindo e poderoso;
  • El Alamein e outras histórias de Yukinobu Hoshino. Um pouco irregular, mas tem passagens ótimas;
  • Arrowsmith de Kurt Busiek e Carlos Pacheco. Divertido e muito bem realizado;
  • O Espírito da Guerra e War – Histórias de Guerra do Gian Danton, Luiz Merí e Eugênio Colonnese. Pela sua narrativa, pra mim o Colonnese é o Joe Kubert brasileiro;
  • Ás Inimigo – Inferno No Céu do Garth Ennis – Ennis mostra que entende do assunto numa história bem construída e que acrescenta nuances ao personagem;
  • Último dia no Vietnã do Will Eisner – Recortes rápidos de personagens às voltas com a guerra do Vietnã. Não é uma obra-prima, mas um eficiente (porém curto) retrato dessa guerra.

Ok, pelas minhas contas foram mais de 5… tem problema? rs.. 

Além disso tem um livro americano chamado “War Stories – A graphic History” do Mike Conroy que cita centenas de obras de guerra em quadrinhos. É muito bacana pra pesquisar e depois correr atrás de algumas coisas. 

Celso, muito obrigado pela participação! Para finalizar, deixe um recado para os fãs de quadrinhos e leitores do Pipoca e Nanquim. 

Em primeiro lugar queria agradecer o convite e dizer que acho muito legal os bate-papos de vocês e que por mim podiam ser mais longos.. rs. 

E o recado que eu tenho para os fãs de HQs e para quem quer fazer quadrinhos é que leiam muito. Não só quadrinhos. Leiam livros, revistas, sites, vejam filmes, ouçam músicas. Isso vai fazer sua experiência com os quadrinhos mais completa já que normalmente quem escreve HQs tem referências de todas outras mídias e coloca essas referências nos seus trabalhos. Leiam, se informem. Corram atrás das dicas do pessoal do Pipoca e Nanquim e dos outros sites. E passem adiante o conhecimento que vocês adquirirem. Gostou de uma HQ? Faz um blog e posta sua opinião. Ou indica para um amigo. Quanto mais as pessoas ficarem exigentes, melhor vai ser a qualidade das HQs. E, no fim, não é isso que queremos? Boas histórias? 

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Para conhecer todo o processo de criação de Jambocks e as novidades de Celso Menezes visite o seu blog. 

JAMBOCKS – PARTE 1 – PRELÚDIO PARA A GUERRA 

Editora: Zarabatana 

Autores: Celso Menezes (roteiro) e Felipe Massafera (arte). 

Preço: R$ 29,90 

Número de páginas: 48 

Data de lançamento: Março de 2010

Entrevista com Estevão Ribeiro, autor de Os Passarinhos e Pequenos Heróis

Olá, queridos leitores!

É com grande satisfação que apresentamos a vocês a entrevista com o  roteirista e ilustrador  Estevão Ribeiro, criador das tirinhas cômicas Os Passarinhos, do projeto em quadrinhos Pequenos Heróis e autor do livro de terror A Corrente.

Se você não conferiu nenhuma dessas obras, não sabe o que está perdendo.

Os Passarinhos é  uma das melhores tirinhas da atualidade para se acompanhar, humor sutil, repleto de referências bacanas, Hector e Afonso são extremamente cativantes e a galeria de personagens coadjuvantes é fantástica, destaque para Piu Gaiman e Paulo, o Coelho.

Pequenos Heróis é um obra encantadora, sem dúvida um dos  melhores lançamentos de 2010. A homenagem prestada por Estevão e os artistas que o acompanharam aos heróis da DC são de uma inocência e inspiração raras. Impossível não se emocionar com as crianças e seus atos heróicos cotidianos ali retratados.

O livro A Corrente para quem gosta de um bom thriller de suspense é imperdível. Você simplesmente não vai tirar os olhos do livro, pois a história do hacker Roberto Morate, da insana Bruna e seus malditos spams é tensa do início ao fim.

