Minha Estante #22 – Tiago Cordeiro (Bugman)

Olá, pessoal!

A coluna favorita de todos vocês dá o ar da graça novamente.

Depois da participação do Poderoso Porco, chegou a vez de mais um integrante do Melhores do Mundo mostrar sua coleção por aqui, dessa vez conversamos com Tiago Cordeiro, mais conhecido como Bugman.

Ele nos contou quais são seus títulos favoritos e raros, quando virou colecionador, como guarda as revistas, também falou sobre o surgimento do MDM e os benefícios de fazer parte da equipe…

Melhor do que eu ficar escrevendo aqui é vocês lerem logo a entrevista.

Olá, Bugman! Obrigado por topar essa entrevista! Fico muito feliz com sua participação aqui no PN, sou fã do MDM há alguns anos e o visito diariamente.

Para começar queria perguntar se você pode revelar sua identidade secreta aos nossos leitores e contar um pouco sobre você?

Opa, meu nome é Tiago Cordeiro… Trabalho como consultor de redes sociais e curto esportes (especialmente futebol) além de nerdices. Tenho 31 anos, sou casado e sempre gostei de música pop & rock. Me formei em jornalismo em 2005, mas cheguei a cursar letras por um tempo e larguei. Me arrependo.

Quais são seus personagens favoritos? Aqueles que mesmo quando o Jim Lee desenha você dá uma conferida?

Cara, nunca acreditei muito nisso de personagens favoritos não… Sempre curti as fases de roteiristas. A única exceção é o Lanterna Verde, que sempre gostei. Mas faz tempo que não tem uma fase realmente bacana dele. O Demolidor é bacana, mas favorito mesmo é o Lanterna. Não lembro se o Jim Lee  já o desenhou…

Quando foi que se transformou de leitor ocasional de quadrinhos para um colecionador inveterado?

Acho que as duas coisas vieram juntas. Um primo meu que estudava no colégio naval passava os finais de semana na casa da minha mãe e sempre levava HQs, como já gostava de ler aquelas revistas que “sobravam” não bastavam para o meu hábito. E nem as que eu comprava. Precisava reler e pra isso tinha que manter uma coleção boa e organizada.

Quantas HQs você tem?

Nunca contei. Acredito que algumas centenas…

Qual o item mais raro da sua coleção?

Mais raro talvez seja um exemplar de Shazam, da Ebal. Uma HQ curtinha do Capitão Marvel com uma boa história que serviu para ver como eram os quadrinhos naquela época. Bem bacana.

Como você guarda suas revistas e quais técnicas usavam para conservá-las?

Nunca fui neurótico a ponto de colocar cada uma em um plástico, mas sou muito cuidadoso em não deixá-las soltas. Pena que o fim do formatinho tornou mais difícil guardá-las. Eu coloco pilhas em sacos plásticos e mantenho em um armário aqui de casa, que cuidei de dedetizar assim que me mudei. Acho que não sou relapso, mas estou longe de ser o mais cuidadoso.

Quadrinhos guardados em sacolas plásticas.

Quadrinhos guardados em sacolas plásticas.

Quais são os principais itens da sua coleção, aquelas séries ou volumes que são as meninas dos olhos de sua estante

Anos atrás minha estante foi devorada por cupins e perdi o que era mais valioso: uma edição encadernada de Watchmen completa em português, bem antes daquela pessimamente impressa da Panini. Depois daquilo, tenho Genesis do Crumb, que deve ser o quadrinho mais caro, mas tá longe de ser o que dou mais valor. Curto demais a minha edição de Asilo Arkham, do Grant Morrison e um encadernado com a fase do Alan Moore em O Monstro do Pântano. Tem também minha edição de V de Vingança, em inglês, mas com toda saga completa. Alguns volumes de Sandman do Gaiman, pela Conrad, que sempre sonhei em completar, mas nunca passei do segundo número.

Você tem HQs autografadas?

