Minha Estante #24 – Liber Paz

Olá!

Vocês já devem ter se cansado de ouvir falar que o FIQ 2011 foi sensacional, né? Mas nós ainda não cansamos de repetir isso. rs

Um dos grande baratos do evento foi fazer amizades com verdadeiros apaixonados pela nona arte, nossos poucos dias em Belo Horizonte foi suficiente para conhecer pessoas incríveis e recruta-las para participar dessa coluna.

O primeiro deles foi o Sérgio, que vocês conheceram na sessão anterior e agora é com grande prazer que apresentamos essa entrevista com Liber Paz, um curitibano legal demais, que além de ter uma bela coleção, dá aula sobre histórias em quadrinhos, é resenhista do Universo HQ e já ganhou um troféu HQMix pela sua tese de mestrado.

Olá, Liber! Obrigado por topar participar dessa entrevista.

Grande Daniel, eu que agradeço a oportunidade e peço desculpas pela demora em responder. Agora depois do FIQ estou colocando algumas pendências da Universidade em dia, por isso a demora. Mas vamos lá.

Para começar nos conte um pouco sobre você, onde nasceu, mora, o que faz na vida profissional?

Eu nasci e moro em Curitiba. Atualmente, eu sou professor do curso de Design da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Leciono as matérias de Ilustração, Animação, Audiovisual e Histórias em Quadrinhos. Pois é, só matéria chata… A vida é dura.

Sou formado em Design Gráfico e antes de ingressar na carreira acadêmica me juntei com uns amigos e fizemos um estúdio de ilustração e animação chamado Openthedoor. A sociedade durou dois anos e daí, saí pra virar professor. Gosto muito de lecionar, de conversar com as pessoas, de trocar ideias com elas. Sinto-me muito realizado na profissão.

Fiz um mestrado sobre a obra em quadrinhos de Lourenço Mutarelli, que recebeu o prêmio HQMix. Atualmente também colaboro com o site Universo HQ escrevendo resenhas de quadrinhos.

Como está a cena Curitibana de quadrinhos?

Acho que nunca esteve tão bem. Temos bons profissionais, como José Aguiar, Antonio Eder, Benett, Pryscila Vieira, Carlos Magno, DW Ribatski, Guilherme Caldas e outros. Todo um pessoal que produz quadrinhos nos mais variados estilos e formatos.

Esse ano, em outubro, terá a Gibicon, comemorando o aniversário de 30 anos da Gibiteca de Curitiba, que foi a primeira do tipo na América Latina. Será a segunda edição da Gibicon e a primeira foi bem sucedida, já colocando a cidade no circuito dos eventos em quadrinhos, ao lado do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo.

Além disso, temos curso de design que oferecem optativas em quadrinho e temos uma instituição que oferece uma pós-graduação específica nessa área. E tem toda uma nova geração de gente interessada e talentosa que está começando a mostrar seu próprio trabalho.

Enfim, a cena curitibana de quadrinhos vai muito bem, obrigado. 😉

Quando você começou a se interessar por quadrinhos?

Quando comecei a me dar conta de mim mesmo como ser humano, lá pelos quatro anos de idade. Meu pai me comprava muitos quadrinhos. Os quadrinhos mais antigos de que me lembro eram de histórias do Robin desenhadas pelo Neal Adams em revistas da Ebal. E também lembro nitidamente da história da morte de Gwen Stacy. O quadrinho em que o Homem-Aranha vê a abóbora no chão do apartamento com o recado do Duende Verde ficou gravado na minha memória. Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Sei lá por que a imagem me marcou tanto.

Você se lembra da primeira vez que se viu fascinado por uma HQ? Qual foi a história ou revista?

A história em quadrinhos que mais me marcou até hoje foi O Cavaleiro das Trevas, do Frank Miller (da época em que ele ainda era são). Essa HQ teve um impacto extraordinário sobre mim. Eu tinha uns 14 anos e fazia um bom tempo que não comprava quadrinhos. Estava acostumado só com as histórias de super-heróis e nunca tinha visto nada tão intenso e extraordinário. Simplesmente pirei. Li e reli a história muitas vezes depois disso.

Outro título que me marcou um bocado foi Sandman, do Neil Gaiman. E O Incrível Hulk escrito pelo Peter David foi um dos poucos títulos mensais que acompanhei religiosamente. Sinto saudades das histórias do Hulk Cinza daquela época.

Quando aconteceu a mudança de leitor ocasional para colecionador inveterado?

Foi com O Cavaleiro das Trevas. Foi ali que comecei a comprar, especialmente as edições encadernadas e as graphic novels.

Quantas HQs você tem?

Não faço ideia. Esse fim de ano vou dar uma arrumada na estante aqui em casa e daí vou contar direitinho, mas eu acho que devo ter umas 500 revistas e álbuns aqui em casa, mais ou menos.

