A Imersão Na Leitura Através Da Música – Café com Quadrinhos #07

Confesso: sempre que posso, leio quadrinhos combinando algumas “frescuras” que ajudam a criar um clima perfeito para entrar de cabeça na história.

Tudo começa antes mesmo de ter a revista. Depois de uma checagem minuciosa nas condições da mesma ainda nas prateleiras das bancas, seguido de tensos segundos observando a maneira que o jornaleiro pega a publicação na hora da compra (rezando pra ele não amassar nem dobrar a revista – colecionador é colecionador!), finalmente posso ir pra casa tranquilo e preparar o terreno.

Bem acomodado, de preferência com um inseparável expresso ao leite do lado, é hora de incrementar uma melhor profundidade na vindoura leitura. Para isso, uma “trilha sonora” é perfeita.

Exemplos? Não faltam.

Quem se lembra da minissérie Thor – Vikings, publicada na extinta Marvel Max? Dom Magnus da Dinamarca é o cara aqui!

Ler essa sensacional história ouvindo heavy metal é o bicho. E dos mais variados subgêneros: death metal, power metal, speed metal, viking metal (mais adequado, inclusive), entre outros. Nessa história, aconselho as bandas Sinner, com a música Black Monday ou Finalizer; Mob Rules com a maravilhosa Ship of Fools; ou o clássico Manowar e sua Fight Until We Die.

Afinal, visto que Thor e seus aliados enfrentam hordas zumbis de antigos guerreiros vikings em plena Manhattan, vale dizer: “Gods of thunder, fire and rain/Cut into the Earth till none shall remain/Sons of demons, I comand you to fly/Ride on from hell, into the sky/We’ll fight until we diiiiiieeeee!

Outra combinação perfeita: a minissérie Motoqueiro Fantasma – Estrada Para a Perdição, de Garth Ennis e Clayton Crain, com a arrebatadora versão do Sepultura para Orgasmatron (música original do Motorhead). O começo já deixa bem claro a química entre os dois, num som de guitarra semelhante a uma moto chopper esquentando os pistões.

Por sinal, a capa do álbum Arise (1991) da banda lembra muito bem o cenário em que o anti-herói se encontra no início da história, tentando escapar do inferno custe o que custar, venha quem vier.

Já ouviram falar do guitarrista alemão Axel Rudi Pell? Tentem ouvir Strong as a rock e Take the crown e não se lembrar do Rei Conan. História indicada: o encadernado Conan and The Midnight God, da Dark Horse, onde o cimério soberano da Aquilônia enfrenta seres profanos e deuses esquecidos da Stygia.

O brasileiro Will Conrad preenche as páginas dessa história numa arte sublime, retratando fielmente um semblante austero, frio e guerreiro que Conan deve ostentar enquanto senhor de uma nação.

Mas nem somente com rock de boa qualidade se pode fazer tais combinações exóticas. Os fãs das trilhas sonoras de filmes podem tentar algumas, inclusive.

As músicas instrumentais de Ennio Morricone são perfeitas para algumas histórias de faroeste, como Jonah Hex (tanto a antiga série como a atual encarnação do macabro pistoleiro desfigurado da DC Comics, publicada atualmente pela Panini na forma de encadernados) ou a inédita Blaze of Glory: The Last Ride of The Western Heroes, da Marvel.

Eis algumas: The Ecstasy of Gold, For a Few Dollars More e, como não poderia deixar de ser, o tema do filme The God, The Bad and The Ugly. Ouvindo-as e lendo essas HQs, quase dá pra sentir o cheiro da pólvora sair pelas páginas.

O terror também tem sua vez.

A instrumentalidade da música Monk with bell, originária do filme-documentário “Baraka” de 1992, é de certa forma perturbadora. Foi usada de forma levemente alterada no primeiro teaser-trailer de Batman Begins, durante a fala de Bruce Wayne até o aparecimento do símbolo do morcego.

Nesse perfil incômodo e assustador, ela foi simplesmente perfeita como pano de fundo para o longo diálogo entre Frank Castle e os mafiosos de Don Francesco Drago, antes de executar um por um na prisão da ilha Ryker, na edição especial A Cela (aqui publicada em Justiceiro Anual 01, em 2006).

Aquela arte impactante, sórdida e escura de Lewis Larosa ajuda a criar um clima tremendamente pesado nessa que já posso considerar uma das melhores histórias do Justiceiro de todos os tempos. Com essa música então, nem se fala.

Recomendo, hein?

Por último, cito a música tema do filme Ultraman – The Next, composta pelo músico japonês Tak Matsumoto. Uma das melhores trilhas de tokusatsu que já vi, e ainda pode ser transporta para a mídia dos quadrinhos na leitura da coleção “Ultraman Tiga”, que a Dark Horse lançou há alguns anos.

Só pra constar em registro: nas cenas iniciais logo da primeira edição, há uma rápida e frenética batalha entre alguns ultramen e monstros gigantescos, ambientada num futuro distante da Terra. Para anquilar os monstrengos, Tiga absorve a energia dos seus companheiros, faz uma pose com estilo e manda ver nos vilões com uma explosão de raios. Pirotecnia ao gosto dos fãs.

Reveja essa mesma cena com a música supracitada e fica muito, muito melhor.

Quadrinhos e músicas sempre andaram lado a lado, e melhorar a apreciação de uma história com uma boa trilha ao fundo é sensacional. Fica a dica para quem tiver tempo – e, claro, bom gosto.

E você, caro leitor, já tentou algo assim? O que recomenda?

 

Dica Sonora: ‘Rome’, Danger Mouse & Daniele Luppi

Já dá o play pra ir entrando no clima do post:

O multifuncional músico/produtor Danger Mouse (Gnarls Barkley) e o compositor italiano Daniele Luppi se uniram para dar vida à ROME, projeto conceitual totalmente apoiado na estética das trilhas sonoras elaboradas para o cinema italiano nas décadas de 60 e 70.

A dupla convocou músicos experientes, que participaram das gravações de grandes peças dos Westerns Spaghetti de Sergio Leone (Era uma vez no Oeste); algumas dessas sessões, por sinal, sob a batuta do maestro Ennio Morricone, que não poderia ficar de fora de um projeto como Rome.  Além disso, foram utilizados alguns instrumentos tocados pela banda Goblin na época das gravações de trilhas para o diretor Dario Argento (Suspiria).

O timbre lunático de Jack White (ex-White Stripes), em contraste com a harmonia e suavidade de Norah Jones, convidados para os vocais de algumas canções, dão um toque especial para a atmosfera da obra.

Destaque para Edda Dell’Orso, cantora que participou da gravação da trilha original de The Good, The Bad and The Ugly – conhecido no Brasil como Três Homens em Conflito – em “Theme of Rome”, canção que abre o álbum e também para a interpretação característica de Jack White na belíssima “Two Against One” (a do vídeo ai em cima!)

Climática e atmosférica, a obra é uma audição agradabilíssima. Suas orquestrações épicas nos transportam as raízes e a efervescência das trilhas, não só dos westerns, mas também, da surrealidade fantástica do cinema italiano da época.

Rome é a trilha sonora para um filme que não existe – e para todos os apreciadores destes gêneros magníficos.

Ouça Rome na íntegra clicando aqui!

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Willian Blackwell é leitor/colecionador de HQs e livros, apreciador de cinema e boa música. Autodidata, um espirito livre, adepto de um perspectivismo experimentalista com tendência a gostos bizarros e atividades grosseiras. Boa gente!