Minha Estante #08 – Ronivaldo Silva

Olá, pessoal!

Estão dispostos a conhecer mais uma bela coleção de quadrinhos?!

Dessa vez conversamos com Ronivaldo Silva, que possui um belíssimo acervo e diferente dos já mostrados por aqui, mais da metade dele é composto por quadrinhos importados.

Sem muita delongas, pois vocês provavelmente querem ler a entrevista e não essa introdução, vamos ao que interessa!

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Olá Ronivaldo, obrigado pela receptividade! Para começar gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores.

Sou quase um quarentão, leio quadrinhos desde criança, adoro desenhos animados e sou da geração em que as informações sobre quadrinhos nos chegavam somente através de fanzines e coisa do boca a boca.

Quando você começou a se interessar por quadrinhos?

Desde minha infância já gostava de quadrinhos… influenciado, claro pelas longas e eternas manhãs sentado à frente da TV assistindo ao maravilhoso mundo dos desenhos animados…

Você se lembra da primeira vez que se viu fascinado por uma HQ? Qual foi a história ou revista?

Bom, me recordo que quando eu tinha uns oito anos de idade, em viagem com minha mãe pelo nordeste, me lembro de ter pedido para ela me comprar uma revista para ler, porque a viagem estava muito cansativa e eu entediado… bom, ela  resolveu comprar para mim uma revista em quadrinhos, me lembro de ter que escolher entre “Os Trapalhões” e “Capitão América”. Os primeiros eu adorava, seguia todos os domingos na TV e o segundo já tinha ouvido falar, já vira em desenhos, nas tampas de margarina, só podia escolher uma revista: fiquei com os  “Os Trapalhões”,  e nunca mais me esqueci do personagem do Mussum vestido de Nega Maravilha, uma paródia da Mulher Maravilha. Mas ainda hoje gostaria de ter comprado as duas revistas. Recordo-me também de dividir com meus irmãos uma edição do Snoopy onde aparecia o Linus e o eterno dilema do Grande Abobora. Essas foram as edições que me marcaram.

Quando foi que se transformou de leitor ocasional de quadrinhos para um colecionador aficionado?

Lá pelos meus 14 anos eu havia perdido o contato com os gibis…mas um amigo de meu irmão caçula me mostrou o trabalho em quadrinhos de um cara que era o anzol que iria me fisgar de vez para o mundo dos quadrinhos: Frank Miller. Isso era nos meados dos anos 80, eu estava em plena puberdade, precisando de novas aventuras para preencher o eterno labirinto de minha ansiedade em descobrir mundos novos, e que fosse uma literatura diferente do universo só de letras e papel, eu queria ver cores. Pinturas em movimento. Arte com literatura. As revistas em quadrinhos eram tudo isso e muito mais, eu viria a descobrir. Esse amigo me ofereceu a edição #1 de Cavaleiro das Trevas e uma edição de Superaventuras Marvel #20. Fui apresentado ao Batman, Elektra, Demolidor e o maravilhoso mundo policial de Frank Miller. O Batman de Miller era bem diferente do Batman dos Superamigos da TV, nada pastelão, nem de longe parecido com Adam West… eu estava fisgado. Recordo-me de que fiquei louco para ler as seqüências, o romance de Elektra e Demolidor, o Batman velhote e mais durão que nunca e tal. A partir daí minha corrida às bancas era freqüente, comprei minha primeira revista, o Homem-Aranha da Editora Abril e aí conheci os X-Men, Thor e todos esses incríveis heróis de papel. E nunca mais parei…

Quantas HQs você tem?

Tenho uma coleção que não é modesta, mas não tão grande quanto gostaria de ter. Tenho cerca de 2550 edições importadas e mais cerca de 1950 nacionais, e sempre aumentando. Já tive bem mais…  mas já desfiz de muita coisa por falta de espaço.

Quais são os principais itens da sua coleção, aquelas séries ou volumes que são as meninas dos olhos de sua estante?

Em minha coleção tenho orgulho de ter alguns itens que corri atrás por anos para ter completo. Gosto muito das coleções do Monstro do Pântano da Ebal, Heróis da TV e Superaventuras Marvel da Abril, adoro o formatinho. Importadas gosto de ter na coleção a fase de Miller no Demolidor e no Batman, Swamp Thing dos anos 70 e a fase de Alan Moore, Sandman, Watchmen, V for Vendetta, Camelot 3000, Dark Knight Returns, Starman, Animal Man de Morrison, Crisis on Infinite Earths, Moonshadow, e outras que fica difícil dizer qual seria minha preferida da coleção.

Qual o item mais raro da sua coleção?