As fotos mostram a estante principal, mas tem muito material guardado em armários, esperando esse dia da “arrumada”…

Como você guarda sua coleção de HQs e qual técnica usa para conservá-las?

Deixo eles na estante mesmo. Não deixo luz do sol incidir sobre elas diretamente e o lugar é constantemente ventilado naturalmente. Também é um ambiente seco, bem longe da umidade.

Acho que eu não sou muito exigente com a conservação das revistas. Se elas estão limpas e inteiras, sem rasgos ou amassados, eu estou feliz. Não me incomodo se ela não parece novinha em folha, entende? Meu Moonshadow está muito bem conservado, mas ele aparenta os vinte anos que tem. Talvez eu não seja um colecionador muito “Caxias” nesse sentido.

Quais são os principais itens de sua coleção, séries e mini-séries completas, encadernados de luxo, edições raras, etc…?

Durante meu mestrado, eu consegui reunir tudo o que o Mutarelli publicou em quadrinhos: Transubstanciação, Desgraçados, Eu te amo Lucimar, A Confluência da Forquilha, todos os álbuns da Devir. É um material difícil de conseguir hoje. Muita coisa comprei na época em que foi lançado. Os exemplares estão com dedicatória e autógrafo do Mutarelli. Tenho muito orgulho dessa parte da coleção.

Tenho uma das primeiras edições de Signal to Noise autografada pelo Neil Gaiman e depois do FIQ consegui autógrafo do Bill Sienkiewicz na minha edição de Moby Dick, além dos autógrafos de Cyril Pedrosa, Jill Thompson, Lelis, Maurício de Sousa, Vitor Cafaggi e mais uma galera. Tenho muita coisa autografada que às vezes só relembro quando estou folheando. “Oh, puxa, meu Pyongyang foi autografado pelo Delisle…” e coisas assim.

Tenho todas as edições do Sandman originalmente publicadas pela Globo e tenho um carinho especial por essa coleção.

Qual o item mais raro de todos, todos, todos?

Acho que o item mais raro que comprei foi o álbum Desgraçados, do Mutarelli.  Eu estava trabalhando na minha dissertação e o álbum simplesmente apareceu lá na Itiban (N.E: loja curitibana de quadrinhos). Foi sorte, porque é muito difícil de achar esse exemplar.

Mas eu não me considero o tipo de colecionador que corre atrás de raridades. Estou mais interessado em comprar bons quadrinhos, ler histórias que eu curto. Nem sei dizer o que é raro aqui na minha coleção…

E qual foi a maior raridade que já comprou pelo menor preço?

Foi o tal Desgraçados. Ele me custou 20 reais. Não o achei à venda na web, mas o Transubstanciação edição original eu achei por R$80,00 no Mercado Livre. Eu comprei o meu na banca, quando ele foi lançado, lá em 1990… então, eu não sei dizer se fiz bom negócio, porque quando eu comprei ele não era raridade. Mas eu não gosto de comprar as edições pensando em sua raridade. Gosto mesmo é de ter uma estante cheia de títulos que eu gosto de ler.

Você costuma comprar HQ importadas?

Não. Compro muito de vez em quando. O último título importado que comprei foi Beasts of Burden, com a arte da Jill Thompson. Também comprei faz pouco tempo o From Hell em inglês, mas isso porque não encontrei a edição três e quatro pra vender… Se bem que não procurei muito. Sou preguiçoso e se não for caro e estiver à mão eu compro.

Você tem ciúmes da sua coleção?

Ciúmes eu não diria, mas tenho um orgulho danado. Olho pra estante e sorrio. Às vezes, de manhã, acordo, levanto e deslizo os dedos pela prateleira, pelas lombadas dos Sandman da Conrad, as encadernadas de Hellboy, Planetary e Preacher. E me sinto muito feliz delas estarem ali. Sendo bem nerd, mas muito nerd mesmo, eu acho que é a mesma sensação que um daqueles dragões de Tolkien tem ao contemplar seu tesouro. Hahaha!

Já aconteceu alguma tragédia envolvendo suas preciosidades, como umidade, traça, roubo, fogo…?

Passei maus bocados uma vez com uma infiltração, em um antigo apartamento. Tirei meu Cavaleiro das Trevas da estante e ele estava com uma camada de fungos que parecia uma floresta em miniatura: verde, amarela e colorida. Foi um susto danado, mas consegui recuperar todas as minhas edições desse infeliz episódio. Deu um trabalho danado. Superventilei o apartamento, raspei os fungos com o maior cuidado do mundo, deixei as edições pegarem um sol. Mas tudo deu certo. Foi aí que aprendi que o fundamental é ventilar bem e deixar bem longe da umidade. Meu apartamento atual oferece bem essas condições.

