Um breve panorama da Circo Editorial

Quero falar um pouco de um dos principais movimentos dos quadrinhos brasileiros e de uma das principais e mais originais editoras que já vimos surgir por aqui, a Circo, que deixou uma marca indelével na cultura brasileira e redefiniu o que todos conheciam sobre humor e crítica a sociedade em geral. O texto é um trecho da minha monografia que adaptei para ficar mais “agradável” de se ler, mas ainda assim está um pouco acâdemico, mas enfim, espero que curtam ou que ele desperte interesse por esse fabuloso momento dos quadrinhos nacionais.

O início da década de 80 é momento de extrema importância no mercado de quadrinhos nacional, pois vemos o surgimento de revistas em quadrinhos de autores brasileiros produzidas em larga escala, revistas que em geral eram coletâneas ou solos de autoria de alguns quadrinhistas “undeground”, alternativos que iniciaram sua produção na década anterior, como por exemplo, Luiz Gê (revista O Balão),  Marcatti, Edgar Vasquez (revista Rango) e o time que produzia O Pasquim (Jaguar, Ziraldo e Henfil) que vinham fazendo histórias do estilo, que aqui batizamos de udigrudi. Esses quadrinhos alternativos sempre existiram no Brasil, mas começam a tomar fôlego e competir com os estrangeiros na década de 70, pois surgem diversas pequenas editoras, principalmente em São Paulo, além de uma possibilidade de distribuição um pouco maior através do reembolso postal, que ajudava os autores a sobreviverem. Entretanto, os números ainda eram modestos, até que na década de 80 surgem editoras maiores dispostas a publicar esses quadrinhos de caráter contestatório, pois notam que o público jovem começa a buscar esse estilo de leitura, principalmente os adolescentes que formavam, o que podemos chamar de, uma cultura urbana nos grandes centros de nosso país. Estes eram sem dúvida um mercado consumidor de entretenimento, música, cinema e quadrinhos que de preferência fossem condizentes com sua realidade, muito diferente do mundo dos super-heróis americanos, do fantástico Disney ou do infantil Turma da Monica.

“Nos anos 80, há o “boom” das histórias em quadrinhos, algo que se verifica também em outros setores da indústria cultural. Podem-se observar os mesmos elementos em relação ao rock, quando o Brasil passa a ser incluído na rota dos megashows e com o surgimento do que se denominou rock nacional, um momento em que várias bandas, principamelnte do Rio, São Paulo e Brasília, vão se consolidar no mercado. Observa-se uma espécie de estabelecimento de uma cultura jovem urbana e a incorporação dessa parcela da população ao mercado de consumo.” (Silva, 2002. Pág 25)

Esses jovens buscavam a estética punk e da vanguarda paulista que ouviam em seus rádios, dos filmes produzidos pela Embrafilme, dos quadrinhos underground americanos encabeçados por Crumb e Gilbert Shelton, mas refletindo a realidade brasileira.

“…início da década de 1980 foi marcado por outras mudanças, principalmente no que tange ao comportamento e à cultura, especialmente em São Paulo, com o surgimento de uma produção cultural independente. Embora a capital paulista fosse um pólo de cultura importante e efervescente, que recebia e produzia espetáculos, shows e mostras, uma parte da intelectualidade e dos artistas da época procurou caminhos novos e outros tipos de recursos, à margem do Estado ou dos promotores tradicionais. (Santos, 2007. Pág 4)

Toninho Mendes

Toninho Mendes

Com isso alguns editores aproveitaram esse nicho de mercado e lançaram revistas que tiveram certa repercussão nacional com: Udigrudi, Porrada, Animal, Abutre, Tralha, Dun Dun e etc., Toninho Mendes percebendo que essa era uma demanda em potencial também decide investir em uma editora que publicasse revistas com temáticas de crítica ao cotidiano urbano das grandes cidades e é nesse contexto que surge em 26 de Abril de 1984  a Circo Editorial, que  atuou em nosso mercado por mais de dez anos e lançou diversas revistas  produzidas por grandes talentos como Laerte, Angeli, Glauco, Chico e Paulo Caruso, Luiz Gê, entre outros.

O ano de 1984 também seria lembrando pelo movimento de “Diretas Já”, que mostrava clara a possibilidade do termino do regime militar em nosso país para milhões de brasileiros que iam às manifestações pelo direito de eleger o presidente da republica e a democracia não apenas traria de volta as liberdades civis e políticas, como também o fim da inflação, o retorno do crescimento e a sonhada redistribuição de renda. O ambiente nacional era de esperança e confiança no futuro próximo.

Segundo Santos (2007, pág. 5):

Os rigores da censura haviam diminuído e a sociedade brasileira começava uma nova fase, marcada por instabilidades políticas e econômicas, mas com o regime democrático restaurado. Só nessas condições uma editora como a Circo seria concebível. O nascimento da Circo está diretamente relacionado ao movimento de abertura política. Os reflexos da situação política influenciaram a forma como os artistas passaram a utilizar o humor nas histórias em quadrinhos, que passaram a falar da sociedade e não dos gabinetes.”

A primeira revista lançada pela Circo foi a Série Traço e Riso, que obteve relativo sucesso logo em seus primeiros exemplares, o que incentivou Toninho a investir no lançamento de outra revista, a Chiclete com Banana, que obteve excelentes números de vendas, se tornou o carro chefe da editora  e teve a maior duração, sendo publicada de novembro de 1895 a novembro de 1990, além das reedições e títulos especiais.