Não muitas. Autógrafos sempre foram algo que nunca me impressionaram muito, a não ser que seja de um amigo (como é o caso da minha Pequenos Heróis) e um que tenho do Zico, que deve ser um dos poucos caras que me faz ficar emocionado quando encontro por aí.

Se você já tem a história que adora publicada em formatinho e ela é lançada em álbum de luxo, você a compra novamente? Depois vende a primeira ou fica com as duas?

Não compro de novo nada que já tenho nesse sentido. Mas compraria de novo uma que só li ou que está em péssima qualidade. Penso em fazer isso com WatchmenCavaleiro das Trevas. A primeira preciso de uma edição decente e a segunda… Faltou iniciativa. Adoraria que os arcos dos heróis saíssem em encadernados mais vezes. Eu ficaria menos perdido com a cronologia atual.

Você guarda algumas “porcarias” ou se desfaz imediatamente do que acha podre, fétido e vergonhoso? Tipo Spawn, Heróis Renascem…

Sempre tive por hábito jamais jogar fora nenhum quadrinho. Minha mãe penou com isso. Hoje, minha esposa reclama. Mas escrevendo pro MdM comecei a receber toda espécie de exemplares para resenhar. No início eu resenhava absolutamente tudo que recebia. Depois comecei a perceber que tinha coisa que não havia muito o que falar e eu não sentia vontade nenhuma de guardar. Nunca joguei nenhuma fora. Sempre me preocupei em repassar para outros leitores ou para alguma biblioteca pública. Felizmente, depois que me tornei mais seletivo no que valia a pena resenhar e o que a leitura já justificava ignorar, pararam de me mandar HQs que eu repassaria.

Desde já, recomendo que nunca deixem repassar suas HQs. Isso é muito melhor que deixar na lixeira. E tem gente que realmente pode usufruir mais daquilo do que o pessoal da reciclagem.

Você tem alguma “mania de colecionador”, seja para guardar, emprestar ou mesmo na hora de comprar?

Só empresto para grandes amigos, como o Change (que está com duas que ainda não devolveu). Dificilmente pego emprestado. Tento sempre guardar a HQ de um jeito que ela não aumente a lombada… Na hora de comprar, só procuro checar se a edição – mesmo que antiga – tem aquele jeitão de nova.

Se na encruzilhada você tivesse que escolher somente cinco itens da sua coleção, qual salvaria?! Essa é braba, né?!

Asilo Arkham, Filhos de Anansi, Geografia dos Mitos Brasileiros, algo do Gaiman e do Moore. Aí morreria ao tentar levar também meus livros de jornalismo que curto. Essa pergunta é foda. 🙂

Você acompanha alguma saga atual envolvendo super-heróis?

Há dois anos que não. O problema é que se você fica três meses sem ler é difícil voltar e não tenho o hábito de ler scans.

Quais são suas obras favoritas de todos tempos?

Watchmen e V de Vingança. Se falarmos de arcos, curto demais a Liga da Justiça e o Starman do Morrison.

Tem algum item que quer muito ter, mas está impossível de encontrar?

Queria muito completar minha coleção de Sandman da Conrad. Mas não vou pagar R$1000 pra isso. 🙂

Você está desde o início do MDM? Pode contar pra gente como surgiu o site?

Estou. Eu, Ultra (que saiu) e o Change. Era o primeiro período da gente e o terceiro do Change e já passávamos longas horas conversando sobre quadrinhos e nerdices. Não tinha muito lugar legal pra lermos e acabamos criando um que fosse o blog que a gente queria ler, como o do Alessandro Castro (que anos depois entrou no blog). Havia um blog, já extinto, chamado Teia do Aranha, do Ale. Ele escrevia notícias e infos sobre HQs como se fosse o Peter Parker.

O Thales descobriu e começamos a comentar que seria legal criar algo parecido. Só que eu frisei que era indispensável que fossem nossos personagens e não algum que já existisse (eu estava de mau humor naquele dia). Aí eu criei o blogman, como uma paródia do Batman (que o Change desenhou inicialmente como uma paródia do Super-Homem), o Thales criou o Ultrablog, como uma paródia dos Ultramen, e o Change criou… Bom, ele não criou ninguém. Usou um tal de “Francisco Coelho”, que era um login que ele já usava. É, eu sei…

Cheguei a sair por um ano, me dediquei a outras coisas… Fiz dois filmes e duas peças, mas acabei voltando. Hoje, tô bem afastado por motivos profissionais, mas todo mês tento escrever algo.