Ficou curioso?? Então leia a a conversa a baixo, conheça melhor Estevão Ribeiro.

Olá, Estevão, fale-nos um pouco sobre seu começo de carreira. De onde surgiu a decisão de desenhar e publicar quadrinhos?

Olá! Os quadrinhos sempre estiveram na minha vida. Meus irmãos colecionavam quadrinhos da Marvel e DC, além de Disney. Eu, como o caçula, sempre herdava as revistas velhas. Sempre tive vontade de escrever quadrinhos, eu ilustrava todas as minhas redações. Cheguei a ganhar como prêmio na 3ª série um “Resta 1”, fazendo uma história em quadrinhos sobre escovação dos dentes.

Aos 14 anos escrevia histórias, aos 18 desisti de vez de desenhar e começaram as parcerias com desenhistas. No dia 03 de maio de 2000, publiquei a primeira página do Tristão, um vigilante de máscara branca, no jornal Notícia Agora, no Espírito Santo. No ano seguinte, lancei Tristão pela editora Escala, pelo selo Graphic Talents.

Como você conheceu o pessoal da Balão Editorial, que lançou suas tiras de Hector & Afonso e outros livros?

O Guilherme Kroll é um entusiasta dos quadrinhos desde sempre, escreve para o site Universo HQ e por isso conhece muitos artistas nacionais. Como ele acompanha meu trabalho há tempos, desde a primeira hq do Tristão em 2001, logo ficamos amigos e ele conheceu outros trabalhos que lancei ao longo dos anos. Quando Os Passarinhos alcançou um relativo sucesso na Internet, eu resolvi fazer uma antologia das tiras e tentar uma pré-venda entre os leitores do blog. Aí o Kroll, juntamente com as duas sócias, resolveram adiantar um plano que estava sendo posto em prática mais devagar: divulgar a editora. Era interesse associar a editora a um produto forte e para mim havia muito interessem em publicar por uma editora.

A Balão lançou apenas Os Passarinhos por enquanto, mas temos planos de outros trabalhos em breve.

Porque optou lançar Os Passarinhos em tamanho tão pequeno, com apenas uma tira por página? Sabe se os leitores aprovaram o formato?

A maioria dos leitores aprovou, mas as livrarias não. Eu tenho tentado trabalhar um conceito de “Livro Presente”. Oferecer uma boa capa, formato diferenciado e economia na produção. Fazer um livro no formato de uma tira é bom, pois deixa o trabalho mais volumoso e o formato chama atenção – prova disso é a sua pergunta.

Por outro lado é mais fácil de ser extraviado e as livrarias podem amargar prejuízo. Mas as pequenas lojas têm colocado próximo ao caixa e nas seções de presentes, atingindo a proposta do formato. Além disso, a venda pela Internet foi favorecida com o formato, que cabe dentro de uma carta comum. O segundo álbum sairá neste formato também.

O Hector (escritor, sonhador e inocente) e o Afonso (crítico, ácido e contestador) são, em essência, representações de você mesmo?

Sim, em parte. Acho que eles são representações do que vivo. O Hector tem muito de mim sim, o Afonso também, mas das pessoas em volta, principalmente. Minha esposa faz as vezes do Afonso, meu enteado (de nove anos) faz o Hector, com suas perguntas ingênuas. Às vezes sou simplesmente eu, refletindo sobre o que eu faço (escrever, desenhar) ou sou eu dando um choque de realidade num passarinho sonhador.

Conte-nos sobre o processo de criação de Pequenos Heróis. Porque decidiu fazê-la sem nenhum balão de texto?

Pequenos Heróis era, no início, um projeto de curtas-metragens animados. A idéia de fazer histórias sem falas é uma comodidade operacional: se o trabalho estiver num festival não necessitasse legenda e tradução.

Quando o projeto não vingou, acabei chamando Mário César, que trabalhou comigo na história A Demente do álbum Contos Tristes e ele desenhou a história “Superbro”.

