Só Nanquim #05 – Direto do FIQ 2013

O Pipoca e Nanquim esteve no FIQ 2013 e aproveitou para gravar um Só Nanquim especial direto do evento! Esse é um programa mais curto, contando um pouco do que aconteceu em Belo Horizonte, neste que é o maior evento de quadrinhos da América Latina! Não perca nosso próximo episódio do Pipoca e Nanquim, no qual falaremos muito mais sobre o FIQ e mostraremos todas as nossas aquisições de quadrinhos.


Minha Estante #14 – Afonso Andrade

Olá, colecionadores de quadrinhos do Brasil!

Hoje apresentamos a vocês a eclética coleção de Afonso Andrade, coordenador geral do FIQ, o maior festival de quadrinhos do Brasil! Então você imagina o amor que ele possui por essa arte e o quanto se dedica em divulga-lá, né?!

Com essa entrevista o Pipoca e Nanquim completa um pequeno ciclo de apresentação dos organizadores do evento. Primeiro conversamos com o curador e expositor Ivan Costa e depois com o curador Daniel Werneck e agora com Afonso.

Comentem lá em baixo o que acharam dessa estante e se vão ao FIQ! Nos aqui do PN não vemos a hora de chegar 9 de Novembro!

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Olá, Afonso! Desde já agradeço sua participação. Para começar nos conte um pouco sobre você, onde nasceu, mora, o que faz na vida profissional?

Nasci e moro em Belo Horizonte. Sou formado em História, mas desde 2002 atuo profissionalmente na área cultural. Em 2005 fiz parte coordenação do 4º FIQ e, a partir de 2007, assumi a coordenação geral do evento.

Quando você começou a se interessar por quadrinhos?

Gostava de quadrinhos quando era criança. Lia muito Turma da Mônica, especialmente as histórias do Pelezinho, e Disney. Adorava Disney Especial, aquelas edições temáticas: inventores, astronautas, detetives. Na adolescência o interesse diminuiu e praticamente parei de ler quadrinhos.

Você se lembra da primeira vez que se viu fascinado por uma HQ? Qual foi a história ou revista?

A redescoberta dos quadrinhos aconteceu quando estava na Universidade. Por causa do Pasquim já gostava de cartuns e comecei a acompanhar a Chiclete com Banana e a Circo. Uma história do Laerte, os “Palhaços Mudos”, me deixou de queixo caído. O que era aquilo? A narrativa, a dinâmica da história. Nunca tinha lido nada parecido. Depois um colega da faculdade me mostrou um quadrinho que estava lendo: Batman: o Cavaleiro das Trevas. Aí não teve mais jeito, precisava de mais (risos).

Autógrafo do Laerte na história dos palhaços mudos, publicada na Circo.

Quando aconteceu a mudança de leitor ocasional para colecionador inveterado?

Na época da Circo, Chiclete, Cavaleiro das Trevas, o Brasil vivia um momento de expansão da publicação de quadrinhos, com a chegada de vários títulos nas bancas. Acho que sou mais um leitor inveterado, do que um colecionador. Como, na época, as bibliotecas não tinham quadrinhos e eu quase não conhecia outros leitores, comprar era a solução.

Quantas HQs você tem?

A última vez que contei, girava em torno de 4000 exemplares.

Visão geral do escritório e “centro de entretenimento” da família, onde ficam os quadrinhos

Baú, onde guardo formatinhos. Ele foi feito pela minha esposa com recortes de Batman P&B.

Baús e caixas com parte da coleção

Quais são os principais itens de sua coleção, séries e mini-séries completas, encadernados de luxo, edições raras, etc.

Tenho bastante material da década de 80, acho que praticamente tudo o que foi publicado na época. Também tenho uma boa coleção de Metal Hurlant e El Víbora.

Tenho um gosto bastante eclético, até por dever profissional, gosto de acompanhar o mercado, lançamentos e novos autores.

Voltei a comprar mais coisas, principalmente, a partir de meu envolvimento com o FIQ.

Não tenho tantas edições raras, talvez os livros e revistas autografados.

Qual o item mais raro de todos todos todos?

