Lúcifer: A Opção Estrela da Manhã (2ª parte) – Se não leu, leia!

Dando sequência ao review de Lúcifer: Opção Estrela da Manhã, vemos na cena de abertura da segunda edição Bradiach exaurido, ao que parece graças à sua maldição de “ver” várias imagens de acontecimentos aleatórios. Aparentemente tudo parece resultante dos desejos atendidos pela Veleidade, e com consequências nem sempre satisfatórias. Bradiach vê também Lucifer caminhando em direção ao Nono Círculo do Inferno. Na Divina Comédia de Dante Alighieri, esse lugar é o Lago Cocite, local das lamentações que fica no centro da Terra, formado pelas lágrimas e sangue dos condenados. No Cocite estão imersos todos os traidores, representados pela figura de Lúcifer, o traidor de Deus. Nesse lago, os traidores são distribuídos em quatro esferas diferentes, dependendo da gravidade da traição.

Lúcifer encontra Remiel, um dos dois anjos incumbidos de guardar o Inferno após o abandono de Lucifer. Percebemos a sagacidade de ex-dirigente do Inferno, que com sarcasmo e arrogância, passa facilmente por Remiel, “porquinho, porquinho, me deixe entrar”, diz. Durante a saga Entes Queridos em Sandman, Remiel havia pedido a Lúcifer para reconsiderar e voltar para o Inferno.

Lúcifer encontra também Duma, o Anjo do Silêncio, o outro responsavel pelo Inferno, curiosamente um dos poucos anjos cujo nome não termina na sílaba “el”. A saudação de Lúcifer é uma citaçao do poema “O Jardim” de Andrew Marvell, uma obra que exalta a Natureza idealizada em contraste com o estado decadente das coisas sob influência do Homem. Essa passagem é também uma referência direta ao poeta Virgilio, nas Bucólicas, onde “ninguém mais juncará o solo com ervas floridas, ou cobrirá as fontes com verdes sombras?”. O poema de Marvell é uma espécie de retorno ao Éden, o mundo idealizado, que leva a imaginar um Deus Jardineiro tendo Adão (Homem) como seu ajudante, incumbido de cuidar do Jardim, e que depois seria expulso por desobediência ao Criador e por não cuidar do jardim.

Vemos aqui transparecer o quão parece ser pesado o fardo para Lúcifer ao admitir a Duma que ele, Lúcifer, está ali a serviço do Senhor. No entanto, Lúcifer sabe que precisará da orientação de Duma para encontrar as Veleidades, que estão escondidas quatro níveis abaixo. Descobrimos que as Veleidades tem origem no início dos tempos, quando ainda imperava o silêncio no mundo dos Homens, quando ainda viviam em cavernas, e não possuíam voz para se expressarem, apenas pensamentos. Época em que os pequenos deuses silenciosos foram criados a partir dos desejos mudos de seus adoradores.  Diferente de Remiel, Lúcifer aparenta ter certo grau de respeito com Duma, tanto que o agradece ao saber qual direção deve tomar. Os quatro níveis mencionados, certamente se referem à Criação e não ao Inferno.

Lúcifer volta a Bradiach, conversa de um telefone público com Pharamond Farrell, uma deidade vista pela ultima vez em Sandman: Vidas Breves. Ao que parece a busca de Lúcifer deve ser feita em forma de peregrinação, tanto que ele irá andar a pé, usar avião e automóvel como meio de transporte. O confronto com Mahu se dá de forma rápida e eficiente. Nesse ponto novamente vemos como o poder da luz de Lúcifer é usado para derrotar os dois Lilim, que “não são truques, mas pura magia simpática”, diz o personagem. Descobrimos a utilidade da pena retirada da ave – finalmente asas – e também que Mahu raptou Rachel para servir de barganha com Lúcifer.

De volta ao piano bar, vemos Mazikeen trabalhando silenciosamente, e logo em seguida ser possuída por algum tipo de entidade. Embora não seja claro, parece que se trata da Veleidade, que aprisiona Lúcifer juntamente com Rachel em uma armadilha de realidade através do reflexo no olho de Mazikeen.

Bradiach debate com Mahu que “o céu está rompido, e o inferno é um gesto vazio, quando mundo e o desejo se tornarem um, não haverá necessidade de um lugar separado chamado Inferno”. As implicações desse comentário seriam os apontamentos que atos demais desastrosos para o equilíbrio universal estão em andamento, e por isso a intervenção dos Céus se fez necessária, pois conhecendo a natureza humana, o Inferno estaria instalado na própria Terra, por conta do caos gerado graças ao desenfreado desejo humano. A referência certamente seria pela ausência de Lúcifer no Inferno, que agora está sob a administração dos Céus, através de Remiel e Dumas. Lúcifer que fora uma vez expulso dos Céus, caminha livremente entre os Homens para cumprir um trabalho para o Criador, em troca de uma carta de passagem.

No encontro de Lúcifer com Farrell descobrimos que o poder da Veleidade atingiu também seus negócios. O pedido de Lúcifer de não ser mais chamado de Lorde tem relação com sua abdicação na regência do Inferno. Rachel à primeira vista não acredita na identidade de Lúcifer, e demonstra certa ingenuidade ao pensar que Lúcifer teria levado a alma de seu irmão Paul ou que ela teria que jogar algum tipo de jogo com Lúcifer para ter Paul de volta.

