Lendas: o que eles fazem com elas…

Colaborador: Marcelo Almeida

Tudo tem um começo, aí vai o meu…

Faz tempo que eu comecei a ler gibi. Não vou saber precisar a data correta. Antes de aprender a ler eu comprava gibi pra ficar vendo os desenhos. Batman foi meu primeiro quadrinho. Não me lembro realmente da edição. Eu era muito pequeno. Mas lembro-me da inesquecível capa azul.
O fato é que os gibis desempenham um papel gigantesco na minha vida. Tenho certeza absoluta que o mesmo ocorre na sua, do contrário você não estaria lendo estas mal batucadas palavras.
Por amar tanto gibis, cá estou escrevendo.

Qual a razão deste amor?

Boa pergunta. Não sei te responder.

Certamente tem a ver com os super-heróis e tudo aquilo que eles representam de maneira simbólica na vida de um pequeno garoto do interior do país. Aquele conceito de ideais, sacou?
Muito mais que ideais, os super-heróis representam anseios. Um coletivo de sonhos e desejos dos seres humanos “comuns” em momentos difíceis da vida. Quando a gente é moleque não sabe nada disso, mas de alguma forma sente. E sentir é uma das coisas que move o ser humano. Só quem sente algo mais pode entender o que representa uma lenda. E é sobre elas que eu vou falar.

Após o final da clássica saga Crise nas Infinitas Terras em 1985, a DC comics decidiu reiniciar todo o seu universo super-heroístico.

Zerou toda a cronologia. Convidou os três maiores artistas de então para direcionar e “reinventar” as origens dos três maiores ícones da editora: Superman (que ficou a cargo de John Byrne), Batman (sob a tutela de Frank Miller e David Mazzuchelli) e Mulher-Maravilha (nas mãos de George Perez).

O mesmo foi feito com personagens de menor expressão que – obviamente – ficaram sob responsabilidade de artistas nem tão famosos assim.

Mas faltava algo…

E a Liga da Justiça?

Não seria nada fácil lidar com uma nova origem do supergrupo mais famoso da DC. E ainda tinha o fato de que o mesmo contava em sua origem verdadeira (lá nos anos 60) com a presença de Superman, Batman e Mulher Maravilha.

A saída foi criar uma minissérie que – supostamente – poderia ajudar numa solução plausível para inserir o grupo neste “novo” universo DC.

Para isso, a DC convidou o argumentista John Ostrander e Len Wein no roteiro e trouxe para desenhos ninguém menos que o talentosíssimo John Byrne. A arte-final era do Karl Kesel.

Lendas era isso: uma série destinada a vender tão bem quanto Crise e também servir de tapa-buracos.

Talvez a minissérie já tivesse sido esquecida em um canto por aí não fosse a arte do excelente Byrne e uma grande sacada do roteirista John Ostrander.

O que Ostrander fez?

Bem, eis que o roteirista reviveu um dos mais trágicos momentos das histórias em quadrinhos no mundo. Calma, já explico.

Nos anos 50, os EUA haviam vencido a Segunda Guerra Mundial há pouco. Eram a maior potência do planeta. O American Way of Life era disseminado pelos quatro cantos do globo. Para rivalizar com a superpotência capitalista, claro, existia um contraponto: o comunismo da União Soviética.

Isso nada influenciaria nos quadrinhos se, neste período nos EUA (anos 50), não surgisse um picareta de marca maior chamado Joseph McCarthy, um senador republicano que ficou famoso por promover a famosa “caça as bruxas”. Para McCarthy tudo que “ferisse” a moral e os bons costumes deveria ser coisa do diabo ou vinda da União Soviética. Aquelas paranóias reacionárias que a gente conhece tão bem.

