Três (bons) Filmes Bizarros que Você tem que Ver!!!

THE WIZARD OF GORE (2007)

Este filme tem sido exibido nos canais de TV a cabo no Brasil com o título O Mágico Sanguinário e é o típico longa-metragem que se você pega um pouquinho começado, corre o risco de não entender absolutamente nada. Na verdade, mesmo assistindo desde o começo, você corre esse risco. E por que estou destacando esta pequena gema e recomendando-a para que vocês assistam, se é um filme maluco, confuso e paranoico? Por que ao mesmo tempo ele é brilhante.

Refilmagem de um clássico de 1970, esta nova versão foi dirigida por Jeremy Kasten que tem no currículo muuuitas coisas esquisitas, e poucas dignas de nota. Mas este filme se destaca por sua singularidade, pelo roteiro maluco, atuações inspiradíssimas e até mesmo, direção inusitada.

Não dá para falar muito sobre o roteiro sem entregar o ouro, mas basicamente, um jornalista e sua namorada vão assistir a um espetáculo de Montag – O Magnífico (o tal Wizard do título) – um festival de mau gosto, cheio de bizarrices e que culmina com a “morte” no palco de uma garota escolhida aleatoriamente na plateia. Quando o público está prestes a se desesperar, o mágico revela que tudo não passava de um truque e é aplaudido de pé ao entregar para as pessoas aquela experiência tão terrível, quanto transcendental.

O jornalista se torna obcecado pelo espetáculo e começa a frequentá-lo todas as noites, a fim de descobrir os truques do ilusionista. Porém as coisas começam a se complicar quando as moças “mortas” no palco, aparecem mortas de verdade.

Há muito mais por trás desse belo roteiro – se o espectador entrar na onda do filme.

Os constantes choques de realidade, os flashes que vislumbramos na tela, as cores gritantes, uma suposta falta de linearidade, tudo confunde o espectador ao ponto deste não chegar a saber o que é realidade e o que é delírio. Quando você acha que sacou o que está acontecendo, novas reviravoltas reconduzem a trama em outra direção – tudo isso regado a muito “gore”, conforme prenuncia o título.

O verdadeiro destaque vai para a atuação caricata, porém envolvente de Crispin Glover no papel de Montag. Se você é uma pessoa que já teve sérias desilusões com o comportamento da raça humana, que sofreu decepções em sua vida, que tem dificuldades em se encaixar em convenções sociais, que rejeita sistemas e ideologias e tem um pouco de anarquismo na alma, absolutamente TODAS as falas de Montag irão ressoar fundo em sua cabeça. A inteligência de seus monólogos só rivaliza com a bizarrice.

Glover nunca teve um papel que realmente o destacasse como ele merece, porém é minha esperança que ele ainda seja reconhecido pelo talento único que representa. O resto do elenco também é bastante competente, Kip Pardue no papel do jornalista Edmund Bigelow empresta profundidade e estranheza ao seu personagem, um ar de soberba e orgulho que faz com que o espectador tenha vontade de socá-lo, mas ao mesmo tempo, um magnetismo que não nos deixa desgrudar dele. Sua namorada Maggie, interpretada pela gracinha Bijou Phillips também convence e de quebra, temos uma ponta do sempre competente Brad Dourif, que ficou conhecido do público mais jovem por seu papel como Grima, em O Senhor dos Anéis.

MAY (2002)

Uma verdadeira viagem à mente de um psicopata, mostrando todo o processo de deterioração de seu pensamento, convívio social, envolvimento dos traumas e neuroses, até finalmente ceder aos instintos e fazer aquilo que um psicopata nasceu para fazer: destruir!

Vou dizer uma coisa, May não é um bom filme. É simplesmente espetacular!!!

E ele se ancora inteiro nas costas de Angela Bettis – uma das atrizes mais legais da atualidade, que ainda não foi reconhecida por Hollywood e pelas grandes produções, mas que estrelou filmes tão diversos (e bons) como a refilmagem de The Toolbox Murders (de Tob Hooper), Scar – A Marca do Mal, Pefume e Garota Interrompida. Ela também já fez pontas em várias séries de TV famosas como House e Dexter, e estrelou um dos episódios da série Masters of Terror, Sick Girl.