Percebemos que a travessia de Lúcifer para o primeiro nível deve ser sob a forma de peregrinação, e que pagamentos devem ser feitos e caminhos devem ser encontrados. O aes grave, mencionado nesta estória, era usado como moeda de pagamento na Itália Central nos séculos quarto e quinto antes de Cristo. A ascendência navajo de Rachel também será parte da peregrinação, e a passagem deve ser encontrada em terras navajos. O monte Tsoodzil, é o nome atual do Monte Taylor, localizado no noroeste do Novo México, também conhecido pelos Navajos como Montanha Sagrada do Sul ou Montanha Turquesa, local sagrado como o berço ancestral dos Navajos, o Dinétah, que na mitologia navajo é a área onde está centrado o mito da Criação Navajo. Os clãs da Pena (‘Ats’oos dine’e) e dos Hogan (Hooghan lani) são alguns dos clãs navajos, e pelo comentário de Lúcifer de que Rachel não é um dos Dineh, significa que ela não era navajo legítima, ou seja, Rachel é mestiça. O comentário de Lúcifer de que está “indo matar alguns deuses” certamente é o prenúncio do conflito com os Deuses Silenciosos.

Na próxima edição veremos como se dará o conflito entre Lúcifer e a Veleidade, onde algumas respostas serão dadas, e mais perguntas surgirão no capítulo final dessa magnífica saga destilada com várias referências sobre a Criação dos Mundos.

Leia mais sobre essa obra: Parte 1 e Parte 3.

Videocast 109 – Motoqueiro Fantasma

Olá a todos,

Sejam bem-vindos a mais um videocast do Pipoca e Nanquim.

Hoje temos um anúncio espetacular a todos. Quer dizer, se você escuta nossos podcasts, já sabe, do contrário, saiba que está mais que confirmadíssimo e já em fase de diagramação o SEGUNDO VOLUME DE QUADRINHOS NO CINEMA!!!

É isso aí galera e, desta vez, você saberá tudo sobre Batman, Homem-Aranha, Vingadores, Juiz Dredd e Motoqueiro Fantasma – que, aliás, é o tema deste nosso programa.

Um personagem legal prá caramba, porém subaproveitado nos quadrinhos e, infelizmente, no cinema. Mas quem sabe a gente convença você a ler algumas coisas legais como Estrada Para a Danação (recentemente compilado pela Panini) ou a maravilhosa Trilha das Lágrimas, que saiu em Marvel Max.

Neste programa, além de tudo, anunciamos um mega sorteio do jogo de tabuleiro Age of Conan, cortesia do blog parceiro Strategos! Bora participar!

E até a semana que vem. Um abraço!

ATENÇÃO: Devido a mudanças estruturais, o bloco de leituras de e-mails ficará temporariamente ausente, mas volta em breve! Não deixem de escrever pra gente, enquanto isso vamos respondendo tudo, como sempre, com muito carinho, rsrs!

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COMENTADO NESSE VIDEOCAST

– Sites parceiros do videocast: Filmes com LegendaSoc! Tum! Pow!Área 171Mob GroundSom Extremo.
– Camisetas com estampas nerds: Gola Branca
Sorteio do jogo de tabuleiro Age of Conan, em parceria com o site Strategos.
– Site da Comix.
Motoqueiro Fantasma: Espírito da Vingança – Crítica
Podcast 61 – Motoqueiro Fantasma, contando um pouco da história do personagem e seus criadores.
– Novo feed do podcast Pipoca e Nanquim: http://feeds.feedburner.com/pipocaenanquimpodcast

QUADRINHOS INDICADOS

X-Men 2099 (Abril)
Universo Marvel #25-52 – 1° Fase (Panini)
Universo Marvel Anual #03 (Panini)
Universo Marvel Anual #04 – Motoqueiros Fantasmas: Céus em Chamas (Panini)
Motoqueiro Fantasma – Estrada Para a Danação (Panini)
Marvel Max #56-61 – Cavaleiro Fantasma: Trilha das Lágrimas (Panini)
Capitão América e Motoqueiro Fantasma – Medo (Abril)
Motoqueiro Fantasma, Wolverine e Justiceiro – Corações Negros (Abril)
Marvel+Aventura #06 – Motoqueiro Fantasma (Panini)
Marvel Terror #02 – Motoqueiro Fantasma: Danny Ketch (Panini)

109 – Motoqueiro Fantasma por pipocaenanquim no Videolog.tv.

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Lucifer: A Opção Estrela da Manhã (1ª Parte) – Se Não Leu, Leia!

No final dos anos 80, Sandman havia se tornado uma série em quadrinhos cult antes mesmo de chegar ao seu final. Não por acaso, Lúcifer, um dos mais complexos personagens já criados por Gaiman estava presente nas primeiras edições, e depois com mais destaque na saga “Estação das Brumas”.

Quando Sandman chegou ao fim, alguns escritores perguntaram a Gaiman qual dos personagens spin-off da saga do Rei dos Sonhos teria chances de ganhar uma série contínua e quando ele sugeriu que Lúcifer seria uma ótima opção, muitos se sentiram desconfortáveis. Afinal, mesmo com a benção de Gaiman e a simpatia dos fãs, ainda havia as questões religiosas e a óbvia resposta em vendas. Há rumores até de que Gaiman teria sugerido aos desenhistas que retratassem Lúcifer como David Bowie.

