Contos de Conan – A Terra das Caveiras

Introdução:

Em Messantia, capital e porto de Argos, Conan esbarra com a lei corrupta local que torna fugitivo um casal de amigos seus. Após matar um juiz desonesto, durante uma se-ção da corte, Conan escapa saltando a bordo do Argus, um navio zarpando do porto naquele momento. O Argus é afundado, muitas léguas ao sul de Messantia, pelos temí-veis corsários negros, comandados por uma impetuosa mulher branca chamada Bêlit. Apaixonada pelo destemor e pela habilidade de Conan com a espada, ela o toma como seu primeiro imediato – e companheiro de cama e mesa (A Rainha da Costa Negra, capítulo1/ Conan – Espada e Magia #4, Ed. Unicórnio Azul/ Conan, o Cimério, Vol. 1, Ed. Conrad).

Após saquearem a cidade de Abombi, Conan – ou Amra, como passa a ser chamado – e Bêlit viajam pela costa sul, saqueando regiões costeiras dali até a costa leste dos Reinos Negros.

A Terra das Caveiras
(por Fernando Neeser de Aragão)

Entre o céu azul e um mar da mesma cor, dois navios longos, estreitos e negros, de laterais baixas, se encontram como dois amantes abraçados, amarrados um ao outro por cordas e ganchos de abordagem. De longe, parecem duas embarcações stígias se encontrando, mas somente uma delas é equipada por stígios – homens altos, esguios, fortes e imberbes, de pele marrom. Suas vestes consistem em cotas-de-malha, tangas de seda e sandálias. Em suas cabeças, todos usam um elmo de bronze, e cada um traz no braço esquerdo um pequeno escudo redondo de madeira, reforçado com couro endurecido e pregos de bronze. Suas armas são espadas curvas, maças de madeira polida e leves machados de batalha. Alguns carregam arcos pesados, de poder evidente, e aljavas com longas flechas farpadas.

A outra, contra a qual o navio stígio luta desesperadamente pela vida, é equipada por lanceiros negros nus, emplumados e pintados, usando escudos ovais e liderados por uma mulher branca e seminua, bem como por um homem agigantado de cabelos negros, olhos azuis e usando negra armadura de malha metálica, um manto escarlate, longas botas polidas e um elmo de aço azul, decorado por polidos chifres de touro.

Embora acuados, os stígios, atiçados por seu obstinado capitão, não se rendem. Naquele momento, três deles são atingidos pelos 110 kg de musculatura, bem distribuída ao longo de 1m98, de Conan da Ciméria – peso este aumentado pela armadura do cimério. No instante seguinte, o capitão é abatido pela larga e azulada espada de Conan, num giro estripador. Alguns dos corsários negros haviam morrido na troca de flechas que precedera a abordagem, mas eles, seus arcos e lanças estão em vantagem contra os stígios.

Após cravar sua lança no corpo de um dos stígios, N’Gora não perde seu tempo tentando retirá-la e, enquanto grita ordens aos lanceiros, o subchefe dos lanceiros negros agarra o guerreiro marrom mais próximo e o arremessa na água, onde seu antagonista se afoga. Aparando o giro de uma espada stígia, o cimério estripa o guerreiro que a brandiu, com uma única estocada.

Enquanto isso, Bêlit, com sua pontaria infalível, lança flechas certeiras nos guerreiros stígios e puxa sua adaga quando as setas acabam. Enquanto isso, o parceiro da Rainha da Costa Negra decepa o escudo e braço de outro adorador de Set, quebra-lhe a espada no segundo golpe e lhe decepa a cabeça no terceiro. Ao antagonista seguinte, Conan parte ao meio, na altura da cintura. Em seguida, enquanto tenta retirar sua espada do peito de um rival morto, o cimério é agarrado por trás por um stígio tão alto e forte quanto ele, imobilizando os braços férreos do bárbaro branco. Este consegue se desvencilhar do abraço do gigante stígio e lhe dá uma chave-de-braço no pescoço taurino. Avistando seu amado cimério, a líder pirata arremessa sua adaga na parede, a poucos centímetros de Conan. Este a agarra, abre a jugular do stígio e, enquanto o sangue jorra aos borbotões do pescoço do gigante de pele marrom, o cimério recupera a espada e retorna à luta. Apesar da morte do capitão, os adoradores de Set continuam resistindo bravamente, como se defendessem algo mais do que as próprias vidas.