Angela é magrinha, feinha, com olhos mais esbugalhados do que Cristina Ricci – porém basta dez minutos dela na tela que você já fica apaixonado. Ela é muito boa atriz, tremendamente cativante, dona de um grande carisma e aqui se supera.

Na história, vemos as tentativas desesperadas dessa mulher estranha e solitária de estabelecer um vínculo com as pessoas que a cercam – no trabalho, com um suposto namorado – e a cada tentativa, falhar enormemente. Cada passo que ela dá a coloca mais distante de sua conexão com as pessoas comuns; pouco a pouco, os traumas de infância vão sendo revelados ao público e o espectador acaba dividido, sem saber o que vai acontecer (e sem saber o que gostaria que acontecesse: May deve se enquadrar ou liberar sua natureza?).

O filme foi dirigido por Lucky McKee (não se preocupe se você nunca ouviu falar dele e, acredite em mim, jamais, JAMAIS, alugue um filme chamado A Floresta), mas qualquer outro poderia ter ocupado a cadeira de diretor. Quem manda do começo ao fim na película é Angela, que assessorada por um elenco jovem (e inexpressivo), só faz seu talento brilhar ainda mais.

Se você está esperando um filme cheio de sangue, esqueça. May não é esse tipo de filme. É um horror psicológico, que se desenvolve lentamente e mexe muito mais com seus nervos e apreensão, do que procura lhe dar sustos baratos e saídas fáceis; por outro lado, é o tipo de filme que fica grudado na sua cabeça por conta do realismo com que trata a condição da garota May. Isso o faz pensar que qualquer pessoa que está ao seu lado pode ser assolada pelos mesmos pesadelos que ela e, a qualquer momento, incendiar um ônibus, entrar atirando em uma escola ou fazer qualquer outra coisa que as pessoas fazem durante um surto psicótico.

Altamente recomendado!

PINK FLOYD – THE WALL (1982)

Se este é um filme estranho mesmo para os padrões dos filmes estranhos, saiba que ao mesmo tempo ele é brilhante em absolutamente todos os sentidos. Mesmo que você não seja fã da música do grupo, este é um longa carregado de significados que não faz concessões e dá um soco no estômago do militarismo, política, sistema educacional, capitalismo e até mesmo o atual conformismo das massas, mesmerizadas por forças poderosíssimas como o entretenimento em massa.

Mas acima de tudo, The Wall é uma jornada ao fundo do poço da alma humana, que mostra (ainda que de forma simplista), como nascem os grandes ditadores, como Hitler e Mussolini, e como eles conseguem voz ativa sobre o povo que os segue cegamente.

Dirigido por Alan Parker (que já nos entregou obras primas como Coração Satânico e Mississipi em Chamas, mas não produz nada desde a Vida de David Gale, de 2003), o filme é obviamente um musical, que capta a essência do álbum original do conjunto Pink Floyd, porém o leva além – ordenando as músicas numa sequencia lógica (muitas vezes diferente das do disco), para contar a história de Pink, interpretado por Bob Geldoff, um astro do rock que começa a sua descida rumo à loucura, assolado por uma infância perturbada e traumas que roubaram sua inocência. Uma fusão perfeita de música com imagens – talvez essa possa ser uma boa definição para este filme.

As letras-denúncia de Roger Waters, líder do Pink Floyd, já não deixavam pedra sobre pedra e não consideram instituição alguma sagrada (sobra até para as mães) – e Alan Parker não deixa por menos. Não é possível assistir ao filme sem sentir um pouco de asco da raça humana.

Entre as poderosas imagens que o filme criou, estão as conhecidas sequencias das crianças sendo jogadas dentro de um moedor de carne na escola e a surpreendente animação das flores, que entra na segunda metade do filme.

Na medida em que Pink inicia sua jornada na construção de seu muro, vamos sendo apresentados a um universo sombrio, que nos leva a questionar o quanto nós próprios construímos dos nossos muros, seja para manter as coisas fora, seja para mantê-las dentro. E, na busca de nos proteger, colocamos cada vez mais tijolos e argamassa, sem perceber que ao tentarmos nos livrar da dor e do medo dessa forma, só o que fazemos é dar força a eles.

Um musical excepcional que mercê fazer parte da coleção, em Blu-Ray!