Terror Elegante: Fome De Viver e Coração Satânico

Quando me falam de filmes de terror, me vêm à mente, de plano: O Exorcista, O Iluminado e O Bebê de Rosemary. Todos estes, belas adaptações cinematográficas de bons romances. Se me pedem o nome de outros filmes – achando que os três mencionados já estão bem batidos na boca de todos – cito outras competentes adaptações: Coração Satânico e Fome de Viver. E, após citar esses títulos, noto que há muitas relações entre todos eles.

Primeiramente, nenhum deles tem roteiro original, sendo precedidos de obras literárias.

Segundo, parece ser comum que o melhor do cinema de terror seja feito, justamente, por diretores multitemáticos. O Iluminado, por exemplo, é o único trabalho do gênero filmado por Stanley Kubrick, adaptado do romance de todos sabem quem. Assim, igualmente, foi com Alan Parker, ao levar às telas a adaptação do Coração Satânico de William Hjortsberg. Alguém pode levantar a mão e dizer que Roman Polanski, por exemplo – entre outros –, foge a essa regra. Mas não é bem assim. Esse polonês, embora tenha uma inclinação para o terror, possui várias facetas, com incursões em diversos gêneros.

Notam-se várias relações entre os cinco filmes aqui citados. Entretanto, penso que, sobretudo, são bons filmes por se basearem em excelentes histórias escritas por gente boa do ramo. E não apenas isso. São bons filmes, baseados em romances, porque se limitaram a ser “adaptações”, sem tentar sobrecarregar as telonas em uma tentativa impraticável de levar a uma forma de mídia o que apenas em obras escritas pode ser feito. Enfim, esses filmes souberam “ficar no seu lugar”, e explorar o melhor de si. Sem poder se perder em divagações introspectivas do personagem, mediante um narrador chato nos ditando as possíveis palavras existentes em sua cabeça, Stanley Kubrick, por exemplo, optou por explorar o potencial fisionômico de Jack Nicholson e toda a carga emotiva de suas fotografias sobrecarregadas em vermelho e luz.

Costumo dizer que o cinema, naturalmente, retira de uma obra literária toda sua parte adjetiva, mantendo tão somente a substantiva. Explico melhor. Enquanto o autor do romance (ou conto) tem nossa disposição por tempo ilimitado para discorrer sobre a natureza de um personagem, nos narrando seu estado emocional em minúcias e até mesmo destrinchando seus pensamentos e sentimentos mais íntimos, por palavras, o cinema (ou televisão) não tem. Nestes últimos, temos que apreender o estado espiritual do personagem através de ações e expressão. A tentativa de narrar essas características deixa o filme enfadonho e até mesmo pueril, transformando-o numa antiga fotonovela.

Enquanto, na obra cinematográfica, por exemplo, uma vítima de serial killer é apenas mais um figurante que deu azar, na obra escrita é alguém com vida pessoal, afetiva, profissional, com aspectos emotivos. Um exemplo que me ocorre, agora, é a adaptação de O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, para as telas por Miguel Faria Júnior. Ali, cada vítima do livreiro maluco é um mero transeunte; enquanto, na obra original, o autor nos fala sobre ela, às vezes intimamente.

Considerando os argumentos acima, destaco os dois exemplos não tão debatidos por aí, e também, nem tão unanimidades assim: Coração Satânico e Fome de Viver. Os títulos originais dessas obras, tanto no romance quanto na literatura, são Angel Heart e The Hunger.

John Constantine e O Primeiro dos Caídos

John Constantine e O Primeiro dos Caídos

Para Bruce, Jada, Ellen e Nick,
“meninos e meninas juntos…
nas calçadas de Nova York”.
E para Bob,
que viajou na luz fantástica.

(Dedicatória de William Hjortsberg)

Coração Satânico é mais Hellblazer do que Constantine.

(Comentário de um anônimo, sobre cinema)

Em Coração Satânico, William Hjortsberg narra a história de Harry Angel, um detetive particular contratado por um excêntrico, porém culto e sofisticado, homem rico, Louis Cyphre. Sua missão: localizar um músico desaparecido – Johnny Favorite. A obra se passa na cidade de Nova Iorque e preza em esquadrinhar sua geografia, quase detalhadamente. Durante toda a obra, Angel sempre procura localizar o leitor onde se encontra e, às vezes, parece discutir com o leitor sobre o melhor atalho para se chegar a determinado ponto da Grande Maçã. Esse, aliás, é um paralelo com o romance de Whitley Strieber, Fome de Viver. Neste livro, o personagem Tom Haver, namorado de Sara, procura nos indicar os melhores meios de acesso na grande selva de pedra, se referindo às ruas e avenidas da cidade quase como às pessoas. Em ambos os romances, a geografia ganha vida e é elevada quase à entidade.

