Faroeste Feijoada

Faroeste-CablocoOs norte-americanos, sendo donos do cenário primordial, criaram o faroeste clássico, pelo qual se expressaram artistas brilhantes como John Ford, Nicholas Ray, Howard Hawks e Sam Peckinpah. Em sua esteira comercial, os italianos desenvolvendo o chamado faroeste “spaghetty”, de muitos djagos, gemmas e hills; e um único e grande Sérgio Leone. No Brasil houve diversas tentativas de emular o faroeste clássico. Filmes como “O Cangaceiro” (1953) e “A sina do aventureiro” (1958) são exemplos clássicos. Agora, com o lançamento de “Faroeste Caboclo”, baseado na canção homônima da banda Legião Urbana, temos a tentativa de desenvolvimento de um novo subgênero calcado em cenários urbanos, violência estetizada e doses homeopáticas de sexo, drogas e rock and roll, que talvez se possa, provisoriamente que seja, chamar de “faroeste feijoada”.

2013 ficará conhecido como o ano de Renato Russo no cinema. Primeiro estreou a cinebiografia “Somos tão jovens”, de Fernando Morello, mostrando os anos de formação do cantor e compositor carioca. De modo geral, o filme foi malhado pela crítica. Acharam-no superficial e “malhação” demais para a profunda complexidade psicológica do artista que pretendia retratar. Considero essa perspectiva válida, embora guiada por expectativas emotivas de fãs. A esperança era a de que “Faroeste Caboclo”, o segundo filme russoniano da temporada, pudesse compensar a decepção.

Primeira pergunta: é um bom filme? Sim, sem dúvida, considerando os padrões tupiniquins e a proposta de sua estrutura interna. A direção de René Sampaio é ágil e frenética. O protagonista João de Santo Cristo é vivido com energia pelo ator Fabrício Boliveira. A bela Ísis Valverde encarna uma Maria Lúcia usando seu infalível carisma novelesco. Todo o elenco de coadjuvantes, do vilão Jeremias (Felipe Abib) ao primo Paplo (César Trancoso), é competente, com destaque para Antônio Calloni, como um policial corrupto. Para lamentar, apenas o desperdício da presença de Marcos Paulo, fazendo um senador (quando? onde?), pai de Maria Lúcia. A parte técnica, da fotografia a montagem, apresenta ótimo nível e a direção de arte, embora pobre, não compromete. A trilha sonora de Lucas Marcier é discreta e certeira, fazendo uso comedido da música título. Palmas para a criativa homenagem que fizeram a Legião Urbana numa cena de show. O ponto baixo fica para a exageradamente solene narração em off, quase tão desnecessária e fora de tom quanto a do “Blade Runner” de 1982.

Segunda pergunta: o longa-metragem “Faroeste Caboclo” é uma boa adaptação da música? Não exatamente.

Pode ser considerado satisfatório se o objetivo do espectador for se divertir assistindo violência, vingança e amor bandido, num filme de ação com sotaque nacional. Mas peca em diversos aspectos ao apresentar-se como adaptação de uma história muito, talvez excessivamente, conhecida. O que pode salvá-lo nesse aspecto é que, talvez, o espectador fique de tal modo anestesiado pela overdose de estímulos sensoriais oferecidos que não se dê conta dos problemas.

Diferente de “Somos tão jovens”, “Faroeste Caboclo” não parte de uma trajetória biográfica real repleta de desdobramentos que exige que o cineasta faça opções, edite, escolha um ponto de vista. O enredo cantado na música “Faroeste Caboclo”, composta no final da década de 1970 e lançada comercialmente no disco “Que país é este (1978 – 1987)”, é simples, direto e cru. Segue a tradição da literatura de cordel. A riqueza não está na letra propriamente dita, que em si é bastante esquemática, mas no que ela pode representar enquanto representação de uma realidade sociocultural. O grande mérito de Renato Russo, então Trovador Solitário, foi, mesmo sendo membro da classe média burguesa, captar algo da essência do candango trabalhador e transformar isso em narrativa. Dessa premissa simples poderia ser extraído um vasto universo de reflexões.

