Pequenos Tomos, Grandes Obras: Considerações sobre o Livro de Bolso – Café com Quadrinhos #12

Na presente edição da aromática coluna, gostaria de abrir espaço para falar sobre um assunto ligeiramente diferente do que costumamos abordar nestas linhas; mas, queiram acreditar, tão bom quanto uma boa história em quadrinhos ou um Mocha Frappuccino de gelar o cérebro.

O tema de hoje: livros de bolso!

Aquele companheiro ideal nos longos minutos de espera, num momento de lazer qualquer, perfeito para presentear, ótimo para guardar, supimpa para ter – é bom, barato e com uma variedade colossal de títulos, gêneros e autores à disposição em qualquer banca de esquina, por um punhado de réis que seja.

Literatura de qualidade na palma da mão.

Discorro algumas considerações sobre o tema porque, de uns tempos para cá, venho adquirindo compulsivamente vários deles. Cada semana é um novo livrinho, e o mês termina com cinco ou seis novos títulos para uma coleção que cresce descontroladamente. Um vício pra lá de saudável.

Logicamente, concentro-me nas duas maiores coleções disponíveis no mercado brasileiro, aos cuidados das editoras Martin Claret e L&PM. Os sebos se encarregam de abastecer-me com antigas coleções de faroeste, ficção-científica ou romances policiais.

Atualmente, estou lendo – e plenamente fascinado – a coleção ENCYCLOPAEDIA, que a editora L&PM vem disponibilizando no mercado. Cada volume é uma edição especial sobre variados temas, da pré-história à Primeira Guerra Mundial, de Cleópatra à história de Paris.

Os textos afastam aquele pedantismo exagerado que alguns autores gostam de transparecer, os capítulos atraem tanto leitores de primeira viagem quanto os escolados no assunto abordado, com uma redação agradável e de fácil entendimento.

Esses livretos vêm sendo uma ótima fonte de pesquisa para trabalhos acadêmicos. E a um preço bastante justo, variando de oito a quinze reais. A última aquisição dessa série foi sobre os Dinossauros (uma das paixões da infância, ao lado de carros e heróis) e Guerra de Secessão, a famosa Guerra Civil Americana da segunda metade do século XIX.

Depois que você enfileira-os na estante, é uma beleza só contemplar as lombadas com múltiplos temas de fácil acesso. Tudo ao alcance de um braço esticado.

Não faz parte da coleção ENCYCLOPAEDIA, mas vale o registro pela analogia histórica: o livro Enterrem meu coração na curva do rio, do pesquisador norte-americano Dee Brown, que já virou filme e tudo (e é uma das influências do título Escalpo, da Vertigo).

Compreendendo um período de três décadas (1860-1890), narra os acontecimentos, relatos e versões da verdadeira aniquilação dos ameríndios quando da conquista do Oeste. Um prato cheio para quem gosta do bom e velho estilo western, nu e cru, como também é o caso de outro livro do mesmo autor: O Faroeste (esse nem existe no formato livro de bolso, mas rezo por isso).

Voltando aos temíveis répteis jurássicos, um dos melhores romances que li nos últimos cinco anos em formato pocket (numa parceia L&PM e Rocco) fora justamente o incrível PARQUE DOS DINOSSAUROS, de Michael Crichton. Depois de muito tempo, pude conferir a fonte original do famoso filme de Spielberg e, cá pra nós, é infinitamente superior.

Suspense, tensão e violência na medida certa. A cena do aviário; o primeiro encontro com os Raptors; e o ataque do T-Rex aos carros motorizados são, simplesmente, SENSACIONAIS.

Além do mais – e posso até ser condenado por isso, mas direi assim mesmo – o papel utilizado, próximo ao jornal, é muito melhor pra ler do que o A4 convencional das outras publicações. Resta saber se irão publicar a continuação, O MUNDO PERDIDO, neste mesmo formato. Tomara.

A Tumba, de H.P.Lovecraft, é outra leitura obrigatória. Nunca tinha lido nada do autor, e minha estreia se deu com dois pés direitos com esse livro de contos.

