Umberto Eco E Os Quadrinhos

Colaborador: Kleiton Gonçalves

O pensador Umberto Eco é um interessado em histórias em quadrinhos, tendo-os como um valioso objeto de estudo da comunicação em massa, dentro de seu principal ramo filosófico: a semiologia.

O último romance do italiano – considerado por alguns o maior intelectual vivo – A Misteriosa Chama da Rainha Loana, não apenas utiliza um pouco da linguagem dos quadrinhos, mas, além disso, tem os gibis como um dos objetos de sua narrativa, ao lado da propaganda, literatura clássica e moderna, música e cinema.

Nesta obra, o protagonista Yambo – um culto e conceituado livreiro dedicado a obras raras, assemelhando ao próprio Umberto Eco – perde sua memória afetiva após um acidente automobilístico. Por recomendação médica, dá um tempo à vida conturbada da grande cidade e ruma para a pequena vila onde cresceu, junto ao seu avô, outro grande interessado por mídias impressas. Esse é o ensejo para a grande obra que está por vir. Lembranças do próprio autor da vida na Itália fascista, onde a única fuga, além do afeto familiar e das aventuras bucólicas, eram antigas histórias infantis, tanto em prosa quanto em quadrinhos, em especial as norte-americanas.

Remexendo no esquecido acervo de seu falecido avô, o protagonista se depara com edições antológicas de Wall Disney, Flash Gordon, Fantasma, Terry e os Piratas, Mandrake, Dick Tracy, Happy Hooligan, Os Sobrinhos do Capitão, Gato Félix e tantos outros personagens que povoaram o imaginário de uma geração educada pela Guerra – em sua constância e final, mas sempre com o temor de uma nova deflagração.

Embora extremamente culto e afim com obras eruditas raras, são justamente os gibis que fazem despontar pedaços da memória afetiva de Yambo. O próprio título do romance refere-se ao quadrinho – definido pelo personagem como a “história mais boba que uma mente humana poderia conceber” – que leva à tona uma enxurrada de memórias afetivas. Antes mesmo dessa revelação, ainda na primeira parte do livro, é uma historieta simples do Mickey Mouse (O Tesouro de Clarabela) que promove as primeiras evocações emotivas do erudito livreiro.

O livro é ilustrado com gravuras diversas, propagandas, capas e miolos de quadrinhos.

Os comentários acima acerca da obra funcionam para destacar a inclinação de Eco ao estudo dessa forma de comunicação. Entretanto, em outras de suas obras, a linguagem quadrinística está presente. Cito, por exemplo, Baudolino, a partir do vigésimo sexto capítulo e algumas passagens dinâmicas e insólitas presentes no intricado O Pêndulo de Foucault.

Além disso, é bom citar a breve introdução de Eco à última obra de Will Eisner, O Complô, bem como o prefácio comparativo à edição completa de Mafalda, do querido argentino Quino.

Encerramos no plano teórico do autor, citando a coletânea de estudos Apocalípticos e Integrados, onde um capítulo completo é dedicado ao estudo da mitologia contemporânea dos Super-Heróis, sob o título O Mito do Superman. Pouco depois, vimos esse tema estendido no estudo O Super-Homem de Massa, onde personagens revestidos pela polidez heróica são analisados, evocando-se quaisquer produções artísticas, a exemplo da literatura convencional e pulp, bem como a folhetinesca em geral.

Em nosso país, é interessante citar alguns autores influenciados, em sua produção literária, pela linguagem dos quadrinhos. Dois grandes exemplos são: Luís Fernando Veríssimo e Jô Soares. O primeiro, aliás, já nos premiou com quadrinhos de elevado nível, a exemplo Ed Mort (em parceria com o cartunista Miguel Paiva), Aventuras da Família Brasil e As Cobras. Quanto a Jô Soares, a linguagem às vezes exagerada e dinâmica dos quadrinhos pode ser vista em seu segundo romance, O Homem que Matou Getúlio Vargas. Além disso, em seu Assassinatos na Academia Brasileira de Letras, as pistas para se descobrir o vilão são espalhadas em referência aos personagens Hans e Fritz (os pestinhas que ocupavam a tira Os Sobrinhos do Capitão). O gosto de Jô Soares pelos quadrinhos também pôde ser notado há muito tempo, quando traduziu, para estas bandas, o gibi Barbarella (ano 1969).

Mas os quadrinhos, na literatura nacional, são objetos para outra postagem.

Notas

1. As obras de ficção de Umberto Eco aqui citadas são publicadas, no Brasil, pela editora Record.

2. Os gibis O Complô e Toda Mafalda foram publicados, aqui, respectivamente, pelas editoras Companhia das Letras e Martins Fontes, em capa dura e com excelente tratamento gráfico.

3. Todas as tiras de Ed Mort foram compiladas em álbuns grandes pela editora L&PM. Já as tirinhas da Família Brasil tiveram dois álbuns, um pela L&PM e outro pela editora Objetiva. Esta última, aliás, foi responsável pelo volume As Cobras – Antologia Definitiva, um encadernado com direito a papel especial de alta gramatura.

4. A edição de Barbarella, traduzida por Jô Soares, aparentemente, nunca teve uma republicação. Mas seus romances são regulamente reimpressos pela Companhia das Letras.

5. Demais observações sobre biografia de Eco, suas produções artística e acadêmica, bem como esquadrinhamento do que vem a ser mencionado ramo do pensamento filosófico (semiologia), podem ser facilmente encontrados em diversos sites (recomendo a Wikipédia).

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Kleiton Gonçalves é autor do blog Ordem do Eterno Grau de Neófito , sem nenhum seguidor.