A partir daí usei o material ilustrado pelo Mário para explicar o projeto para outras pessoas. Era complicado explicar que eu estava escrevendo histórias de crianças e adolescentes que homenageavam os heróis da DC que não apareciam…

Os artistas e os leitores achavam que teria quebra de Copyright, mas depois que viam a história do Mário entendiam o projeto. E gostavam.

Sobre a falta de balões é como te falei: comodidade operacional. Assim temos um material que pode ser entendido por crianças ou pode ser exportado sem problemas.

Qual seu critério para a seleção dos desenhistas envolvidos em Pequenos Heróis e como foi a experiência de trabalhar com esses profissionais?

Foi estranho. Eu chamei umas pessoas que não estavam na mídia, mas tinham um traço promissor. Ou faziam alguns trabalhos, mas não estavam ainda na vitrine, sabe? Do outro lado vem o Mário, que conhecia a galera que já trabalhava com revistas, ou dava aula de desenhos. Eu perguntava para eles o que eles gostariam de desenhar (ou o Mário me sugeria para um personagem específico) e tudo foi se acertando. No final, todos ficaram felizes com os resultados.

Aliás, todos são ótimos para trabalhar. Tínhamos um problema grave de prazo. Na verdade, o problema era (e continua sendo) DINHEIRO. Todos que participaram não ganharam pela produção e era mais que justo que eles deixassem o trabalho para as horas vagas e cuidassem dos seus trabalhos. E quem disse que artista tem hora vaga?

Com isso o trabalho demorou três anos para sair. Mas o resultado está aí, bonito pacas. É meu orgulho.

O Resultado foi sensacional! Inclusive, Parabéns!

Pelo que soubemos, está nos seus planos fazer uma versão de Pequenos Heróis com os personagens da Marvel, o projeto já está encaminhado? Pode nos contar quais são os oito escolhidos bem como algum artista já confirmado?

Não são oito, na verdade, é uma pá de gente, mas como estamos sem prazos e eu ainda preciso mexer em todas as histórias, melhor eu não contar os novos integrantes da trupe (nossa, que palavra velha!). Posso adiantar que da turma anterior, apenas a Chiella (Fernanda) não quis participar, por causa do excesso de trabalhos.

Certamente existem milhares de desenhistas e roteiristas talentosos que desejam lançar quadrinhos por uma editora como a Devir, conte pra eles sobre sua experiência na negociação de Pequenos Heróis.

Olha, a Devir é uma das empresas mais “acessíveis” para trabalhos. Só que tem uma coisa: ela, com a maioria das editoras, não trabalham com adiantamento de direitos autorais. Então, apresentar um projeto é… apresentar um projeto, apenas. Não é garantia de publicação, de impressão de seu trabalho. Até porque o mercado é instável e tem, como você mesmo falou, milhares de desenhistas talentosos com projetos nas mãos. Quem tiver o mais interessante e, o mais importante, pronto para publicar, tem maiores chances de trabalhar com a Devir.

Como tem sido a recepção do seu livro A Corrente? O processo criativo para escrever literatura é muito diferente do escrever roteiros para HQs?

Ainda é cedo para dizer, os acertos são feitos semestrais. O livro é bem diagramado e a capa chama a atenção, mas é baixa tiragem, o que torna mais difícil de ser vendido.

Mas as críticas ao livro tem sido animadoras e tenho fé que este livro chegue a muitas mãos este ano. Sobre o processo criativo, eu acho extremamente parecido, uma vez que minha estrutura de texto de romance é bem descritiva, como os roteiros de quadrinhos, o que funciona com histórias narradas em terceira pessoa. Para terror isso passa um isolamento do leitor. O narrador não é um personagem, não está ali para sofrer junto com o leitor. Ele dá as informações, conta o que aconteceu ou está acontecendo com alguém em cena e esse cenário literário me agrada.

Pergunta difícil. Como você trabalha com livros e quadrinhos, se um dia tivesse adura missão de escolher continuar com apenas um dos dois, por qual optaria e por quê?

