13 Assassinos – Crítica

Assisti ontem este filme de 2010 que, na minha opinião, entrou para o rol dos melhores filmes de samurai que já vi. E não era de se esperar menos, afinal a película é dirigida por Takashi Miike (se o nome não tocou os sinos em sua cabeça, saiba que ele é o diretor de pérolas como Ichi – The Killer, Audition, e chegou até a dirigir um episódio da série Masters of Terror), que apesar de ter começado sua carreira no início dos anos 90, já tem mais de 80 títulos no currículo.

13 Assassinos é um filme longo (mais de 2 horas) e começa fazendo o expectador se contorcer: um samurai, sentado à postura tradicional, abre seu quimono, apanha uma faca e comete o harakiri. Quem acha que por seu histórico o diretor irá abusar do gore, engana-se; Miike fecha a câmera no rosto do samurai que nos traduz uma expressão de dor como poucas vezes eu vi no cinema. Seu rosto fica corado, as veias da têmpora saltam tamanha a pressão que ele está exercendo, os lábios tremulam na tentativa de gritar de dor, porém ele mantém a altivez, honra e dignidade de sua classe. Só essa cena já vale o filme.

Logo descobrimos que esse suicídio ocorreu em protesto às ações de Sir Doi (magistralmente interpretado por Mikijiro Hira,que apareceu recentemente em A Lenda de Goemon), filho do antigo Shogun e irmão do atual. Doi é um sádico maluco, um psicopata inconsequente que vive à maneira que viviam os antigos imperadores do Japão (o filme se passa pouco antes do término do Shogunato e início da Era Meige, em meados dos 1800 – mesmo período que se passa O Último Samurai). Protegido por sua posição e com uma Síndrome de Deus, Doi cruza o país cometendo atrocidades ao seu bel prazer. Até que ele pisa nos calos errados.

Para resumir a história, um grupo de samurais resolve abrir mão de sua condição servil (os samurais viviam para servir seu senhor, sem jamais questionarem suas ações), tomar o partido do povo oprimido e assassinar o irmão do Shogun. Eles são capitaneados por Shinzaemon Shimada (interpretado por Kôji Yakusho – um monstro no papel) que os comanda nessa empreitada suicida.

O grupo arma um plano para emboscar Sir Doi e seus homens em uma cidadezinha e traça preparativos para enfrentá-lo junto com seus 70 homens. Porém o ardil é descoberto por uma família samurai rival, que fortalece a proteção à Sir Doi com mais 130 guerreiros. Assim, os 13 Assassinos do filme precisam encarar nada mais, nada menos que 200 guerreiros em um combate até a morte.

A primeira metade do filme é lenta, com tomadas paradas e bastante abertas; e cobre todos os esquemas e maquinações políticas que precisam ser feitas até os samurais traçarem seu plano, incluindo o forjar de alianças e subornos. Vemos o recrutamento de um samurai por vez e entendemos que o Japão vive há anos um período de paz, no qual a função do guerreiro se perdeu. Samurai algum já esteve em uma batalha, nem entre os protetores de Sir Doi, nem entre os Assassinos. A chegada de um Ronin que se junta ao grupo os fortalece sobremaneira e o expectador começa a se preparar para o que será um banho de sangue.

A segunda metade do filme é um desafio épico.

A produção construiu uma cidade inteira (à maneira que era feito antigamente, em filmes como Conan – o Bárbaro), apenas para destruí-la por completo durante as filmagens. Não dá para não se impressionar com as cenas de luta, absolutamente perfeitas. Não há poesia, apenas a crueza da batalha. Não espirra sangue em CGI ou câmeras lentas como em 300 e suas crias; a função da batalha é ser o mais vibrante e real possível. Os Assassinos partem para a morte, mas não perdem o senso de estratégia e o motivo maior de sua missão. Para eles, fracassar, significa lançar o mundo em uma Era de Caos. Se Sir Doi viver e tomar parte no Conselho do Shogun, tudo estará perdido.

Eu já era fã do diretor Miike há algum tempo. Claro que hoje o cinema japonês (assim como todo o resto do mundo) sofre bastante da influência norte-americana, de forma que jamais teremos um cineasta absolutamente original (e genial) como foi Kurosawa. Mas isso não impede que Miike tenha sua própria identidade, um senso estético particular e apurado e passe para a tela sua precisa visão de como contar aquela história. Atualmente, ao lado de Takeshi Kitano, é meu diretor japonês favorito e recomendo que os fãs que adoram filmes fortes e sem concessões conheçam sua obra.