Bem, talvez o item mais difícil de achar de minha coleção, ou pelo menos, foi um dos itens mais difíceis de encontrar foi Heróis da TV #1, que corri anos atrás ate encontrar uma edição digna de estar na coleção.

E qual foi a maior raridade que já comprou pelo menor preço?

Creio que as edições de OMAC de Jack Kirby, que foram uma ótima compra pelo valor que cada uma delas tem no mercado de quadrinhos.

Em sua opinião qual foi (é) a melhor editora de Quadrinhos no Brasil? E por quê?

Atualmente gosto muito das editoras nacionais. Recordo-me de que comecei a ler quadrinhos em uma época que os erros de editoração, os cortes, e adaptações das traduções eram corriqueiros e o respeito com o leitor passava longe. Não que isso não ocorra mais, nem menos, mas hoje o leitor já tem infinitas fontes de procura, várias editoras e opções de compra, alem do mais, o mundo digital tornou o acesso e a vigilância do leitor muito mais vigente, sem falar que as criticas já chegam a ser ouvidas, não só pelos editores, mas pelos leitores que recebem esse novo patamar como um termômetro para decidir se compra ou não uma revista. Atualmente, creio que os trabalhos de editoração da Conrad, estão entre os melhores que já vi.

Como você guarda suas revistas e quais técnicas usavam para conservá-las?

Bom, como todo leitor e colecionador que se preze, eu guardo muito bem meus comics. Coloco embalagem plástica em todas, e embora não goste muito, não dispenso uma naftalina para afugentar as traças. Tenho dois baús enormes para guardar, alem de varias caixas plásticas (as melhores) para acondicioná-las.

Já fez alguma loucura para conseguir algum exemplar?

Bom, já fiz muita besteira para conseguir um exemplar, desde ficar até alta madrugada esperando o ultimo lance de um leilão, ou mesmo comprometer meu orçamento com quadrinhos, claro.

Qual foi sua maior compra de uma só vez?

Certa vez, comprometi meu mês de pagamento com a compra de varias edições de uma vez só. Como eu lia muita coisa, e sempre queria ler mais, e por isso só percebi o rombo na hora de pagar o bolo inteiro. Acabei tendo que dividir tudo para pagar em 3 vezes no cheque pré-datado. Ainda bem que não era casado na época, senão minha mulher teria me matado. Hoje não tenho mais coragem de fazer isso.

Você também tem muita coisa importada ! Como faz para adquirir essas revistas?

Atualmente, como já sou mais moderado, compro um pouco de importadas por vez, a maioria para completar alguma série. Existem poucos importadores de comics no Brasil, por isso um excelente meio de compra é através dos sites especializados no exterior, e importar por conta própria.

Atualmente você compra mais HQs lançadas aqui no Brasil ou importadas?

No momento leio tanto importadas quanto nacionais, creio que em quantidades iguais. Antes, eu comprava as importadas mais devido à quase impossibilidade de ver o material ser lançado aqui, e pelos freqüentes erros de edição das editoras nacionais. Hoje, como o acesso a qualquer quadrinho que eu deseje ler está a um clique, e também a fidelidade dos editores ao original é muito profissional, compro as edições nacionais que faço questão de ter na coleção. Às vezes compro tanto as edições nacionais quanto importadas de um mesmo titulo.

Você como professor de inglês, tradutor e leitor e HQs importadas, percebe muito erros crassos em algumas traduções por aqui? Elas vêm melhorando ou ainda rola certo descaso com o público?

Olha, as traduções melhoram absurdamente. Como disse, antes eu tinha o prazer de comprar uma edição importada e fazer a comparação com a edição nacional, para ver o que eu estava perdendo. Hoje, quase não vejo mais isso. É mais comum erros de português mesmo, do que com a tradução.

Você é a favor de traduzir ou “abrasileirar” nomes originais?

Sempre gostei que o personagem tivesse o nome original preservado. Um bom exemplo é Wolverine! Imaginem esse nome traduzido! Outros são abominações mesmo: Fanático, nada a ver com o personagem. Jamanta ficaria razoável, embora ainda assim não fosse a tradução perfeita, nem ao pé da letra, mas seria a mais adequada para Juggernaut. Outros nomes como Batman, não se deve nem imaginar em traduzir, como por anos fizeram como o Superman. Agora “abrasileirar” não tem problema, desde que não seja absurdo ou ridículo. Um nome legal que gosto muito é Demolidor para Daredevil, que adaptado, seguido de “O homem sem medo” já se aproxima bem do significado original do nome do personagem. Sem problema algum.

Você acompanha alguma saga atual envolvendo super-heróis?