Participar do MDM já lhe trouxe algum benefício para aquisição de HQs, autógrafos ou entrevistas legais?

Autógrafos nunca procuraram. HQs recebo de várias editoras, mas não sei se isso é benefício porque acabo lendo mais o que me mandam do que o que eu gostaria. Se uma editora me manda seu material, tenho a obrigação de ler e, se possível, resenhar. Se sobrar tempo, leio o que gosto. Sobra pouco. Já rolaram entrevistas legais, estou atrás de uma aí e ainda quero ver se marco uma ao vivo com o Danilo Beyruth, o grande talento de HQ que estamos vendo surgir bem nos nossos olhos.

Bugman, muito obrigado pela entrevista! Foi um prazer conversar com você.

Deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Opa, parabéns para o excelente trabalho do PN, que vem se destacando entre tantos blogs nerds. Espero poder encontrar a equipe e os leitores por aí. Me sigam lá no twitter.

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Minha Estante é um espaço pra você, colecionador de HQs, mostrar para todo mundo sua coleção, falar sobre prazeres e vicissitudes desse hobby, conhecer outros aficcionados e sentir aquela inveja boa.

Então convidamos a todos que possuem belas coleções de quadrinhos a mostrarem elas aqui!

É só mandar um email para [email protected] dizendo alguns detalhes (números de revistas, itens raros e particularidades) que em seguida combinamos a entrevista.

Minha Estante #16 – Lucas Ed. (Poderoso Porco)

Olá, pessoal!

Uma das coisas mais legais de realizar essa coluna é conhecer e trocar ideias com colecionadores de todo o Brasil, é um barato receber e-mails de pessoas querendo participar pelo simples motivo de adorar histórias em quadrinhos e morrer de orgulho da estante. Já publicamos outras quinze entrevistas e cada uma revela aspectos diferentes desse hobby.

Dessa vez a coluna favorita de todos vocês conta com a presença ilustre de Lucas Ed., mais conhecido como Poderoso Porco, um dos escribas do blog Melhores do Mundo, referência para qualquer fã de quadrinhos no Brasil, provavelmente a maioria de vocês já conhecem, se ainda não, deveriam!

Conheça agora essa coleção, veja os títulos mais raros, descubra como ele conserva (ou não! rs) seus exemplares, quais suas histórias favoritas e por ai vai, então chega de conversa, vamos ao interessa!

Olá, Lucas…ou você prefere Poderoso Porco?!

Obrigado pela participação! Para aquecer os motores gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores.

Então negada, eu sou o Poderoso Porco (mas eu não sei porque minha mãe achou melhor me batizar Lucas Eduardo – Ed.). Então, certa feita eu estava passeando num sítio próximo a Angra I, em férias, quando um porco verde-fosforescente me mordeu, me dando todos os poderes de um porco comum! Depois disso decidi combater o crime e proteger os gibis do mundo todo, como o Poderoso Porco, o herói de milhões! Bwahahahahahahaha

Falando sério (mentira. Eu já estava falando sério antes!), atualmente sou psicólogo e investigador de polícia por profissão.Trabalho no Núcleo de Psicologia e Serviço Social da Divisão de Desaparecidos da Polícia Civil de Minas Gerais, como investigador e psicólogo mesmo. Minha mãe também diz por aí que eu sou ilustrador, só porque tem alguns livros de banca com desenhos meus, mas ela só fala isso quando não tem nenhum ilustrador de verdade por perto. Tenho 27 anos (por pouquíssimo tempo), estou pra casar qualquer dia desses e, pra sorte das minhas coleções, não tenho filhos nem cachorros, só uma sobrinha muito comportada, o que é um alívio!