A interpretação de Lúcifer por Neil Gaiman é intencionalmente moderna, e vai além das raízes bíblicas do Anjo Caído e do Diabo das religiões abraânicas, bebendo um pouco na interpretação do Primeiro entre os Caídos, da obra Paraíso Perdido de John Milton.

Em “Estação das Brumas”, Lúcifer cansado de reger o Inferno por tantos bilhões de anos e enfadado de ser tratado pelos mortais como um mero barganhador de almas, decide abdicar de sua posição no Inferno, expulsa todos os demônios do local, tranca os portões e entrega as chaves. Segundo Morpheus, Lúcifer é “o melhor fruto do Criador – o anjo Samael, chamado de Lúcifer. Significa “aquele que traz a luz.” De todos os anjos ele era o mais sábio, o mais lindo, o mais poderoso. Com exceção apenas de seu Criador, ele é, talvez, o mais poderoso dos seres”. Depois de deixar o Inferno, Lúcifer resolve abrir um piano bar no mundo dos mortais.

E assim, anos mais tarde, em 1999, Lúcifer ganha uma minissérie com estórias solo: A Opção Estrela da Manhã. A minissérie, com textos de Mike Carey e ótimos desenhos de Scott Hampton, parte da premissa de que os Céus descobrem que uma estranha força de grande poder está agindo livremente entre os homens, e decidem intervir indiretamente. Nesse caso, pelo preço certo Lúcifer passa ser a melhor opção para fazer o serviço sujo.

A minissérie abre com um diálogo que, saberemos mais tarde, se passa entre Lúcifer e a personagem Rachel Begai, relacionado a dois dos principais temas da série, a Luz e a Criação: “primeiro havia a escuridão. Então houve a luz”, uma referência ao Livro de Gêneses na criação do mundo. Novamente veremos o tema da luz quando na consulta do irmão de Rachel, “A luz não vai te machucar”. Essas referências são importantes, pois levam a uma das várias denominações de Lúcifer, que vem do latim Lux fero ou Lucen ferre, o Portador da Luz. As alusões são óbvias, porém necessárias, pois Lúcifer sempre esteve no limítrofe entre a Luz e a Escuridão. Nascido como Portador da Luz, ele caiu às Trevas quando ocorreu a Rebelião nos Céus, ascendendo à Luz novamente ao abdicar do Inferno. Agora ele se vê diante de um conflito entre os dois extremos, devendo inevitavelmente descer aos Portões Sombrios para fazer um trabalho sujo para o Reino da Luz. Por mais que Lúcifer use seu livre arbítrio para permanecer neutro e longe das Trevas, não escapa de estar sempre à beira do abismo da Escuridão.

Sabemos então que o irmão de Rachel sofre da Síndrome de Rett, uma anomalia que causa desordens de ordem neurológicas, quase que exclusivamente em crianças do sexo feminino. Os meninos normalmente não resistem e morrem, sendo o autismo um dos tipos mais graves dessa anomalia. O fato de Paul portar a doença e ainda estar vivo, já é um pequeno milagre, pois como diz o doutor, “eles não… progridem muito”, sendo progressão no sentido de estimativa de vida, e não de melhoria do quadro de saúde, termo que parece ser mal interpretado pelo pai de Paul.

É através de Rachel temos nossa primeira percepção de que algo estranho acontece no mundo: uma mulher segura uma rosa em uma das mãos e na outra algo que parece ser uma folha de papel, provavelmente uma carta, repetindo várias vezes sobre a descoberta de que alguém a ama; vemos também um homem, provavelmente um morador de rua, afirmando ter encontrado um pacote com muito dinheiro. No noticiário local, os informes dizem que um homem teria desfeito de seu chefe depois de ter ganhado na loteria, e descoberto horas depois que mais 800 pessoas teriam jogado o mesmo número de aposta, tornando o prêmio irrisório.

Na foto pendurada no retrovisor interno do carro, uma foto de família, possivelmente com a mãe de Rachel, embora não saibamos se falecida ou não. Suponho que ela tenha abandonado o lar, como veremos mais à frente quando o pai de Paul se refere a ela, e posteriormente Lucifer, ao falar da ascendência de Rachel, usando sempre a fala no tempo presente.

O piano bar de Lúcifer está situado em Los Angeles, a Cidade dos Anjos, localização muito apropriada pelo nome em si, e não por acaso batizado de Lux. Quando Lúcifer é informado de que alguém o espera, demonstra ter habilidades de onisciência, pois sabe que o cliente é Amenadiel, mesmo sem vê-lo, um dos anjos Tronos. Vemos então um cinzeiro com a inscrição, “HOC OPUS HIC LABOR EST”, que vem ipsis litteris da obra Eneida de Virgílio em latim, que trata da descida de Eneias ao Inferno: “Troiano, gerado de sangue divino, filho de Anquises, fácil é a descida ao Averno: noite e dia a porta do átrio de Dite está aberta, mas retornar a marcha e subir rumo às brisas do alto, ESTE É O TRABALHO, ESTA A DIFICULDADE. Com essa citação talvez Lúcifer esteja admitindo que permanecer longe do Inferno seja a parte mais difícil de sua existência, já antevendo o caminho que tenha que trilhar.