Após Ajonga estripar outro stígio com a lança, Conan decepa a cabeça aquilina de mais outro, num giro sangrento, e arremessa outro guerreiro marrom, ainda vivo, ao mar, como N’Gora havia feito.

Ao ver Bêlit temporariamente desarmada, Conan arremessa sua espada para ela, ao mesmo em que estripa outro guerreiro de pele marrom com a adaga de sua amada. Esta, por sua vez, mata o stígio seguinte com três golpes sangrentos da espada aquiloniana do cimério. Este vê outro adorador de serpente investir na direção de sua amada e arremessa o punhal na testa do homem, antes que ele possa alcançar a rainha-pirata. Enquanto a descendente de shemitas recupera sua arma preferida – pois a espada de Conan é pesada demais para a líder do Tigresa manusear –, um enorme e musculoso guerreiro suba – o único negro ali presente que não é um dos corsários das Ilhas do Sul – se balança numa das cordas do navio e, num único chute, lança ao mar outro stígio que investia contra Bêlit.

Enquanto os corsários negros vão se impondo cada vez mais contra a tripulação de pele marrom, Bêlit estripa mais um com sua adaga, e outro com a lança de um dos poucos negros que morreram. Então, Conan, Bêlit e o suba, de nome Sakumbe – este último, o único negro ali presente a andar com as partes íntimas cobertas –, avistam um stígio de aparência nobre e vestimenta rica. Este sabe que irá andar na prancha, caso não faça algo. Então, aquele homem – tão alto, marrom e imberbe quanto a maioria dos habitantes da Stygia – sorri para os guerreiros que se aproximam e ergue as mãos, não como rendição, mas para demonstrar que quer negociar pacificamente com aqueles corsários.

– Se me matarem – ele diz calmamente –, vocês nunca acharão o tesouro ao qual também procuro.

– Que tesouro? – indaga Bêlit.

– O Tesouro de Tranicos. – responde o stígio, puxando um rolo de papiro das ricas vestimentas de seda – A propósito, sou Thutmekri, de Luxur, e eu estava a caminho de Zembabwei, onde falaria com o embaixador de lá, para ver se ele me ajudaria a encontrar o tal tesouro, o qual se encontra na cidade perdida e pouco conhecida de Negari, no interior de Atlaia. Foi, inclusive, por minha causa, que todos os tripulantes continuaram lutando, mesmo após a morte do capitão. Mas, agora que perdi minha tripulação, eu pediria demais, se negociasse minha vida em troca do tesouro?

– Não. – responde Bêlit, cuja alma shemita havia, como sempre, se deixado inebriar pela possibilidade de riqueza e esplendor material. O Tesouro de Tranicos é, há décadas, quase uma lenda entre piratas barachos, bucaneiros zíngaros e corsários negros (sejam estes de Kush ou das Ilhas do Sul), os quais o procuram avidamente, mas sem sucesso, há anos – Ficarei com o mapa e você será nosso refém, até acharmos o tesouro. Amra e Sakumbe serão informados do percurso que deverão seguir, como meus batedores, até essa tal Negari.

2)

Após o Tigresa desembarcar na costa de Atlaia, Conan da Ciméria e Sakumbe de Suba vão dias à frente dos corsários. Sakumbe havia sido recentemente um líder de corsários kushitas, até seu navio ser abordado por barachos. Sua vida só fora poupada porque Bêlit, Conan e os corsários negros haviam atacado e destruído o navio pirata argoseano que o abordara. Último sobrevivente do navio que liderara, Sakumbe havia caído nas boas graças de Conan e Bêlit, ao mostrar para eles o ouro em pó e marfim que traficava – o suba também era traficante de escravos, mas os vingativos barachos não os haviam poupado quando atacaram a nau dos corsários kushitas de Sakumbe.

Aquele povo alto e esbelto de Atlaia – por onde o cimério e o suba acabam de chegar –, usa, como roupas, longos panos vermelhos, dispostos como togas sobre os esguios e fortes corpos de ébano. Os homens usam os cabelos trançados, enquanto as mulheres raspam as cabeças. Embora isto não lhes tire a beleza, Conan prefere as mulheres de cabelos grandes, como sua Bêlit.

