Quando não há mais lugar no inferno…os mortos vagarão pela terra!

Colaborador: Willian Blackwell (@blackwill)

Pessoal, já vou avisando que sou suspeito pra falar qualquer coisa sobre HQs e zumbis, pois sou aficcionado pelos dois temas – e posso ser considerado mais do que suspeito, praticamente culpado, sobre algo que junte estas duas coisas em uma só. Mas como estou aqui para escrever algo bem pessoal, descompromissado e fazer a minha primeira contribuição para o pessoal do Pipoca e Nanquim (que são amigos e parceiros de crime na vida cotidiana), não vou ficar me preocupando e tentarei escrever algo que reflita as minhas primeiras impressões sobre o seriado THE WALKING DEAD.

A expectativa que criei em torno da estréia do seriado era muito grande, pois adoro as HQs que deram origem a produção e as considero uma das melhores coisas que li desta nova safra do século XXI. As imagens que foram pipocando pela net, a escalação de elenco e a escolha do diretor Frank Darabont para a direção do episódio piloto, foram me deixando cada vez mais apreensivo e com o pensamento de que viria coisa boa por ai. E veio!


Capa do primeiro volume de Mortos Vivos da editora HQM

Só para esclarecer pro pessoal que ainda não sabe: o seriado THE WALKING DEAD, produzido pelo canal estadunidense AMC e exibido no Brasil pelo canal FOX, é baseado na HQ de mesmo nome, criada nos USA pelo roteirista Robert Kirkman (Zumbis Marvel, Invencivel) e pelo desenhista Tony Moore(Battle Pope). No Brasil foram lançados quatro encadernados da HQ pela editora HQM e nos Estados Unidos a publicação já está no seu décimo segundo encadernado lançados pela editora Image.

A trama é relativamente simples: conhecemos as histórias de um grupo de pessoas que escaparam com vida de um Apocalipse Zumbi. No centro de tudo isso, está o policial Ricky Grimes, que após acordar do coma num hospital e se deparar com este cenário desolado de morte e destruição sem saber o que realmente está acontecendo, sai em busca de sua esposa e filho. Apesar da aparente falta de originalidade na premissa, o enredo “esconde” aquilo que realmente faz das obras do gênero surpreendentes e de interesse coletivo: o fator humano!

Durante toda a trama nos é apresentado um ambiente hostil onde os mortos voltaram a vida por algum fator desconhecido. Além deste cenário existe também o universo dos sobreviventes, prosseguindo em situações limites, dependendo de decisões referentes à relações e objetivos particulares. Nessa corrida louca pela sobrevivência o ser humano é capaz de atitudes extremas, que em alguns momentos são de pura bondade, e em outros, de uma selvageria descabida. O verdadeiro horror vem exatamente deste sub-universo: ele acentua tudo o que está acontecendo ao redor dessa gente, que no final das contas só quer viver um pouco mais. Os bons filmes de zumbi nunca são sobre as criaturas em si, e sim sobre as pessoas que sobrevivem nessa situação caótica. A pergunta que sempre se faz é: quem são os verdadeiros mortos-vivos?

Outro autor que consegue trabalhar este “fator humano” em prol da história é o escritor Stephen King. Você pode se perguntar, “Por que ele está falando do Stephen King agora?” –  e a resposta é simples: Frank Darabont.

O francês dirigiu e adaptou três obras do escritor para o cinema (“Um Sonho de Liberdade”, “À Espera de um Milagre” e “O Nevoeiro”); além disso, ele roteirizou, adaptou e ajudou direta ou indiretamente em outras obras de Horror/Fantasia (Frankenstein de Mary Shelley, A Mosca 2, Contos da Cripta, Historias Insolitas e A Hora do Pesadelo 3: Os Guerreiros dos Sonhos). O fato de ter trabalhado com adaptações de sucesso e possuir uma consideravel experiência no gênero, certamente foi decisivo na sua convocação para dirigir o primeiro episodio da série, acrescentando inclusive um ritmo cinematográfico a produção. Para dar mais recheio a este bolo (de carne, logicamente!) o experiente Greg Nicotero foi chamado para supervisionar os efeitos de maquiagem das criaturas.