Tenho uma edição de um livro do Ota sobre o Zéfiro, autografado por ele. Até a 1ª Bienal de Quadrinhos do Rio, em 1991, a verdadeira identidade do Zéfiro era desconhecida, um segredo de estado. Os organizadores do evento conseguiram que ele viesse a público e participasse da Bienal. Assim consegui sua assinatura no livro. Pouco tempo depois da Bienal, Zéfiro faleceu.

Tenho dois outros autógrafos que tenho carinho, do Eisner, de 1997, quando esteve  na 3ª Bienal de Quadrinhos, em BH e uma edição de Top 10, nº 1,  com autógrafo do Alan Moore, que ganhei do grande amigo Ivan Costa.

Autógrafo do Zéfiro

Autógrafo do Alan Moore na Top 10 #1

Autógrafo do Eisner em 'Nova York a Grande Cidade', um dos meus livros favoritos

Desenho feito pelo Bem Templesmith

Belo autógrafo do Craig Thompson

Autógrafo do Liniers. Alguns autores estrangeiros acabam grafando meu nome errado: “Alfonso”

Como você guarda sua coleção de HQs? E qual técnica usa para conservá-los?

Os colecionadores vão querer me matar, mas sou meio desorganizado. Como disse me considero mais um leitor que propriamente um colecionador. Guardo os livros e revistas em estantes de aço. Procuro manter longe do sol e umidade. Ultimamente o espaço está pequeno e preciso reorganizar a coleção e aumentar o número de estantes.

Tem algum item ou coleção que tem vergonha de deixar em posição de destaque na estante? Eu mesmo deixo lá no fundo minha coleção do Spawn, Heróis Renascem…

Não sei, talvez as edições da Image e outras publicações da década de 80. Naquela época conseguíamos comprar tudo que saía, tarefa impossível nos dias de hoje. È claro que a gente acabava comprando muita coisa ruim.

Já aconteceu alguma tragédia envolvendo suas preciosidades, como umidade, traça, roubo, fogo…?

Infelizmente, sim. Perdi há alguns anos, quando morava em outra casa, parte de minha coleção de formatinho por causa de traça. Ah, e sempre tem algum item que você empresta e não te devolvem.

Algumas publicações dos anos 70

Quadrinhos da década de 1950, com exceção do 'Rango'

O Gibi e Primeira edição do 1º livro do Henfil

O Gibi e Primeira edição do 1º livro do Henfil

Nos bastidores você comentou que não liga de emprestar seus quadrinhos. Mas com isso você não perde muita coisa ou recebe de volta amassada, suja e tal? Isso não te irrita profundamente?

Sabe que não. Sou um proselitista dos quadrinhos (risos). Se a pessoa leu e passou a gostar de quadrinhos, fico satisfeito. Claro que algumas raridades, principalmente com autógrafos e dedicatórias, evito emprestar.

Todo colecionador tem manias, eu, por exemplo, sempre cheiro meus quadrinho novos e não empresto, qual é sua?

Quando viajo sempre levo uma pilha de quadrinhos, que daria para ler durante meses, mesmo que a viagem só dure alguns dias.

Sem contar Watchmen, Cavaleiro das Trevas, Sandman e Piada Mortal, quais os quadrinhos que você sempre indica pra as pessoas?

Como acabo tendo contato com novos leitores ou com pessoas que querem começar a ler quadrinhos, gosto de indicar Persépolis, Gen: Pés Descalços, Supremos e dois livros novos, A Guerra de Alan e Três Sombras.

Em sua opinião, quais são os mais importantes quadrinistas do Brasil?

Assim fico numa saia justa. Vou falar de dois. Maurício de Sousa, pelo seu pioneirismo, visão, criatividade. Sempre desbravando novas fronteiras na linguagem dos quadrinhos, além de conseguir, num ritmo industrial, não perder a qualidade e o cuidado com o leitor.  Laerte que é o grande gênio de sua geração. Poucos sabem contar tão bem uma história como ele.

Recentemente eu conversei com o Ivan Freitas da Costa que contou alguns convidados confirmados para o FIQ 2011, principalmente os brasileiros e também o francês Cyril Pedrosa. Dias atrás foi divulgada a participação da excelente Jill Thompson. Tem mais algum nome que pode revelar pra gente que vai arrebentar a boca do balão?