Durante os festejos – segundo lhe fora contado por Bêlit e os corsários negros –, os membros daquelas tribos dos rios costumam dar altos pulos verticais, buscando sempre pisarem no mesmo local do qual saltaram; e as mulheres trocam suas longas togas vermelhas por roupas de diversas cores. Caçadores de leões, eles vivem do pastoreio de bois e cabras. Somente os homens preparam a comida: após matarem a rês, eles bebem o sangue da mesma, para depois a esquartejarem, assarem e servirem.

Dizem que o gado, para eles, possui mais valor que suas próprias mulheres. O que mais chama a atenção de Conan neles é que, assim como os corsários negros, eles têm feições mais afiladas e cabelos menos crespos que a maioria dos povos negros.

Curioso e intrigado, ele pergunta o motivo de suas semelhanças com os corsários que lidera; Sakumbe traduz para os atlaianos, e a resposta é sempre a mesma: eles apontam na direção noroeste.

– Já vendi marfim para essa gente, e por isso sei falar a língua deles. – diz Sakumbe – E talvez a direção à qual apontam seja exatamente a do Tesouro de Tranicos. Coincide com o que o mapa de Thutmekri nos indicou.

* * *

Após atravessarem o litoral, savanas e selvas, os dois guerreiros bárbaros ouvem gritos femininos de pavor, misturados a rugidos felinos. Acelerando o passo, Conan e Sakumbe vêem, acuada contra uma árvore, uma esguia jovem seminua, com um leão prestes a dar um pulo fatal em direção a ela.

Sem pensar duas vezes, Sakumbe arremessa sua lança no animal, estripando-o de um lado a outro. Mas é uma fera difícil de matar e que, enfurecida pela dor, urra e investe contra o suba. Então, antes que o gigantesco felino moribundo possa atacar o negro, um brilho prateado rasga a noite, ofuscando momentaneamente as recém-surgidas estrelas, e o giro da enorme espada azulada, manuseada por Conan, esfacela o crânio do felino, numa explosão de sangue e miolos.

– Por Ajujo! – ofega Sakumbe, ainda segurando a faca que puxara após arremessar a lança – Muito obrigado, Amra.

Aliviada, a jovem abraça o agigantado cimério blindado, de olhos azuis, agradecendo-o, ao mesmo tempo em que Conan lhe devolve o olhar com um brilho de paixão àquela bela jovem de pele negra, longos cabelos pretos e trançados, e enormes seios firmes, com mamilos maiores que limões.

– Está tudo bem, garota. – ele responde, na língua da jovem e excitado, tanto com a beleza dela quanto com o cheiro de suor naquela quente pele de ébano colada à sua armadura – Mas… por todos os deuses, o que faz uma kushita aqui em Atlaia?!

– Sou Akana… – ela ofega, enquanto solta o pirata cimério e pega um cocar de penas de avestruz, caído ao chão, e o põe na cabeça – Sou escrava de Karawan, o rei de Negari. Vim buscar lenha para o jantar de Sua Majestade, e fui atacada.

– Quer dizer que finalmente chegamos ao reino de Negari? – pergunta Sakumbe, sorridente – E onde podemos nos hospedar, Akana?

– As terras de meu senhor são logo após aquela colina. – responde Akana, apontando para o oeste – Vejam! Ele está chegando!

Uma comitiva de soldados se aproxima dos três bárbaros. São todos altos e imberbes, de corpo esbelto e pele escura, com traços firmes e aquilinos. Suas armaduras são de cobre e couro, e seus escudos estão cobertos de verde. Suas lanças, suas espadas esguias e longas adagas são de bronze.

Ele se aproxima de Conan e Sakumbe, carregado numa vistosa liteira de mogno polido, com dossel e incrustada de jóias, por quatro homens altos, de pele marrom, com cabelos e olhos negros, a vestirem apenas tangas de seda, com longas adagas penduradas aos cintos que as sustentam, bem como com mantos curtos de plumas douradas.

Sua pele marrom e traços aquilinos – assim como os dos homens que a carregam – mostram a Conan e Sakumbe uma grande semelhança física com os stígios. Ele veste um manto de penas coloridas, traz na mão uma vara de marfim e, nas têmporas, um círculo de cobre em forma de serpente enroscada, com a cabeça levantada na frente.