Mas também, fico pensando, eu conservo minhas HQs pra mim mesmo. Não tenho intenção de que elas durem pra sempre. Procuro mantê-las em condições favoráveis de conservação, mas não fico pirando com isso. Afinal, nada é para sempre.

Todo colecionador tem manias, eu, por exemplo, sempre cheiro meus quadrinho novos e não empresto, qual é sua?

AH! O cheiro de um quadrinho novo! Isso não tem preço. Adoro! Você tira do plástico, abre e mete o nariz lá no meio. Melhor que isso só o cheiro de… bom, enfim, acho que essa mania do cheiro é bem comum entre o pessoal dos quadrinhos.

Eu não tenho problemas em emprestar meus quadrinhos, mas sou bem seletivo, empresto pras pessoas mais próximas e íntimas, geralmente pro pessoal pra quem eu quero apresentar o mundo dos quadrinhos ou partilhar um bom material que li.

Agora, mania estranha mesmo é comprar cada nova variação que sai de uma HQ que já tenho e gosto. Do Sandman, eu tenho a série original da Globo, as encadernadas da Conrad e pretendo comprar as edições Absolute americanas um dia. O Batman – Ano Um eu tenho a edição encadernada original da Abril e duas da Panini. Tenho três edições de Asilo Arkham, duas da Abril (exatamente iguais) e uma americana. Asterios Polyp eu comprei a versão americana e a brasileira da Quadrinhos na Cia.. Enfim, se eu tenho uma mania esquisita é essa de comprar várias edições diferentes de histórias que eu gosto.

Sem contar Watchmen, Cavaleiro das Trevas, Sandman e Piada Mortal, quais os quadrinhos que você sempre indica pra as pessoas?

Ahá, agora nós temos Asterios Polyp. Ele é o que mais tenho recomendado ultimamente. Mas as outras HQs que acho sensacionais, ainda mais pra quem não lê quadrinhos são Y – O Último Homem, Ex-Machina (superrecomendo!!!) e WE3, do Grant Morrison e Frank Quitely, que acho espetacular. Também recomendo as HQs que tem saído pela Quadrinos na Cia: Cachalote, Retalhos, Três Sombras, Maus. E tem uma amiga pra quem eu indiquei e ela adorou Kiki de Montparnasse (que é um show) e Valente, do Vitor Cafaggi. Tem Persépolis e Pyongyang que também recomendo. Esses são os quadrinhos que eu acho interessante de recomendar pra quem não lê quadrinhos. O pessoal que leu essas recomendações voltou pra me pedir novas dicas.

Tem algum item que quer muito ter, mas está praticamente impossível de encontrar?

Lobo Solitário. Eu queria terminar minha coleção e faltam os números 17 e do 21 em diante. Não sei se está impossível de encontrar, porque sinceramente não me esforcei muito, mas fui no FIQ e o pessoal das lojas de lá não tinha e aqui na minha comic shop favorita ele ainda não chegou. Enfim, se alguém aí souber dessas edições, entra em contato… 😉

Qual foi sua última leitura e qual está sendo a atual?

Acabei de ler agorinha os dois volumes de Primeira Edição do Odyr, e achei muito bom! Exatamente agora estou abrindo o Hellblazer: Origens – Volume 2. Já dei uma folheadinha e o material parece excelente!

Obrigado pelo papo, Liber! Para finalizar, deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Acho que estamos vivendo um momento muito bacana nos quadrinhos aqui no Brasil. Cada vez mais títulos nas prateleiras das livrarias, material legal que vale muito a pena conferir. Cada vez menos existe a necessidade de ter um conhecimento prévio, de ter acompanhado toda uma cronologia complicada pra poder ler uma história. Compra-se um volume e temos uma história completa, de boa qualidade. Eu acho que os colecionadores devem dar chance pra esses novos títulos. Também acho que a gente tem que recomendar nossos títulos favoritos pras pessoas, explicando porque tal título é tão legal, o que ele traz de tão especial. Transmitir pra todo mundo porque gostam de quadrinhos e talvez ajudar a criar novos leitores. Nesse sentido, acho o trabalho do Pipoca e Nanquim ótimo. Os programas de apresentação sobre obras como Hellboy, Asterios Polyp e Preacher são convidativas portas de entrada pra novos leitores. Parabéns pra vocês e continuem o bom trabalho!

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Minha Estante é um espaço pra você, colecionador de HQs, mostrar para todo mundo sua coleção, falar sobre prazeres e vicissitudes desse hobby, conhecer outros aficcionados e sentir aquela inveja boa.

Então convidamos a todos que possuem belas coleções de quadrinhos a mostrarem elas aqui!

É só mandar um email para [email protected] dizendo alguns detalhes (números de revistas, itens raros e particularidades) que em seguida combinamos a entrevista.