Miracleman: Livro 1 – Se Não Leu, Leia!

Em 1953, o escritor Mick Anglo, contratado pela editora inglesa Len Miller & Son, criou aquele que seria o substituto do Capitão Marvel (Shazam) em publicações no território da rainha, já que o personagem havia sido descontinuado pela detentora de seus direitos na época, a Fawcett Comics.

Assim nascia Marvelman.

A criação, porém, era praticamente uma cópia da personagem em que fora baseado, já que a editora não queria uma simples troca, e sim, continuar com as publicações do selo Fawcett como se nada tivesse se alterado – republicando inclusive histórias antigas com outros logos e chamadas.

Na versão inglesa, ao invés de receber seus poderes de um mago, o repórter Mick Moran (alter-ego de Marvelman), ganha suas habilidades especiais de uma entidade astrofísica e usa a palavra “kimota” (atomic) no lugar de “shazam” para se transformar. Até seus sidekicks (parceiros) foram substituídos: saem Capitão Marvel Jr. e Mary Marvel e entram Young Marvelman e Kid Marvelman, ambos fazendo uso da palavra “marvelman” para ativarem seus poderes. Para completar o quadro, faltava a presença de um vilão, e foi assim que surgiu o maquiavélico Dr. Gargunza – equivalente ao Dr. Silvana, principal algoz do Capitão Marvel em suas histórias.

Este universo recheado de aventuras simples e inocentes perdurou por vários títulos publicados e republicados pela Len Miller & Son, até que no ano de 19631 tudo chegou ao fim.

Mas para nossa sorte, não era o final derradeiro desta familia Marvel.

A década de 80 chegou, e com ela, uma grande reformulação no universo dos quadrinhos, principalmente com a nova leva de escritores ingleses que surgia, posteriormente  chamada de Invasão Britânica.

O editor britânico Dez Skinn tencionava publicar uma nova revista de quadrinhos chamada Warrior e como carro chefe, queria reviver um personagem até então esquecido e deixado de lado por editores da época – nada mais, nada menos do que Marvelman. Para o feito, entrou em contato, em 1981, com um escritor até então desconhecido, que por coincidência havia declarado anteriormente em uma entrevista o desejo de criar material exclusivo para este héroi.

Seu nome? Alan Moore!

O escritor, como de costume, não se conteve em apenas dar continuidade à história do ponto onde ela parou:
reestruturou totalmente o contexto da personagem, desvinculando-a de vez, daquilo que fora concebido para ser apenas uma cópia do Capitão Marvel e originando assim a primeira “desconstrução” de um herói nos quadrinhos.

Pulverizando clichês e utilizando-se dos escombros para erguer a nova mitologia Marvelman, Moore aplica seu “toque de Midas”, sem receio de empregar mudanças radicais e relevantes, iniciando assim, uma transição no universo dos super-heróis.

“Liz, por favor! Isso, droga… isso pode parecer ridículo em 1982,
mas na década de 50 fazia sentido. É como eu me lembro. É como aconteceu!
– Marvelman

Não havia lugar para temáticas carregadas de simplicidade e ingenuidade: as décadas de 50 e 60 haviam ficado para trás, junto com os conturbados anos 70. Então, levando em consideração todo o contexto de uma nova época que surgia, o escritor injetou doses de dramaticidade e um clima sombrio para a HQ.

Somos (re) apresentados à Michael Moran, agora um repórter freelancer, adulto e casado, que anda sofrendo com terríveis dores de cabeça e é freqüentemente assombrado por pesadelos. Nestes sonhos perturbadores, ele não está sozinho – porém, nunca consegue identificar seus companheiros. Moran tem a sensação de voar e possui um enorme poder; tudo, invariavelmente, acaba em fogo, dor e morte, com uma palavra ecoando em sua mente, da qual ele não consegue se lembrar ao despertar. Ao cobrir uma ação terrorista em uma usina nuclear, a visão da palavra ‘Atomic’ refletida em uma das portas lhe remete a aquela que tanto o inquieta nos sonhos: ‘Kimota’. Com a revelação, surgem novamente os poderes de Marvelman, suas recordações…e muitos problemas.

No processo de recordar seu passado – as histórias do original Marvelman – e descobrir seus reais poderes, o autor utiliza-se de uma interessante metalinguagem. Vale citar a passagem que, ao ouvir as histórias de seu marido, Liz acha tudo ridículo e eles só encontram sombras de suas aventuras e poderes nas páginas de velhos gibis – referência à transição das Eras nos quadrinhos e que até certo ponto, quase “ridiculariza” características de épocas passadas.

E as maluquices do mago inglês não param por aí! Alan Moore vira tudo de pernas pro ar ao transformar todo o passado de Marvelman em fantasias induzidas por um projeto secreto do governo, chamado Zaratustra e revelar que não é só o “herói” que está vivo, mas também seu parceiro Johnny Bates (Kid Marvelman), reaparecendo agora na figura de um super-psicótico corrompido pelo poder.

E muito mais veio: bebê Miracleman, raças alienígenas, Miraclewoman, outros super-humanos, violência sexual, holocausto londrino, controle totalitário do planeta exercido pelos Miracles originando “A Era dos Milagres” e etc.

Pode-se dizer que o autor, em Marvelman, faz um ensaio sobre temas e questõesseres realmente poderosos entre nós e suas implicações “reais” na sociedade, a figura do anti-herói e do proprio herói como fonte de terror, o “poder absoluto corrompendo absolutamente”, projetos governamentais secretos, ficção cientifica, niilismo, sexualidade e muita violência que seriam aprofundados em uma de suas obras posteriores: Watchmen.

Todo o início da série foi publicado no Brasil em 1989 pela extinta editora Tannos, nas três edições inicias da revista Miracleman, com o título de Livro 1. Com um acabamento questionável, a publicação durou, infelizmente, apenas quatro edições.

A fase “Alan Moore” na série ficou incompleta, – os direitos da personagem estavam sendo disputados no tribunal – mas todo o material que ele criou e recriou nas páginas desta HQ já mostram a genialidade latente do escritor. As idéias e o contexto provocador não serviriam apenas para remodelar personagens individuais (assim como ele fez posteriormente com o Monstro do Pântano), foi muito mais que isso, foi o estopim que mudaria todo o teor das HQs, originando o selo Vertigo e títulos mais atuais como Authority – em sua fase inicial, antes do selo Wildstorm ser integrado à linha normal da DC entre outros.

Anos mais tarde, outro escritor inglês chamado Neil Gaiman, trabalharia com a série… mas isto é ouuutra história.

“Aliás, por que raios Miracleman, se até agora era Marvelman?”

Simples! Enquanto a personagem fazia parte da revista Warrior, a editora Marvel não se importou com a ambivalência do nome. Mas, a partir de 1985, quando a estadunidense Eclipse começou a publicar as aventuras da revista inglesa na terra do Tio Sam, a Marvel exigiu que o nome fosse trocado. Então surgiu Miracleman

Vale ressaltar também que em Julho de 2009, depois de uma extensa briga judicial envolvendo vários “criadores”, a própria Marvel adquiriu todos os direitos referentes a publicação da personagem, prometendo assim, relança-lo com seu título original.

Agora, só esperar por um milagre.

1No Brasil, Marvelman teve essa fase publicada nos anos 50 pela RGE, exatamente nas páginas da revista Capitão Marvel e era conhecido como Jack Marvel.

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Willian Blackwell é leitor/colecionador de HQs e livros, apreciador de cinema e boa música. Autodidata, um espirito livre, adepto de um perspectivismo experimentalista com tendência a gostos bizarros e atividades grosseiras. Boa gente!