– Quem é você? – pergunta Conan, falando ao acaso em língua Stígia.

– Karawan, rei de Negari – ele responde, num idioma similar e bastante arcaico, ao qual Conan mal compreende.

* * *

Após contornarem a colina, a pequena comitiva chega à cidade, cujos enormes portões de bronze se abrem para eles, onde são conduzidos até a sala do trono.

O esplendor do local é pavoroso – elefantino –, inumanamente gigantesco e quase paralisante para a mente que tentasse medir e compreender a magnitude daquilo. Para Conan, parece que aquilo havia sido mais trabalho de deuses que de homens, pois esta única câmara sobrepujaria grandemente a maioria dos castelos que ele conhecera nas terras hiborianas; e, apesar de terem certa semelhança com a colossal arquitetura stígia, aquelas construções conseguem ser ainda mais gigantescas do que as que o cimério vira em Khemi. O espanto de Sakumbe – que só tivera alguns vislumbres das construções dos stígios, shemitas e hiborianos, mais grandiosas que as dos negros selvagens –, é ainda maior que o do cimério.

Chegando ao enorme palácio, o Rei Karawan e os soldados da sua comitiva conduzem os cansados guerreiros, da sala do trono aos aposentos daquela construção com portões de bronze na entrada.

* * *

A noite caiu na antiga cidade de Negari. Após dormirem durante o dia, Conan, Sakumbe e o Rei Karawan estão sentados, sozinhos, numa sala do palácio interno. O rei, meio reclinado num leito de seda, enquanto os bárbaros se sentam em cadeiras de mogno, empenhados na comida que jovens escravas haviam servido em pratos dourados. As paredes desta sala, como todas do palácio, são de mármore, com grandes arabescos dourados. O teto é de lápis-lazúli, e o chão, de ladrilhos de mármore marchetados com prata e coberto por um tapete felpudo. Pesadas cortinas de veludo decoram as paredes e as almofadas de seda; divãs ricamente trabalhados, e cadeiras e mesas de mogno se alastram pelo chão em descuidada abundância.

– Já ouviu falar em Tranicos O Sanguinário, o maior dos piratas barachos? – diz Sakumbe abruptamente, passando adiante o que lhe fora contado por Thutmekri, e misturando a língua atlaiana com a Stígia – Foi ele quem assaltou a ilha do castelo do exilado príncipe Tothmekri, da Stygia, passou as pessoas no fio da espada e levou o tesouro que o príncipe havia trazido consigo, quando fugira de Khemi. Temendo ser traído por seus capitães, ele fugiu num navio, e desapareceu do conhecimento dos homens, há muitas décadas.

“Mas a história insiste que um homem sobreviveu àquela última viagem, e retornou às Barachas, apenas para ser capturado por um navio de guerra zíngaro. Antes de ser enforcado, ele contou sua história e desenhou um mapa com seu próprio sangue, num pergaminho, que contrabandeara de alguma forma, longe do alcance de seu captor. Esta foi a história que ele contou: Tranicos viajara para muito além dos caminhos de navegação, até chegar a uma baía numa costa desolada, e lá ancorou. Desembarcou, levando seu tesouro e onze de seus capitães mais confiáveis que o haviam acompanhado em seu navio. Seguindo-lhe as ordens, o navio partiu, para retornar dentro de uma semana e buscarem o almirante dele, e seus capitães. Nesse meio tempo, Tranicos pretendeu esconder o tesouro em algum lugar nos arredores da baía. O navio retornou no tempo marcado, mas não havia sinal de Tranicos e seus onze capitães, exceto a tosca residência que eles haviam construído na praia”.

Após ouvir o relato de Sakumbe, Karawan finalmente quebra o silêncio:

– Longos eons atrás… eras, eras atrás… o império de minha raça se erguia orgulhosamente sobre as ondas. Há tanto tempo, que nenhum homem se lembra de um ancestral que o lembrasse. Numa grande terra a oeste, se erguiam nossas cidades. Nossas torres douradas arranhavam as estrelas; nossas galés de proas púrpuras rompiam as ondas ao redor do mundo, pilhando os tesouros do sol poente e as riquezas do nascente.