René Sampaio optou por ficar na superfície e entregar um produto industrialmente bem-feito, que obedece todas as convenções do gênero ação/policial, mas pouco profundo. Não que se deva exigir complexidade filosófica desses filmes, mas exemplos como os de “Tropa de Elite” (2007), “O Homem do Ano” (2003), “O Invasor” (2001) e “Cidade de Deus” (2002) mostram que é possível e desejável sair do senso comum. Trata-se de um filme milimetricamente planejado para impressionar o público médio, que ingenuamente ainda se encanta com edição rápida, tiros, sangue falso e um pouco de sexo, para incrementar a emulação de transgressão. Essa opção pela violência gráfica e as infindáveis citações aos faroestes de Sérgio Leone, dá a falsa sensação de sofisticação temática e formal, responsável por agradar intelectualmente os fãs do Legião Urbana que ficaram decepcionados pelo excessiva suavidade de “Somos tão jovens”.

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O roteiro produzido pela equipe capitaneada por Marcos Bernstein e Victor Atherino optou por não seguir à risca a narrativa da música. Isso não representa necessariamente um problema, mas em muitos casos fizeram substituições equivocadas para preencher as lacunas. Limaram, por exemplo, o “General de dez estrelas”, que poderia render uma interessante análise sobre o declínio do Regime Militar, que, aliás, desaparece do cenário na Brasília do filme. O roteiro não abre espaço para esse tipo de problematizações e abraça a lógica dualista do bem contra o mau, ao mesmo tempo em que, ancorado em sua cosmética suja, finge ser contestador.

O problema crucial é a transformação da saga de João de Santo Cristo em um batido e sonolento conflito de classes. Pobres contra ricos. Traficantes pobres contra traficantes ricos. Pai rico contra pretendente da filha pobre. Brancos ricos contra negro pobre. Polícia corrupta ao lado dos ricos para oprimir os pobres. Como não poderia deixar de ser, os ricos são intrinsicamente fúteis, cruéis e preconceituosos. Os pobres podem até possuir personalidades dúbias e violentas, mas são guiados por rígidos códigos éticos, construídos e naturalizados na prática cotidiana de suas comunidades. Se cometerem ações moralmente condenáveis é porque são levados a isso, fazem para sobreviver. Reagem ao mundo cão no qual estão inseridos. Faz lembrar Paulo Francis quando ironizava que “se vejo um pobre num filme brasileiro tenho vontade de sair gritando: é santo! é santo!”. Nesse caso, é mesmo santo. Santo Cristo! “Que o povo dizia que era santo porque sabia morrer”. Morrer, não viver como um carola que, por acaso, é matador.

O João de Santo Cristo do filme possui espírito de artista: gosta de esculpir flores para sua amada. É homem de uma mulher só, não um libertino que “comia todas as menininhas da cidade” ou “ia na zona da cidade gastar todo seu dinheiro de rapaz trabalhador”. O João de Santo Cristo do filme não rouba “o dinheiro que as velhinhas colocavam na caixinha do altar” porque papai não queria um filho ladrão. Traficante de maconha tudo bem. 100% natural. Cocaína não, que é droga química e, portanto, coisa de vilão capitalista. Sacos de cocaína levam tiro. Álcool nem aparece para ele poder se embebedar e “no meio da bebedeira descobrir que tinha outro trabalhando em seu lugar”. O João de Santo Cristo do filme não é um “self made man” como na música. Esse João de Santo Cristo não “fez amigos, frequentava a Asa Norte e ia pra festa do rock pra se libertar” ou “ficou rico e acabou com todos os traficantes dali”. Nada disso, o João do filme é como um João de Garrincha; não é João, é Zé, um Zé Ninguém. Uma eterna vítima dos ricos, brancos, poderosos e corruptos. Nunca age, apenas reage. Para sublinhar sua pretensa simplicidade franciscana, o roteiro fez de João um analfabeto, ignorando que na música ele frequentava a escola e “até o professor com ele aprendeu”. Como a história se passa antes da promulgação da Constituição de 1988, não sabendo ler, o pobre João não poderia nem votar. Coitado!

