“Crítico”: Quem crítica, amigo é?!

O recém-lançado documentário Crítico, escrito e dirigido pelo crítico e cineasta Kleber Mendonça Filho, pode ser resumido em duas letras, ou palavras, dependendo da preferência: D. E. – discutir relação. Sua sinopse oficial define que “70 críticos e cineastas discutem o cinema a partir do sempre interessante conflito que existe entre o artista e o observador, o criador e o crítico”. Por 76 minutos é exatamente isso que ocorre. Trata-se de um, amalgamando Manuel de Oliveira e Caetano Veloso, “cine-filme falado”. Praticamente todo o tempo de projeção é ocupado por depoimentos em close ou voz-off. Há poucos silêncios, e mesmo eles são eloqüentes. Mais do que um filme para ver, é um filme para ouvir. Trata-se de um D. E. babélico: escuta-se inglês, francês, espanhol e até português. E, semelhantemente à Babel bíblica, “semeou-se a confusão entre eles”. Mas uma instigante e necessária confusão; e o crítico viu que isso era bom.

Esse caráter multi-lingüístico é fruto das condições das filmagens. Elas foram feitas entre 1998 e 2007, nos bastidores de diversos festivais cinematográficos realizados no Brasil, Argentina, França, EUA, Alemanha etc. Durante anos, Kleber Mendonça Filho, usando na maioria das vezes câmeras digitais caseiras, recolheu de personalidades do mundo do cinema suas impressões sobre a relação criador-crítico. Entre os artistas figuram Eduardo Coutinho, Daniel Filho, João Moreira Salles, David Lynch, Gus Van Saint, Fernando Meirelles, Hector Babenco e Samuel L. Jackson, mais uma vez sendo confundido com Laurence Fishburne, dentre outros. Entre os críticos encontramos brasileiros, a exemplo de Hugo Sukman e Ruy Gardnier, a norte-americana Deborah Young, mas nota-se uma predominância de franceses, como Alain Riou, Michel Ciment e Pierre Murat.

O filme abre com um letreiro branco em fundo preto contendo uma pequena parábola: “Uma vez, o jornalista Michel Polac falou para o cineasta Jean-Luc Godard: ‘eu gosto cada vez mais de seus filmes. Será que sou eu que estou progredindo ou é você’. Godard respondeu: ‘claro que é você’”. Num primeiro nível interpretativo, àquele imediatamente focado pelos fãs do genioso e genial diretor, Godard teria colocado Polac em seu devido lugar, ao dizer que sua pobre alma teria, finalmente, evoluído o suficiente para entender sua arte. Porém, quando Godard disparou sua resposta ríspida para a pergunta inconveniente, não se deu conta que as palavras poderiam se voltar contra ele. Na mesma frase não podemos entender que Godard pode ter estacionado enquanto artista e Polac, seguindo em seu amadurecimento pessoal e crítico, o teria alcançado, tornando-se os dois muito próximos?

É esse tipo de labirinto de intenções que povoam o debate proposto pelo documentário. Nada nele é simplista. Não se busca o consenso, mas a reflexão. Para tanto, não há assunto tabu. Discute-se a validade de símbolos gráficos, estrelas ou bonecos, para qualificar filmes. Surge a sempre presente desconfiança de que críticos são artistas frustrados. Mencionam os exíguos prazos editoriais para de produzir textos sobre obras complexas. Problematiza-se a possibilidade e limites das relações pessoais entre criadores e críticos. Comenta-se sobre manifestos de artistas protestando contra a imprensa; e sua réplica, onde se acusa os diretores de serem mimados e não aceitarem que apontem os pontos fracos de seus filmes. E muito mais.

Kleber Mendonça Filho

Apesar de ser constituído quase inteiro de imagens feitas com câmera manual, o filme não é visualmente pobre ou cansativo. O trabalho de edição, assinado pelo diretor e Emilie Lesclaux, encontrou soluções simples, mas eficientes, para manter o interesse. A divertida e irônica vinheta de abertura é um exemplo. As falas são apresentadas de maneira ágil, mantendo cada figura o tempo exato na tela, não permitindo que ninguém se torne repetitivo ou cansativo. Outra ótima solução estética foi a interposição de curiosas imagens de arquivo entre os depoimentos. Vemos de gatos caindo de pé, pulos de para-queda, aviões alçando vôo, bolos de película, metalinguagem da filmagem de uma filmagem etc. Imagino que estão ali para gerar livres interpretações, mas nada pedante ou excessivamente hermético. Apresentam também rápidas cenas do dia-a-dia dos festivais, com entrevistas coletivas e debates pós-sessão. Tudo acompanhado por uma trilha sonora contagiante, assinada pela DJ Dolores. A música tema, por exemplo, é do tipo que nós faz sair do cinema assobiando.

Se existe um grande senão no filme é o fato de ter praticamente ignorado a crítica acadêmica. Centrando seus esforços nos representantes da imprensa, Kleber Mendonça Filho minimizou a importância da universidade no aprofundamento dos debates iniciados na grande mídia. Essa opção acabou podando parte do potencial de debate do filme. Discute em função do espectador, o consumidor imediato do filme, que lê a crítica na imprensa e pode, ou não, ser influenciado por ela. Porém, parece-me claro que, nas últimas décadas, foi na academia que se produziu a inserção da até então descriminada mídia audiovisual em debates culturais mais amplos, promovendo diálogos com a literatura, filosofia, a tradição cultural etc. Nesse sentido, nomes como Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet fizeram falta.

Em determinado momento do filme, a atriz Fernanda Torres surge citando uma célebre frase de Oscar Wilde: “Toda crítica é autobiografia”. Segundo esse aforismo, o texto analítico pensado em função de uma obra de arte seria sempre construído a partir de perspectivas eminentemente pessoais. Uma afirmação polêmica, na medida em que muitos críticos defendem o distanciamento afetivo do objeto analisado. A imparcialidade é a meta. Em todo caso, a frase de Wilde serve muito bem aos objetivos de Kleber Mendonça Filho. Na condição tanto de crítico quanto de artista, assim como foi Truffaut e é Bernardet, conseguiu equilibrar muito bem essas duas dimensões de atuação. Dedicou o filme “Para minha mãe Joselice, que sempre me falava de História Oral”. Nada mais pessoal. Ao mesmo tempo, não defendeu ou priorizou lago algum na disposição dos depoimentos. Fez, sim, um registro conceitualmente aceitável de História Oral, na acepção “científica” do termo. Nada mais profissional.

“Crítico” possui pouco potencial de alcançar o grande público. Mas é, desde já, um registro obrigatório para cinéfilos, estudantes e profissionais de cinema. É possível que muitas opiniões, quase cristalizadas, mudem no decorrer da projeção. Outras podem ser reforçadas. O filme, sem dúvida, ajuda a repensar atitudes e perspectivas. Não é isso que se deve esperar de um bom D. E?

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]