“Nossas legiões avançavam para o norte e o sul, oeste e leste; e ninguém era capaz de resistir a elas. Nossas cidades uniram o mundo; espalhamos nossas colônias por todas as terras para subjugar todos os selvagens – vermelhos, brancos ou negros – e escravizá-los. Eles trabalharam para nós nas minas e nos remos das galés. Por todo o mundo, o povo marrom da Atlântida reinou supremo. Éramos um povo marinho, e investigávamos as profundezas de todos os oceanos. Os mistérios nos eram conhecidos, e as coisas secretas da terra, do mar e do céu. Nós líamos as estrelas e éramos sábios. Filhos do mar, nós o exaltávamos acima de tudo.

“Adorávamos Valka, Hotah, Honen e Golgor. Muitas virgens, muitos jovens fortes, morreram em seus altares e a fumaça de seus santuários ocultava o sol. Então, o mar se ergueu e sacudiu. Ele trovejou de seu abismo, e os tronos do mundo caíram diante dele! Novas terras se ergueram das profundezas, e Atlântida e Mu foram engolidas pelo abismo. O mar verde rugiu pelos templos e castelos, e as ondas do mar se incrustaram nas cúpulas douradas e torres de topázio. O império da Atlântida desapareceu e foi esquecido, submergindo no abismo eterno do tempo e do esquecimento. Da mesma forma, as cidades coloniais em terras bárbaras, isoladas de seu reino materno, pereceram. Os selvagens negros e brancos se insurgiram, queimaram e destruíram, até que somente a cidade colonial de Negari permaneceu aqui como símbolo do império perdido”.

Por desconhecer a heterogeneidade étnica dos atlantes da longínqua Era Thuriana e do final desta, Conan – o qual tem Sakumbe como intérprete para aquela mistura de idiomas – estranha aquilo. Segundo Yag-Kosha lhe contara anos atrás, os atlantes haviam sido ancestrais dos cimérios, e não daquele estranho povo de cultura e aparência stígia.

– Por intermédio dos atlantes de Mogar e Bal-Sagoth, já conversei com viajantes, cativos e escravos, além de homens de países distantes, como vocês agora. – prossegue Karawan – Sei que esta terra de montanhas, rios e selva, onde parte dos atlantes se miscigenou com os nativos, não é o mundo inteiro. Há nações e cidades bem distantes, e reis e rainhas para serem esmagados e derrotados. Eis a minha proposta:

“Negari está desaparecendo e seu poder está se desagregando, mas dois homens fortes como vocês, ao lado de seu rei, podem reconstruí-la… podem restaurar toda a sua glória que está desaparecendo. Ouçam, Conan e Sakumbe! Chamem os corsários negros, para ajudarem meus guerreiros! Minha nação ainda é senhora desta parte do reino de Atlaia – o qual tem este nome, graças ao império submerso. Juntos, uniremos as tribos conquistadas – traremos de volta os dias em que o reino da antiga Negari atravessava a terra de mar a mar! Subjugaremos todas as tribos do rio, da planície e do litoral marinho, e, ao invés de matarmos a todos, faremos deles um poderoso exército, aliado aos seus corsários! E depois, quando os Reinos Negros, ao norte daqui, estiverem sob nosso domínio, avançaremos sobre o mundo hiboriano como leões famintos, para dilacerar, rasgar e destruir! Você e Sakumbe se tornarão reis das terras hiborianas ao norte de Shem, e eu serei rei de vocês!”.

– Já tenho meu reino: os mares da Costa Negra, e de toda a costa de Zingara até os fogos do extremo sul… e minha rainha é Bêlit. Não estamos nem um pouco interessados em seus delírios imperiais. – o cimério responde bruscamente, misturando a língua Stígia com o pouco que conseguira entender de Negari e atlaiano até o momento – Eu e Sakumbe fomos mandados por ela apenas para procurarmos o Tesouro de Tranicos, do qual Thutmekri nos falou. Se aquele porco stígio mentiu, e o tal tesouro não está aqui, iremos embora. – responde Conan, resoluto.

Por um momento, Sakumbe fica quase tão espantado quanto o rei marrom, mas percebe que o cimério está com a razão.