Putz, “A Fera na Caverna” diz tudo: baita suspense, toda aquela narração descritiva e rica em adjetivar as emoções do protagonista preso num labirinto cavernoso, totalmente entregue ao breu do local, silêncio ensurdecedor… Mas não sozinho. Foi um conto que o escritor fez em tenra idade! Esse cara deve ser bom mesmo, preciso me inteirar sobre suas outras obras. Estou aberto a sugestões!

Sobre heróis, não poderia deixar de mencionar algumas linhas sobre os parcos lançamentos que tivemos em solo nacional de alguns famosos vigilantes: a coleção CONTOS DE BATMAN (década de 1990, editora Abril); dois títulos do Super-Homem (um de contos, outro o romance “Morte e Ressurreição”, escrito por Lousie Simonson); e a coleção Marvel Pocket Books, da editora Panini.

Batman estrelou algumas historietas em prosa na coleção supracitada. Todas elas foram publicadas originalmente na série The Further Adventures of Batman como parte da celebração dos 50 anos de aniversário do Morcego, a partir de 1989. Na versão nacional, a editora Abril fez um trabalho pra lá de esquisito no projeto gráfico e excluindo vários contos, mas ainda assim vale uma busca pelos quatro volumes publicados, sendo dois deles com a Mulher-Gato em destaque.

Pouco mais de uma década se passou e foi a vez dos heróis Marvel darem às caras na literatura. Já aos cuidados da editora Panini, o primeiro livro lançado (Homem-Aranha –Ruas de Fogo) abriu espaço para mais três romances lançados: X-Men – Espelho Negro, Wolverine – Arma X e Quarteto Fantástico – Zona de Guerra. Cada qual em torno de 300 páginas.

Destaco a fiel adaptação da clássica HQ de Barry Windsor-Smith. Há alguns anos escrevi um artigo para o Universo HQ sobre esse livro, e repito aqui o mesmo entendimento: o romance vai muito além do gibi, melhorando sobremaneira a narrativa ilustrada.

Acrescenta profundidade a cada um dos principais personagens, além de gerar uma história paralela no passado de Logan em alguma missão suicida. Essa liberdade em trabalhar sobre algo já feito, gerando expansão, foi mais do que bem-vinda. Sinceramente, imagino como seria uma versão em prosa de A Piada Mortal ou O Cavaleiro das Trevas nesse estilo…

Pra terminar esse novo rápido debate, cito uma coletânea de Arthur Conan Doyle, famoso médico britânico criador de Sherlock Holmes: Dr. Negro e outras histórias de terror é recomendadíssimo aos fãs de suspense e mistério, bem ao estilo “doyliano”, com pistas aqui e acolá, mas o segredo só sendo revelando nas últimas laudas.

Leiam “O Caçador de Besouros” e tirem suas próprias conclusões. Duvido seus dedos largarem a brochura até saber as bizarras circunstâncias desse conto.

É isso aí, amigos, vamos terminando por aqui. Claro que deixei de citar várias obras, autores e gêneros, mas a coluna é sempre isso, reflexões rápidas sobre o assunto – que muito bem podem se estendidos nos comentários. Por exemplo, o autor mais prolífico do mundo beirando aos 1.100 livros, Ryoki Inoue (espero ter escrito certo, estou sem internet aqui pra conferir. Semana de mudança, tudo em caixa ainda, enfim…).

E tem livro de bolso do Stephem King nas bancas, hein? O Iluminado tá de graça, corram!

Como o editorial da Marin Claret sempre diz, “leia mais para ser mais!”.

 

Resenha do livro: Nas Montanhas da Loucura – H. P. Lovecraft

É uma pena, em primeiro lugar, que tenha sido cancelada a produção do filme feito com base em “Nas montanhas da loucura”. Dito isso, vou começar esta resenha falando um pouco sobre H. P. Lovecraft, sua obra e sua influência.