São mais de 60 convidados, entre artistas nacionais e internacionais. Os dois últimos confirmados foram o Horacio Altuna e o Bill Sienkiewicz. Mas o restante dos nomes podem ser conferidos no site: fiqbh.com.br

Esse ano o homenageado será o Mauricio de Souza, pode adiantar algumas atrações envolvendo o pai da Turma da Mônica

Como homenageado, o Maurício criou a identidade visual do evento, teremos uma exposição alusiva ao seu trabalho e sua presença na abertura do FIQ.  Estamos conversando com sua equipe sobre outras possibilidades.

Autógrafo do Maurício de Sousa

O FIQ 2009 recebeu o dobro de público que do de 2007, cerca de 75 mil visitantes durante os cinco dias. Será que esse ano dobra novamente?!

Difícil saber. Estamos nos preparando para um público em torno de 80 a 90 mil pessoas. O interesse pelos quadrinhos aumentou bastante nos dois últimos anos. O movimento e a expectativa nas redes sociais estão bem grandes.

O local do evento já foi definido? Comportará a massa de 90 mil ávidos leitores de quadrinhos?

Sim. Será na Serraria Souza Pinto, local da edição de 2007. A Serraria tem capacidade para receber um grande público, com certeza.

Sendo um grande colecionador e diretor geral do FIQ, creio que já conheceu muita gente bacana e alguns ídolos, tem alguma história que queira compartilhar com a gente?

Isto me lembrou uma entrevista que ouvi com uma pessoa que trabalhava com desenvolvimento de games. Perguntaram se jogava muito. Ele disse que a partir do momento que começou a trabalhar com games, parou de jogar. Em um evento do tamanho do FIQ, ficamos muito envolvidos com a produção e logística. Assim, sobra pouco tempo para interagir e conversar com os artistas, como gostaríamos.

A grande vantagem de trabalhar com quadrinistas são o apreço, atenção, gentileza e, algumas vezes, paciência que todos os artistas têm com os leitores.

Ano passado homenageamos o Canini. Foi emocionante ver a alegria dele e da esposa, aqui em BH. Conversava com as crianças, distribuía autógrafos para todos. Outro momento memorável foi testemunhar o encontro dele com o Mauricio de Sousa, durante um almoço.

Para finalizar, deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Fica o convite para todo mundo vir a BH em novembro, de 09 a 13, participar do FIQ. O festival é inteiramente gratuito e repleto de atrações. Podem acompanhar pelo site: fiqbh.com.br, twitter: @fiq_bh ou facebook.com/festivalinternacionaldequadrinhos

Afonso, muito obrigado pela conversa! Em novembro espero encontrar com você ai em BH, para uma entrevista pro nosso videocast.

Obrigado a vocês e parabéns pelo ótimo trabalho de divulgação da cultura dos quadrinhos. Espero vocês aqui em novembro.

Desenho do Demolidor feito pelo Cris Bolson e Júlio Ferreira

Desenho feito pelo João Marcos (autor de Mendelévio e Telúria

Homem Aranha vigia alguns quadrinhos sobre guerras e aquisições recentes

Anéis dos Lanternas

Podcast 28 – Piratas

Olá a todos, sejam bem vindos a mais um podcast do Pipoca e Nanquim – a forma mais saudável de suportar uma segundona braba!!!

Pois é, com a recente estreia do quarto filme da série Piratas do Caribe, nós pensamos, “ei, que tal falarmos sobre o gênero?”, e procuramos ver se um podcast mais genérico (à maneira que costumamos fazer nossos viodecasts) também funciona. Portanto o que mais queremos aqui é saber a sua opinião: Vocês curtiram este programa cheio de indicações, ou preferem que sejamos mais específicos no podcast?

Bom, este é um programa importante para os que querem ganhar o DVD Os Mercenários – Edição Especial Dupla, oferecido pela Califórnia Filmes. Sorteio no final do programa. Se você for um dos ganhadores, por favor, nos envie um e-mail com seus dados!!!

E agora vamos ao que interessa: por que Bruno achou Piratas do Caribe 4 uma porcaria? Quem foi Errol Flynn, o primeiro grande astro de ação do cinema? Por que os fãs de OnePiece tiveram um infarte com a notícia do cancelamento? Um super-programa cheio de HQs e filmes com os piratas mais legais da cultura pop.