Diferentemente do visto no cinema, nenhum momento da trama se passa em Nova Orleans. E o sensacional clima noir conseguido por Alan Parker não é sentido no romance. As celebrações da turma da macumba se dão no trecho mais isolado do Central Park, próximo ao lago.

A figura sombria de Louis Cyphre também não existe no romance. No máximo, é um personagem enigmático. Enquanto, no cinema, os encontros de Robert De Niro e Mickey Rourke acontecem em igrejas (exceto na cena da cantina vazia e na penúltima, no apartamento de Margaret Krusemark), o Louis Cyphre literário caminha nas ruas, freqüenta salões e bons restaurantes. Além disso, possui até hobbies, como no show de ilusionismo do capítulo 36, onde o Diabo brinca, para uma plateia de nova-iorquinos, com uma trupe de camundongos circenses (outrora, talvez, seres humanos).

Diferentemente do romance, no cinema, também não se deu atenção a Ethan, pai de Margaret. Vale destacar, no livro, a grande orgia pansexual satânica no subsolo nova-iorquino, com participação encabeçada por este personagem.

A Bela e O Camaleão

A mim, só a cruel imortalidade consome.

(Trecho do poema Tithonus,
em epígrafe ao livro Fome de Viver)

Fome de Viver, às vezes, integra a lista dos bons filmes de vampiro (na lista disponibilizada pelo Pipoca e Nanquim, também foi assim; confira em Os 100 Melhores Filmes de Vampiros da História). Mas não deveria. Em nenhum momento, tanto no romance quanto no cinema, é pronunciada a palavra vampiro, ou suas similares. A personagem imortal protagonista da obra é revelada como membro de uma antiga linhagem. Vários detalhes sobre o passado de Miriam Blaylock e de seu marido, no filme, são ocultados. Vale lembrar que aquelas entidades mostradas em Fome de Viver ficaram conhecidas como vampiros após a lastimável continuação do romance, A Última Vampira. De início, Whitley Strieber se referia a esse povo como uma “espécie” distinta da humana, nada mais. Além desse aspecto, a espécie de Miriam não possui presas, utilizando a própria língua (cortante) para perfurar suas vítimas. Enquanto isso, os humanos “transformados” (linguagem do próprio autor) por essa espécie, para se alimentar, precisavam de lâminas. No cinema, tanto John, vivido por David Bowie, quanto sua criadora usavam minipunhais que ficavam escondidos no interior de seus pingentes em forma de ankh. A língua perfurante foi esquecida na adaptação, porém, felizmente, não inventaram de pôr presas em Catherine Deneuve.

A “elegância” do filme consiste justamente nessa economia de linguagem em relação ao livro. No romance, são mostradas diversas passagens de Miriam em sua longa jornada. As vidas de outros de seus amantes, já “mortos” (na verdade, eles nunca morrem totalmente), são reveladas, em especial a do romano Eumenes. O trágico fim de sua família também nos é mostrado (destacando seus irmãos, na Suábia), o que serve para justificar a excessiva preocupação que ela tem por segurança, desde a escolha de automóveis robustos até mesmo um sistema de proteção em volta de sua cama.

Na obra de Strieber, é dada ênfase a dois elementos: o Sono e a Fome (isso mesmo, sempre grafados com iniciais maiúsculas). Esses são os elementos necessários à sobrevivência da espécie de Miriam: se alimentar de sangue uma vez por semana e dormir seis horas ao dia. E, durante o romance, essa equação Sono x Fome é traçada em paralelo às pesquisas da médica Sara, sobre longevidade. No cinema, não foram tão a fundo nesses aspectos, apenas os sugerindo (felizmente!).

Das adaptações cinematográficas, destaco, em Fome de Viver, a célebre abertura pela banda Bauhaus, executando Bela Lugosi is Dead. E, claro, a discreta cena de sexo entre Deneuve e Susan Saradon ao som de Dueto das Flores. Para os dias de hoje, não é nada de mais; mas aparece a bunda da Deneuve. Em Coração Satânico, é emblemática a cena do elevador com Mickey Rourke, durante os créditos do filme, descendo ao inferno, além da cena de incesto sob uma chuva de sangue. Em ambas as películas, as excelentes atuações.

No Brasil, as obras de William Hjortsberg e Whitley Strieber foram publicadas pela editora Record, lembrando que a Best Seller foi incorporada por esta. Não encontrei vestígios de outras reimpressões, com um merecido bom acabamento gráfico, ou, pelo menos, capas mais bonitinhas.

“Em tempos de literatura de terror pop de baixa qualidade, vale a pena (re)visitar essas obras.

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Kleiton Gonçalves é autor do blog Ordem do Eterno Grau de Neófito , sem nenhum seguidor.