Minha Estante 62 – Sandro Santos

Para você que estava com saudade da coluna Minha Estante, pronto, não precisa mais ficar triste.

Ela está de volta, e dessa vez com o nosso amigo e colecionador Sandro Santos.

Sandro, que assim como a maiorias de nós, é apaixonado por quadrinhos e conta pra gente um pouco dessa sua vida de colecionador.

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Sandro, muito obrigado por participar desta entrevista.

Eu que agradeço, Alexandre! Acompanho a coluna desde o início e sempre tive vontade de participar. Agora, apareceu a chance.

Onde você mora e o que faz da vida?

Moro em Avaré, interior de SP. Sou administrador de empresas com ênfase em Sistemas de Informação. Atualmente, trabalho na área fiscal no ramo sucroenergético.

Como que os quadrinhos entraram na sua vida?

Essa é fácil. Quando eu tinha uns 4 ou 5 anos, iniciei minhas “leituras” de imagens com os gibis da Turma da Mônica, como a maioria de nós. A leitura, propriamente dita, começou com Bloquinho 2. Tinha histórias de personagens italianos (Tarzaneto, o Coelho Porfírio etc). A edição perdeu-se nos caminhos da vida, mas, graças ao colecionador e vendedor André Luiz Garcia Aurnheimer, consegui reaver essa edição. Nem preciso dizer que ela está em destaque na estante.

Quantas HQs você tem?

Perto de 6.000. Mas ainda tem coisa para catalogar. As mensais que compro, cadastro aos poucos. Encadernados e edições antigas ou especiais, cadastro na hora. Tenho esse hábito.

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Quais são os principais itens de sua coleção?

Embora eu tenha muitas edições luxuosas, capas duras e raridades da Ebal, Bloch e outras, as que eu guardo com todo carinho são os formatinhos da Abril. Comecei a ler pra valer quando a Abril passou a publicar a Marvel. A primeira revista de heróis que li foi o Heróis da TV 11, com a história em que o Capitão Marvel adquire a consciência cósmica. Havia também as histórias do Shang Shi, Punho de Ferro. Vi aquilo e disse: Cacete (não exatamente com essa palavra, claro). A partir dali, mudei o foco para heróis e não parei mais. Aí veio: Capitão América, SAM, Conan… Bons tempos.

Qual o item mais raro que você tem?

Creio que, em termos de dificuldade de se conseguir, seja a edição Almanaquinho de Invictus – 1968, da Ebal. Paguei R$ 10,00 por ela. Por esse preço, praticamente impossível de encontrar… (risos). Foi um achado.

Outras que merecem destaque são: a coleção Edição Maravilhosa primeira edição, até o número 100; Brucutu, da RGE; Betty Boop, da GEA e outras.

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Você mora em Avaré (cerca de 270 km de SP capital). Gostaria de saber como é a distribuição aí na sua cidade. As revistas tendem a chegar no mesmo mês de seus lançamentos?

Rapaz, eu tenho alguma dificuldade, sim. Acompanho algumas mensais e elas costumam atrasar. Mas chegam. Já encadernados como Hellblazer, Monstro do Pântano, Inescrito, Fábulas e outros especiais, chegam com muitos meses de atraso. Às vezes, pula edição e aí tenho de recorrer à internet para encontrar os números faltantes. Mas isso é problema da distribuidora local, segundo o funcionário da banca onde compro. Essa distribuidora fica em Bauru, cidade a 140 km de Avaré e o problema de logística é grande. Aqui vale uma observação: compro nessa banca há quase trinta anos, com o mesmo funcionário. Faço duas visitas semanais e os papos sobre quadrinhos foram, ainda são, muitos. Um verdadeiro ponto de encontro entre leitores. Hoje em dia, isso está cada vez mais difícil de ocorrer. Mantenho esse hábito.

Uma curiosidade sobre minha cidade: Aqui foram realizados alguns Congressos Internacionais de Histórias em Quadrinhos, na década de 70, com a presença de diversos quadrinistas, inclusive o Mauricio de Sousa. Uma pesquisa rápida na internet pode fornecer maiores informações sobre esses eventos. Um amigo meu tem um cartaz dessa época que estou doido para comprar, mas ele não vende. Deixa emoldurado na casa dele só para fazer inveja. Quem sabe um dia?

Além da banca, tem mais algum lugar que você costuma comprar?