Já há quase um ano (quase mesmo!) escrevo para o Melhores do Mundo.net, o que foi a realização de um desejo muito grande. Antes disso fui redator do Blog Projeto Continuum, que chegou a ser indicado ao HQ Mix como melhor blog sobre HQ’s do país. Este ano estou me preparando para tentar entrar no mestrado, com um trabalho em Psicologia Social e quadrinhos de super heróis.

Conte quando e por que você começou a se interessar por quadrinhos?

Assim como muita gente nesse Brasil varonil, eu fui alfabetizado com HQ’s da Turma da Mônica. Mas só comecei a colecionar e ler HQ’s mesmo quando estava na terceira série do primário, já com super-heróis. De lá pra cá, só em alguns momentos pontuais, muito pontuais, eu deixei de comprar e ler HQ’s.

Quando percebeu que não tinha mais volta, era um ávido colecionador?

Quando eu comecei a ler gibis de super-heróis, eu não tinha muita grana e tal. Era a época das famigeradas tabelas de preço da Abril – muita gente não vai lembrar, mas tinha uma época em que, pra saber o preço da sua revista naquele mês, você tinha de dizer um código para o jornaleiro, que consultava numa tabela o valor. Então, eu não tinha muita grana, por isso colecionava junto com um amigo – cada um comprava duas, às vezes três revistas no mês e depois trocávamos. Isso falando de “revistas novas”, porque, começando a conhecer aquele mundo, a gente comprava de tudo que a grana aguentasse, porque comprávamos, fora do combinado, coisas de sebo. Assim, no final de um ano ou dois, tínhamos até uma coleçãozinha considerável, principalmente se tratando de dois moleques da nossa idade e que não vinham de famílias lá muito cheias de posses não.

Daí que um dia, nem me lembro porque, decidimos dividir a coleção. Cada um pegou as revistas que mais gostava, ou aquelas que tendo comprado, não queria se desfazer. Entre as coisas que ficaram com ele, ficou Spirit #1, da Globo, que eu adorava, e ele também, mas tinha sido comprada por ele. Fiquei displicente com as HQ’s, até 1997, quando, na Bienal de Quadrinhos, me vi frente a frente com o grande (literalmente!) Will Eisner. Lembrei daquela Spirit #1 com uma tristeza sem par. Daí decidi que compraria todas as HQ’s que pudesse, e deu no que deu!

Quantas HQs você tem?

Recentemente eu fiz uma pequena reforma nas minhas estantes e constatei que tenho bem menos HQ’s do que imaginava. Não tenho números exatos, mas a minha coleção deve estar em torno de 1000, 1500 títulos só. Sim, só. Porque, caramba, vão fazer vinte anos que eu coleciono esse negócio!

Quais são os principais itens da sua coleção, aquelas séries ou volumes que são as meninas dos olhos de sua estante?

Cara, tem umas coisas que eu gosto muito, mesmo sem ter grande valor comercial, mas com um baita valor afetivo. É o caso de Watchmen, na última edição pela Abril (e que eu gastei dez anos para completar); o Reino do Amanhã, que eu tenho em duas edições, aquela em quatro partes da Abril e o encadernado pela Panini; ou a Liga Extraordinária, que eu também tenho em duas edições; tem também Grandes Astros Superman. Entre as pérolas recentes, tem o exemplar de Retalhos autografado pelo autor, Craig Thompson e o primeiro volume do encadernado de All-Star Superman, gringo, que um leitor do MdM me deu de presente.

Mas se a gente espremer um pouquinho até consegue encontrar algumas coisas com algum valor comercial, como o álbum do Flash Gordon no Planeta Mongo, publicado em 1974 pela EBAL. Comprei de um livreiro da faculdade, com quem até desenvolvi certa amizade. O álbum traz uma carta da editora, dizendo que infelizmente o dono original não conseguiu comprar a tempo um dos 2000 primeiros exemplares, que eram numerados e assinados por Adolfo Aizen e A. Monteiro Filho, fundadores da editora. Não fazendo parte dos 2000, o meu álbum não deveria ter número nem assinatura, mas acabou tendo as últimas, por cortesia do Departamento de Reservas Antecipadas (foto13).