Capitaneada por Angeli, a Chiclete com Banana chegou rompendo diversos paradigmas dos quadrinhos nacionais e graças a ela foi impulsionado um novo mercado e se abriu espaço para propostas de quadrinhos nacionais diferentes dos tradicionais importados.

Segundo Angeli (em entrevista para a revista Bravo!):

“…no primeiro número da Chiclete com Banana tiráramos 20 mil exemplares. “Nossa, é muito cara” vendemos os 20 mil. Ai o Toninho , no segundo número, aumentou para 40 mil, vendeu os 40 mil. Chegamos a 110 mil exemplares. A chiclete serviu como balão de ensaio para as outras editoras, tanto para as pequenas como para as grandes Abril, Globo…”

Com esse fenômeno de vendas foi possível investir em outros lançamentos como Geraldão (Glauco), Striptiras (Laerte), Níquel  Náusea (Fernando Gonsales) entre outras.

Segundo Silva (2002, pág.) o contexto do surgimento da Chiclete com Banana foi o seguinte:

Na década de 80 observou-se uma proliferação até então não vista no mercado nacional de produtos direcionadas para a juventude urbana. Isso ocorreu em relação ao rock, o rock nacional, assim como os quadrinhos. Nas HQs nota-se o surgimento de propostas de revistas explorando esse mercado e com características anárquicas, com conteúdos que lembravam as idéias de contracultura dos anos 60 ou a ideologia punk dos anos 70. Outro elemento importante nesse período foi a proliferação das tribos urbanos que, literalmente invadiram os grandes centros urbanos.”

Mas apesar do sucesso de público a editora Circo sofria do mal que atormentava as mais diversas empresas brasileiras naqueles anos, a inflação desenfreada, basta ver a confusão que ocorria com os preços nas capas das revistas, para pequenos editores que lançavam revistas bimestrais, o planejamento a partir de 1985 era absolutamente complicado e muitas vezes,  era impossível prever se seria possível o lançamento do próximo número. A Chiclete com Banana chegou as bancas em novembro de 1985 custando Cr$ 9.000 (Cruzeiro), no terceiro número já custava Cr$ 14.000 e o próximo (4) lançado em maio de 1986 já era marcado na nova moeda, Cz$ 14,00 (Cruzado), os preços de capa, mais incríveis são os seguintes números, os preços foram esses, número 12 (Novembro/87) Cz$ 45, núm. 13 (Março/88) Cz$ 140, num. 15 (Agosto/88) Cz$ 290 e número 16 (Novembro/88) Cz$ 550 (imagine você leitor de quadrinhos,  se sua revista preferida a cada dois meses mais que dobrasse de valor).

A insanidade dos preços e o caos econômico (só para ter uma idéia, durante a existência da Circo, o padrão monetário nacional mudou cinco vezes) faziam com que Toninho Mendes ficasse impossibilitado de planejar e viabilizar alguns novos lançamentos, isso cansou o principal autor da Chiclete com Banana, Angeli, que perguntado sobre isso, respondeu:

“Enfrentamos alguns planos econômicos, estávamos vendendo 60 mil antes do plano Collor. Depois o número seguinte vendeu 8 mil exemplares. E quem não tem uma receita de anunciantes quebra. Chiclete com Banana era um grande guarda chuva que, com dinheiro que entrava, abrigava a Circo do Luiz Gê, Geraldão do Glauco, Piratas do Tietê do Laerte, Niquel Nausea do Fernando Gonsales…mas me cansou.”

Depois do encerramento do principal título da casa, Toninho passou a reeditar todos os números da Chiclete com Banana e alguns especiais de personagens icônicos como, Rê Bordosa, Skrotinhos e Bob Cuspe. Segundo Santos:

“Além de problemas de gestão administrativa, o término da Circo Editorial foi ocasionado pelas oscilações da economia brasileira nas décadas de 1980 e 1990. Diversos planos econômicos agravaram a escalada da inflação e dificultaram a produção editorial de quadrinhos. Quando a editora recebia o pagamento da distribuidora, dois meses depois da publicação de uma revista, não conseguia arcar com os custos de produção do próximo número, o que obrigou a Circo Editorial a fechar no final de 1995.”

E foi assim que uma das mais importantes revistas em quadrinhos brasileira se acabou e a editora mais original e contestatória de nosso país fechou as portas, mas apesar do termino da editora alguns grandes autores revelados continuam até hoje produzindo e nos encantado com tiras e histórias fabulosas como por exemplo as vastas e geniais produções de Laerte e Angeli. Toninho Mendes continua sendo um excelente editor e vez ou outra edita alguns álbuns de seus antigos companheiros da Circo para  grande editoras como Devir e LP&M e atualmente está a frente da editora Peixe Grande, com a qual já lançou Quadrinhos Sacanas 1 e 2 e Maria Erótica de Gonçalo Junior.

Não percam tempo, leiam tudo o que conseguirem encontrar da Circo Editorial!!

E para saber muito mais sobre esse assunto procure os livros abaixo:

Bibliografia:

JUNIOR, Gonçalo – Introdução de Os broncos também amam, Angeli: São Paulo: L&PM.

LUYTEN, Sonia M. Bibe – O que é Histórias em Quadrinhos. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SILVA, Nadilson M. da. – Fantasias e cotidiano nas histórias em quadrinhos. São Paulo: Annablume, 2002.

SANTOS, Roberto E. dos – O quadrinho alternativo brasileiro nas décadas de 1980 e 1990: São Paulo, 2007, Disponível em:  http://repositorio.uscs.edu.br/bitstream/123456789/101/2/O%20quadrinho%20alternativo%20brasileiro.pdf Acessado em 16/01/2011

Revista Bravo! número 50 – maio de 2001