Howard Philips Lovecraft é um escritor de obras que seguem bem aquela linha do “ame ou odeie”. Seu estilo nunca primou por ser leve, sua narrativa adjetivada demais incomoda a muitos leitores contemporâneos, infelizmente. E digo infelizmente porque acabamos nos acostumando tanto com narrativas leves que corremos o risco de não mais apreciarmos outros estilos com o passar do tempo.

Quer você seja fã ou não, não há como negar a influência de H. P. Lovecraft e até mesmo seus passos muito importantes nas mudanças que as narrativas de terror foram sofrendo depois dele. Lovecraft criou, em suas obras, situações de um terror nefasto, de criaturas alienígenas e ancestrais do Cthullu Mythos.

Nesta nova edição de “Nas Montanhas da Loucura”, temos uma nova (e bela) tradução de Guilherme da Silva Braga, além de uma ótima introdução sobre o autor e apêndices interessantes: uma cara de Lovecraft sobre a obra em questão e um poema, no original em inglês e traduzido, “Antarktos” (além de sua prosa poética, Lovecraft também produziu poesias propriamente ditas), além das anotações do autor para o desenvolvimento de “Nas Montanhas da Loucura”, o que nos dá uma boa ideia de como desenvolvia suas obras.

Em apenas 14 linhas, “Antarktos” trazia os esporos dos vertiginosos pináculos antárticos, das meândricas galerias subterrâneas, das impressionantes Coisas Ancestrais e dos medonhos shoggoths, que mais tarde germinariam para dar corpo a “Nas Montanhas da Loucura”.

A narrativa em primeira pessoa, como de costume do autor, tem como objetivo fazer que nos aproximemos mais das sensações e emoções vividas pelo personagem principal-narrador. Cujo nome nunca é mencionado no livro, elemento este que não é tão incomum e tende a fazer com que as pessoas sintam mais ainda a identificação com o personagem, já que o próprio leitor poderia estar no lugar dele. E, nesta obra, o cientificismo é um dos elementos primordiais, com bastantes descrições técnicas, de geologia, biologia, só para citar algumas das ciências envolvidas. O cientificismo, mesclado à sensação de claustrofobia, além de outras sensações causadas pela existência de coisas estranhas e do medo que elas causam, perpassam cada linha da narrativa. Além disso, várias ramificações da ciência são usadas na narrativa, como, por exemplo, geologia, paleontologia, etc., o que dão um caráter realista a esta narrativa fantástica.

Ou seja, se você espera monstros surgindo por toda parte, a obra de H. P. Lovecraft pode lhe causar estranheza a princípio, pois o terror é visto em cada detalhe, desde uma pane em um avião ― aliás, um elemento bem de ficção cientifica, já que um avião era algo totalmente moderno para a época, para citar um exemplo.

Mesmo quem não é fã do estilo do autor deveria dar uma chance e tentar ler algumas de suas obras, pois elas são essenciais para a compreensão de muito do que surgiu depois dele. Lovecraft era uma espécie de pessoa e de escritor atípico, perturbado por sonhos aterrorizantes e que punha muito dele mesmo em suas obras, e daí vem o caráter altamente intimista de suas narrativas.

Para muitos, Tolkien está para a narrativa fantástica-épica assim como Lovecraft está para o terror-cósmico.

Ele cita, em “Nas Montanhas da Loucura”, diversas vezes o único romance de Edgar A. Poe, “As Aventuras de Arthur Gordon Pym”, e na introdução dessa edição da Hedra, sabemos porque ele resolveu mencionar esta obra em sua própria narrativa, que é uma espécie de depoimento que visa a evitar que uma nova equipe de exploração visite o lugar e, consequentemente, acabe se deparando com os horrores dos quais o narrador (e um sobrevivente) conseguiu fugir.

O gélido cenário retratado na ficção de Poe também era uma antiga obsessão de Lovecraft.

A Antártida, na época, era um local totalmente inexplorado, e não é de se admirar que se pensasse em terrores em uma imensidão gelada como aquela.

O excesso de adjetivos, que incomoda a alguns, pode ser uma atração a mais para outros leitores ― além do que, é uma característica que agrada à legião de fãs do estilo do autor, que se serve, geralmente, de uns quatro adjetivos para qualificar alguma coisa, seja som, material, cheiro, e tudo é altamente sensorial.