Outra raridade é O Grande Livro Disney de 1977. Eu nunca tinha visto ou ouvido falar desse livro, até que um amigo o viu jogado fora numa escola. Imediatamente ele recolheu o volumão e me deu. Depois de uma passada pelas mão habilidosas daquele meu amigo livreiro, ganhou reforços na encadernação e entrou pra estante.

Dois outros volumes dos quais gosto muito são o Ultimate Guide to the Justice League of America, de Scott Beatty, que uma amiga trouxe pra mim quando visitou os EUA. O livro é um almanaque, com informações sobre os heróis do maior super grupo do mundo. O mais legal é que trata exatamente da fase escrita pelo Grant Morrison, que é a minha favorita do grupo.

E qual foi a maior raridade que já comprou pelo menor preço

Recentemente eu comprei, por uma bagatela, o How to draw comics in Marvel Way do John Buscema com textos do Stan Lee, originalzão, da década de 70, e que é um livro importantíssimo para o meu projeto de mestrado.

Você prefere mais comprar os quadrinhos no ato de seu lançamento ou investe mais em material antigo?

Ah, faço um pouco das duas coisas. Meu lado colecionador obsessivo gosta de ir às bancas todos os meses e comprar o novo número daquela HQ que acompanho, como Vertigo ou Lanterna Verde. Na verdade, eu tenho muito medo de “ficar sem” um determinado lançamento. Mesmo sabendo que dali a dois, três meses eu poderia comprar mais barato, o medo fala mais alto e eu acabo comprando no lançamento. Mas também gosto muito de frequentar sebos, mas aí raramente vou procurando alguma coisa. No sebo, vou assim, digamos “livre”, disposto a comprar o que pintar de interessante a um preço razoável.

Se você já tem a história que adora publicada em formatinho e ela é lançada em álbum de luxo, você a compra novamente? Depois vende a primeira ou fica com as duas?

Pois é, eu compro de novo, e a diferença nem precisa de ser, por exemplo, do formatinho para o luxo. O primeiro volume da Liga Extraordinária, por exemplo, é bem ilustrativo: a primeira edição (pela Pandora Books) era excelente com seus três números. A arte do Kevin O’Neill pode se apreciada numa boa, inclusive com aquele pequeno joguinho de tabuleiro que tem, meio que resumindo a história até aquele momento. Aquilo é muito legal, mas aquela edição também é mais “frágil”. Por isso acabei comprando o encadernado que saiu logo depois (pela mesma Pandora) que, mesmo não tendo a “divertividade” da edição em três números, é mais resistente que ela. O mesmo acontece com Reino do Amanhã, ou aquelas edições gigantescas dos heróis da DC pelas mãos do Paul Dini e o Alex Ross – tenho os encadernados e algumas edições separadas. Outro caso é Calvin & Haroldo, eu sigo acompanhando a série da Conrad, mas sempre compro volumes antigos que encontro porque gosto mais da tradução deles.

Não sei, eu tenho muita dificuldade de me desfazer das coisas, principalmente daquelas que eu gosto. Aí fico lá com duas, três versões, quantas forem saindo e eu achar legal.

Você guarda algumas “porcarias” ou se desfaz imediatamente do que acha podre, fétido e vergonhoso?

Bem, tem níveis. Como eu disse antes, tenho alguma dificuldade de me desfazer das coisas (hum… Freud explica? Melhor não!) e só muito recentemente consegui ter o desprendimento de me desfazer do que não gosto. Mas como disse, tem níveis. Uma HQ pode ser ruim, muito ruim ou odiosa. As odiosas são, literalmente, aquelas que eu compro e o resultado é tão ruim, me desagrada tanto, que eu fico com ódio daquilo. É o caso, sei lá, de Fracasso de Público, por exemplo. Fiquei com tanta expectativa sobre o gibi e, quando li, achei detestável, nojento, irritante e comecei logo a me mexer para desfazer daquilo. Vender, de preferência, qualquer coisa para que aquele lixo atômico não contaminasse minhas outras HQ’s. O ódio que aquilo me gerou foi tanto que eu topei vender por R$10,00 um álbum que, três semanas antes, eu pagara R$40,00!

