Cancelamentos no Mercado de Quadrinhos: a Corda Sempre Arrebentando Para o Lado Mais Fraco – Café com Quadrinhos #06

Quem é leitor sabe muito bem a dor de cabeça que o assunto traz à tona.

Não bastasse as revistas estarem caras e segmentadas, muitas vezes acompanhadas de um trabalho gráfico e editorial aquém do merecido, ainda persiste o fantasma dos cancelamentos de títulos a rondar o nosso hobby.

Particularmente, costumo frisar os últimos quinze anos como o maior intervalo de ocorrências destes casos. Editoras anunciam determinado título badalado, lançam várias edições – ou, em alguns casos, tão somente as primeiras – e interrompem a publicação imotivadamente (salvo raríssimas ressalvas), deixando vários leitores a ver navios, até que uma nova editora adquira os direitos e continue daquele ponto em diante.

Nestas situações, resta ao leitor torcer para que a corda não arrebente de novo e tudo volte da estaca zero. Haja paciência, disposição, tempo e dinheiro – o quarteto cada vez mais ausente em tempos recentes.

Situações assim terminam por ocasionar numa verdade imutável: a confiança que as empresas tentam passar fica, gradativamente, apenas na tentativa. É péssimo para ambos os lados da relação consumerista, mas é sempre o leitor quem leva o pior baque.

O caso mais recente veio há poucos dias, com o recado, agora oficial, da editora Conrad quanto à interrupção de vários mangás licenciados que vinham sendo publicados há uns anos em território nacional. Alguns com numerações bastante adiantadas, inclusive.

No comunicado, cinco títulos não mais continuarão suas histórias: One Piece e Dragon Ball – Edição Definitiva (ambos pertencentes à editora japonesa Shueisha, cujas exigências contratuais tornaram inviável a continuidade das respectivas séries por aqui), Sanctuary, Monster e Megaman.

Sobre os dois primeiros repousa, por assim dizer, o caso mais “grave” e incômodo para diversos fãs e leitores. One Piece já estava na edição 70 e vinha saindo desde 2002, alcançando grande sucesso popular no universo otaku em geral.

Dragon Ball, por sua vez, parou no número 16. Quem esperava completar a bela coleção desta reedição caprichada da obra prima de Akira Toriyama, continuará esperando uma nova oportunidade em outra casa editorial.

Outro exemplo que ganhou o átrio da imprensa especializada fora a comoção sobre um provável cancelamento que o título J. Kendall – As aventuras de uma criminóloga, da editora Mythos, teria em 2010.

Na contramão de suas elogiáveis histórias e alta qualidade narrativa apresentada, a série não vinha rendendo o esperando em vendas. Sua última edição seria a de número 71, mas uma campanha organizada por leitores manteve a sobrevida do título nas prateleiras.

Mas nem somente no mundo dos quadrinhos orientais e dos fumettis essa onda de cancelamentos dá as caras. Os fãs do gênero mainstream sabem muito bem disso.

Quem não se recorda da sina que a série Preacher vem mantendo no Brasil, que já passou por sete editoras e sempre morreu na praia? Espera-se que agora, à beira do lançamento do ÚLTIMO encadernado ainda inédito pela Panini (que tomara seja ainda nesse ano), a maldição do pastor Jesse Custer termine e finalmente o leitor tupiniquim possa conhecer o final da série.

Isso faz-nos lembrar do péssimo tratamento dispensado à linha Vertigo durante esses anos, passando de editora em editora, apresentando cancelamentos e “quebra” de uma identidade editorial para o selo. Agora, nas mãos da Panini, vem obtendo seu melhor desempenho nas bancas e livrarias.

Crise entra, crise sai, título cancelado, relançado em nova editora e cancelado novamente, e ali está o leitor persistentemente acompanhando suas coleções e suas histórias, por vezes sendo destratado e relegado ao ostracismo. Já está mais do que na hora dessas empresas passarem a ter mais consideração com seus fieis e verdadeiros clientes.

Como dito antes, paciência, disposição, tempo e dinheiro do leitor/consumidor formam um quarteto cada vez mais ausente hoje em dia. E, esses sim, podem muito bem serem cancelados.