Conhecemos também Mazikeen, umas filhas de Lilith, que serviu a Lúcifer durante a saga “Estação das Brumas”, e que decidiu ficar ao lado dele como consorte quando Lucifer abandonou o Inferno. Lúcifer pede a Mazikeen que traga como bebida dois copos da garrafa especial da esquerda, talvez uma referência ao Caminho da Mão Esquerda. O termo juntamente com o Caminho da Mão Direita são dicotomias entre duas filosofias opostas na tradição ocidental. O Caminho da Mão Esquerda seria o equivalente a Magia Negra, de práticas como Satanismo, enquanto que Caminho da Mão Direita, Magia Branca é usada por magos Wicca, por exemplo. Embora não haja distinção ética entre as duas vertentes, a primeira é fundamentada na lei filosófica de “Minha vontade seja feita”, afirmação do individualismo, usada frequentemente contra o objeto exterior, para infligir medo; a segunda segue a lei da “Vossa vontade seja feita”, o bem comum do grupo, que para os wiccanos é usado para obter cura e proteção. Entre os seguidores da Mão Esquerda estão os Luciferianos que podem ser teístas e agnósticos. Mais tarde, antes de partir em uma jornada de peregrinação, vemos que Lúcifer pede a bebida da garrafa da direita.

Ao encontrar Amanediel, Lúcifer cita Johannes Trithemius, criador da esteganografia no século XV, técnica de criptologia para ocultar a existência de mensagens dentro de outra. Exatamente é o que Lúcifer faz, induzindo Amenadiel a um erro de interpretação. A resposta de Amenadiel, equivocadamente acreditando que a citação se trata de parte das Sagradas Escrituras, deixa transparecer que na casta angelical ele pertence a um nível bem inferior a Lúcifer, devido ao seu parco conhecimento. Amenadiel certamente pensou que a citação se tratasse de uma passagem bíblica, onde Lúcifer teria tentado Jesus no deserto, conforme as escrituras do Evangelho de Mateus.  Vemos que Amenadiel é um anjo de crueza e obediência, “não há lugar para dívidas ou escrúpulos a serviço do nome”, ele responde a Lúcifer, bem diferente de Lúcifer, que é ardiloso, arrogante e extremamente maniqueísta, como veremos. Aliás, Lúcifer irá zombar continuamente da figura de Amanediel enquanto dialogam. Ainda segundo Lúcifer, Trithemius teria se equivocado com relação aos Tronos, anjos de paz e submissão, pois Lucifer acredita que os Tronos como Amenadiel são anjos que “gostam de se sujar”. Amenadiel chama Lúcifer de Príncipe do Leste, outra denominação pela qual é conhecido. Trata-se da referência aos Quatro Príncipes Coroados do Inferno, sendo Lúcifer, Satan, Belial e Leviatã, respectivamente Príncipes Regentes dos Quadrantes Leste (ar), Sul (fogo), Norte (terra) e Oeste (mar).

Em seguida, vemos que a bebida oferecida a Amenadiel se incendeia (novamente o tema da luz), certamente um truque de Lúcifer de provocação e intimidação, enquanto aquele revela o motivo pela qual veio procurar por Lúcifer: Amenadiel está a serviço dos Céus e deve oferecer a Lúcifer uma proposta: eliminar “um poder que está operando na terra e que está concedendo desejos humanos”. Esse poder, saberemos, devido à “natureza do desejo humano” ameaça levar a humanidade a se “estraçalhar como ratos num saco“, diz Amenadiel.

Amenadiel diz ainda que o “Céu não deseja intervir diretamente, nem ficar parado e deixar acontecer”, por isso Lúcifer surge com a terceira opção para intervir, e que ele deverá dar um preço pelo serviço. Interessante notar como Lúcifer pergunta a Amenadiel se o preço deverá ser dado no antes ou depois do serviço feito. As implicações dessa incerteza temporal têm direta relação com a onisciência divina e o livre arbítrio, outros dois temas importantes na estória, pois “seria de pensar que parte da onisciência seria saber quando parar”. A reflexão de Lúcifer sobre a humanidade e o trabalho do Criador, coloca em xeque o papel de ambos no universo, e até que ponto ele ainda estaria sendo movido pela vontade divina, pois “não pode deixar de pensar em como tudo é impermanente nesse universo. Nada realmente bem feito. Nada feito para durar”. O preço pedido por Lúcifer é uma Carta de Passagem, que sua utilidade descobriremos mais tarde, trará complicações severas entre o Criador e a Criação, “mas Ele já sabe disso, não é?”, diz Lúcifer. Obviamente, Amenadiel ainda não sabe do que se trata, “não é necessário que entenda. Há outro lado do céu, é só.”, responde Lúcifer. E para terminar de humilhar Amanediel, Lúcifer pede que peça desculpas por entornar a bebida, o que mesmo a contra gosto o faz. Lúcifer dedilha ao piano um trecho da balada britânica “The False Knight on the road”, cujo tema é um disputa através de charadas e rimas entre um garoto e o diabo, disfarçado como um cavaleiro. A balada consiste na perícia do garoto em driblar o assedio do Diabo com sarcasmo a cada investida dele. As duas últimas linhas que encerram essa canção dizem: “Eu acho que ouvi um sino’ disse o Falso Cavaleiro na estrada, ‘Eles estão te chamando para o Inferno’ disse o garoto e assim permaneceu”.