Coincidentemente, no mesmo período de paranóia, começava a despontar nos EUA, um psiquiatra chamado Fredric Wertham. Este afável doutor escrevera um livro intitulado Seduction of Innocent. O livro tentava justificar de maneira imbecil – claro – porque os quadrinhos deixavam danos irreparáveis para a moral e os bons costumes e conduta das crianças leitoras (lembre-se: nesta época, não existiam quadrinhos voltados diretamente para adultos).

O resultado é fácil de prever: perseguição aos quadrinhos. Queima de HQs (e pensar que os americanos condenavam os nazistas por algo similar), censura prévia e outras barbaridades mais.

Os maiores prejudicados foram os quadrinhos de terror que culminaram com a queda da EC Comics. Mas os quadrinhos de super heróis também sofreram horrores nas mãos destes nobres idiotas. Foi criado um Código que vigora até hoje, chamado Comics Code Authority.

Mas você deve estar se perguntando: que raios isso tem a ver com Lendas?

Bem, se você ler e analisar com maior cuidado, irá notar que o roteiro da minissérie retrata isso de maneira simbólica.

O vilão da história é Darkseid. O plano para atacar os heróis terrestres era simples e genial: desconstruir as lendas.

Eis que então, Darkseid envia a Terra um deus lacaios, o Glorioso Godfrey. Este se disfarça de G. Gordon Godfrey e começa a questionar o papel das lendas (os super-heróis) na vida dos humanos. Para isso arma uma “cruzada” moral contra os super-poderosos e os difama de várias maneiras possíveis (aquela papagaiada toda dos moralistas que a gente já conhece). Quase toda a população passa a apoiar Godfrey e se revolta com os super-seres (excetuando-se as crianças). Temendo confusões maiores, o presidente americano Ronald Reagan proíbe a atividade dos super-heróis nas ruas.

A história se divide em algumas subtramas de personagens como Superman (os papos com Reagan), Capitão Marvel (a morte de Macro-Man), Cósmico, Flash, Besouro Azul, Canário Negro, Ajax, o Marciano, e o interessante Esquadrão Suicida, entre outros.

Foi resultante desta minissérie que se originou a Liga da Justiça engraçadinha de Keith Giffen e J.M. DeMatteis.

Todas essas histórias paralelas são mais facilmente entendidas quando a gente pode ler os crossovers das revistas da época.

Vinte e três anos se passaram. Pude reler Lendas outro dia. Bem legal.  Tenho a versão da Abril (que eles picotaram, diga-se) em seis edições. Comprei o encadernado da Panini. A capa é uma das mais lindas que já vi na vida. Perfeita.

O roteiro é bastante interessante. Em alguns momentos, podemos notar que envelheceu com o tempo pelo artifício de “relembrar” o que ocorrera no capítulo anterior.

Sobre a arte…

Sou suspeito pra falar do trabalho de John Byrne pelo fato dele ser um dos meus artistas favoritos em todos os tempos. Traço limpo, narrativa perfeita. Tensão dramática, excelentes poses de lutas.

O lápis de Byrne é ainda mais valorizado pela arte-final de Karl Kesel.

Ao final, podemos chegar a algumas conclusões…

As lendas persistem e vão continuar existindo, mas fiquemos atentos…

A fogueira da ignorância nos ronda.

Fredric Wertham, Darkseid e G. Gordon Godfrey foram inimigos terríveis para os super-heróis, entretanto é bom tomar cuidado com outros inimigos, muito mais sutis e perigosos: os editores, roteiristas e desenhistas sem talento que teimam em estragar nossos personagens favoritos com histórias idiotas e soluções preguiçosas.

Gente que não tem respeito aos fatos históricos dos personagens.

Gente que não dá a mínima para os ideais que existem por trás destes verdadeiros símbolos.

Gente que só pensa em dinheiro e fama fácil.

Gente oportunista.

Gente que NUNCA vai saber o significado REAL da palavra Lenda.

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Marcelo Almeida é redator publicitário, apaixonado por HQs e músicas. Editor do blog Barulho Digital e da Casa do Rabisco, no qual expõe algumas de suas ilustrações.