Um abraço a todos e até a próxima!

Bloco 1

• Agradecimentos as pessoas que compareceram no lançamento do livro Quadrinhos no Cinema, veja aqui as fotos do evento;
• Assista o programa em que apresentamos o livro e compre aqui;
• O que achamos da trilogia Piratas do Caribe;
Piratas do Caribe – Crítica;

Músicas
Quick One While He’s Away (Live)The Who

Bloco 2

• Bons quadrinhos de piratas;
Terry e os Piratas, clássico de 1934, de Milton Caniff, o “Rembrandt dos quadrinhos”;
– As histórias de piratas do Fantasma, com destaque para:
Os Piratas de Singh (publicada em Álbum do Fantasma, Ed. Ebal, 5 edições; e Fantasma, Ed. L&PM, primeiro encadernado de uma série em 3 volumes);
O Fantasma, minissérie em 4 edições da Ed. Globo;
Isaac, o Pirata, excelente HQ francesa, publicada aqui pela Ed. Conrad;
One Piece, o cultuado mangá de piratas, Ed. Conrad!
– As negociações da Conrad com as matrizes japonesas de mangás;

Músicas
In The FleshPink Floyd
Pastime ParadiseStevie Wonder

Bloco 3

• Mais quadrinhos de piratas;
– Leitura mais que obrigatória: Corto Maltese, do ITALIANO Hugo Pratt, 5 edições da Ed. Pixel;
– As tirinhas de Os Piratas do Tietê, do Laerte, lançado em 3 encadernados definitivos pela Ed. Devir;
– Citação a Batman no Túnel do Tempo, vol. 4, da Ed. Abril, em que Batman é um Corsário;
• Bons filmes de piratas:
Capitão Blood, provavelmente o melhor filme de piratas da história, de 1935, com Errol Flynn como personagem principal;
– Mais um filme de pirata com Errol Flynn, O Gavião do Mar, de 1940;

Músicas
Bye Bye BabyIt’s a Beautifull Day
Fire WomanThe Cult

Bloco 4

• Mais filmes de piratas;
Os Goonies, clássico da Sessão da Tarde, de 1985;
A Ilha da Garganta Cortada, com Geena Davis, de 1995;
– Capitão Gancho, o pirata mais famoso da história;
Peter Pan, filme de 2003, o mais fiel ao livro original, com Jason Isaacs no papel do Capitão;
– Rápidas menções: Scalawag (1973); O Pirata Sangrento (1952); Piratas (1986); A Ilha do Tesouro (1950);
• Sorteio dos DVDs Especiais de Os Mercenários, da Califórnia Filmes;

Músicas
LolaThe Kinks
Survivor – Burning Heart

ASSISTA NOSSO VIDEOCAST EM QUE INDICAMOS MAIS QUADRINHOS E FILMES DO GÊNERO: VIDEOCAST 86 – OCEANO.

 

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Podcast 11 – Tirinhas

Como toda segunda-feira, trazemos aqui mais um podcast do Pipoca e Nanquim, pra começar a semana com pé direito!

Hoje vamos falar do formato que originou as revistas em quadrinhos como conhecemos hoje, as tirinhas de jornal, ao som de muito rock ‘n roll! Tem muito material bom pra mencionar, mas tentamos tratar dos principais e mais importantes, desde os primórdios nos EUA, com Yellow Kid e Little Nemo, até as mais divertidas, como Peanuts, Calvin e Haroldo e Garfield. Mas nem só dos norte-americanos vivem as tirinhas, tem também os geniais Mafalda e Macanudo, da Argentina, e a Turma da Mônica e os quadrinhos da Circo Editorial no Brasil, dentre vários outros.

Programa imperdível para você que gosta de saber mais sobre quadrinhos e quer dar risada com as boas e velhas tirinhas. Confira o conteúdo de cada bloco.

Bloco 1

• A primeira tira em quadrinhos: The Yellow Kid;

• Os quadrinhos antes e depois das tiras publicadas nos jornais;

• Litte Nemo In Slumberland, de Winsor McCay, uma revolução;

• A origem dos termos “comics” e “gibi”.