Agora, as ruins e as muito ruins acabam sendo analisadas. Elas são histórias importantes, digo, reverberam na cronologia do personagem ou fazem parte de uma série da qual eu gosto? Se sim, eu me esforço, escondo elas um pouquinho nas prateleiras e deixo lá. Se não são, ou vendo num sebo qualquer ou doou pra Gibiteca de Belo Horizonte. No caso das “ruins, mas importantes” tem o último número da Liga Extraordinária por exemplo, Século 1910 (até porque que ela é só a primeira parte do 3º volume). No caso das ruins mesmo e que não são importantes, tem todos os tie-ins de A Noite mais Densa, por exemplo. Tudo pro sebo!

Como controla sua coleção para não comprar números repetidos, planejar compras futuras e tal… você tem um registro de todas suas revistas, como por exemplo, o Guia dos Quadrinhos?

Bicho, eu vivo comprando números repetidos! Eu tenho um sério problema que é não conseguir memorizar capa de revista mensal. Como eu as vejo em previews americanos com um ano de antecedência, depois vejo nos lançamentos nacionais e nas bancas, eu acabo nunca sabendo se já comprei ou não. Antes, quando batia a dúvida (e tendo em vista aquele meu medo irracional de ficar sem) eu acabava comprando – e a Gibiteca pode me agradecer um bocado por isso. Hoje, com terapia e coisa e tal, lancei mão de uma técnica avançadíssima, tecnologia de ponta: um caderninho de anotações. Nele eu coloco qual foi o último número de comprei de cada revista, e não compro nada sem consultá-lo. Foi uma revolução na minha vida, hoje sou outra pessoa, ehehehehehehehe!

Meu sonho é um dia ter tempo e catalogar todas as minhas HQ’s num recurso como o Guia dos Quadrinhos, por exemplo. Foi algo que consegui, e consigo manter com os meus DVD’s, numa planilhazinha básica de Excel. Com os quadrinhos é um desejo antigo, desde que eu ganhei meu primeiro computador e comprei meu primeiro scanner – scannear todas as minhas capas e fazer um arquivo digital, com nome da edição, das histórias, quem desenhou, quem escreveu, quem apareceu no gibi… Graças a São Kirby alguém teve pâncreas pra fazer isso antes de mim (com o Guia) e agora eu só preciso de tempo para sentar, pegar toda a minha coleção e cadastrar um por um. Hoje eu simplesmente tenho uma noção do que eu tenho na estante, mas muitas vezes dou com os burros n’água achando que tenho (ou que não tenho) alguma coisa. Isso sem contar as perdas por empréstimo…

Como você organiza suas revistas e quais técnicas usavam para conservá-las?

Obsessivo clássico, minhas HQ’s seguem uma disposição na estante: primeiro por formato (formatinho/americano), depois por editora, e depois por forma de encadernação (lombada canoa/lombada quadrada). Parece complicado, mas não é: primeiro vem os formatinhos, e eles se separam naquela ordem que disse: primeiro os da Marvel (eles vem primeiro porque aí ficam no fundo da prateleira) de lombada canoa, depois os da Marvel de lombada quadrada. Depois vem os formatinhos da DC (primeiro os de lombada canoa, depois os de lombada quadrada) e, no fim, vem os formatinhos de outras editoras (primeiro canoa, depois quadradas).

Nos formatões (formato “americano”) essa divisão de lombadas faz mais sentido, porque coloca os gibis mensais juntos (separados os títulos por fichinhas) e os encadernados/séries especiais juntos também (aí as fichinhas ficam dispensadas, por conta das lombadas).