Também me escapam os motivos da opção por apresentar João de Santo Cristo como negro. Os versos da letra onde se ouve “não entendia como a vida funcionava – discriminação por causa da sua classe ou sua cor” não me parecem conclusivos. Imagino que tenha sido por influência da obsessão de parte da esquerda brasileira em imitar os norte-americanos que catalogam todo mestiço como sendo negro. Até onde sei, tradicionalmente, a palavra caboclo indica um indivíduo proveniente da miscigenação entre o caucasiano e o indígena. O folclorista Câmara Cascudo, no “Dicionário do Folclore Brasileiro”, ensina que a origem etimológica da palavra “caboco” (sem o L) deriva do tupi “caa-boc” (o que vem da floresta) ou “kari’boca” (filho do homem branco).

Para quem considera que estou sendo preciosista, lembro que na edição número 36, de 1988, da saudosa revista Bizz, em sua página 52, o próprio Renato Russo declarou que: “João de Santo Cristo é um garoto de classe média e as pessoas, parece, não percebem isso. Ele era filho de fazendeiro e o pai dele foi assassinado. Ele vai para o reformatório porque não tem ninguém para tomar conta dele. Mataram praticamente toda a sua família e, por isso, ele é revoltado (…). Ele é realmente de classe média, e a música inteira é ele tentando voltar para o meio que conhece. João se vê obrigado a conviver com o pessoal mais pobre e, por isso, ele percebe aquela coisa de preconceito e tudo mais, coisas que ele nunca tinha visto antes. Quer dizer, caminha para outro lado. Santo Cristo tem uma certa nobreza! Não sei se as pessoas percebem. Acho que pensam em Santo Cristo como um pé-rapado. Para mim ele é um heroizinho tipo James Dean, como naquele filme ‘Vidas amargas’”. Claro que é possível justificar que se trata de uma interpretação livre da música original. Pode ser, mas o equivoco é assumir-se como uma leitura literal.

Contudo, o principal problema do filme não é a pasteurização do protagonista e sim a infeliz ideia de apresentar Maria Lúcia como uma patricinha brasiliense. A história de amor bandido do casal, apesar de funcionar na tela, acabou limitada a seu aspecto “a dama e o vagabundo”, tornando-se um obstáculo desnecessariamente auto imposto. O resultado é que o arco dramático de Maria Lúcia foi alterado. De uma interessante “filha da puta sem vergonha” que se casa com Jeremias por desistir de esperar eternamente por João, Maria Lúcia tornou-se uma típica mocinha de filme de ação, que se sacrifica em nome do herói marrento. O cinema brasileiro, a despeito de todos os seios e nádegas que mostra, ainda tem dificuldades em aceitar protagonistas femininas que não sejam donzelas em perigo ou santas abnegadas. Para disfarçar, fazem-nas fumarem maconha como sinal de que são descoladas e independentes. Nesse caso, como Maria Lúcia não fez nada, não “se arrependeu depois” e o fato de que “morreu junto com João seu protetor” revelou-se um anticlímax, já que o pobre João sequer pôde lhe dizer “dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o teu perdão”. Perdoar o que?

O duelo final, a despeito da boa fotográfica, foi muito fraco. Não apenas pela coreografia tacanha e a montagem truncada. Limitou-se a uma briga de vizinhos de final de semana, que, no máximo, ganha uma nota de duas linhas no rodapé das páginas policiais de segunda-feira. Deveria ser um evento grandioso, reunindo um “traficante de renome” e um “bandido destemido e temido no Distrito Federal”. Um evento midiático televisionado, com todos sabendo “a hora, o local e a razão”. Esse seria o momento de René Sampaio citar “Um dia de cão” (1975), de Sidney Lumet, abrindo espaço para o público refletir sobre a mercantilização da violência urbana pelos meios de comunicação de massa e o fato de que “a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV”. Que pelo menos colocasse umas bandeirinhas, um sorveteiro e meia dúzia de figurantes. Seria pedir muito? Bastava seguir a receita da feijoada que está no encarte do CD.