Músicas
Monkey Suit – Elton John e Leon Russel
I Learned The Hard Way – Sharon Jones

Bloco 2

• Um pouco mais sobre Little Nemo;

• O sucesso inesperado das tiras de jornais com Tarzan, Dick Tracy, Flash Gordon e outros;

• Hoje em dia os quadrinhos perderam muito de seu espaço nos jornais;

• A sensacional série Peanuts, de Charles M. Schulz;

• O desenho do Charlie Brown e Snoopy.

Músicas
Fever – James Brown
Paint It Black – The Rolling Stones

Bloco 3

Calvin e Haroldo, a favorita do Pipoca e Nanquim, de Bill Waterson;

• A diferença entre Peanuts e Calvin e Haroldo enquanto marca de consumo;

• As várias encarnações de Calvin.

Músicas
Man On The Moon (Live) – R.E.M.
Just a Gigolo – David Lee Roth

Bloco 4

• O gato mais famoso de todos os tempos, Garfield, de Jim Davis;

• Os filmes terríveis de Garfield e uma série animada muito bacana;

• As tiras políticas de Mafalda, do argentino Quino;

• O inicio da Turma da Mônica e Mauricio de Souza nos jornais;

• Um pouco da carreira e dos quadrinhos do Henfil;

• A Circo Editorial, com Laerte, Angeli, Glauco, Fernando Gonzales e outros;

• Uma menção as antigas tiras de super-heróis;

• Algumas tiras que saem na internet atualmente;

Músicas
Next Girl – The Black keys
The Last Note Of Freedon – David Coverdale

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Tempo de Duração: 57:52

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Um breve panorama da Circo Editorial

Quero falar um pouco de um dos principais movimentos dos quadrinhos brasileiros e de uma das principais e mais originais editoras que já vimos surgir por aqui, a Circo, que deixou uma marca indelével na cultura brasileira e redefiniu o que todos conheciam sobre humor e crítica a sociedade em geral. O texto é um trecho da minha monografia que adaptei para ficar mais “agradável” de se ler, mas ainda assim está um pouco acâdemico, mas enfim, espero que curtam ou que ele desperte interesse por esse fabuloso momento dos quadrinhos nacionais.

O início da década de 80 é momento de extrema importância no mercado de quadrinhos nacional, pois vemos o surgimento de revistas em quadrinhos de autores brasileiros produzidas em larga escala, revistas que em geral eram coletâneas ou solos de autoria de alguns quadrinhistas “undeground”, alternativos que iniciaram sua produção na década anterior, como por exemplo, Luiz Gê (revista O Balão),  Marcatti, Edgar Vasquez (revista Rango) e o time que produzia O Pasquim (Jaguar, Ziraldo e Henfil) que vinham fazendo histórias do estilo, que aqui batizamos de udigrudi. Esses quadrinhos alternativos sempre existiram no Brasil, mas começam a tomar fôlego e competir com os estrangeiros na década de 70, pois surgem diversas pequenas editoras, principalmente em São Paulo, além de uma possibilidade de distribuição um pouco maior através do reembolso postal, que ajudava os autores a sobreviverem. Entretanto, os números ainda eram modestos, até que na década de 80 surgem editoras maiores dispostas a publicar esses quadrinhos de caráter contestatório, pois notam que o público jovem começa a buscar esse estilo de leitura, principalmente os adolescentes que formavam, o que podemos chamar de, uma cultura urbana nos grandes centros de nosso país. Estes eram sem dúvida um mercado consumidor de entretenimento, música, cinema e quadrinhos que de preferência fossem condizentes com sua realidade, muito diferente do mundo dos super-heróis americanos, do fantástico Disney ou do infantil Turma da Monica.

“Nos anos 80, há o “boom” das histórias em quadrinhos, algo que se verifica também em outros setores da indústria cultural. Podem-se observar os mesmos elementos em relação ao rock, quando o Brasil passa a ser incluído na rota dos megashows e com o surgimento do que se denominou rock nacional, um momento em que várias bandas, principamelnte do Rio, São Paulo e Brasília, vão se consolidar no mercado. Observa-se uma espécie de estabelecimento de uma cultura jovem urbana e a incorporação dessa parcela da população ao mercado de consumo.” (Silva, 2002. Pág 25)

Esses jovens buscavam a estética punk e da vanguarda paulista que ouviam em seus rádios, dos filmes produzidos pela Embrafilme, dos quadrinhos underground americanos encabeçados por Crumb e Gilbert Shelton, mas refletindo a realidade brasileira.