“Nas Montanhas da Loucura” trata de um legado infernal deixado por éons ancestrais em meio aos eternos picos nevados da desolação polar.

Eu já havia lido uma edição dessa história fazia um bom tempo. Portanto, foi praticamente como ler a obra pela primeira vez. Ainda depois de um tempo da leitura, não há como se esquecer dos fatores mencionados na obra, que nos remetem às possíveis coisas aterradoras que espreitam e nos esperam em lugares desconhecidos. O desbravamento de um lugar desconhecido sempre aterrorizou o ser humano, de modo geral, e não por causa de monstros ou coisas do gênero. E sim porque o desconhecido é assustador por natureza.

Em 1931, quase todo o globo terrestre já fora desbravado, e a Antártida era um dos últimos redutos ainda inexplorados do planeta.

A base dos mitos de Cthulhu, e bem explorados em “Nas Montanhas da Loucura”, é de que antes mesmo de surgirem os primeiros indícios de moléculas proteicas na Terra, que ainda se formava, há cerca de 5 bilhões de nãos, os verdadeiros criadores da vida aqui chegaram, vindos de galáxias distantes. E os membros da expedição vão se deparando com provas da existência de tais seres, cujas descrições são peculiares e, diga-se de passagem, bem nojentas. Seres com características de animais, vegetais e também minerais, os Antigos, como são chamados por H. P. Lovecraft são, de certa forma, “descobertos” pelos membros da expedição ― e os primeiros a adentrarem as montanhas geladas da loucura na Antártida acabam sendo mortos de uma maneira hedionda. Alguns até mesmo são dissecados…

Na verdade, pode-se dizer que “Nas Montanhas da Loucura” é uma forma de “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, no modo sci-fi.

Também pretendíamos obter a maior variedade possível das rochas fossilíferas superiores, uma vez que os primórdios da vida no reino inóspito do gelo e da morte são de suma importância para o nosso conhecimento relativo ao passado da Terra. Sabemos que em outras épocas o continente antártico teve um clima temperado e até mesmo tropical, e que abrigou uma fauna e uma flora das quais os liquens, os animais marinhos, os aracnídeos e os pinguins do extremo norte são simples remanescências; e esperávamos ampliar a verdade, a precisão e os detalhes relativos a esses dados.

Não era sangue, mas um fluido espesso de coloração verde-escura que parecia desempenhar o mesmo papel. Quando Lake chegou a este ponto, todos os 37 cães já estavam no canil ainda incompleto próximo ao acampamento, e mesmo a distância os animais começaram a latir furiosamente quando farejaram o odor acre e penetrante.

Aliás, a dissecação dos humanos por alienígenas é um elemento comum em diversas histórias, e, como li recentemente a HQ de Cowboys & Aliens (veja a resenha aqui), foi no mínimo curioso ver o alienígena invasor mencionar exatamente algo semelhante, de que dissecaria, para analisá-los, os humanos, ou, a como ele se refere, os mamíferos habitantes da Terra.

As coisas que venho guardando para mim dizem respeito aos corpos e a certos detalhes sutis que podem ou não conferir uma lógica incrível e horrenda ao caos aparente.

Algo no panorama fez-me pensar nas estranhas e inquietantes pinturas asiáticas de Nikolai Rerikh e nas descrições ainda mais estranhas e inquietantes do infame platô de Leng, mencionado no temível “Necronomicon” do árabe louco Abdul Alhazred.

Já fizemos, há um tempinho, a resenha da obra de Donald Tyson, o “Necronomicon”, inspirada no mundo de H. P. Lovecraft. Porém, mesmo que você não seja um conhecedor e/ou fã da obra de Lovecraft, são diversos os elementos da narrativa e de seu mundo criado que podem atraí-lo para a leitura desse clássico contemporâneo.