Renato Russo Begins: Geração saudosista

Eu adoro ser idolatrado! Me amem!” (Renato Russo)

somos-tao-jovens-poster-615x906Diferentemente de Hollywood, onde abundam cinebiografias épicas como Lawrence da Arábia (1962), Ray (2004), Ali (2001)  e Lincoln (2012), esse é um gênero em formação no cinema brasileiro. Embora existam alguns exemplares cultuados pela crítica, como O Homem da Capa Preta (1986), onde José Wilker encarna o célebre deputado Tenório Cavalcante, e Lúcio Flávio – Passageiro da Agonia (1977), com Reginaldo Faria fazendo o papel título, ainda não temos uma tradição sólida. Impera o jogo da tentativa e do erro. Para cada trabalho brilhante como Heleno (2011), que retrata a vida do polêmico jogador de futebol Heleno de Freitas, protagonizado por Rodrigo Santoro e dirigido por José Henrique Fonseca, existem diversos vexames como, para ficar no campo do futebol, Garrincha – Estrela Solitária (2003), onde o bom ator André Gonçalves entrega a pior interpretação de sua carreira, sob a batuta amadorística do diretor Milton Alencar. Na produção recente, filmes fracos ou pouco inspirados, como os excessivamente apologéticos Lula, Filho do Brasil (2009) e Chico Xavier (2010), o novelesco Olga (2004) ou o thriller de ação descerebrada travestido de cinebiografia Besouro (2009), dividem o cenário com igual ou mais destaque do que longas interessantes como Madame Satã (2002) e Quem Matou Pixote? (1996).

As cinebiografias de músicos são relativamente comuns em nosso cinema. Descontando os incontáveis documentários sobre Vinícius de Morais, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Chico Buarque, Magda Tagliaferro, Nelson Freire, Herbert Viana, Titãs etc, há diversos filmes de ficção. Alguns são desperdícios lamentáveis, como o equivocado Villa-Lobos – uma Vida de Paixão (2000), onde o diretor Zelito Viana queimou o tema com um roteiro pobre e uma direção de atores pesada, transformando Antônio Fagundes numa caricatura grotesca de nosso maior compositor erudito. Outros são trabalhos interessantes e pouco pretensiosos como Noel – Poeta da Vila (2006), de Ricardo Von Steen. Curiosamente, embora isso possa desagradar muitos PIMBA (Pseudointelectuais Metidos a Besta), o mais bem-sucedido exemplar do gênero é o subestimado Dois filhos de Francisco (2005), sobre a trajetória da dupla sertaneja goiana Zezé de Camargo e Luciano, dirigido por Breno Silveira, um filme muito bem construído, divertido e com uma interpretação notável de Ângelo Antônio. O mesmo Breno Silveira não conseguiu se superar com o recente Gonzaga – de Pai para Filho (2012). Em todo caso, apesar das muitas tentativas e boas intenções ainda não surgiu nenhuma obra-prima.

O recém-lançado Somos Tão Jovens, do cineasta Fernando Morello, sobre a juventude de Renato Russo e a formação da banda Legião Urbana, mantêm a escrita. Fica na metade do caminho. É um filme com pontos altos e pontos baixos. Imagino que deve dividir a opinião do público e da crítica.