“…início da década de 1980 foi marcado por outras mudanças, principalmente no que tange ao comportamento e à cultura, especialmente em São Paulo, com o surgimento de uma produção cultural independente. Embora a capital paulista fosse um pólo de cultura importante e efervescente, que recebia e produzia espetáculos, shows e mostras, uma parte da intelectualidade e dos artistas da época procurou caminhos novos e outros tipos de recursos, à margem do Estado ou dos promotores tradicionais. (Santos, 2007. Pág 4)

Toninho Mendes

Toninho Mendes

Com isso alguns editores aproveitaram esse nicho de mercado e lançaram revistas que tiveram certa repercussão nacional com: Udigrudi, Porrada, Animal, Abutre, Tralha, Dun Dun e etc., Toninho Mendes percebendo que essa era uma demanda em potencial também decide investir em uma editora que publicasse revistas com temáticas de crítica ao cotidiano urbano das grandes cidades e é nesse contexto que surge em 26 de Abril de 1984  a Circo Editorial, que  atuou em nosso mercado por mais de dez anos e lançou diversas revistas  produzidas por grandes talentos como Laerte, Angeli, Glauco, Chico e Paulo Caruso, Luiz Gê, entre outros.

O ano de 1984 também seria lembrando pelo movimento de “Diretas Já”, que mostrava clara a possibilidade do termino do regime militar em nosso país para milhões de brasileiros que iam às manifestações pelo direito de eleger o presidente da republica e a democracia não apenas traria de volta as liberdades civis e políticas, como também o fim da inflação, o retorno do crescimento e a sonhada redistribuição de renda. O ambiente nacional era de esperança e confiança no futuro próximo.

Segundo Santos (2007, pág. 5):

Os rigores da censura haviam diminuído e a sociedade brasileira começava uma nova fase, marcada por instabilidades políticas e econômicas, mas com o regime democrático restaurado. Só nessas condições uma editora como a Circo seria concebível. O nascimento da Circo está diretamente relacionado ao movimento de abertura política. Os reflexos da situação política influenciaram a forma como os artistas passaram a utilizar o humor nas histórias em quadrinhos, que passaram a falar da sociedade e não dos gabinetes.”

A primeira revista lançada pela Circo foi a Série Traço e Riso, que obteve relativo sucesso logo em seus primeiros exemplares, o que incentivou Toninho a investir no lançamento de outra revista, a Chiclete com Banana, que obteve excelentes números de vendas, se tornou o carro chefe da editora  e teve a maior duração, sendo publicada de novembro de 1895 a novembro de 1990, além das reedições e títulos especiais.

Capitaneada por Angeli, a Chiclete com Banana chegou rompendo diversos paradigmas dos quadrinhos nacionais e graças a ela foi impulsionado um novo mercado e se abriu espaço para propostas de quadrinhos nacionais diferentes dos tradicionais importados.

Segundo Angeli (em entrevista para a revista Bravo!):

“…no primeiro número da Chiclete com Banana tiráramos 20 mil exemplares. “Nossa, é muito cara” vendemos os 20 mil. Ai o Toninho , no segundo número, aumentou para 40 mil, vendeu os 40 mil. Chegamos a 110 mil exemplares. A chiclete serviu como balão de ensaio para as outras editoras, tanto para as pequenas como para as grandes Abril, Globo…”

Com esse fenômeno de vendas foi possível investir em outros lançamentos como Geraldão (Glauco), Striptiras (Laerte), Níquel  Náusea (Fernando Gonsales) entre outras.

Segundo Silva (2002, pág.) o contexto do surgimento da Chiclete com Banana foi o seguinte:

Na década de 80 observou-se uma proliferação até então não vista no mercado nacional de produtos direcionadas para a juventude urbana. Isso ocorreu em relação ao rock, o rock nacional, assim como os quadrinhos. Nas HQs nota-se o surgimento de propostas de revistas explorando esse mercado e com características anárquicas, com conteúdos que lembravam as idéias de contracultura dos anos 60 ou a ideologia punk dos anos 70. Outro elemento importante nesse período foi a proliferação das tribos urbanos que, literalmente invadiram os grandes centros urbanos.”