Lúcifer decide que precisa de orientação para iniciar sua jornada. Ele recorre à leitura de sinais através da faca, uma pomba e sangue. À primeira vista, parece se tratar de sacrifício, mas Lúcifer diz que “o pássaro não é para sacrifício. A quem eu sacrificaria?”. Esse comentário implica que Lúcifer sabe de algo que se revelará nas edições da futura da série contínua. Afinal acima de Lúcifer somente o Criador é o ser mais poderoso. Lúcifer ferindo sua palma da mão grafa com a faca a runa memsoph para orientação, e assim tendo o sangue do Primeiro Caído derramado, a faca funcionará como uma bússola. Do pássaro, ele se servirá de suas penas para caso precise voar, uma vez que Lúcifer não mais possui suas asas, arrancadas durante a Estação das Brunas. Memsoph parece ser uma criação de Carey, um misto de antigas runas: thurisaz, que associado ao mito de Thor, representa o portal e funciona como uma defesa ativa contra os inimigos e desperta a vontade de agir, e wunjo, que associado ao mito de Balder, significa a luz e recompensa, e representa motivação e o fim de um ciclo.

De volta à família Begai, no noticiário local há mais informações das estranhas ocorrências pelo mundo. Enquanto isso, Lúcifer inicia sua jornada de orientação, encontra Mahu, um dos Lilim, que serve a Bradiach, o Cego, líder exilado dos Lilim. Ao que parece Mahu alega que os Lilim ainda irão reclamar seus direitos na Criação, e a resposta de Lúcifer não podia ser mais sarcástica, “nada estará ardendo então”, pois Lúcifer acredita que os Lilim não obterão sucesso na empreitada. Bradiach, por ser cego, pergunta a Mahu se a presença diante dele é a da “cadela caldéia”, certamente se referindo a sua mãe Lilith, ou se é Samael, se referindo a Lúcifer, quando esse ainda usava o nome de arcanjo. Alguns historiadores contam que Lilith teria fugido do Jardim do Éden, quando se recusou a ser submissa a Adão, tendo então se juntado a Samael, como sua companheira.

Bradiach reconhece Lúcifer, o chamando de Lorde. Esse diálogo entre ambos é importante, pois demonstra algumas das muitas habilidades de Lúcifer: a malícia e o poder de barganha. Bradiach praticamente implora por um pouco da Água de Lethe, um dos cinco rios de Hades, para acalentar seu sofrimento, dizendo pagar em breve. Lethe, também conhecido como o Rio do Esquecimento, é citado na Eneida de Virgílio, onde somente quando o morto bebe de sua água, pode esquecer suas recordações terrenas e reencarnar. Lúcifer maliciosamente diz que se Bradiach tomar da água, ele terá sua visão turvada, com isso limitando suas habilidades de profetização, que permite ver “a semente e a podridão”, ou seja, o começo e o fim das coisas. Bradiach deve então pagar para beber da água, dando a Lúcifer “um nascimento e uma morte de um desejo no momento em que é concebido” em troca de dois goles de esquecimento. Bradiach fala que as fronteiras foram fechadas por Mab, certamente se referindo à Rainha do Reino das Fadas, cujas fronteiras foram fechadas durante o tempo de Shakespearre em Sandman, “Sonhos de uma Noite de Verão”. Bradiach aponta que o próximo desejo será escolhido por Paul Begai, “um homem em anos”, próxima parada de Lúcifer, porque “o poder se demora ao redor dele (Paul)”.

Nas páginas seguintes, um pouco complexas, veremos que embora involuntariamente, o desejo de Rachel será atendido, quando deseja que seu irmão Paul se “afogue” no próprio vômito, mesmo que tenha sido dito de forma figurativa. Lúcifer pondera que a força que está atuando entre os homens é um tipo de veleidade, ou seja, uma força que age e ganha força conforme a intenção de vontade seja pouco firme e com certa resistência, dificilmente realizável, como foi o desejo de Rachel, “um fluxo de duas mãos, poder foi gasto, mas poder foi gerado também”. A Veleidade concede desejos e acumula poder das sensações de gratidão e culpa do desejador. Rachel realmente não tinha a intenção de que seu irmão morresse. No campo da filosofia, a veleidade é a capacidade ou a possibilidade de escolha alternativa. Nietzsche descreve a veleidade de um artista como o desejo de ser o que ele é capaz de representar, conceber e/ou expressar, ou seja, sua força de vontade pode ser encapsulada começando com uma veleidade.

Lúcifer questiona se Paul podia falar, pois balbucia o nome de sua irmã antes de morrer. Interessante como Lúcifer pondera como a veleidade estava se demorando ao redor de Paul por causa de seu silêncio, isso nos leva a pensar se Paul não teria também sido compelido pela entidade até que pudesse sentir o desejo de Rachel emergir. Notemos que o nome de Rachel é dito de forma a sobressair em separado a terminação “EL”, a mesma terminação dos nomes da maioria dos anjos, que vem da raiz da palavra hebraica para “forte, poderoso” e significa “Deus”. A seguir Rachel furiosa com a revelação que ela foi a causadora da morte de Paul deseja que Lúcifer “vá direto para o Inferno”. Lúcifer diz que: “esperava evitar isso. Mas não há como escapar”. Novamente, Lúcifer se vê compelido a trilhar caminhos além de sua vontade. No final dessa primeira edição, vemos Lúcifer às portas do Inferno, aparentemente propiciado pelo desejo de Rachel, onde cita a frase “Home again, home again, jiggety-jig.” no original, que vem de uma das rimas da Mamãe Gansa. E assim, termina a primeira parte da jornada de Lúcifer, que indiretamente irá realizar o trabalho sujo dos céus. A sua jornada apenas começou.