Os primeiros experimentos destes seres fizeram com que surgissem moléculas que geraram vida, seres simples que eles controlavam enquanto erigiam suas enormes cidades. Qualquer anomalia que surgisse entre suas criações, qualquer uma que representasse um risco aos Antigos era por eles eliminada. Dentre elas, a mais perigosa, que acabou gerando uma guerra que se desenrolou entre os Antigos e suas crias, foram os Shoggoths, os quais eram seres plasmáticos amórficos, e que tinham a habilidade de moldarem-se em qualquer forma, órgão ou função vital de que necessitassem. De tanto que os Antigos os alimentaram com seu controle destes seres por telepatia, para que a eles servissem e construíssem suas cidades, os próprios Antigos acabaram, com isso, fazendo com que os Shoggoths criassem consciência própria.

E é com tais horrores que se deparam o narrador e seu amigo, quando vão atrás de onde foram os primeiros de sua expedição, assim que perdem com eles a comunicação, para descobrirem o que se passou… e eles mesmos se deparam com horrores inomináveis.

Os fragmentos com as estranhas marcas tinham entre 500 milhões e um bilhão de anos.

Os objetos têm dois metros e quarenta centímetros de ponta a ponta. Torso em forma de barril de um metro e oitenta formado por cinco segmentos com diâmetro central de noventa centímetros e trinta centímetros nas extremidades. Cinza-escuro, flexível e extremamente resistente. Asas membranosas da mesma cor, com dois metros e dez centímetros de comprimento, estendem-se a partir dos sulcos entre os segmentos, embora estivessem recolhidas quando da descoberta (…) Possíveis bocas. Os tubos, os cílios e as pontas da cabeça em formato de estrela-do-mar estavam firmemente presos para baixo quando da descoberta, com os tubos e as pontas agarrados ao pescoço bulboso e ao torso. Flexibilidade surpreendente apesar da resistência.

O título da obra é usado na narrativa de forma elegante, em diversos momentos como o que escolhi para citar abaixo, sempre dentro do contexto das descobertas dos cientistas:

Não pude afastar a impressão de que eram coisas malignas ― montanhas da loucura cujas encostas mais ermas acabavam em um nefando abismo supremo.

Embora o objetivo, na trama desta narrativa, seja desencorajar expedições futuras, fica óbvio que, devido à curiosidade intrínseca do ser humano, o natural é que surgissem outras expedições… e quanto mais detalhes são revelados sobre as criaturas ancestrais que lá se escondem, mais a curiosidade é atiçada e, neste ponto, o ser humano não é muito diferente daquele ditado “a curiosidade matou o gato”. Pois os humanos aqui são os “gatos” que morrem e/ou quase morrem por querem descobrir além do que lhes é apresentado à primeira vista.

Se os indícios evidentes quanto à sobrevivência de horrores ancestrais que ora revelo não forem suficientes para evitar que outros se envolvam na exploração profunda da Antártida ― ou ao menos impedi-los de penetrar muito fundo na superfície do supremo deserto glacial de segredos proibidos e desolação amaldiçoada pelos éons ― a responsabilidade por males inomináveis e talvez imensuráveis não será minha.

Porém, foi graças à coragem dos primeiros que Nas Montanhas da Loucura se aventuraram, que os relatos de tais seres Antigos surgiram, pelo que ficamos sabendo durante a narrativa… e a Humanidade não teria história sem a ousadia, não é mesmo? Sendo assim, não apenas “Nas Montanhas da Loucura”, como outras histórias do Cthulhu Mythos e de H.P. Lovecraft lidam exatamente com medos e desejos tão inerentes ao ser humano quanto a necessidade de comer, dormir, respirar… a necessidade de aventura.

Resenha: Ana Death Duarte
Edição de imagens: Alonso Lizzard (créditos dos artistas das imagens no artigo original)
Exemplar do livro cedido pela Editora Hedra e publicado originalmente no iCultGen.

Weird Tales – O Maior Reservatório de Literatura Fantástica

Já faz muito tempo que estou ensaiando para fazer um texto sobre a maravilhosa publicação norte-americana Weird Tales que em seus mais de 30 anos de história brindou a humanidade com alguns dos maiores expoentes da literatura fantástica e, por que não, da literatura mundial.