Sim, mais recentemente, acompanhei uma das melhores histórias do Capitão America que li em anos, que culminou na sua morte, e também a última boa fase do Demolidor de Bendis e Brubaker. Alias, nunca fui fã do Capitão, mas não há personagem ruim, há sim escritores ruins. O que Brubaker fez com o título, foi coisa de mestre na arte da ficção policial. Gostei muito também da Invasão Secreta, e acompanho o desenrolar do universo Marvel, como O Cerco e A Terra das Sombras. Com mais freqüência tenho acompanhado os títulos da Vertigo. A DC Comics na linha de heróis tenho mantido um pouco de distancia, pois não tenho visto muita coisa que me agrade, a não ser uma coisa ou outra: Lanterna Verde, por exemplo.

Você tem alguma “mania de colecionador”, seja para guardar, emprestar ou mesmo na hora de comprar?

Mania? Tenho muitas… como cheirar a revista na hora da compra, o cheiro do papel ainda é muito bom. Normalmente folheio toda a edição antes de ler, o que já me revela quase tudo da trama, mas isso não me tira o prazer da leitura não. Raramente empresto minhas revistas. Só amigos e que sejam também colecionadores. Meus amigos sempre me criticam que minhas edições ficam com cheiro de naftalina… fazer o que? Então, não vou emprestar mais…

Quais são em sua opinião os roteiristas mais importantes de todos os tempos? Aqueles que realmente foram geniais e revolucionaram os Quadrinhos?

Meu favorito é Alan Moore. Mas não tenho como não relacionar outros tantos: Frank Miller, Grant Morrison, Neil Gaiman, e não menos, Will Eisner. Dos escritores antigos, Dennis O´Neil, Marshal Rogers, Jim Starlin, Marv Wolfman, Lein Wein, Roy Thomas e Stan Lee.

Quais são seus desenhistas favoritos?

Depende da época: gosto muito de tudo do Jack Kirby, tudo do Mike Mignola, mas não dispenso os melhores trabalhos de Frank Miller, John Byrne, Neal Adams, David Mazzucchelli, e os mais recentes Alex Maleev, Brian Hitch,

Quais foram os últimos quadrinhos que comprou? E qual o último que leu? Gostou?

Mensalmente acompanho religiosamente a revista Vertigo da Panini. Sempre compro um encadernado ou outro que sai nas bancas, não necessariamente de super-heróis. Li recentemente e recomendo muito o Fracasso de Público de Alex Robinson, ambos volumes que saíram pela Gal. Gostei demais.

Pergunta manjada, mas que é sempre legal de ler, responder e serve de guia para os leitores. Quais suas 10 HQs favoritas de todos os tempos?

Na minha humilde opinião, Watchmen é insuperável como um trabalho de super-heróis, que podem ser seguidos, não em ordem de preferencia, de Cavaleiro das Trevas, V de Vingança, Sandman, Sin City, Moonshadow, Spirit, Monstro do Pântano de Alan Moore, Demolidor de Frank Miller e tudo do Calvin e Haroldo.

Você guarda algumas “porcarias” ou se desfaz imediatamente do que acha ruim?

Olha, já li muita porcaria, e ainda guardava porque fazia parte da coleção. Hoje sou mais seletivo, e procuro conhecer o quadrinho antes mesmo de comprá-lo, e se ainda se possível, ler antes de comprar, mesmo que seja emprestado. Hoje não guardo nada que eu não goste de ler, ou que eu saiba que nunca mais irei ler.

Tem algum item que quer muito ter, mas está impossível de encontrar?

Sim, entre os itens que mais gostaria na minha coleção são os quadrinhos do Sombra da Ebal, difíceis de conseguir a um bom preço e em ótimo estado de conservação.

Ronivaldo, muito obrigado pela entrevista! Foi um prazer conversar com você.
Deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Gostaria de dizer a todos que colecionar quadrinhos não é doença não, é saudável. O hábito da leitura é bom, e mantê-lo e passar adiante é melhor ainda. Meu filho já é um leitor e colecionador. Aprendi muito com os quadrinhos. Obrigado pela oportunidade, e estou à disposição pelo e-mail [email protected]. Grande abraço a todos.

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Minha Estante é um espaço pra você, colecionador de HQs, mostrar para todo mundo sua coleção, falar sobre prazeres e vicissitudes desse hobby, conhecer outros aficcionados e sentir aquela inveja boa.

Então convidamos a todos que possuem belas coleções de quadrinhos a mostrarem elas aqui!

É só mandar um email para [email protected] dizendo alguns detalhes (números de revistas, itens raros e particularidades) que em seguida combinamos a entrevista.