Na conservação, eu acabo sendo meio relapso: eu queria colocar tudo em sacos plásticos, mas atualmente só os arcos fechados estão assim. Outra coisa é que meu quarto é minúsculo, e as prateleiras de aço onde os quadrinhos ficam acabaram perto da janela, onde acabam tomando sol, o que é algo longe do ideal. Mas foi uma escolha que tive de fazer: ou os gibis ficavam em caixas de arquivo, fechadas e difícil de acessar um material que queria reler, ou ficavam expostas assim. Contra todas as normas técnicas da ABNT, resolvi satisfazer o desejo de poder ver assim, duma tacada só, toda a minha coleção exposta – mesmo que o sol também possa…

Tem alguma história triste na sua vida de colecionador?

Tem. Sempre tem, né? Pois é. Além daquele lance com o Eisner em 1997, teve uma vez que meu apartamento alagou, e eu perdi quase tudo o que tinha de HQ’s, porque elas ficavam guardadas em caixas enormes de papelão debaixo da cama. E foi o alagamento mais bizarro da terra: estávamos viajando e, durante a viagem, uma das caixas-d’água do prédio se rompeu e nosso apartamento, logo embaixo, ficou uma semana sob três dedos d’água. Poucas revistas se salvaram, bem poucas…

E uma muito feliz?

Posso contar duas? A primeira diz respeito a uma mesma HQ, e ao alagamento que eu contei antes. Quando cheguei de viagem, e olhei desesperado para as revistas completamente encharcadas, perdidas, fiquei desolado. Mas por alguma razão até hoje misteriosa para mim, uma das revistas que se salvou foi a Heróis da Tv #102, da Abril, já meio detonada, sem capa e tal, remendada de fita adesiva, mas que foi o primeiro gibi de super-heróis que eu comprei na vida. Essa “moedinha nº 1” provaria seu valor novamente anos depois, quando minhas caixas foram invadidas por traças, estas devoraram muito as revistas mais antigas, que ficavam no fundo da caixa. Enquanto Heróis Renascem: Vingadores #1 foi MUITO comida por esses vermes malditos (Salve São Kirby!), a Heróis da Tv, que estava juntinho dela, só perdeu uma beradinha! UM MILAGRE, irmãos! Aleluia!

O outro evento muito feliz foi no FiQ de 2009. Cara, eu tinha acabado de ler Retalhos e estava completamente maravilhado com a história, com os desenhos, com a condução da trama… Fui no FiQ, assisti a palestra com o Craig Thompson e depois tietei o cara, peguei autógrafo e tal. Foi uma bobagem, todo mundo faz isso em convenções, mas Retalhos tinha tido um impacto tão grande em mim que aquele autógrafo ficou sendo muito, muito especial mesmo.

Eu sei que, como colecionador, tem algumas manias, quais são?

Hoje em dia tenho poucas, já tive bem mais, mas estou conseguindo “me curar” delas. Algumas que ainda existem, por exemplo, é nunca emprestar uma HQ que eu não tenha lido. Eu adoro emprestar gibis, isso nunca foi um problema, até porque minha coleção nasceu assim, movida pelo empréstimo. Mas acontece que, nos últimos tempos, por conta da minha rotina, tem sobrado cada vez menos tempo para ler minhas HQ’s, de modo que elas acabam se acumulando na fila de espera. Dali elas só sairão quando forem lidas por mim. Não adianta pedir, dizer que eu já te emprestei os outros cinco volumes anteriores: se eu não li o sexto, você não lerá também o meu. O inverso também é verdade, você pode estar comprando a versão encadernada de uma série que você já tem em mix, eu me recuso a ler o encadernado antes de você. Sei lá, tem um lance de defloramento (hehehehehehe) que cabe ao dono do material.

No mais, eu não gosto de emprestar revistas para quem não comenta nada quando devolve. Cara, se eu te emprestei, sei lá, um número de Dylan Dog, eu quero saber a sua opinião quando você me devolver. E não é simplesmente: “gostei” ou “não gostei”. Se não tem opinião, desiste de pegar outros gibis comigo!

Tem algum item que quer muito ter, mas está praticamente impossível de encontrar?