Além da banca citada, compro muito na Amazon, Fnac, Saraiva, sebos virtuais e no Mercado Livre. Nesse último, sabendo procurar, dá para achar muita coisa com preço legal. O pessoal mete o pau, mas nem tudo é tão caro assim. O segredo é focar nos leilões a partir de R$ 1,00 que finalizam no meio da semana. Já comprei edições bacanas, como o WE3 capa dura, da Panini, por R$ 7,00. Acredita?

Também visito muitos sebos das cidades vizinhas. Gosto de me enfiar entre as estantes e fico lá até a esposa terminar as compras nas lojas e me chamar.

(Dica: levem as namoradas/esposas e as deixem nas lojas próximas, enquanto você se suja nos sebos. Todo mundo fica feliz.)

Viajo no tempo quando estou caçando gibis antigos. Não à toa, meu programa favorito é o Caçadores de Relíquias, do History Channel.

E, nessas visitas, aproveito para pegar gibis que repasso aos amigos colecionadores. Você, inclusive, já pegou algumas comigo.

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A sua coleção tem de tudo. Mas qual é o estilo de HQ que você mais gosta?

Embora a maioria de minha coleção seja composta do gênero super-heróis, é difícil definir um estilo.

Já tive fases em que preferia espada e fantasia (Conan), Humor (Groo), Terror (Kripta), erótico (Druuna, Valentina). Mas, com o tempo, percebi que prefiro mesmo todos.

Como você guarda seus quadrinhos? Você tem alguma técnica para conservar as suas revistas?

Tenho um quarto exclusivo para as HQs. E, como a maioria dos colecionadores tem algumas regrinhas básicas quanto à conservação.

Primeiro aquela cheirada básica. Seja novo ou antigo, é de lei. Comigo, formato digital não funciona. Tenho de pegar o papel nas mãos, sentir a textura das folhas. Mas em se tratando de papel, tem de ter alguns cuidados. Papel amarela, resseca, não tem jeito. Mas dá para retardar esse processo natural.

Formatinhos, mensais e encadernados brochura, coloco em sacos plásticos. Compro em lojas de embalagens mesmo.

Capas duras, deixo sem. Salvo algumas exceções, guardo todos em pé. Tenho algumas edições da editora Nemo que, devido ao tamanho, tenho de deixá-las deitadas.

Uma observação: Capa dura, NUNCA, NUNCA deixe empilhada uma em cima da outra. As páginas vão colar. Falo com propriedade, pois já passei por isso com algumas edições de Sandman, da Conrad. Quando a tinha é nova, não seca direito, aí já viu. Mas notei que esse problema costuma ocorrer com maior freqüência em edições da Conrad e Pixel. Nas da Panini, não notei isso. Mas não dou sopa para o azar. Ficam em pé, sem deixar muito apertadas umas às outras.

Para evitar insetos, coloco grãos de pimenta do reino e cravo nos nichos da estante. Afasta qualquer traça que você possa imaginar. Se observar bem, os pontos pretos que aparecem em algumas fotos são esses pequenos truques.

Além disso, montei a estante longe de paredes externas e janelas. Com esses cuidados e uma limpeza de vez em quando, os tesouros estão preservados.

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Talvez o maior problema para nós, colecionadores, seja o espaço. Lembro de quando você comprou a sua estante para guardar a sua coleção. Pelo jeito você vai ter que comprar outra não é mesmo?

Na verdade, comprei o material e eu mesmo a montei. Desenhei como queria e pedi para a loja de materiais já cortar nas medidas definidas. Aí, foi só usar a parafusadeira, parafusos, pregos e pronto. Em um final de semana, estava montada a estante. Nas mesmas medidas, a marcenaria queria me cobrar R$ 3.000,00. Meu custo ficou em menos de R$ 600,00. Sobrou grana para os gibis.

Mas, sim. Já estou pensando em montar outra, porque essa vai encher logo.

Sei que você estava atrás da Heróis da TV 1. Você já conseguiu essa edição?

Ainda não consegui. Até apareceram algumas, mas estavam pedindo de R$ 300,00 para cima. Aí não dá. Tenho paciência. Um dia aparece uma com valor mais baixo. Eu até poderia pegar um fac-símile para tapar buraco, mas não seria a mesma coisa. Gosto mesmo é de original, com toda a história que carrega de seus antigos colecionadores. Às vezes, achamos coisas dentro dessas edições antigas. Eu mesmo já encontrei cartões postais, cartas, figurinhas antigas. É sempre uma surpresa.

Qual foi sua última leitura e qual está sendo a atual?

Toda noite, tem leitura. A última que li (ou reli), foi justamente a do Bloquinho, que mencionei acima. Passei bons momentos relembrando a infância. A atual está sendo Maus, que comprei há pouco tempo. Fazia tempo que estava atrás e, finalmente, apareceu a um bom preço na Amazon. Espetacular!

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Se tivesse que escolher um gibi pra eternidade, qual seria?

Fácil. Heróis da TV 11. Foi esse que me fisgou para o mundo da Marvel e dos heróis.

Obrigado pela entrevista, Sandro. Para finalizar, deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Agradeço a oportunidade, Alexandre! O recado que deixo é que não desistam de suas coleções, apesar das traças, poeira e preços exorbitantes.

Cultura é essencial e preservar a memória das histórias em quadrinhos faz parte de nossa missão.

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Minha Estante é um espaço pra você, colecionador de HQs, mostrar sua coleção, falar sobre prazeres e vicissitudes desse hobby, conhecer outros fãs e proporcionar aquela inveja boa.

Convidamos a todos que possuem belas coleções de quadrinhos a mostrarem elas aqui!

É só mandar um e-mail para [email protected] dizendo alguns detalhes (números de revistas, itens raros e particularidades) que em seguida combinamos a entrevista.

Até a próxima!

O Estilhaço, de Carolina Ito

Por: Tamiris Volcean. 

Era dezembro de 2013. A jornalista Carolina Ito partia em uma viagem que mudaria seu modo de ver o mundo. Carolina precisava de um tema para o produto de seu trabalho de conclusão de curso e decidiu colocar o Vale do Jequitinhonha, uma região que aguçava sua curiosidade e lhe causava inquietação, no universo dos quadrinhos.

Infiltrando-se em uma expedição de voluntários, a então estudante viajou três dias para chegar ao seu destino final. O comboio saiu de Olímpia (SP) e a viagem não foi muito agradável.

  
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O Vale do Jequitinhonha

A região, pertencente ao estado de Minas Gerais, é conhecida pelos baixos indicadores sociais e por apresentar, em algumas regiões, características do sertão nordestino. O vale comporta 75 cidades que se distribuem até a divisa de Minas com a Bahia. De acordo com o Portal Pólo Jequitinhonha, a região possui uma população de aproximadamente 1 milhão de habitantes.

Em 1974, o vale foi batizado pela ONU de “Vale da Miséria”.

Carolina chega à Salinas

Quando realizou a parada na primeira cidade da região mineira, Carolina sentiu-se uma estrangeira. Esse sentimento, mesclado com inspiração advinda da obra de Albert Camus, deu nome ao primeiro capítulo da HQ. Em um ambiente totalmente novo e desconhecido, a estudante de jornalismo saiu de sua zona de conforto.

Quando questionada sobre os fatores que a fizeram sentir-se completamente estranha a um povo que compartilha a mesma nacionalidade, Carolina responde:

“O fato de vir de outro estado, falar de modo diferente, ter vivido em cidades que, à primeira vista, não se pareciam com as cidades que percorri no Jequitinhonha e até o fato de eu ser meio oriental me faziam sentir que havia uma diferença brutal entre nós. Depois vi que não era bem assim.”

 Em seus desenhos, a autora mostra sua visão sobre aquele novo pedaço de mundo que acabara de descobrir. É como se chegássemos ao local junto dela e, dessa forma, pudéssemos entrar em contato com aquele povo tão intensamente quanto ela.

Segundo Carolina, os moradores com os quais conversou para escrever o roteiro de sua HQ eram, em geral, bem receptivos e gostavam e conversar. Sabendo que o Vale do Jequitinhonha sofre pelo isolamento geográfico e cultural, ter uma pessoa disponível para ouvir histórias de vida e, principalmente, sobre as dificuldades vivenciadas por aquele povo, tornara-se um presente e a satisfação de uma necessidade.

Ser mulher no Jequitinhonha 

No segundo capítulo da HQ, Carolina mostra-se mais habituada à região e as entrevistas começam a ser retratadas por seus traços. Neste capítulo fala-se, sobretudo, sobre a seca que assola a região em algumas épocas do ano. No entanto, algo me chamou a atenção.

Em um dos quadros, uma das personagens inicia um diálogo com Carolina. Apesar de ser, como ela mesma classificou, uma estrangeira naquela espaço, a personagem que a interpela não demonstra curiosidade ou interesse por questões culturais, pessoais ou motivacionais que a levaram até ali. Logo de cara pergunta: “E só tá você de mulher?”.

As estruturas familiares no Jequitinhonha deixam claro as relações de poder entre homens e mulheres. Uma mulher desacompanhada em meio a um comboio de homens voluntários causa espanto aos moradores da região. Carolina diz que foi alertada para não sair sozinha para fazer as entrevistas, pois teria problemas, mas, como boa jornalista, rompeu essa regra inúmeras vezes para não perder a fonte.

Perguntamos à autora o que é ser mulher no Jequitinhonha:

“A mulher cuida dos filhos a maior parte do tempo, enquanto o homem vai buscar emprego em lugares próximos da capital ou em outros estados, já que as condições econômicas do Jequitinhonha não garantem emprego o ano todo. Isso me intrigava, afinal, a maioria das mães era jovem, cuidavam de cinco, oito filhos e isso deve ser totalmente exaustivo. Sem contar os relatos de violência sexual que ouvia aqui e ali, mas não tinham comprovação, já que a denúncia não é recorrente. Apesar disso, as famílias, sobretudo nas cidades menores e distritos, pareciam formar uma rede de solidariedade em que um ajudava o outro no que podia.”

Não precisamos ir até o vale para sentirmos o peso nos ombros destas mulheres que, apesar da dura jornada de trabalho doméstico, não são reconhecidas por seus familiares. Os desenhos de Carolina retratam o descaso com a aparência e com a saúde. Seus traços, intensificados na região abaixo dos olhos, fazem com que possamos sentir o cansaço daquelas mulheres a muitos quilômetros de distância. Cansaço físico, mental e emocional.

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Ser mulher no universo dos quadrinhos

Mas não é só no Jequitinhonha que as mulheres sentem o peso da indiferença. Quando buscamos autoras reconhecidas no universo dos quadrinhos, também notamos a baixa representatividade do sexo feminino. De acordo com o grupo Mulheres em Quadrinhos, dedicado a discutir a problemática de gênero no setor, apenas 13% dos indicados ao Troféu HQMix 2015 eram mulheres. Carolina foi autora do levantamento divulgado no Mulheres em Quadrinhos, todo o trabalho pode ser conferido em seu blog.

Carolina driblou o machismo ao enfrentar saídas sozinhas em busca de entrevistas que tornassem sua HQ interessante ao público, no entanto ainda luta contra o machismo presente em um universo que ainda não escancarou as portas para as mulheres. Dona do blog Salsicha em Conserva, Carolina vai além do Jequitinhonha para discutir temas que ainda a incomodam no mundo das HQs.

Detalhes das cenas do Jequitinhonha

Li a HQ de uma só vez. Estive no Jequitinhonha. Sempre fui amante da literatura por muitos motivos. Um dos principais, era o fato de poder viajar o mundo utilizando a imaginação. De uns tempos para cá, consegui transpor essa abstração de espaço para as histórias em quadrinhos também. Viajar pelos traços, ficar cara a cara com as personagens, transformar o olhar do(a) autor(a) em meu olhar. Lendo Estilhaço não foi diferente. Consegui acompanhar o olhar de Carolina sobre a região.

Em muitas cenas, podemos notar o uso do plano detalhe, focando, principalmente, a boca e olhos da personagem. Cenas que trazem dramaticidade à obra e nos faz imergir nas histórias de vida contadas pelas pessoas retratadas. Detalhes que passariam despercebidos pela maioria dos participantes da expedição que levou Carolina ao miolo de Minas Gerais, mas que não passaram pelo filtro da jornalista, que conseguiu garimpar histórias únicas daquele mar areado.

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Os sonhos e a fé do Jequitinhonha

Jocélia é uma adolescente cheia de sonhos. Com seus óculos de grossa armação, ela convida Carolina para adentrar em seu cafofo, como ela mesma gosta de denominar o pequeno espaço que considera só seu. Ela mesma juntou dinheiro e comprou o cafofo. Dentro do seu próprio espaço, compartilha seus sonhos com Carolina – o maior deles, sair do vale em busca de formação universitária. Jocélia é uma das tantas meninas-mulheres da região. Pequena em tamanho, grande em disposição para aguentar a dura realidade que a ronda.

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Na cena em que retrata Jocélia compartilhando seus sonhos, Carolina faz uso do enquadramento plongée.

Percebo o quanto a escolha do enquadramento influencia na mensagem que uma cena de HQ pode transmitir. A autora confirma:

“Tentei mostrar que Jocélia falava coisas muito parecidas com o que eu pensava na idade dela – eu, branca, classe média, nascida no interior de São Paulo – e também sonhos parecidos, vontade de conhecer outros lugares, de conquistar autonomia.  Acho que esse enquadramento coloca o leitor na posição de um observador, de alguém que assiste a conversa entre duas mulheres que se assemelham de alguma forma. Mas também há momentos em que a perspectiva é da própria personagem ou do que seria a visão do narrador. Essa possibilidade de brincar com as instâncias narrativas, com os “pontos de vista” nos quadrinhos me fascina bastante.”

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O povo do Jequitinhonha sonha na mesma proporção que tem fé. Durante toda a HQ, notamos, em muitos pontos, a fé intensa daqueles habitantes que enfrentam uma adversidade por dia. Nos diversos relatos ao longo do enredo, entramos em contato com a seca, fome, descaso governamental e isolamento social, entretanto, estes mesmos relatos sempre terminam com alguma frase de esperança. Esperança revestida de fé. A fé é, sem dúvida, algo marcante.

“Acredito que o apego à fé e à religião seja fruto de uma sensação geral de abandono, já que eles não acreditam que os representantes políticos nem o setor público vão mudar radicalmente as condições por lá.”

Estilhaço é voz do Jequitinhonha

Isolado geograficamente dos interesses governamentais, os problemas do vale são pouco divulgados e discutidos. Escolher essa região como tema central da HQ comprova que os quadrinhos podem tratar de assuntos variados, desde a ficção tradicional, até abordagens que possuam vínculo direto com a realidade.

Estamos acostumados a encontrar enredos relacionados a conflitos quando buscamos uma história em quadrinhos, como nas famosas HQs de Joe Sacco. Entretanto, devemos olhar para a mistura de traços e falas distribuídas em balões como uma forma complexa e atraente de se contar uma história. Os balões de Estilhaço eternizam e espalham as palavras, sonhos, aspirações, temores e ideias daqueles que nunca foram ouvidos, dando voz aos marginalizados pela sociedade.

Quando escolhemos abrir a primeira página de Estilhaço, o abismo que há entre nós, estrangeiros, e o povo do Jequitinhonha diminui. Encontramos problemas reais, dotados de rostos expressivos. A obra de Carolina Ito reafirma a função social das histórias em quadrinhos, a qual torna-se, muitas vezes, esquecida em meio a publicações de entretenimento.

O caleidoscópio

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Logo no início da obra, deparamo-nos com uma lembrança pessoal de Carolina. Quando criança, a autora foi presenteada com um caleidoscópio e o utilizou como metáfora ao longo do livro.

Quando a imagem do caleidoscópio apareceu pela primeira vez, fiquei algum tempo observando a ilustração que ocupa uma página inteira. Por que esse objeto marcara tanto a vida de Carolina a ponto de ocupar papel de destaque em sua primeira HQ?

Chegando ao fim, eis o caleidoscópio novamente. Para fechar o enredo. E por entre aqueles cacos de vidros sobrepostos, pude encaixar cada história lida nas dezenas de páginas. Cada uma ocupando o seu lugar naquele quebra-cabeças complexo.

Entendi, enfim, que o caleidoscópio era uma das melhores formas de demonstrar o quão fragmentada é a realidade em algumas regiões do Brasil – e do mundo! Diante dos problemas, uma vida se quebra aqui e outra perde uma ponta acolá, sobrando apenas cacos soltos que juntos formam construções difíceis de compreender à primeira vista. Carolina complementa:

“O caleidoscópio dá a ideia da complexidade do ser humano, de que não é possível encaixá-lo dentro de papeis, estereótipos e preconceitos. Em um nível mais pessoal, reflete um estado constante de espanto, de desconstrução, de enxergar as pessoas em suas particularidades e semelhanças.”

A viagem de volta

Após percorrer as tantas cidades do miolo mineiro, Carolina sobe no comboio em direção ao estado de São Paulo. Exausta e com a cabeça fervilhando para começar a escrever o roteiro, a jornalista retorna com a certeza de que é possível unir suas duas maiores paixões: os quadrinhos e o jornalismo. Quando questionada sobre o que mudou na Carolina que chegou no Jequitinhonha e aquela que partiu em direção ao sudeste novamente, responde:

A mudança teve muito a ver com autoconhecimento, uma tentativa de me sentir menos “estrangeira” em relação aos outros e a mim mesma, como disse anteriormente. E tive a certeza de que quero contar mais histórias como essa.”

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Estilhaço
60 páginas
Miolo em preto, branco e cinza.
Papel offset 90g.
Capa dura colorida.

Lançamento de The Witcher em quadrinhos!

Intitulado The Witcher: A Casa de Vidro, livro foi lançado em 2014, nos Estados Unidos, e desde então é aguardado, no Brasil, com ansiedade pelos amantes dos quadrinhos.

 

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A Pixel Media, selo do Grupo Ediouro, lançará, na próxima semana, a versão brasileira, em HQ e capa dura do livro The Witcher. Intitulado The Witcher: A Casa de Vidro, a obra do escritor Paul Tobin e do desenhista Joe Querio foi lançada em março de 2014 nos Estados Unidos pela Dark Horse, marca licenciada pela Pixel. Desde então, o público fã dos quadrinhos no Brasil tem aguardado ansiosamente a entrada da obra no mercado brasileiro, que será lançada na XVII Bienal Internacional do Rio, a maior feira literária do Brasil, que acontecerá de 3 a 13 de setembro, no Riocentro – Rio de Janeiro (RJ).

O livro The Witcher: A Casa de Vidro está disposto em 144 páginas, 16 a mais do que a versão estrangeira, e é composto de cinco revistas, cujas histórias se inserem no ambiente fantasioso dos contos de título homônimo do escritor polonês Andrzej Sapkowski. A versão brasileira de The Witcher, apresentada no formato 17 X 26, com o preço de R$ 34,90, estará nas bancas e livrarias a partir de setembro de 2015.

As histórias de The Witcher são repletas de cenas de lutas, com intrigas políticas, envolvendo diversas raças e espécies de animais. Além disso, possuem um leve teor sexual. O público cativo da série é composto predominantemente de homens, de 13 a 40 anos.

 

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Sobre The Witcher

The Witcher é uma série de 18 contos escrita pelo autor polonês Andrzej Sapkowski e compilada em cinco livros, lançados no Brasil pela Martins Fontes. A obra conta a história de seu personagem principal, Geralt de Rívia, que viaja pela Floresta Negra e encontra a Casa de Vidro – um labirinto mal assombrado.

A obra foi traduzida em diversas línguas e transportada para vários formatos: longa-metragem, série de TV, quadrinhos e jogos de mesa, além de games.

Além do enorme sucesso dos livros na Europa e Estados Unidos, The Witcher realmente ganhou força ao chegar aos videogames, em 2007, atingindo todo um novo público gamer que volta aos livros para poder expandir o universo da série.

O primeiro e segundo jogos venderam mais de 5,5 milhões de cópias no mundo. O terceiro – The Witcher: Wild Hunt – acaba de ser lançado, em maio de 2015, e deve ganhar todos os prêmios de melhor jogo do ano.

Dados do produto:

> Páginas: 144

> Formato: 17 x 26

> Preço: R$ 34,90

> Capa Dura

Editora Jambô lança graphic novel de Ariel Olivetti

No século XVI, os conquistadores espanhóis são atacados por criaturas poderosas e assustadoras nas florestas do Novo Mundo. Para garantir os interesses da Espanha, é chamado um temido inquisidor, conhecido por resolver de forma rápida (e cruel) problemas desse tipo. Mas, sem que os conquistadores desconfiassem, o guardião responsável pelos ataques trava uma batalha interna contra o próprio destino de seu povo.

Ich é a surpresa da Jambô Editora, álbum que será lançado na Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro, dentro da homenagem do evento à produção literária da Argentina. Ich é o mais novo trabalho da dupla Luciano Saracino e Ariel Olivetti, com uma narrativa envolvente e a deslumbrante arte pintada de Olivetti.

 

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O álbum foi lançado pela dupla recentemente (em 15 de agosto) na Argentina, e agora chega ao Brasil pela Jambô Editora.

FICHA TÉCNICA

– R$ 35,00
– capa cartão
– brochura
– colorido
– 96 páginas (papel)
– 17 x 24 cm

 

Luciano Saracino nasceu em 1978 e é um escritor tremendamente versátil, que já escreveu mais de quarenta livros, inclusive a biografia Jim Morrison O Rei Lagarto e o livro para crianças Agenda dos Monstros, além de roteiros para a editora Dark Horse.  Saracino é um dos escritos argentinos que faz parte da comitiva que virá para a Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro.

 

Ariel Olivetti é desenhista, nasceu em Buenos Aires e é conhecido pelos seus trabalhos na DC Comics e Marvel Comics, como Lanterna Verde, Batman: Lendas do Cavaleiro das Trevas, Cable e Justiceiro: Diário de Guerra.

 

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Necro Morfus – Resenha

Necro Morfus – 2014

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Do dia 17 à 19 de julho de 2015 tivemos o 21º Fest Comix aqui em São Paulo. Quem acompanha minhas resenhas já deve estar sabendo que costumo fazer a rapa de quadrinhos nacionais e independentes nestes eventos. Na Comic Com Experience no ano passado, eu havia proposto apenas comprar gibis desconhecidos que custassem no máximo 15 reais, pois dessa maneira tentaria dar mais valor para a galera que está começando e que geralmente passamos reto quando temos olhos apena para os peixes grandes. Veja aqui as resenhas da Comic Con e outras.

Nesta Fest Comix, decidi apostar em quadrinistas e roteiristas que tivessem duas características essenciais, na minha opinião, para esse tipo de evento. Eu poderia ficar aqui dando uma espécie de sermão, falando como os expositores e vendedores poderiam se portar para “ME” agradar, mas não vem ao caso. Nessa resenha estou aqui para falar de Necro Morfus de Gabriel Arrais e Magenta King. O que vem ao caso é que este foi um dos únicos gibis que não comprei no evento.

O que aconteceu foi que Gabriel estava no mesma mesa que Marcio R. Gotland, autor de Greg – O contador de histórias. Estava trocando algumas ideias com Marcio e dando uma olhada nos gibis que estavam na mesa. Vocês sabem como é: alguns você pega e folheia, outros você apenas passa o olho por cima. Enquanto isso os artistas ficam tentando te vender seus próprios peixes – certo eles – te apontando seus próprios gibis ou indicando de seus parceiros. Porém, eu não havia notado Necro Morfus. Quando estava de saída levando apenas o gibi de Marcio comigo, o Gabriel levantou, me chamou, pegou um exemplar do seu trabalho e me presenteou com ele. Por que dar falar sobre isso?

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Bom, por que saquei nessa situação uma coisa muito interessante sobre esses eventos e sobre a relação entre artistas e imprensa. Nós resenhistas, blogueiros, vlogueiros e outros obviamente gostamos de receber quadrinhos e outros materiais de presente. Também entendemos que alguns o fazem apenas para ganhar uma resenha, ser indicado no youtube e por aí vai. Isso faz parte do esquema e apesar de ser meio estranho, as vezes parecendo agiotagem de ambos os lados é uma relação importante para ambos. Assim sendo, na maioria das vezes pago pelos quadrinhos que me interessei, sem barganhar nem nada e aceito presentes quando vem. As resenhas saem quando fico animado com o gibi e acho que tenho o que falar sobre ele, sem me sentir pressionado por fazer esta ou aquela resenha.

Só que desta vez, enquanto eu estava indo embora da mesa, Gabriel sacou que eu não levaria seu gibi. Não sei se ele percebeu que a chance de conseguir uma resenha estava indo embora. Ou se simplesmente quis ser legal. De qualquer maneira, senti que Arrais achou que eu PRECISAVA levar Necro Morfus. Quando recebi o presente, pedi para que ele me explicasse sobre o quadrinho, o que fez brevemente e pronto. Essa situação foi tão inquietante que nem lembrar de pegar autógrafo lembrei. Teve algo de muito espontâneo e inusitado em como tudo desenrolou. O que fez Gabriel mudar de ideia e resolver me dar o gibi nos 45 do segundo tempo? Quando li o quadrinho, pude formular uma possível resposta: Gabriel Arrais acredita no potencial de sua história.

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Necro Morfus é roteirizado pelo próprio Gabriel e a arte é assinada por Magenta King. Foi publicado pelo selo RQT Comics que é gerenciado por ambos em conjunto com Diego Benine (revisor), sendo que Necro Morfus é o primeiro projeto publicado por eles na RQT. O gibi que tenho em mãos é o primeiro volume, que acredito que se chama “osso do rei”. Na introdução Gabriel nos deixa por dentro dos processos de criação de seu roteiro, assim como ao fim da história temos uma “galeria de esboços” de King, no qual podemos ver uma sequência de estudos na construção dos personagens.