Leia mais sobre essa obra: Parte 2 e Parte 3.

 

Chaves do Inferno

Sartre escreveu em sua famosa peça Entre Quatro Paredes, de 1945, que “o Inferno são os outros”. Não existe uma definição universalmente aceita sobre o conceito de inferno na tradição teológica ocidental. Segundo o historiador Jean Delumeau, no livro Entrevistas Sobre o Fim dos Tempos, o catolicismo tradicional, apoiando-se em Santo Agostinho, apregoava a “existência de um lugar de sofrimento eterno para aqueles que tiverem praticado um mal considerável nessa vida e dele jamais se tenha arrependido”. Essa noção, um tanto incongruente com a imagem de um Deus misericordioso, não prosperou fora do imaginário popular, sendo substituída pela solução do Purgatório, desenvolvida no século II, sobretudo, por Orígenas. Ninguém mais estaria condenado para sempre, embora, excetuando-se os santos, todos tivessem que passar por um período variável de purificação, com a garantia da salvação ao final. Santo Irineu discordava. Para ele, “os pecadores confirmados, obstinados, se apartaram de Deus, também se apartaram da vida”. Portanto, após o Julgamento Final, os condenados seriam simplesmente apagados da existência.

A polêmica continuou pelos séculos dos séculos, com novos debatedores: Tomás de Aquino, Lutero, Joaquim de Fiore etc. Na literatura, Dante e Milton criaram visões poderosas do Inferno. O trio de condenados de Sartre, os cenobitas sados-masoquistas de Clive Barker e os pecadores amaldiçoados de Roberto Bolaños são recriações contemporâneas perturbadoras.

Sim, Roberto Bolaños. Não, não se trata do falecido ficcionista chileno Roberto Bolaño (1953 – 2003), autor do calhamaço 2666. O Bolaños com S é um artista infinitamente superior. Refiro-me ao ator, escritor e diretor mexicano Roberto Gómez Bolaños, apelidado, num exagero quase perdoável, de Chespirito, ou “Pequeno Shakespeare” à mexicana. Ele é o criador de uma das mais sutis, brilhantes e temíveis representações do inferno em qualquer das artes: o seriado Chaves. Se, conforme ensinou Baudelaire, “a maior artimanha do Demônio é convencer-nos de que Ele não existe”, podemos concluir que esse mesmo Demônio não iria apresentar seus domínios por meio de estereótipos: escuridão, chamas, tridentes, lava etc. Em Chaves, verdadeiramente, “o Inferno são os outros”.

Roberto Gómez Bolanõs

Bolaños encheu sua criação de sinais que devem ser decodificados para que se revele seu verdadeiro sentido de auto moralizante. O primeiro é mais importante é o título. Originalmente, o seriado chama-se El Chavo Del Ocho, ou traduzindo do espanhol: “O Moleque do Oito”. Ninguém sabe o verdadeiro nome do protagonista, que nunca foi pronunciado. Chamam-no apenas de “Moleque”. O nome próprio Chaves é uma adaptação brasileira, uma corruptela da palavra “chavo”. É certo que um “chavo”, ou “moleque”, é quem faz molecagens; quem subverte a ordem do que seria moral e socialmente aceito como correto. Em livre interpretação, o “moleque” é um pecador. Portanto, o seriado trata de pecados. Não de pecados mortais, pois do contrário dificilmente seus personagens gerariam simpatia, mas, com certeza, de pecados capitais.

Ao contrário do que muitos acreditam, o protagonista não mora em um barril, mas na casa número 8. Sendo órfão e morador de rua, foi recolhido por uma idosa, que jamais foi mostrada; e que talvez não exista. Se existir é a Morte materializada, pois habita o 8. Basta deitar o numeral 8 que obtemos o símbolo do infinito. A morte é infinita, pois não há vida antes da vida e após a vida volta-se a condição anterior. A vida pode ser medida pelo tempo, o antes e o depois é, por definição, infinito. O nada infinito, a graça infinita ou a purgação infinita.

Essa Vila do “8” nada mais é do que um pedaço do Inferno, especialmente preparado para receber seus hospedes, mortos e condenados no Julgamento Final. Uma variação cômica de Entre Quatros Paredes, onde duas mulheres e um homem (além de um mordomo… mas o comunista Sartre não considerou o representante da classe proletária um personagem pleno) são obrigados a se suportarem mutuamente pela eternidade, num ciclo infindável de acusações e violência. Não é difícil imaginar a cena: Chiquinha chuta a canela de Quico e faz seu pai pensar que o menino foi o agressor, enervado Seu Madruga belisca Quico, que chama Dona Florinda, que acerta um tapa no vizinho gentalha, que descarrega a raiva no Moleque, que atinge o Seu Barriga quando ele chega para cobrar o aluguel. Enquanto isso, o professor Girafales, queimando de desejo, bebe café, com um buquê de rosas no colo, sem desconfiar a causa, motivo, razão ou circunstância de tanta repetição.

O cenário é um labirinto rizomático, sem centro, começo nem fim. Saindo da Vila caem em uma rua estreita que leva a um pequeno parque, um restaurante e uma apertada sala de aula. As variações, como Acapulco, são exceções que confirmam a regra. O universo dos personagens se resume a esse espaço claustrofóbico, onde um ambiente leva a outro que leva a outro que leva a outro, indefinidamente.

