Thor – Crítica 2

Thor é um filme que podia dar muito errado, muito mesmo, suas histórias nas HQs já deram errado em diversas ocasiões, eu sempre achei que um dos super-heróis da Marvel que mais daria trabalho e que tinha a maior chance de ficar uma tremenda porcaria em uma adaptação para os cinemas era ele. Estamos falando de um Deus nórdico, que controla trovões com um baita martelão, vem pra Terra através de uma ponte de arco-íris, se veste de maneira muito espalhafatosa e com botas de tigresa.

Quando anunciaram a produção desse filme, pensei, “Putz, vai dar merda!”, com o tempo as notícias foram saindo, nome do diretor, elenco e minha mente passou a dizer “Opa, isso está legal!” ai vieram as fotos dos bastidores, visual dos personagens “Caramba, está ficando muito maneiro!” depois vieram a enxurrada de novas participações, os teasers e finalmente trailers. “Esse filme vai ser foda demais” Pronto minha concepção sobre essa adaptação mudara completamente e minha expectativa estava alta, mas sou pessimista nato e não posso negar que tive um pé atrás até ontem as 23:00 quando acabou a projeção.

Thor é um filmaço!

Não vou dizer que superou minhas expectativas, mas não frustrou, de maneira alguma. Obra-prima do cinema? De jeito nenhum, até agora nenhuma adaptação de quadrinhos foi.

A melhor coisa que aconteceu a essa adaptação foi cair nas mãos de Kenneth Branagh, um excelente diretor de alma Shakespeariana e responsável por adaptar obras do maior escritor de todos os tempos com a dignidade que ela merecia, assista “Henrique V” (1989), “Muito barulho por nada” (1993) e “Hamlet” (1996) e veja por si só o que estou falando.

Então a saga dos deuses nórdicos repleta de traição, disputa pelo trono e reviravoltas não podia estar em melhores mãos.

Mas apesar dessa erudição Kenneth Branagh também é, vamos dizer assim, pop. Atuou em Harry Potter e a Câmara Secreta (2002) e é fã declarado de quadrinhos, tanto é que não hesitou em aceitar o convite para trazer as telas o herói dos seus ídolos Stan Lee e Jack Kirby.

Chris Hemsworth e o diretor Kenneth Branagh

Branagh dirigiu o filme com muito apuro, conseguiu deixa-lo ágil, vigoroso, épico e emocionante sem ser piegas. A cenas de batalhas são sensacionais, a invasão de Jotunheim (Reino dos Gigantes de Gelo) pela trupe, Thor, Loki, Sif e os três guerreiros Fandral, Hogun e Volstagg para tirarem satisfação com o rei de gelo, Laufey é de tirar o fôlego. Branagh não possui aqueles vícios de câmera tremendo (só o necessário), cortes rapidíssimos ou câmera lenta em demasia (Zack Snyder Mode), são lutas plausíveis e compreensíveis aos olhos, sem perder a empolgação.

Os três guerreiros: Hogun, Fandral e Volstagg. Só faltou a participação do Balder!

A luta de Thor contra o Destruidor na metade do filme também é muito empolgante, bem rápida, mas isso não me incomodou, serviu pra mostrar o quanto Thor é poderoso.

Além disso tudo, Kenneth Branagh conduz a atuação do elenco com maestria, tanto é que, não há muitas ressalvas quanto a isso, exceto a apática e quase nula participação da atriz Rene Russo (Máquina Mortífera 4, Thomas Crown) como Frigga, mãe adotiva de Thor, ou o certo exagero na comicidade da personagem Darcy (Kat Dennings) que só funciona nos primeiros vinte minutos, depois enche o saco, tanto é que praticamente desencanam dela na segunda metade do filme. Stellan Skarsgård (Dogville) como Erik Selving também não mostra toda sua capacidade de atuação, mesmo por que o roteiro não deu muita brecha e pouco focou em sua personagem.

Quanto às atuações principais digo o seguinte, Chris Hemsworth é o Thor, Tom Hiddleston é o Loki e Anthony Hopkins é o Odin. Isso mesmo, eles SÃO esses personagens, talhados perfeitamente para esses papéis.

A Marvel já tinha achado seu Tony Stark, Robert Downey Jr. sem dúvida foi a escolha mais acertada possível para viver o Homem de Ferro e agora Chris Hemsworth é definitivamente o Thor. Vamos torcer para que Chris Evans seja o Steve Rogers e Mark Rufallo encarne o Bruce Banner como ele merece, coisa que até agora não aconteceu.