Independente de qual trabalho eu escolhesse, eu não seria totalmente feliz. Sou aquele irmão mais novo que vê o irmão mais velho brincar com a bola e corre atrás da bola, chora para tê-la. E quando o irmão mais velho vai pegar o carrinho, eu largo a bola e vou chorar pelo carrinho. Quadrinhos, livros e TV para mim são projetos que eu preciso ter o “poder” de fazer quando tiver vontade ou quanto quiserem.

Voltando a Pequenos Heróis, qual a sensação de se deparar com seu quadrinho nas listas de melhores lançamentos de 2010 e outras resenhas positivas? O mesmo para o inverso, teve algum comentário que te desagradou?

É uma satisfação, ainda mais com tanta gente boa. Estar na mesma lista que Danilo Beyruth, um cara que tem andado pelo mercado de quadrinhos a passos largos. Fazer parte da história de pessoas assim, como coadjuvante de luxo, é gratificante.

Pequeno Heróis tem claras intenções de alcançar o público estrangeiro, já pintou algum contato ou elogios de fora do Brasil?

Nós estamos publicando nos EUA em formato de E-book pela editora 215Ink. Segundo o Mário César, o editor da empresa tem muito interesse em levar o álbum para a Comicon. Estamos esperando uma formalização para comemorar nosso contato com o público americano.

Muito obrigado pela entrevista Estevão e parabéns pelo seu trabalho! Para encerrar, deixe uma mensagem para os leitores do Pipoca e Nanquim.

Eu agradeço a oportunidade e convido a galera a conhecer o meu trabalho no blog. Além de tirinhas do Hector & Afonso, lá tem notícias de outros trabalhos em desenvolvimento e dos próximos lançamentos, como O LIVRO DOS GATOS, um Conto Gráfico que ouso chamar de livro infantil. Esse livro sairá pela Llyr Editorial, selo de fantasia da editora carioca Usina de Letras e conta a história de cinco gatos de condições diversas que são forçados a se reunirem por um triste motivo. Parte da renda desse livro vai para duas ONGs que cuidam de animais abandonados.

Espero vocês lá!

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Não perca tempo, visite o blog Os Passarinhos agora! Certamente irá se encantar por Hector & Afonso.

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Procure nas lojas de sua preferência a HQ Pequenos Heróis e o livro A Corrente. Ambos são altamente recomendados!


Entrevista com André Diniz, autor de O Quilombo Orum Aiê

Olá, pessoal!

Orgulhosamente apresentamos a vocês mais uma grande entrevista, batemos um papo com André Diniz, um dos maiores nomes dos quadrinhos nacionais, sua trajetória é uma aula de como produzir quadrinhos no Brasil, ele já fez zines, montou sua própria editora (Nona Arte), teve obras publicadas na Conrad e Record , ganhou (algumas vezes!) os principais prêmios nacionais, Troféu HQmix e Ângelo Agostini,  além de ser um tremendo roteirista, em seu mais recente lançamento O Quilombo Orum Aiê, André se aventurou no mundo da ilustração e fez isso de maneira fabulosa!

Então não perca tempo e leia essa baita entrevista!

P&N: Olá André! Como foi seu começo de carreira? De onde surgiu a decisão de roteirizar, desenhar e publicar quadrinhos?

André Diniz: Costumo dizer que nasci com o vírus dos quadrinhos. Nem sabia ler ainda e já desenhava as minhas HQs, e nunca pensei em fazer outra coisa. A minha faculdade foram os fanzines, lancei um atrás do outro lá por 94, 95. Depois, fui ensaiando passos mais profissionais até que em 2000 lancei a minha própria micro-editora, a Nona Arte, que foi como se fosse a minha pós-graduação.