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Tentei ser o mais isento possível. Eu, como parte considerável de minha geração, fui admirador da banda. Não peguei seus tempos áureos, mas acompanhei atento aos últimos respiros. O primeiro vinil (novo) que comprei foi Descobrimento do Brasil (1993). Numa época onde o acesso à informação e produtos culturais era muito mais difícil do que hoje, esse disco foi uma sensação em minha turma na Escola Estadual Presidente Costa e Silva, em Goiânia. Também colecionei entrevistas, reportagens, livros e algumas das raras aparições televisivas, gravadas em fitas VHS. Em 1995 cheguei a escrever uma peça, com quase 100 páginas, baseada em “Eduardo e Mônica”. Diz a lenda que foi montada por um grupo de teatro no Estado do Pará. Como o texto caiu na mão deles, não tenho a menor ideia.

Com o tempo, minha admiração por Renato Russo foi ficando cada vez menor. Eventualmente ainda escuto, mas com senso crítico. O que é natural, considerando que sua estética é, eminentemente, adolescente. Simplesmente passei da idade. Virei tio. Analisando em perspectiva, sua visão de política, moral, ética, amor, relacionamento etc, é bastante ingênua. Ademais, conhecendo melhor suas influências diretas, como Bob Dylan, Beatles, The Cure, Joy Division ou The Smiths, a discografia do Legião Urbana não resiste à comparação.

Mas, principalmente, tornou-se incontornável o fato de que, nos anos que antecederam sua morte, Renato Russo estava estagnado ou regredia criativamente. Os dois últimos discos do Legião Urbana foram fracos em comparação com os anteriores. Seus álbuns solo, apesar de bem produzidos, representavam passos atrás em termos criativos. O primeiro foi basicamente de música pop norte-americana, o segundo de música pop italiana. Afora uma ou outra faixa mais experimental, as canções românticas escapistas dominavam o repertório. Talvez fosse resultado da doença, mas, diferente, por exemplo, de Cazuza, que apesar de exibir cacoetes da esquerda festiva, evoluía artisticamente enquanto era consumido pela AIDS, Russo parecia estar se esgotando. Dava a sensação de que sua obra estava praticamente fechada. Não ficou a sensação de que poderia ter feito muito mais, como ocorreu com Cazuza.

Sempre Cazuza. Pensando em Somos tão Jovens, a comparação inevitável é com o longa-metragem Cazuza – o Tempo Não Para (2004), dirigido pela dupla Sandra Werneck e Walter Carvalho, tendo Daniel de Oliveira como protagonista. Essa comparação não se dá apenas pela filiação geracional e temática entre os artistas retratados, mas pelo fato de terem alimentado certa “rivalidade amigável” ao longo de suas respectivas carreiras. Na crítica que escrevi por ocasião do lançamento do filme sobre Cazuza, notei que Renato Russo foi limado do roteiro. Achei um erro imperdoável, pois “qualquer um que conheça um pouco de sua trajetória sabe que o vocalista do Legião Urbana foi o grande responsável pela virada na sua carreira. Aliás, com o sucesso comercial que o filme esta fazendo, Russo é outro que deve ser biografado em breve. Esperamos que com resultados melhores. Sobre ele, Cazuza afirmou em uma entrevista de 1989: ‘Quando vi aquelas letras pensei: ´Pô, esse cara é melhor do que eu. Isso não pode ficar assim`. Senti uma puta inveja, mas daquelas positivas, que te incentivam a criar. E acho que a linha seguida a partir de Brasil teve muito a ver com isto’”.

O meu “em breve” não foi tão breve. Passaram-se oito anos entre um filme e outro. Nesse “último” e “póstumo” duelo fílmico, Renato Russo saiu-se melhor. Foram dois os motivos principais: a escolha do corte cronológico e a atuação do protagonista.

O maior acerto de Somos Tão Jovens foi optar por cobrir apenas os anos de formação de Renato Manfredini Júnior, sua transformação em Renato Russo. A fase punk, a vida em família, a relação com os amigos e amores, carreira solo como trovador solitário etc. Uma espécie de “Russo Begins”. O filme sobre Cazuza se perdeu exatamente na opção de cobrir toda a vida do biografado. Geralmente, essa estrutura funciona melhor quando deliberadamente se enfoca o mito e não o homem, como fez Oliver Stone em The Doors (1991). Em produções nas quais impera a filosofia do realismo semidocumental, como quase a totalidade das cinebiografias nacionais, fica a sensação de pressa, atropelo.