– Tudo bem – diz o rei de Negari – Mas, não gostariam de descansarem mais um pouco? Sei que a viagem de vocês foi muito longa… Depois, sintam-se à vontade para retornarem à costa, amanhã de manhã.

3)

Mais tarde, Conan acorda abruptamente em seu quarto, ao ver a porta deste ser aberta por uma silhueta feminina, vestida apenas com uma tanga de pele de leopardo, seu cocar de cortesã e com uma lamparina a iluminar-lhe o belo rosto de ébano.

– Akana?! – resmunga o cimério.

– Sua Majestade mandou perguntar se milorde Conan deseja companhia. – responde humildemente a kushita.

Sem pensar duas vezes, o bárbaro – que dormia despido da armadura, mas com a espada ao alcance – sorri, toma a mão da bela negra e a põe no leito, beijando-lhe selvagemente os olhos, bochechas, boca, pescoço e seios, fazendo a jovem – agora perfumada sob as ordens do Rei Karawan – ofegar de desejo. Embora firme, o enorme busto de ébano da garota treme e palpita sob os beijos ferozes do excitado cimério. Igualmente excitada, Akana sente, logo depois, a língua de Conan lhe explorar a crespa mata úmida pubiana, para em seguida ser substituída pelo falo latejante do cimério, a adentrá-la fortemente, arrancando gemidos de prazer da escrava kushita e do pirata branco, o qual suga sofregamente as axilas e seios da jovem a gemer de orgasmo.

Após descansarem do êxtase do prazer, Akana sorri e beija os lábios de Conan.

– Vou buscar mais vinho para nós. – diz a bela jovem negra.

* * *

Enquanto isso, em seus aposentos, do outro lado do palácio, Sakumbe é acordado por soldados da Guarda de Elite de Negari – homens com as mesmas armas e armaduras dos soldados que protegiam Karawan, quando este encontrara os dois bárbaros.

– O que desejam? – pergunta o suba, despertando quase tão abrupta e plenamente quanto um felino selvagem.

– Temos ordens de Sua Majestade, o Rei Karawan, para prendê-lo. – responde o general Hakizimana, chefe deles.

O lanceiro negro nem perde tempo perguntando os motivos daquela prisão. Em apenas um segundo, ele agarra sua arma ao lado da cama e abre, com ela, a garganta de dois guardas que já o atacavam. O suba é tão ágil que, quando os demais guerreiros começam a brandir suas espadas contra ele, Sakumbe já abriu um caminho sangrento pela porta e está prestes a pular a janela do corredor adjacente.

Alguns guardas, com os ombros feridos, atiram suas lanças sem acertar o alvo, enquanto o negro ganha as ruas de Negari. Enquanto corre entre duas daquelas altas, opressivas e sombrias construções, Sakumbe é surpreendido por uma rede, que cai do alto e o aprisiona. O suba – famoso por ser “capaz de enganar o próprio diabo” – poderia escapar em poucos segundos, mas infelizmente não dispõe destes, pois é imobilizado por vários daqueles sujeitos altos e marrons, de olhos negros e traços aquilinos, e nocauteado com uma enorme pedra na nuca.

* * *

Desde adolescente, Akana era obrigada a realizar todas as ordens e desejos do Rei Karawan, bem como dos sacerdotes menores de Valka. Revoltada com as humilhações que sofria, ela sente saudades de Kush e resolve contar a Conan sobre a prisão de seu amigo, da qual soube ao ouvir escondida as ordens do rei, pois o cimério a levara ao êxtase do prazer – prazer que ela nunca havia sentido naqueles cinco anos de cativeiro e de humilhações piores que chibatadas.

Ao voltar aos aposentos, Akana fecha a porta e fala baixinho para Conan:

– Não beba o vinho, cimério. Ele está drogado. O seu amigo foi capturado para ser sacrificado no Altar Negro, na Torre da Morte, e o Rei Karawan queria lhe drogar para fazer o mesmo com você.

O bárbaro rosna, enquanto, alertado pelas palavras da kushita, veste sua armadura. Ele já deveria esperar algo assim daquele rei.

– Venha por este caminho! – ela diz, apontando uma porta secreta, oculta por uma cortina de veludo – Se você sair por onde entrei, a guarda do rei irá lhe prender, como fez com Sakumbe.