Mas a auto-publicação não foi exatamente uma opção pra mim naquele período. E sou e sempre fui um autor, e pra falar a verdade, tenho horror a ter que lidar com gráficas ou esquematizar a distribuição de um livro. O meu negócio é a criação, e até por isso eu abri mão da “carreira” de editor independente quando o mercado brasileiro passou a permitir que alguém tenha uma produção permanente e profissional.

Quanto à criação em si, o principio de tudo pra mim é contar histórias. Isso fez com que, por muito tempo, eu me dedicasse muito mais aos roteiros do que ao desenho. Como eram muitas histórias pra contar e pouco tempo e – até então – pouca desenvoltura para desenhá-las em um nível profissional, concentrei-me nos roteiros e deixei os desenhos nas mãos de parceiros. Mas desde 2008, consegui domar o problema do tempo de desenhar as páginas de uma HQ, encontrei a minha voz graficamente e tomei gosto de vez em desenhar também. Só nesse ano, serão lançados ao menos dois álbuns com roteiros e desenhos meus, além de outro onde, pela primeira vez, desenhei o roteiro de outra pessoa.

Durante sua carreira você já fez zines, montou sua própria editora, já publicou em grandes editoras, disponibilizou HQ para download, é roteirista e também desenhista, ou seja, já experimentou de tudo um pouco. Como avalia o mercado de quadrinhos nacionais atualmente?

Há ainda muita coisa a se aprimorar e a ser corrigida, mas o fato é que passamos a ter os problemas de “gente grande”. Temos voz na mídia, temos editoras interessadas e os nossos livros vendem. Em alguns casos, até recebemos um dinheiro justo pelo nosso trabalho. Viramos a página quanto aos antigos problemas dos quadrinhos – “ninguém lê HQ nacional”, “as editoras não apostam em artistas brasileiros”, “todos acham que quadrinhos é coisa de criança” etc. Agora é lutar por consolidação do mercado, respeito e ética na relação entre autores e editoras, mecanismos mais claros de prestação de direitos autorais… Mas foi uma conquista passarmos a ter os mesmos problemas que os demais autores do mercado editorial.

Você não pretende colocar mais suas HQs para download?

Olha, acho que vou dizer aqui em primeira mão: em breve, breve mesmo, eu lanço um site com HQs online escritas e desenhadas por mim. Não serão HQs ocasionais, elas terão atualização frequente e uma linha específica que darão uma unidade a todas as HQs. Mas o formato é totalmente diferente do antigo site Nona Arte. Lá, eu digitalizava HQs que foram feitas para o papel e as disponibilizava para download em PDF, como uma espécie de biblioteca digital. Mas o que começou com prazer tornou-se um pesadelo para mim nos últimos tempos, pois eu não dava conta de lidar com centenas de autores e isso tomava muito do meu tempo de criação. Nesse novo site, as HQs, todas de minha autoria, serão curtas, pensadas para a leitura online.

O que é necessário para que a publicação de HQs no Brasil se torne uma indústria, como ocorre no resto do mundo?

Não sei se o único caminho para os quadrinhos é nos tornarmos uma indústria, se pegarmos como modelo o mercado americano ou japonês. Não acho que seja essa a nossa vocação. Acredito num casamento muito saudável de trabalhos mais autorais e trabalhos comerciais, sem uma padronização de mercado ou de estilos. Sinceramente, se eu for levar mais em conta o meu lado autoral do que o profissional, eu odiaria ser quadrinhista num mercado como o americano ou, principalmente, como o japonês, onde todo mundo pode ser criativo desde que faça exatamente isso ou aquilo.

Mas essa é sempre uma questão complexa e controversa. Vide o cinema nacional, por exemplo. Tínhamos o cinema já caminhando com a retomada. Aí veio a Globo Filmes e criou uma indústria de cinema no Brasil. Foi bom? Foi ruim? Em termos de empregos e de grana, foi ótimo. Mas pro cinema brasileiro como arte e para os cineastas como artistas foi um desastre. E, salvo um ou outro filme que mostre favelados e traficantes – sem nenhuma critica a Cidade de Deus e Tropa de Elite, dois ótimos filmes -, o cinema nacional, no nível em que está, jamais terá qualquer representatividade lá fora. Um sistema que abrace as duas vertentes, autoral e comercial, é muito mais saudável.