Os pecados que cometeram em vida transparecem em suas características, medos e frustrações. Chaves, o Moleque, sempre faminto, cometia o pecado da Gula. Glutão inveterado, sua preferência por sanduiche de presunto indica desprezo pelas leis de Deus, que proibiu o consumo de porco, esse animal sujo e de pé fendido. Inimigo de qualquer autoridade moral, apelidou seu professor de “Mestre Lingüiça”, outra referência a mal-fadada iguaria suína.

Seu Madruga, que têm muito trabalho para continuar sem trabalhar, cometia o pecado da Preguiça. Exigem redobrados esforços suas estratégias de fuga, para não pagar os indefectíveis 14 meses de aluguel. Que nunca se tornam 15 meses, denotando que a passagem do tempo está suspensa. Não é necessário lembrar que 7 + 7 é igual a 14 e que, na tradição crística, 70 x 07 simboliza o infinito. Da mesma forma que o 8, o símbolo de adição deitado torna-se o de multiplicação. Deus mora nos detalhes.

A Ganância de Seu Barriga é óbvia. Quem mais cobraria o aluguel mensal praticamente todos os dias? Os golpes que o Moleque lhe aplica sempre que chega a Vila faz parte de sua punição. O fato de possuir como veículo uma Brasília Amarela liga-o imediatamente ao país Brasil, indicando que em vida deve ter se envolvido em escândalos de corrupção. Terry Gilliam não escolhe títulos ao acaso.

O pequeno marinheiro Quico, o menino mais rico da Vila, é movido pela Inveja. Sempre que vê um de seus pobres vizinhos se divertindo com um surrado brinquedo, cobiça aquela alegria simplória e vai buscar um dos seus, sempre maior e melhor, mas que nunca lhe dá satisfação. O brinquedo do Outro, mesmo sendo obviamente inferior, sempre lhe parece mais interessante. Um círculo vicioso de inveja, jamais saciada.

Chiquinha é marcada pela personalidade intolerante, raivosa. Imitando o Pateta, usava o automóvel como uma arma potencializadora de sua Ira. Morrendo em uma briga de transito, na Vila, tenta fazer o mesmo com o triciclo. Não foram poucas as vezes que atropelou pés e brinquedos. Mas a musa que canta a ira do poderoso Aquiles não se ocupa da ira insignificante de Francisquinha. Sendo a menor e fisicamente mais fraca da Vila, só lhe resta chorar, chorar e chorar.

Dona Florinda e o Professor Girafales foram libertinos do porte do Marques de Sade e Messalina (ou os próprios). Mestres na arte da Luxúria, acabaram condenados a eternidade de abstinência sexual. Frigida e impotente, a mente almeja, mas o corpo não acompanha. Consomem infindáveis xícaras de café que, com propriedades estimulantes, alimentam ainda mais o fogo que não podem debelar. O professor Girafales fuma em sala de aula não porque El Chavo Del Ocho foi gravado antes da praga politicamente correta, mas devido ao fato dele ser portador do célebre cacoete pós-coito de acender um cigarro, fazer um aro de fumaça no ar e perguntar “foi bom para você?”. Incapaz de cumprir a primeira parte do ritual erótico, involuntariamente reproduz a segunda. Não por acaso, a trilha sonoro de seus encontros é a mesma de … E o Vento Levou. A frase final do filme é “amanhã será outro dia”. Na Vila, sempre haverá outro dia e outra xícara de café.

Dona Clotilde, a Bruxa do 71, padecia de extrema Vaidade. O gênio de Bolaños teve a sutileza de convidar uma ex-miss, a espanhola Angelines Fernández, para interpretar a personagem. Novamente o signo de uma condenação eterna aparece: 71 nada mais é do que 7+1=8. O animal de estimação de Dona Clotilde, significativamente chamado de Satanás, chama atenção para outro elemento importante. A presença de diversos demônios errantes na Vila. Trata-se de uma besta transmorfa. Em alguns episódios Satanás é um gato, em outros um cão. Diferente do paradoxo do coelho-pato de Jastrow, Wittgenstein e Thomas Kuhn, que servia ao desenvolvimento da Razão, o gato-cão é uma representação do misticismo, o Cão em “pessoa”.

Em 1589 o teólogo Peter Binsfeld, no livro Binsfeld’s Classification of Demons, estabeleceu que cada um dos Sete Pecados Capitais possui um patrono infernal. Sintomaticamente, Lúcifer, nome pelo qual muitos chamam Satanás, gere a Vaidade. Os outros são Asmodeu que gere a Luxúria, Belzebu a Gula, Mammon a Ganância, Belphegor a Preguiça, Azazel a Ira e Leviatã a Inveja. Não nos enganemos: Eles rondam a Vila. Aparecem circunstancialmente, para promover desordem, dor e tentação.