Se você acompanha o Pipoca regularmente, já nos escutou falar mais de uma vez sobre os pulps, revistas de alta tiragem e baixa qualidade técnica publicadas nos EUA dos mais diversos gêneros, que foram a gênese de diversos heróis da Era da Pré-Era de Ouro e fundamentaram muitas das “regras” que regem o mundo da aventura até hoje.

Os pulps surgiram de fato no final do século XIX, mas sua notabilidade veio mesmo nas primeiras décadas do século XX e foram incontáveis as publicações lançadas, por um amplo número de editoras. A mesma variedade que encontramos em gêneros de filmes hoje ao entrar em uma locadora existia naquela época. Saíam revistas de mistério, terror, fantasia, ficção científica, guerra, romance, máfia, western, e como a linguagem praticamente não tinha concorrência (imagine um mundo sem internet, televisão, videogame, baladas, no qual male, male as pessoas tinham um rádio que era repartido por toda a família) e era tremendamente acessível, tornou-se um sucesso.

Vários personagens conhecidos até hoje surgiram nos pulps, como O Sombra, Ka-Zar, Conan, Zorro, Fu Manchu, Tarzan e Doc Savage, e muitos deram um pulo para sair dessa literatura (na época considerada de segunda mão) de bolso, rumo a um “patamar” mais sério, sendo que alguns foram além e tornaram-se ícones mundiais.

Outro detalhe interessante é que a maior parte das publicações que se prezavam, vinham com páginas ilustradas no meio das histórias (parecido com os livros de Monteiro Lobato) e as capas – a verdadeira vitrine que determinava se a revista seria bem sucedida ou não – eram planejadas com enorme cuidado, muitas vezes com tanto esmero quanto a própria história principal.

Hoje, vários autores que são publicados em edições de luxo pelas maiores editoras de todo o mundo como Jack London, H. G. Wells, F. Scott Fitzgerald, William Burroughs, Isaac Asimov e Sir Arthur Conan Doyle, surgiram primeiramente nos pulps. No Brasil, vários deles como o próprio Asimov – um dos papas da ficção científica – não tiveram nem metade de toda a obra publicada.

Vários dos pulps publicados eram picaretas, reuniam artistas e escritores de terceira categoria, mal remunerados e que estão hoje relegados exatamente ao que merecem: o esquecimento. Por outro lado, muita gente fazia um trabalho sério e comprometido que visava mais do que lucros – como as revistas Amazing Stories e Marvel Stories – e foi isso que permitiu a conjunção de fatores para revelar tanta gente boa. Entre a turma do bem, destaca-se aquela que viria a ser uma das maiores do gênero, se não a maior: Weird Tales (Contos Bizarros, em tradução livre).

Fundada por Jacob Clark Hennerberger e J. M. Lassinger, a revista estreou em março de 1923, baseada em Chicago e editada por Edwin Baird.

Baird tentou desempenhar um bom trabalho como editor e, na medida em que logo no primeiro ano da revista ele descobriu H. P. Lovecraft, Clark Ashton Smith e Seabury Quinn, temos que dar a mão a palmatória e reconhecer o bom trabalho feito. Lovecraft, em especial, é um nome altamente reconhecido que viria a influenciar praticamente tudo o que foi feito em termos de terror e ocultismo a partir de então. Entre seus textos mais famosos estão os contos que compõe os chamados Mitos de Cthulhu (escritos entre 1925 e 1935), com destaque para As Montanhas da Loucura, que recentemente tem sido muito citado na mídia por conta da insistência do cineasta Guilhermo Del Toro de adaptá-lo para o cinema.

Porém, apesar da alta qualidade da revista, as vendas não estavam indo de acordo com o esperado. Os proprietários Clark e Lassinger chegaram a fazer uma proposta para que Lovecraft se mudasse para Chicago e assumisse o cargo de editor, mas para desespero dos donos, o escritor a recusou. Após um ano, enquanto títulos rivais explodiam nas vendas, Weird Tales ia para o buraco, abrindo um déficit enorme, que resultou na demissão de Baird após 13 edições.