Você já lançou grandes HQs, como Fawcett, Subversivos, Chalaça, 7 Vidas, Ato 5 entre outras, qual delas foi a mais difícil tanto em termos de pesquisa e concepção quanto em termos de publicação?

E termos de pesquisa foi, disparado, O Quilombo Orum Aiê, que lancei ano passado pela Record. Até porque, além da pesquisa histórica que me tomou uns seis meses, foi com ela que abracei de vez a minha carreira de desenhista. Foi nesse trabalho que descobri a minha linguagem gráfica, que criei meu próprio método de produção e que incorporei ao meu trabalho – com dose extra nessa HQ – uma antiga paixão minha, que é a arte africana.

Já as mais difíceis para publicar foram Fawcett e Subversivos, pois foram as primeiras que publiquei pela Nona Arte, tratando sozinho de absolutamente todos os aspectos práticos – impressão, divulgação, distribuição – sendo que a minha experiência e o meu capital eram limitadíssimos.

7 Vidas, nesses aspectos, foi a mais fácil de todas. Isso porque a minha experiência com a chamada Terapia de Regressão às Vidas Passadas foi tão rica, tão interessante, que bastou que eu a transcrevesse à linguagem dos quadrinhos em forma de roteiro. Pro Antonio Eder, que foi quem a desenhou, o trabalho foi bem mais puxado. A publicação também foi facílima. Bastou comentar sobre ela na Conrad, editora pela qual eu já ti há lançado o Chalaça, que eles se interessaram de cara.


Como foi trabalhar ao junto com o mestre Flávio Colin?

Foi um privilegio enorme, e devo a ele muito da divulgação inicial que tive como autor. O roteiro de Fawcett, a HQ que fiz com Colin, foi muito elogiado, ganhou prêmios e tudo, mas a maior parte das pessoas leu a HQ por causa do Colin, eu não era um autor conhecido até então. O meu contato com ele foi pequeno, infelizmente. O curioso é que nós só nos conhecemos pessoalmente no dia em que fui a Teresópolis, onde ele morou na etapa final de sua vida, levando Fawcett já impressa.

O trabalho do Colin é a minha referência de uma arte brasileira legítima nos quadrinhos, sem nacionalismos ou estereótipos. Morreu há quase dez anos com mais de 70 anos de idade, e mesmo assim seu trabalho continua moderníssimo. Graficamente, é talvez o artista que mais me influenciou.

Se pudesse escolher qualquer artista (vivo ou morto) para desenhar uma de suas histórias, qual seria e por quê?

Colin de novo, por tudo o que eu acabei de dizer!

O Quilombo Orum Aiê (que, aliás, é sensacional, parabéns!)  diferente dos seus trabalhos anteriores você também ilustra e faz isso de com excelência, pegou gosto pela coisa? Tem novos projetos nesse âmbito?