* * *

Após percorrerem diversos corredores e passarem por calabouços vazios, eles caminham cem passos e chegam a uma escadaria. Galgando-a e adentrando o corredor acima, Conan segue outros cem passos com a jovem e se depara com o que parece ser uma parede sem porta. Mesmo estando orientado pela kushita, parece ter se passado uma era, antes que os dedos frenéticos do cimério achem um pedaço de metal se projetando. Há um ranger de dobradiças, quando a porta se abre e Conan olha para dentro de um corredor, mais escuro do que aquele no qual estava.

Eles entram, e quando a porta se fecha atrás deles, viram à direita e tateiam seu caminho por 500 passos. Lá, o corredor está mais claro; a luz se infiltra de fora, e Akana mostra a Conan uma escadaria. Eles a sobem por vários degraus, e logo param, frustrados. Numa espécie de patamar, a escadaria se torna duas, uma conduzindo à esquerda e a outra para a direita. Conan pragueja.

– Infelizmente, só conheço um caminho para ir até o seu amigo. – diz Akana, preocupada, não com a ira do bárbaro branco, mas com a integridade física do amigo daquele homem que a levou ao orgasmo.

Eles escolhem a escadaria do lado direito e a sobem rapidamente. Não há tempo para cautela agora.

Ambos sentem instantaneamente que a hora do sacrifício está prestes a chegar. Eles adentram outra passagem e distinguem, pela mudança na alvenaria, que estão fora dos penhascos e em alguma construção – presumivelmente a Torre da Morte. Esperavam, a qualquer momento, subir outra escadaria; e, subitamente, suas expectativas são realizadas – mas, ao invés de ir para cima, ela desce. De algum lugar à sua frente, Conan ouve um murmúrio vago e rítmico, e um arrepio lhe percorre a espinha. O canto dos adoradores diante… do Altar Negro!

Eles correm temerariamente para diante, dão uma volta no corredor, se deparam com uma porta e olham através de uma pequena abertura.

Eles olham para baixo, em direção a uma cena sombria e terrível. Num largo espaço aberto, Conan e Akana vêem fileiras de guerreiros, com suas plumas de guerra agitando-se sobre eles entre o faiscar das lanças. As estrelas brilham como fogo em seus polidos capacetes de cobre.

Erguem-se em perfeita formação; uns mil e quinhentos negaris, uma maré de plumas em movimento e lanças faiscantes. Atrás deles, os edifícios estão cheios de espectadores. Junto aos guerreiros, duas longas fileiras de sacerdotes entoam um estranho cântico – sem significado algum para a maioria da população –, sem saírem de seus lugares. Tochas espalham uma sinistra luz vermelha sobre o cenário. Atrás deles, se enfileira uma vasta multidão, a qual se mantém silenciosa.

Mas não é nada daquilo que atrai o olhar aterrorizado do cimério. Entre as linhas convergentes de adoradores, ergue-se um grande altar negro; e, neste altar, se encontra amarrada uma forma musculosa e negra: seu amigo Sakumbe de Suba!

Agora mesmo, um brilho fraco aparece atrás do pináculo da torre, destacando o mesmo obscuramente contra o céu. A lua se ergueu. O canto dos sacerdotes se ergue até um som de frenesi. Para a mente atordoada de Conan, ele parece descer o olhar para alguma orgia vermelha de um Inferno mais baixo. Uma figura medonha se ergue ao lado do altar, onde jaz o guerreiro negro: uma figura alta, vestida num longo robe de seda, usando uma horrenda máscara no rosto e empunhando um estranho bastão pontiagudo.

Aquele bastão, com a escultura de uma cabeça de serpente na sua extremidade não-afiada, é feito de uma madeira que, em plena Era Hiboriana, já não existe em nenhum lugar da terra. Um exame atencioso naquele bastão desperta uma inquietante e quase vertiginosa sugestão de abismos de eons em Conan.