Sem opções, o trabalho de editor foi passado, então, para o assistente de Baird, Farnsworth Wright. Uma aposta tão arriscada quanto desesperada, mas que revelou-se, com o tempo, o maior acerto de toda a história da publicação.

Sob o comando de Wright, a Weird Tales começou o que ficou sendo conhecida como sua Era de Ouro. O novo editor tinha duas políticas, encontrar novos talentos e mantê-los felizes ao serem terrivelmente bem pagos, de forma que eles não levassem seus contos para revistas concorrentes. A estratégia funcionou.

A maior descoberta de Wright viria a ser, sem dúvida, o escritor Robert E. Howard, que logo se tornaria seu protegido. A disposição de Howard para escrever só rivalizava com sua inesgotável imaginação e sua prosa sensacional e não demorou muito para que o escritor começasse a entregar textos como ninguém jamais tinha visto antes. Entre eles, um certo bárbaro oriundo das colinas da Ciméria. Mas não foi apenas Conan que Howard criou – sua pena também deu origem a outros heróis famosos como Salomão Kane, Red Sonja, Bran Mak Morn, Rei Kull e El Borak. Além disso, Howard produziu centenas de outras histórias de gêneros diferentes e acabou se tornando nada mais, nada menos, que o criador do gênero Espada e Feitiçaria, influenciando até mesmo gente graúda como Tolkien.

A força da pena de Howard é sentida até hoje, mas não foi apenas ela que sustentou a revista. Wright tratou de tornar o complicado Lovecraft a presença mais constante possível, apesar de ele ter cometido o erro crasso de rejeitar As Montanhas da Loucura do escritor. Na verdade o que ocorria era que Wright tinha uma visão editorial muito clara de sua revista e sabia o que ela deveria ser. Para receber a boa remuneração que ele pagava com prazer, os escritores precisam suprir suas expectativas em termos de narrativa, mas também precisavam que suas histórias se enquadrassem na temática da revista – o que nem sempre ocorria.

Assim, se Edwin Baird publicava qualquer coisa que lhe dessem em sua época, Wright por sua vez era criterioso e envolvia-se em todas as etapas da produção da história, tomando a liberdade de especificar inclusive o que esperava das ilustrações e capas (e rejeitá-las também quando não eram de seu agrado). Mas longe de ser um carrasco, Wright sempre deixava claro aos escritores o motivo da recusa e não raro pedia que eles fizessem algumas alterações nas histórias para que essas se enquadrassem melhor na linha editorial. Vale dizer que ele jamais mexia em um texto por conta própria – era extremamente íntegro e respeitoso nesse sentido.

Enfim, não demorou muito para a Weird Tales dar um salto quântico nas vendas e sair do buraco, portanto, não dá mesmo para tirar os méritos do homem: ele sabia o que estava fazendo! Ainda assim, a publicação jamais foi um sucesso absurdo de vendas e de acordo com William Sprenger, gerente financeiro da empresa, ela raramente batia tiragens acima de 50.000 cópias.

Isso pode parecer muito para os padrões de hoje, contudo na época, os campeões de vendas como O Sombra ultrapassavam um milhão de exemplares – e mesmo após a quebra da bolsa em 1929 e durante os anos da Grande Depressão, essas revistas mantiveram tiragens acima dos 300.000. É uma diferença significativa, que dá a dimensão do que está sendo mostrado.

Mesmo assim, Wright continuava remunerando bem seus autores e descobrindo novos talentos, entre eles Robert Bloch, que com apenas 17 anos vendeu os contos The Feast in the Abbey e The Secret in the Tomb para Wright. O escritor que viria a ficar tremendamente famoso nos anos que se seguiram, era fortemente influenciado pela prosa de Lovecraft ao ponto de localizar suas primeira aventuras nos mundos fantásticos criados pelo escritor.