Pô, tem muitos! Assim de cabeça, tem Miracleman, que eu sou doido pra ler e nunca foi publicada aqui no Brasil (ou seja, não é “praticamente impossível”, é impossível mesmo). Os encadernados de capa dura do Questão, da Liga Extraordinária, de Camelot 3000 e da LJA pelo Grant Morrison (e que não caem de preço nem a poder de porrada!) e os números de Dylan Dog que saíram aqui pela Mythos e pela Record, que não caem nos sebos nem por decreto de lei!

Qual foi sua última leitura e qual está sendo a atual?

Neste momento, minha última leitura foi o crossover entre Martin Mystere e Dylan Dog, publicado aqui pela Record. Atualmente, estou relendo Cachalote, aproveitando que os autores estão vindo para um bate-papo na Gibiteca Municipal de BHCity.

Pergunta manjada, mas que todo mundo gosta ler, quais são as suas dez HQs favoritas de todos os tempos?!

Dureza, hein? Vou fazer uma lista assim, de supetão, sem grandes elaborações – obviamente muita coisa vai ficar de fora e eu vou me arrepender assim que te mandar, mas vá-la. Pra não fugir ao berço, vou falar as 10,5 HQ’s favoritas, pode ser? E de trás pra frente, que é pra dar mais emoção:

10) Jonnhy Freak (Dylan Dog #1, Conrad)

09) Liga da Justiça pelo Grant Morrison

08) Estórias Gerais (Wellington Sberk/Flávio Colin)

07) Sandman (Neil Gaiman)06) Watchmen (Alan Moore/Dave Gibbons)

05) Calvin & Haroldo (Bill Watterson)

04) Retalhos (Craig Thompson)

03) A Liga Extraordinária (Alan Moore/Kevin O’Neill)

02) Superman All Star (Grant Morrison/Frank Quitely)

01) Reino do Amanhã (Mark Waid/Alex Ross)

0,5) (sei que pedras voarão contra mim, mas pombas, é a posição 0,5 né? Aquela posição meia-boca, da HQ que você gosta muito mas sabe que não tem lá muuuuuuito valor artístico…) Scott Pilgrim Contra o Mundo

Entrar para o Melhores do Mundo te ajudou a conseguir mais quadrinhos, fama, respeito e mulheres?! risos

Bwahahahahahaha Não, não me trouxa nada disso. Na verdade, quase me traz menos disso, já que não foram poucas as vezes que a minha namorada quis me matar por ter assistido algum filme nerd muito ruim, mas sobre o qual eu tinha que fazer uma resenha ou participar de um podcast, ehehehehehehe

Não consegui mais quadrinhos, mas graças ao MdM conheci pessoalmente muitos autores e gente do mundo dos quadrinhos que eu admiro bastante, gente como Ivan Reis, André Diniz, Erica Awano, Sidney Gusman, Joe Prado, Joe Bennett… Enfim, a lista é grande, e inclui, inclusive, os outros MdM’s, gente que eu leio desde os áureos tempos da internet discada depois da meia noite.

Porco, muito obrigado pela entrevista! Deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Vai parecer uma heresia, ou quem sabe uma redundância, mas o lance é: caras, só colecionem gibis enquanto isso der prazer a vocês. Se de repente vocês perceberem que estão comprando por força do hábito, que a série está ruim mas que você não pode “deixar buracos” na coleção, dê linha! Gibi é prazer, não pode ser só esse masoquismo obsessivo do colecionar por colecionar. Senão fica chato pra cacete.

Outra coisa, como diriam Bill e Ted… Sejam legais uns com os outros! Até outra vez, pe-pe-pe-pessoal!

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Minha Estante é um espaço pra você, colecionador de HQs, mostrar para todo mundo sua coleção, falar sobre prazeres e vicissitudes desse hobby, conhecer outros aficcionados e sentir aquela inveja boa.

Então convidamos a todos que possuem belas coleções de quadrinhos a mostrarem elas aqui!

É só mandar um email para [email protected] dizendo alguns detalhes (números de revistas, itens raros e particularidades) que em seguida combinamos a entrevista.