Mas apesar do sucesso de público a editora Circo sofria do mal que atormentava as mais diversas empresas brasileiras naqueles anos, a inflação desenfreada, basta ver a confusão que ocorria com os preços nas capas das revistas, para pequenos editores que lançavam revistas bimestrais, o planejamento a partir de 1985 era absolutamente complicado e muitas vezes,  era impossível prever se seria possível o lançamento do próximo número. A Chiclete com Banana chegou as bancas em novembro de 1985 custando Cr$ 9.000 (Cruzeiro), no terceiro número já custava Cr$ 14.000 e o próximo (4) lançado em maio de 1986 já era marcado na nova moeda, Cz$ 14,00 (Cruzado), os preços de capa, mais incríveis são os seguintes números, os preços foram esses, número 12 (Novembro/87) Cz$ 45, núm. 13 (Março/88) Cz$ 140, num. 15 (Agosto/88) Cz$ 290 e número 16 (Novembro/88) Cz$ 550 (imagine você leitor de quadrinhos,  se sua revista preferida a cada dois meses mais que dobrasse de valor).

A insanidade dos preços e o caos econômico (só para ter uma idéia, durante a existência da Circo, o padrão monetário nacional mudou cinco vezes) faziam com que Toninho Mendes ficasse impossibilitado de planejar e viabilizar alguns novos lançamentos, isso cansou o principal autor da Chiclete com Banana, Angeli, que perguntado sobre isso, respondeu:

“Enfrentamos alguns planos econômicos, estávamos vendendo 60 mil antes do plano Collor. Depois o número seguinte vendeu 8 mil exemplares. E quem não tem uma receita de anunciantes quebra. Chiclete com Banana era um grande guarda chuva que, com dinheiro que entrava, abrigava a Circo do Luiz Gê, Geraldão do Glauco, Piratas do Tietê do Laerte, Niquel Nausea do Fernando Gonsales…mas me cansou.”

Depois do encerramento do principal título da casa, Toninho passou a reeditar todos os números da Chiclete com Banana e alguns especiais de personagens icônicos como, Rê Bordosa, Skrotinhos e Bob Cuspe. Segundo Santos:

“Além de problemas de gestão administrativa, o término da Circo Editorial foi ocasionado pelas oscilações da economia brasileira nas décadas de 1980 e 1990. Diversos planos econômicos agravaram a escalada da inflação e dificultaram a produção editorial de quadrinhos. Quando a editora recebia o pagamento da distribuidora, dois meses depois da publicação de uma revista, não conseguia arcar com os custos de produção do próximo número, o que obrigou a Circo Editorial a fechar no final de 1995.”

E foi assim que uma das mais importantes revistas em quadrinhos brasileira se acabou e a editora mais original e contestatória de nosso país fechou as portas, mas apesar do termino da editora alguns grandes autores revelados continuam até hoje produzindo e nos encantado com tiras e histórias fabulosas como por exemplo as vastas e geniais produções de Laerte e Angeli. Toninho Mendes continua sendo um excelente editor e vez ou outra edita alguns álbuns de seus antigos companheiros da Circo para  grande editoras como Devir e LP&M e atualmente está a frente da editora Peixe Grande, com a qual já lançou Quadrinhos Sacanas 1 e 2 e Maria Erótica de Gonçalo Junior.

Não percam tempo, leiam tudo o que conseguirem encontrar da Circo Editorial!!

E para saber muito mais sobre esse assunto procure os livros abaixo:

Bibliografia:

JUNIOR, Gonçalo – Introdução de Os broncos também amam, Angeli: São Paulo: L&PM.

LUYTEN, Sonia M. Bibe – O que é Histórias em Quadrinhos. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SILVA, Nadilson M. da. – Fantasias e cotidiano nas histórias em quadrinhos. São Paulo: Annablume, 2002.

SANTOS, Roberto E. dos – O quadrinho alternativo brasileiro nas décadas de 1980 e 1990: São Paulo, 2007, Disponível em:  http://repositorio.uscs.edu.br/bitstream/123456789/101/2/O%20quadrinho%20alternativo%20brasileiro.pdf Acessado em 16/01/2011

Revista Bravo! número 50 – maio de 2001