Sendo um “Russo Begins” estão lá, distribuídas nos diálogos, diversas máximas e expressões da mitologia russoniana na forma de frases de efeito. Essa estratégia dramatúrgica pode irritar os espectadores mais sofisticados pela artificialidade e anacronismo cronológico com que algumas das inserções são realizadas, mas compreendo-as como piscadelas do diretor para seu público. É como quem diz: “viram, também sou fã, também sei disso”. Não deixa de ser válida. Funciona nos filmes da Marvel. Os fãs mais xiitas precisam entender que Somos Tão Jovens não é o “novo filme do Godard”. Diversão pela diversão é a base do cinema. Arte vem depois.

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A mesma lógica vale para a utilização das músicas do Aborto Elétrico e do Legião Urbana na trilha sonora. Alguns acusam a produção de usá-las como um catálogo de hits inseridos artificialmente visando ganhar o público pela catarse sonora. Pode até ser, mas não acho que seja uma acusação totalmente justa. Houve excesso? Talvez. Mas, afinal, essas músicas que se tornariam sucessos nacionais, existiram primeiro lá, como material de ensaio de bandas de garagem. “Somos tão jovens” é sobre bandas de garagem que saíram das garagens. Se as canções fossem pouco exploradas, certamente também haveria reclamações. É difícil encontrar o meio termo nesse caso. Ademais, tendo sido captadas ao vivo durante as filmagens, foram devidamente rearranjadas para não ficarem exatamente iguais as gravações clássicas. Inseriram pequenos “erros” nas letras, instrumentais e melodias para dar a sensação de “obra em construção”, gerando verossimilhança.

O segundo trunfo de Somos Tão Jovens é seu protagonista, o ator Thiago Mendonça. As resenhas sempre recordam que interpretou o cantor Luciano em Dois filhos de Francisco, mas poucos lembram que ele já garantiu seu lugar na história do cinema fazendo uma ponta em Tropa de Elite, como o “estudante usuário” esbofeteado pelo capitão Nascimento no melhor estilo General Patton. Um momento mágico da sétima arte! Thiago Mendonça, mesmo sem ser fisicamente parecido com Russo, por meio de um apurado trabalho corporal e de voz, interpretou não “o” Russo, mas “um” Russo convincente e psicologicamente complexo. Não se limitou a imitar os trejeitos do cantor, mas construiu sua visão dele, evitando cair na caricatura. Talvez seu maior mérito tenha sido emular o timbre vocal de Russo, tanto falando quanto na famigerada impostação operística ao cantar. Sua atuação supera o elogiado trabalho de Daniel de Oliveira como Cazuza, retratado como um “exagerado” bidimensional, em função do roteiro de “Somos tão jovens” ter lhe dado espaço para mostrar a personalidade multifacetada de Russo. Sem favores, Thiago Mendonça carrega o filme. É o filme.

Mas Somos Tão Jovens não é um monólogo. Seu problema mais evidente é o elenco de coadjuvantes jovens. Descontando algumas exceções, como as atrizes Bianca Comparato (Carmem Lúcia, irmã de Renato Russo) e Laila Zaid (Ana Claudia), o conjunto é sofrível. A inexperiência pesou. Em muitas cenas, Thiago Mendonça parece estar contracenando com um fundo azul.