O que não falta em Thor são boas atuações, Natalie Portman, está ótima no papel de Jane Foster (ou alguém ai esperava o contrário da melhor atriz dessa geração?), Idris Elba encarna Heimdall, o protetor da ponte do Arco-ìris com toda a dignidade merecida ao personagem, Colm Feore dá a imponência necessária ao rei dos gigantes de gelo. Clark Gregg está ainda mais a vontade no papel do Agente Coulson e Jaimie Alexander interpretando a guerreira Sif está sensacional, entrou fácil para o ranking das melhores guerreiras de todos os tempos, por mim sairia um filme solo da Sif rs.

Jaimie Alexander deslumbrante como Sif

Outra coisa muito legal do filme é mostrar o super-herói logo nos primeiros minutos de projeção. Em Batman Begins, Homem de Ferro 1, Homem-Aranha 1, metade da película foi utilizada (necessário, claro!) para mostrar o surgimento do heróis, aqui não, Thor surge trajado e foderoso logo após os créditos e isso cria uma dinâmica totalmente diferente daqueles filmes, isso sem perder o didatismo de apresentar aos espectadores o Deus do Trovão.

O ótimo roteiro não deixa nada sem resposta, exceto algumas brechas para o futuro desenvolvimento de alguns personagens no vindouro Thor 2 e Os Vingadores. Também é muito bem dosado, ação quando necessário, drama, romance e momentos de bom humor condizentes com a narrativa do filme, que conseguem tirar risos da platéia –  destaque para cena da entrada dos Três Guerreiros e Sif em Novo México.

Inclusive, é logo após essa cena que o filme tem um dos momentos que mais me desagradou, quando o Destruidor está se aproximando da cidade soltando fogo pelas ventas, literalmente, e Thor junto com a equipe de Jane Foster saem alertando e socorrendo a população desavisada, colocando o pessoal em caminhonetes e tal. Um tanto quanto piegas e forçado.

Muitos irão reclamar da velocidade em que os eventos foram apresentados e que o roteiro deu uma forçada de barra nas relações entre as personagens, principalmente o romance entre Thor e Jane Foster, que, inclusive é muito plausível, dada a situação em que se encontravam os dois. Como minha namorada comentou após o termino do filme “Também quem não ia se encantar por um Deus desse?” e eu respondi “E quem não se apaixona pela Natalie Portman?” rs…acho exagero criticar esse aspecto. Claro, o filme seria muito melhor se tivesse meia hora, até uma hora a mais de duração, para mostrar com mais detalhe algumas situações. Mas, apesar de alguns momentos em que os eventos parecem acelerados para caber tudo ali naquelas duas horas, está tudo muito bem amarrado, como disse antes, sem furos. É até impressionante a capacidade de amarrarem tão bem as histórias envolvendo os três distintos mundos.

Vi o filme em 2D mesmo, acredito não ter perdido muita coisa, só estou com vontade de ver em 3D para poder apreciar mais atentamente a magistral Asgard. A cena em que somos apresentado ao lar dos deuses é acachapante, ela surge imponente e gloriosa, Jack Kirby certamente iria se orgulhar, com toda certeza. Aliás, todos os aspectos visuais dos filmes estão sensacionais, da indumentária das personagens, passando pela ponte do arco-íris (a solução para sua representação ficou excelente) até a gélida paisagem de Jotunheim, tudo muito bonito, limpo e crível.

As duas melhores representações de Asgard, no traço do Jack Kirby e a do filme.

Thor é filme com muitos acertos, talvez não empolgue tanto quanto Homem de Ferro 1 e 2, que foram verdadeiros espetáculos, praticamente um show de rock e  Robert Downey Jr., principal alicerce dos dois filmes, é um showman na concepção da palavra. Thor não se concentra em um pilar como esse, mas se mantém em pé e no topo por uma conjunção de excelentes elementos.

Funciona redondo para o público que não sabe nada sobre as histórias em quadrinhos e para os fãs mais ardorosos, pois, além disso tudo que escrevi acima,  está repleto de referências ao universo Marvel, dá um grande passo na preparação do terreno para o filme do supergrupo, Os Vingadores, e apresenta um lado que até então estava fora da equação Marvel nos cinemas, a magia e novos mundos.

Ainda está lendo?! Vai assistir o filme rapá!