A minha carreira já pode ser dividida em antes e depois do Quilombo Orum Aiê. Pode parecer estranho ao leitor, pois o livro acabou de sair e as minhas obras seguintes ainda não foram publicadas, mas nos bastidores o ritmo é outro. Tem obras minhas de 2008, 2009 e 2010 já prontas mas que só serão publicadas agora, por motivos diversos, e aí sim isso ficará mais evidente. Isso porque foi a partir do Quilombo Orum Aiê que me encontrei como desenhista, não só quanto ao desenho em si, mas também quanto ao meu processo de criação e execução de uma pagina de HQ. Cheguei à conclusão que o maior vilão para um autor de quadrinhos não é o mercado, não são as más editoras, não é a baixa remuneração. O nosso maior obstáculo é o tempo que se leva desenhando uma HQ. Se ganharmos X para desenhar uma HQ de 200 páginas, esse X é irrisório se formos levar três anos nos dedicando a esse único trabalho. Mas se essas mesmas páginas tomarem quatro meses de nossas vidas, esse valor X pode até ser bem interessante. Daí, juntando essa questão ao fato de que tenho diversas ideias rascunhadas que pretendo concretizar um dia, pesquisei ininterruptamente por três meses tudo o que poderia acelerar o meu trabalho, desde a organização do meu tempo, as ferramentas certas, formas que digam mais com menos traços… Até a questões aparentemente estapafúrdias, como a criação de ícones específicos para as pastas onde salvo meus trabalhos e a cor de cada um deles tiveram relevância. Estudei muito também a minha forma de criar, os meus obstáculos, se eu rendo melhor fazendo isso de manhã e aquilo de tarde ou vice-versa. O fato é que isso fez toda a diferença para mim e me possibilitou ter mais tempo para planejar, para escrever, para me aperfeiçoar e ao mesmo tempo, contraditoriamente, para produzir muito.

Quilombo Orum Aiê  foi selecionado para o PNBE (Programa Nacional Biblioteca da Escola) isso significa um bom alívio financeiro?

Sem duvida! Não se pode fazer a fantasia de que com esse dinheiro eu vou comprar um apartamento ou que isso vá me sustentar por um ano inteiro, mas é uma ótima remuneração.

Quais sãos os quadrinhos que leu e pensou “Putz que obra! Queria ter escrito isso”

A minha memória anda uma coisa horrorosa, e com certeza eu vou me lembrar depois de várias outras HQs que eu devia ter citado aqui. Mas, entre as que me ocorrem agora, posso citar Maus, Buda, O Sistema, de Peter Kupper e os trabalhos do americano Eric Drooker.

Tem muito roteirista iniciante por ai que não sabe o que fazer para começar a publicar, qual a melhor dica que pode dar para eles?

Não dá pra querer começar do topo. Ainda via site Nona Arte, recebo muitos e-mails de autores que nunca publicaram nada e já querem começar com uma coleção de livros ou uma revista mensal. Quem quiser começar com quadrinhos, tem que ter humildade, publicar na internet, fazer uma edição independente, um fanzine, e conhecer seus leitores, ouvir criticas, ouvir mais criticas e ter a maturidade para avaliar quais procedem e quais não. Nenhum editor hoje quer descobrir talentos do nada, você vai ter que fazer o seu nome aparecer antes, mesmo que para um público seleto.

Quanto ao trabalho de criação do roteiro, ter uma cultura abrangente é o maior trunfo de um roteirista. Leia e assista de tudo, mas sem ser fã de nada. É ótimo conhecer aquele seriado que estreou no canal X, mas se você quiser assistir a cada episódio ao longo de sete anos, vai estar perdendo a chance de conhecer coisas novas que poderão somar ao seu trabalho. Leia todo o tipo de romances, de livros não-ficção e de quadrinhos. A diversidade é mais importante do que a quantidade. Da mesma forma, veja filmes de todos os gêneros e de todas as nacionalidades, espie as novelas, vá ao teatro, aos museus e as exposições. Leia sobre história, sobre psicologia, leia livro de etiquetas, de moda, leia tudo. Tudo fará você crescer como um autor. E isso inclui também as experiências de vida. Viaje, converse com pessoas de mundos diferentes, observe, pergunte, anote… Se você quer contar histórias, você precisa ter o que dizer aos seus leitores. Sinceramente, não acho que alguém que passe a vida lendo os mesmos quadrinhos e que esteja por dentro de todos os seriados tenha algo consistente a passar.

Muito obrigado pelo papo André! Por último deixe uma mensagem para os leitores do Pipoca e Nanquim

Caramba, já falei tanto que nem sei mais o que dizer… O que me resta é mandar um abraço forte, carinhoso e de coração a todos!

Para saber mais sobre os trabalhos do André Diniz acompanhem o site Nona Arte.

Siga-o no twitter: @adiniz9