O tom monocórdio do enredo também pode gerar descontentamento. Russo fala, Russo canta, Russo fala, Russo canta, Russo fala, Russo canta. É assim do começo ao fim, alimentando as acusações de que o roteiro é esquemático e simplista. É verdade, mas salvo se houvessem assumido uma estética narrativa fragmentada ou de vanguarda, não vejo como poderia ser muito diferente. Fernando Morello optou por reproduzir a vivência cotidiana daqueles jovens, que sabiam que “em Brasília tudo é sempre igual”. Em essência trata-se de uma história de turminha, com tudo o que pode possuir de prosaica. O que acontece é que existe uma tendência dentre os fãs de superdimensionar as narrativas que leu em entrevistas, reportagens e livros. Parecem-lhes épicas porque ajudaram a compor seu imaginário pessoal. Quando assistem esses episódios representados em audiovisual se decepcionam, uma vez que retomam seu tamanho natural: uma narrativa de microcosmo que ganhou, à posteriori e inusitadamente, dimensões macro.

Essa tendência mistificadora de pequenos atos e fatos é uma constância no processo de construção do mito Renato Russo. Algo nítido tanto na estrutura de Renato Russo – a peça (2006 – 2009) quanto no episódio da séria televisiva Por Toda Minha Vida” (2007), onde o cantor é interpretado pelo ator Bruce Gomlevsky. Por essa lógica, qualquer banal respiro de Russo torna-se um momento mágico sartreano para seus devotos legionários.

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Nos aspectos técnicos Somos Tão Jovens mantêm o bom nível do chamado renascimento do cinema brasileiro. A fotografia é limpa, apostado no mais simples. A direção de arte é competente. A montagem poderia ser mais apurada, variando entre momentos excelentes e confusas passagens de tempo. A sequência final é particularmente pobre. De uma cena do Renato Russo ficcional deitado em seu quarto, conversando com a irmã, corta bruscamente para o vocalista real, num show real. Não há construção de clima para a transição. A narrativa pareceu inconclusa, optando-se por um desfecho rápido e fácil.

Hoje, tendo passado pela fase de fã, interpreto o Legião Urbana como uma espécie de O Código Da Vinci do rock and roll brazuca. O segredo do sucesso e longevidade da banda, ao contrário do que se propaga, não é o fato das letras serem escritas em primeira pessoa, serem “musicalmente honestas” ou sua tendência à autoajuda. Percebo que o admirador mais fiel do Legião Urbana se sente inteligente ouvindo seus discos. Afinal, citam Camões, Freud, Jung, filosofia oriental etc. O que pode ser mais sofisticado do que isso? Acontece mais ou menos a mesma coisa com o leitor modelo de O Código Da Vinci, que é uma espécie de thriller de suspense erudito para as massas. Existe muita informação ali, mas embalada no formato Wikipédia. Mesmo sem precisar fazer grandes esforços, o admirador de Russo se sente superior aos sertanejos universitários, pagodeiros, funkeiros e congêneres. Acontece fenômeno semelhante com Raul Seixas e Zé Ramalho. Claro que muitos sertanejos universitários, pagodeiros, funkeiros e congêneres também dançam com “A dança” e balançam os bracinhos com o refrão de “Pais e filhos”; mais isso costuma ser considerada uma anomalia. A gravação que o grupo Raça Negra fez de “Será” não me deixa mentir.

Nada disso é necessariamente ruim. Acredito que é um bom elixir de autoestima. A juventude precisa de referências boas e acessíveis como essa. Pelo menos até amadurecer. Na verdade, é uma marca de nossos dias. Essa é a primeira geração de jovens antenados que não é revolucionária por definição, que não quer romper com a cultura dos pais. Enquanto a juventude tida como alienada perde-se em danças sensuais e letras desmioladas, àqueles considerados bem-pensantes e cultos escutam os mesmos artistas e bandas que seus genitores apreciavam. Não é por acaso que o culto ao Led Zeppelin, Rolling Stones e Pink Floyd está cada vez mais disseminado na internet. Com o fim da geração Coca-Cola, temos a geração saudosista.

O sucesso ou fracasso de Somos Tão Jovens na bilheteria vai depender de sua aceitação por essa geração hipster. Urbana legio omnia vincit? Legião Urbana vence tudo? Em nome dos velhos tempos, faço votos que sim. Força sempre!!