O gato-cão Lúcifer/Satanás ajuda a transformar uma miss nunca bruxa. Igualmente transmorfas são a bela menina Paty e sua tia Glória, que já tiveram muitos rostos diferentes. Não há dúvidas que a dupla de sedutoras é formada por Belzebu e Belphegor metamorfoseados em súcubos, demônio sexuais femininos, prontos para atiçar “outros” apetites no Moleque e tirar Seu Madruga de seu estado de letargia. Por sua vez, o galã de novelas Hector Bonilla, que visitou a Vila, nada mais é do que Asmodeu na forma de um íncubo, demônio sexual masculino, com a missão de tumultuar a relação do casal de castos libertinos. Nhonho é Mammon, instigando o pai avaro a gastar. Popis é Azazel, esmerando-se em despertar a Ira de Chiquinha com sua futilidade enervante. Godinez, um quase sócia do Moleque, é Leviatã atiçando a Inveja do Quico, com suas respostas tão certeiras quanto involuntárias ao Mestre Lingüiça. Figuras de pouca relevância como Dona Neves, Seu Furtado, os jogadores de ioiô, os alunos anônimos na escola, os clientes do restaurante, o pessoal parque e do Festival da Boa Vizinhança, além de outros coadjuvantes, são entidades demoníacas menores, com a função de criar a ilusão de normalidade.

De fato, os freqüentadores da Vila parecem inscientes de sua condição. Os adultos por serem alto-centrados. As crianças por estarem duplamente amaldiçoados, regredidos a condição infantil, talvez como espelho da imaturidade emocional que os levaram a conduta pecadora. Enquanto muitas pessoas sonham em possuir a experiência da maturidade em um corpo jovem, eles mantiveram o corpo que possuíam na hora da morte, mas quase sem nenhuma experiência. Essas são as sutilezas da burocracia infernal.

O carteiro Jaiminho, em sua função de portador de mensagens, é o único representante do lado de cá. Um médium que tenta fazer contato com essa outra dimensão. Seu constante estado de fadiga é resultado do esforço sobre-humano necessário para cruzar as dimensões. Prova disso é a descrição que Jaiminho dá de sua terra natal, Tangamandápio. A despeito de existir de fato, sendo localizada a noroeste do estado mexicano de Michoacán, trata-se de uma alegoria. Segundo o Carteiro, tudo em Tangamandápio é colossal. Seria maior do que Nova Iorque e teria uma população de muitos milhões de habitantes. O que poderia ser tão grande? Obviamente, ela não se refere a uma única localidade isolada, mas a todo o planeta; a Terra dos vivos. As cartas que transporta são psicografias e a bicicleta que nunca larga, apesar de não saber andar, nada mais é do que um totem, ao estilo de A Origem, necessário para que possa voltar para realidade.

Em El Chavo Del Ocho, Bolanõs, o Camus asteca, criou sua própria versão do Mito de Sísifo. O Moleque & Companhia estão condenados a empurrar inutilmente por uma ladeira íngreme essa imensa pedra chamada cotidiano, que sempre rola de volta, obrigando-os ao tormento do Eterno Retorno. A pedra de Quico é quadrada, não rola, desliza. É cômico, apesar de trágico.

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]

Videocast 89 – Hellboy

Olá a todos. Sexta-feira, dia de balada, curtição, cair na gandaia… É infernal (he-he-he). E o Pipoca & Nanquim não deixa por menos e faz um videocast pedido por você, caro amigo e telespectador. O tema hoje é Hellboy, o demônio mais legal dos quadrinhos.

Adoramos a criação seminal de Mike Mignola e demos uma passada nas principais edições que foram lançadas no Brasil. No meio da discussão encontramos tempo para falar ainda de maquiagem x CG, a pronúncia certa do nome do escritor, cronologia x continuidade e o destino do herói nos cinemas. Se você curte o personagem, este é seu programa; se ainda não o conhece, siga a ordem de leitura que damos para mergulhar no universo macabro e original de Hellboy.

E temos recadinhos sobre nossas promoções (opa, no plural? – é isso aí, tem mais de uma rolando). Por problemas técnicos, não pudemos fazer o sorteio de Conan neste programa, então você tem mais uma semana para tentar ganhar um dos dois livros que o Pipoca e a editora Generale estão sorteando. Não marca bobeira!

PROMOÇÃO PIPOCA E NANQUIM E VOCÊ NA FEST COMIX!

Fora isso, que tal ir na Fest Comix de graça? É isso aí, o Pipoca está sorteando, em parceria com a loja de quadrinhos mais legal do país, 5 (cinco, five, V) pares de ingressos para TODOS OS DIAS DO EVENTO!!! Imperdível. Mas você tem pouquíssimo tempo para concorrer, por que a maior feira de quadrinhos do país já é na semana que vem. Então escreva, twitte, mande pombo-correio, mas peça um par de ingressos para a Comix e o Pipoca! Os resultados serão divulgados aqui no site, na quarta-feira que vem.

E é isso ai, galera. Lembrando também que o Pipoca estará em peso na Fest Comix, dando palestra e autografando seu livro, ao lado de Mike Deodato Jr. e convidados sensacionais.

Um grande abraço a todos!

QUADRINHOS INDICADOS

Hellboy & Ghost
Hellboy – Edição Histórica vol. 1: Sementes da Destruição
HellBoy – Edição Histórica vol. 2: O Despertar do Demônio
HellBoy – Edição Histórica vol. 3: O Caixão Acorrentado
HellBoy – Edição Histórica vol. 4: A Mão Direita da Perdição
Hellboy Apresenta: Abe Sapien – Os Afogados
Hellboy – O Clamor das Trevas
Hellboy – O Verme Vencedor
Hellboy – Paragens Exóticas
Hellboy – Contos Bizarros
Hellboy – A Feiticeira de Troll e Outras Histórias
Hellboy – A Capela de Moloch e O Vigarista
B.P.D.P – Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal Vol.1
B.P.D.P – Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal Vol.2

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