A escolha de elenco e produção já deixava claro todo o carinho especial que a série estava recebendo. Ressalto aqui a qualidade com que o canal AMC vem cuidando de suas produções originais – para mim, as melhores do momento. Outros exemplos? Breaking Bad e Mad Men. Recomendo!

THE WALKING DEAD teve sua primeira exibição nos USA no dia 31 de Outubro (Halloween) e aqui no Brasil no dia 2 de Novembro (Finados). Vale uma observação: o episodio exibido aqui pelo canal FOX foi “mutilado”, tendo seu tempo de duração diminuído para cerca de 54 minutos, enquanto nos Estados Unidos, correspondeu a 66 minutos. Outros pontos negativos foram a baixa qualidade de vídeo e legendas: isso só prova que não adianta querer apressar a exibição de séries para evitar possíveis downloads, se isso não for feito com qualidade.

A fidelidade na adaptação salta ao olhos de quem conhece a HQ, mas conhecer a obra original não é de maneira alguma fator necessário para se acompanhar o seriado. O uso de cores na versão televisiva difere da estética dos quadrinhos, que é todo em preto e branco, mas os recursos utilizados na série para criar a atmosfera narrativa são excelentes, compensando e qualificando as diferenças de mídia. A angustiante sequência do hospital, em que acompanhamos o primeiro contato do personagem com toda a nova situação é um bom exemplo disso. O uso das flores secas e do relógio parado para mostrar a passagem do tempo, a escuridão ameaçadora das escadarias e o clarão ao abrir a porta de saida, que cega inclusive quem está assistindo, para depois revelar que a situação externa também não está nada favorável, são recursos muito eficientes. Outro bom momento é quando Grimes faz uso de um cavalo para prosseguir viagem. A chegada do policial cavalgando me trouxe de imediato a imagem de um cowboy chegando a uma cidade fantasma.

O primeiro episódio apresenta o universo que irá perdurar por todo o desenrolar da série, e faz isso de uma maneira natural, sem pressa e muito bem narrada. Impossível não se emocionar com a situação do personagem Morgan Jones (Lennie James), que além de cuidar do filho Duane, tenta “resolver” o problema de sua esposa ter sido infectada e transformada em zumbi. Descobrimos também que Carl(Chandler Riggs) e Lori Grimes(Sarah Wayne Callies), filho e esposa de Ricky(Andrew Lincoln), estão vivos em um acampamento nos arredores de Atlanta, mas sentimos também que as coisas mudaram um pouco em relação a um outro sobrevivente,Shane(Jon Bernthal), melhor amigo e parceiro de Grimes. Neste caldeirão que tudo vai se construindo e quanto mais os dramas pessoais são explorados, mais cada personagem vai ganhando profundidade.

Pequenos detalhes e referências, todo o cuidado técnico e a permanente sombra dos clássicos de Romero (Noite dos Mortos Vivos, Despertar dos Mortos, etc) são o que abrilhantam THE WALKING DEAD. Tanto na série como na HQ, os envolvidos são fãs declarados do gênero: tudo que as envolve é, portanto, feito de maneira sincera.

THE WALKING DEAD chegou para ficar e consolidar de vez a figura do zumbi no hall da cultura pop. No prefácio do primeiro encadernado lançado no Brasil (Dias Passados), Kirkman descreve toda a sua paixão pelo gênero e em determinado momento diz: “Pra mim, a pior parte de todo filme de zumbi é o final. Sempre quero saber o que aconteceu depois. Mesmo quando todos os personagens morrem no final….Eu só quero que continue”. Foi o que senti quando o primeiro episodio terminou: como um zumbi faminto por carne e sangue fresco, eu queria mais e mais! Que possamos ver muitas tripas e vísceras pela frente! Vida longa aos mortos vivos!

THE WALKING DEAD é exibido no Brasil pelo canal Fox, as Terças, 22h.

Se você curti Zumbis, não deixe de conferir nosso programa especial sobre essas terríveis criaturas: