Martin Scorsese e a Música

Martin Scorsese, como todos sabem, é um excelente diretor, foi responsável por filmes memoráveis como Taxi Driver, Touro Indomável, Os Bons Companheiros, Cassino, Os Infiltrados, e muitos ouros, é um dos maiores nomes de Hollywood sem sobra de dúvida e está firmado como um dos melhores diretores do mundo, como se isso não bastasse ele é incansável e está sempre envolvido em diversos projetos, seja como produtor executivo, diretor convidado de série de Tv, administrando a Film Foundation, sua organização não lucrativa de preservação de filmes mudos e até atuando, além disso tudo ele ainda é um entusiasta da música e constantemente está envolvido em projetos sobre o tema e aqui reside o ponto principal dessa matéria.

Scorsese sempre demonstrou seu amor pela música, através das trilhas sonoras primorosas dos seus filmes, foi um dos editores do filme sobre Woodstock, dirigiu o videoclipe da música Bad do Michael Jackson, produziu e dirigiu documentários e shows durante toda sua carreira e com isso registrou para a eternidade a vida e as canções de grandes músicos, vamos aos principais:

Last Waltz: O Último Concerto de Rock (1978)

O ano era 1976, o motivo era o fim da The Band, a idéia era Martin Scorsese registrar o último show deles repleto de convidados e o resultado não poderia ser outro, um concerto memorável e acachapante.

Em seu show de despedida a The Band formada por Rick Danko, Levon Helm, Garth Hudson, Richard Manuel e Robbie Robertson, executou maravilhosas canções, muitas delas ao lado de grandes nomes como, Eric Clapton, Bob Dylan, Neil Young, Joni Mitchell, Ron Wood, Ringo Starr, Van Morrison, Muddy Waters, Neil Diamond, Dr. John e Ronnie Hawkins. Uma verdadeira celebração que por si só já seria sensacional, mas que sob as lentes e direção de Martin Scorsese ganhou ainda mais brilho. Clássico!

Eric Clapton: Nothing But the Blues: An ‘In the Spotlight Special’ (1995)

Scorsese também dirigiu esse excelente documentário sobre o lendário Eric Clapton, acontece que isso nunca foi lançado oficialmente e ninguém sabe ao certo o motivo, mas dando uma vasculhada pela internet, sebos ou com amigos colecionares que possam ter a rara cópia pirata em VHS é possível conferi-lo. Aqui, Clapton fala sobre suas principais influências musicais enquanto são mostrados trechos de shows de B.B King, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Freddie King e tal, também há cenas de um show de Clapton realizado em 1994 durante a turnê do disco “From the Cradle”.  Uma pérola escondida, infelizmente.

No Direction Home: Bob Dylan (2005)

Neste parrudo documentário de quase quatro horas de duração, Scorsese destrincha o período inicial da carreira de Bob Dylan, quando ele chega a Nova York em 1961 e acompanha seu trajeto até 1966. Repleto de detalhes e minúcias, podemos compreender muito bem como era a cabeça de Dylan naquela época, nunca um documentário sobre música foi tão a fundo na vida do protagonista.

Assistimos um Bob Dylan em seu início de carreia, os primeiros hits, quando suas músicas encabeçam marchas de protesto com fãs o endeusando, notamos o cantor começando a ficar puto da vida por  ter sua imagem associada ao rótulo de “cantor de protesto”, há trechos de entrevistas com repostas ácidas à perguntas idiotas, há também depoimento de Joan Baez, Allen Ginsberg, Pete Seeger, entre outros, e claro, trechos de diversos shows de Dylan, inclusive os paradigmáticos shows mezzo acústico mezzo elétrico, sendo que essa segunda metade era muito mais rock n´roll e Dylan era acompanhado pela The Band (aquela ali de cima) que na época deixaram alguns fãs mais  chatos de cabelo em pé e revoltados, pois Dylan “trairá o movimento folk de protesto”, isso tudo e muito mais, ou seja, imperdível para os fãs e pessoas que desconhecem a carreira desse que é um dos músicos mais importantes do mundo.

Shine a Light (2008)

Martin Scorsese é muito fã dos Rolling Stones, tanto que em vários dos seus filmes há músicas deles na trilha sonora. Aqui ele presta a devida homenagem a essa que é a maior banda de rock de todos os tempos e dirige as gravações de dois shows deles em 2006 no Beacon Theatre, em Nova York.

Preciso falar que é um espetáculo?! Os Stones não saem de forma nunca, fazem um show visceral, com alma e felling, e esbanjam simpatia. Os quatro são extremamente cativantes e a captura de imagem feita pela equipe escolhida de Scorsese é perfeita, apesar do improviso sugerido no início do filme, as tomadas são belíssimas e cada integrante é captado em momentos exímios, nos quais são mostrados sutilezas no comportamento de cada Stone, dá para notar que eles estão velhos, enrugados e Charlie Watts não esconde o cansaço, mas ainda são os melhores naquilo que fazem a quase 50 anos.

O show conta com três participações especiais, a apática Christina Aguilera, que não faz feio na música “Live With Me”, mas é completamente desnecessária ali, Jack White (White Stripes) que não fede nem cheira perto dos seus ídolos e não agrega valor nenhum ao espetáculo e e Buddy Guy, esse sim um convidado condizente, que arrasa cantado e tocando seus slides em “Champagne & Reefer” de Muddy Waters.

Scorsese ainda insere trechos de entrevistas dadas durante os muitos anos de carreira do grupo, são curtos, mas preciosos, nos fazendo lembrar da longevidade da banda e mostram um pouco mais da personalidade de cada integrante.

Imperdível!

Curiosidade 1: Um dos tietes presentes nesse show, é ninguém menos que Bill Clinton, que ao lado da ex-esposa, Hillary Clinton e da sogra “babam ovo” para os Stones.

Curiosidade 2: Keith Richards declarou alguns meses após o show que ainda não fazia a mínima idéia de quem era aquela menina loira que cantou ao seu lado no show.

Coleção “The Blues” (2003)

Deixei para falar dessa sensacional série por último, pois aqui Scorsese só dirige um episódio, mas é o grande mentor e produtor executivo de todo o projeto. Ele convidou seis grandes diretores, todos apaixonados por blues, para fazerem filmes especiais sobre o tema, resultando numa preciosidade sem igual para os apreciadores deste gênero musical.

A frase de Martin Scorsese estampada em todos os volumes diz tudo: ‘Se você já conhece o blues, então essa seleção de músicas vai te dar uma razão para voltar a ouví-lo. Se você nunca ouviu o blues, eu lhe prometo isto: sua vida esta prestes a mudar para melhor.’

Vamos aos filmes:

  • Red, White and Bluesdirigido por Mike Figgis (Garganta do Diabo, Despedida em Las Vegas): Nesse baita documentário Figgis explora o tema da revolução musical inglesa da década de 60, que através de expoentes como Rolling Stones, Cream, Led Zeppelin, John Mayall, Alexis Korner, Jeff Beck, que ao “beberem” da fonte do blues de raiz norte-americano deram uma nova roupagem a esse, catapultando o estilo para o mundo inteiro ouvir e assim os holofotes voltaram aos bluseiros negros americanos como Robert Johnson, Howlin’ Wolf, Muddy Waters, Freddie King, só para citar alguns. Intercalando ótimas entrevista com uma espécie de jam session gravada nos estúdios Abbey Road, onde grandes nomes como Jeff Beck, Tom Jones e Van Morison revisitam alguns clássicos do delta do Mississipi.
  • Warming by the Devil´s Fire, dirigido por Charles Burnett (série de TV “American Family”): Este é quase um filme auto-biográfico, no qual Burnett se retrata como um garoto crescendo no Mississipi na década de 50, sendo influenciado ao mesmo tempo pela música gospel e pelas pecaminosas canções de blues.
  • The Soul of a Men, dirigido por Wim Wenders (Paris, Texas, Buena Vista Social Club): Esse é um documentário sobre a vida de três monstros do blues, Skip James, J.B. Lenoir e Blind Willie Johnson, repleto de cenas raras e entrecortado por versões de artistas contemporâneos como Los Lobos, Nick Cave, Lou Reed, Bonnie Raitt e Eagle Eye Cherry. Sensacional!
  • Feel Like Going Home, dirigido por Martin Scorsese: aqui o diretor procura explicar as verdadeiras raízes do blues, ao lado do músico Corey Harris, vai desde Chicago, passando pelo Mississipi até a costa oeste da África,  traçando os principais elementos que compõe as canções, do tema até o ritmo, tudo isso regado com performances fantásticas de diversos músicos.

  • Piano Blues, dirigido por Clint Eastwood (Cartas de Iwo Jima, Menina de Ouro): para quem não sabe, além de ser um ator excepcional e ótimo diretor, Clint Eastwood é pianista e seu estilo musical favorito é o bom e velho blues, unindo o útil ao agradável ele dirige esse que para mim é um dos melhores documentário dessa série, repleto de cenas raríssimas e atuações soberbas de gente como Dr. John, Fats Domino, Ray Charles, Dave Brubeck, Duke Ellington e por ai vai, só petardo!
  • Godfathers and Sons, dirigido por Marc Levin (série de Tv “Law and Order”): o ex-cantor de Hip-Hop Chuck D (Public Enemy) ao lado de Marshal Chess (herdeiro da lendária gravadora Chess Records) vão para Chicago e reúnem músicos de blues com músicos modernos de rap, para mostrar como o Hip-Hop moderno tem suas raízes no Blues.
  • Road to Memphis, dirigido por Richard Pearce (Woodstock- Onde Tudo Começou) e Robert Kenner (Food, Inc.): O músico principal desse volume é o lendário B.B. King, aqui muito da sua vida é narrada, como sua terra natal é Memphis os diretores também dão um panorama do cenário musical da cidade e para isso resgatam alguma atuações fabulosas de Rosco Gordon, Ike Turner, Howlin´Wolf, Little Richard e Fats Domino, só para falar alguns.

Além disso tudo Scorcese está finalizando o aguardado documentário sobre o beatle George Harrison, que se chamará Living in the Material World: George Harrison e está previsto para ser lançado esse ano (vamos rezar),  está dirigindo a biografia de Frank Sinatra previsto para 2012 e também está com um projeto ao lado do roteirista Terence Winter ( Família Soprano, Boardwalk Empire) e Mick Jagger para uma série da HBO, possivelmente chamada History of Music.