Outras grandes aquisições de Wright foram Edmond Hamilton que publicou 79 contos na Weird Tales, E. Hoffman Price (que escreveu a polêmica história The Stranger from Kurdistan, na qual Jesus Cristo tem uma discussão com Lúcifer) e C. L. Moore, uma das primeiras escritoras a trabalhar com pulps e criadora de Jirel de Joiry, a primeira heroína do gênero Espada e Feitiçaria, cuja história Black God’s Kiss foi comprada por Wright em1934.

Ele acertadamente também contratou a ilustradora Margaret Brundage para trabalhar nas capas – e ela, com uma enorme dose de ousadia e sensualidade, ajudou a criar uma identidade única para a publicação. Suas mulheres seminuas, inclusive, chegaram a despertar a ira da sociedade conservadora da época. Muitas pessoas reclamavam que o conteúdo era inapropriedade para ser estampado em uma capa ; outras diziam que as capas eram sexistas, tratando as mulheres de forma estereotipada. A comoção só terminaou quando Wright foi a público e revelou que a ilustradora (que assinava com o nome M. Brundage), era uma mulher.

Outro que deu grande contribuição às capas foi James Allen St. John, que posteriormente se destacaria muito como ilustrador profissional, fazendo capas para livros do Tarzan, entre outros heróis.

Sob a batuta de Wright, muitos nomes bons, porém menores, também fizeram parte do elenco da revista: Paul Ernst, John Flanders, Otis Adelbert Kline, Robert Barbour Johnson, Harold Ward, entre outros. Ele também tratou de trazer clássicos de escritores consagrados, como Edgar Allan Poe e Bram Stocker.

Porém, os anos dourados da Weird tales estavam prestes a acabar por conta de uma série de golpes mortais desferidos sucessivamente: em 1936, Robert Howard cometeu suicido, supostamente por conta da morte de sua mãe. Um ano depois, em 1937, Lovecraft faleceria vítima do câncer. Naquele mesmo ano, a mãe de Clark Ashton Smith também viria a falecer, o que o obrigou a cuidar do pai doente durante dois anos, até que este também morreu. Smith, severamente abalado emocionalmente, parou de escrever.

Os golpes abalaram a publicação, as finanças se complicaram e a Weird Tales foi vendida e transferida para Manhattan, em 1938. Wright permaneceu mais dois anos tentando realizar seu trabalho de editor, contudo agora precisava lutar constantemente contra as opiniões contrárias da nova diretoria, que queria baixar a remuneração dos autores, mudar o formato do título e começar a usar um papel ainda mais barato. Dois anos depois, Wright pediu demissão do cargo, sepultando definitivamente os anos dourados da Tales.

Ele foi substituído por Dorothy McIlwraith, que editou seu primeiro número em abril de 1940. Sob o comando de Dorothy, a Weird Tales entrou em uma fase completamente diferente, sendo mais eclética e burocrática. A nova editora discordava da postura de Wright em vários aspectos e para ela, a era de histórias bizarras havia ficado para trás. Assim, investiu em um novo grupo de autores que apresentavam um conteúdo bem mais light que seus antecessores.

Foi Dorothy quem descobriu Ray Bradbury, que em 1953 iria conquistar o mundo com seu espetacular romance Fahrenheit 451. Ela comprou também histórias de Fritz Leiber, Manly Wade Wellman e Margaret St. Clair, apenas para citar alguns e permaneceu à frente do título até 1954, quando ele foi cancelado na edição 279, em setembro.

A era dos pulps já havia ficado para trás e a competição com revistas em quadrinhos, rádio, televisão e cinema (sem contar a escassez de papel que assolou o mundo durante todo o pós-Segunda Guerra Mundial) foi demais para que a revista conseguisse se manter.

De lá para cá, várias tentativas de reativar o título foram feitas, todas com resultados medíocres, inclusive uma antologia editada por Lin Carter na década de 1980. Na última década, a revista voltou a ser publicada regularmente e a surpresa veio em 2009, quando pela primeira vez, a Weird Tales foi indicada para o respeitado Hugo Awards, levando o prêmio para casa.

Este ano a revista foi novamente nomeada para o Hugo, que será realizado em agosto, em Reno, Nevada (EUA). Atualmente, a Weird Tales está no número 356.