A história tem como personagem principal Douglas, um garoto de 16 anos que por algum motivo ainda não explicado adquiriu a maldição de poder de assumir a aparência e algumas memórias de que qualquer pessoa ou animal que esteja morto/a. Para tanto, basta apenas tocar nos restos das mesmas. Com isso, seu próprio corpo e aparência estacionaram no tempo, fazendo com que ele próprio não envelheça mais. O gibi começa com uma sequência sensacional na qual, Douglas está utilizando o corpo de uma atriz pornô enquanto transa com outra mulher. Ao mesmo tempo em que está transando, narra em monólogo interior sua situação, fazendo paralelos com a mitologia grega e o mito de Tirésias, aquele que podia escolher ter corpo de homem ou corpo de mulher, ou seja, sabia do gozo de ambos os sexos.

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Essa é uma ideia muito bem trabalhada nestas primeiras páginas, ainda mais pela escolha que Gabriel fez. Como nos diz o personagem, podendo ele escolher em obter prazer como homem ou mulher, ele escolhe fazê-lo sempre como mulher e com outra mulher. Na minha opinião, Gabriel corria um grande risco nesta abordagem, já que a situação ontológica de seu personagem o obriga a fazer afirmações um tanto quanto radicais sobre o que é a ontologia em si e mais radicais ainda quando se trata de argumentar sobre diferenças entre os modos de gozar em um corpo feminino e um corpo masculino. Arrais de maneira objetiva e afastando-se da maioria dos clichês faz uma aposta interessante que deixaria qualquer psicanalista lacaniano cheio de orgulho.

Há algumas coisas que precisam ser trabalhadas para melhorar o gibi. Cenas como a inicial e a do sequestro são excepcionais  e extraem o melhor do roteiro e da arte. Os traços do Magenta King tem seus pontos altos exatamente nestas cenas, em que predomina a ação e a violência. Os movimentos fluem sem que precise de muito para isso. Há algo muito vivo em sua arte, o que faz com que as cenas de diálogos e as mais ralentadas fiquem um pouco “mancas”. As cenas entre Douglas e o psiquiatra Dr. Krehl são definitivamente o ponto fraco da história.

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Psiquiatras, psicanalista e psicólogos sempre são retratados de maneira bastante standartizadas e excessivamente clichê nos quadrinhos, cinema e literatura em geral. Em Necro Morfus não é diferente. Para dar um exemplo, o Dr. Krehl é um psiquiatra no melhor estilo psicoterapeuta, coisa raríssima à algumas décadas. Quem frequenta psiquiatras hoje em dia sabe que essa história de passar sessões longas contando sua história para o médico é romance hollywoodiano. A maioria dos psiquiatras hoje em dia não passam de 20 minutos com seus pacientes e baseiam os tratamentos muito mais em psicofarmacos do que em sessões psicoterápicas.

Porém, não acho que Gabriel deveria se preocupar com a veracidade deste personagem, pelo contrário, apesar do Dr. Krehl não ser um psiquiatra convencional – e isso fica muito claro na trama -, sua função na narrativa ainda não está definida. Ficou claro para mim que o Dr. Krehl entrará na trama por outra vertente, que sua função na narrativa não é dar profundida à Douglas, entretanto, houve certa derrapada e está foi exatamente a função que assumiu. Os diálogos entre os dois quebram excessivamente o ritmo da história, mesmo quando associados à flashback.

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O problema que enxergo neste personagem e que fez com que as cenas entre Douglas e o psiquiatra fossem muito destoantes do resto do gibi é que se o personagem principal “conversa” com o leitor através de um monólogo interior, qual o sentido de ele conversar com um psiquiatra? Os monólogos interiores de Douglas poderiam funcionar muito bem sobrepostos à outras cenas, como acontece na primeira cena, por exemplo. Neles poderíamos saber tudo o que precisamos saber sobre os sentimentos do personagem, dando a ele a profundidade precisa e necessária.

O Dr. Krehl deveria ser levado ao seu limite enquanto personagem. Suas intenções deveria ser completamente opacas e impossíveis de serem computadas, ficando mais claras ao longo do tempo. O recurso do monólogo interior não precisaria ser abandonado nestas cenas, deveria ser levado ao extremo. Douglas poderia muito bem estar conversando com os leitores enquanto conversa com o psiquiatra. Este recurso poderia ser usado para provocar a tensão necessária entre os dois personagens, que se bem entendi era a intenção de Gabriel.

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Em resumo, o gibi é muito intrigante e possui um roteiro interessantíssimo, sedimentado em uma boa ideia. A arte funciona muito bem em boa parte da história e mesmo nos poucos momentos que está desafinada com a narrativa, não deixa de ser bonita. Há alguns pontos que podem ser melhorados, mas mesmo assim estou aguardando o próximo volume. Gabriel Arrais, Magenta King e Necro Morfus devem ser acompanhados de perto.

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