Nada mais pode ser feito agora, exceto correr para baixo e salvar a vida do jovem traficante – ou morrer ao lado de Sakumbe, tentando salvá-lo. Conan não pensa duas vezes e, num só movimento arromba a porta para, no instante seguinte, decepar a cabeça de um dos soldados atlantes que os tentam deter. Enquanto Conan e Akana pulam o cadáver e a kushita toma a lança do negari ao qual o cimério matara, o cântico dos dançarinos cessa abruptamente. No instante de silêncio que se segue, Conan ouve, acima do latejar do próprio pulso, o vento da noite sussurrar, semelhante à morte, do horror mascarado ao lado do altar. Uma aba da lua brilha acima do pináculo. Então, lá do alto, na superfície da Torre da Morte, uma voz profunda ribomba num estranho cântico. Profunda, mística e ressonante, a voz soa como o fluir incessante de longas marés nos largos galhos brancos.

Num único e rápido movimento, ele salta para baixo até o sacerdote, despedaçando-lhe máscara, crânio e pescoço num só movimento de sua larga espada azulada; e, no momento e movimento seguintes, ele corta, com a espada em sua mão direita, as fortíssimas cordas que amarravam as mãos e pés do suba ao altar, ao mesmo tempo em que dá a ele, com a esquerda, a faca que caíra da mão do sacerdote moribundo. Enquanto isso, Akana desce até lá e se apodera do bastão, ao mesmo tempo em que a turba de pele marrom se aproxima deles.

Agarrando a lança atlante dada a ele por Akana, Sakumbe começa a matar qualquer guerreiro marrom que se aproxime.

Conan evita um rodopiante machado a ele endereçado, e este se crava na armadura e peito de um oficial atrás dele; e, com sua enorme espada, o cimério abre, num golpe horizontal, o elmo, crânio e rosto do homem que tentara matá-lo.

Em rodopiantes e desconcertantes golpes de sua espada, o líder dos corsários negros destroça lanças e escudos, afunda capacetes e crânios, e abre carnes, costelas e vísceras sob as armaduras de cobre e couro dos guerreiros do exército real, derramando sangue, miolos e entranhas pelo piso, enquanto a linda jovem kushita continua empunhando o estranho bastão contra aqueles homens de pele marrom, juntamente com Sakumbe e sua implacável lança.

Súbito, um grito se ergue acima do alarido da batalha, enquanto Conan e Sakumbe avistam, furiosos, um rosto familiar e traidor – o de um homem vestido em ricas e coloridas roupas de seda, ao lado de Karawan e com pele igualmente marrom.

– E durante os longos anos de selvageria, através dos quais as raças bárbaras se esforçavam para se erguer sem seus amos, surgiu a lenda do dia do império, quando alguém da Velha Raça se ergueria do mar. Sim, e este alguém é Thutmekri, que me ajudará a ser imperador mundial! – delira Karawan, em voz alta, acreditando nas palavras do embusteiro stígio.

Praguejando os nomes de todos os deuses que conhece, os três se preparam para morrer lutando e matando.

Naquele momento, diversas flechas, vindas aparentemente de nenhum lugar, atravessam as armaduras e corpos dos atlantes de Negari. No momento seguinte, todos ouvem um grito, repetido como se fosse o pulsar de um tambor:

– Bêlit! Amra! Bêlit! Amra!

Então, Conan, Sakumbe e Akana avistam uma horda de desnudos e emplumados guerreiros negros, liderados por uma seminua lanceira branca. Em meio aos corsários negros, o trio de bárbaros avista alguns dos guerreiros tribais atlaianos que haviam visto no caminho do litoral até a cidade. Segundo Sakumbe dissera a Conan, os nativos dali são famosos por acordarem do sono mais profundo e se colocarem em estado total de prontidão para a batalha em questão de segundos. O rosto crispado de Sakumbe se abre num sorriso de alegria e alívio.

– Por Ajujo! Bêlit! – exclama o suba.

O cimério, por sua vez, mantém o silêncio e, com um breve sorriso no rosto e um brilho de desejo nos olhos ao rever sua amante pirata, converge para o lado da líder, seguido por Sakumbe e Akana, enquanto os negaris marrons se recuperam do elemento-surpresa.

Enquanto os recém-recuperados atlantes se aproximam, Conan e Bêlit gritam como lobos na caçada e se preparam para enfrentar o ataque; correm em direção a eles como lobos, e vêem o desprezo em seus rostos de falcão, ao se aproximarem. Os arcos já foram usados e nenhuma flecha é disparada das filas dos corsários que correm, nem se arremessa uma lança. Eles só querem chegar ao corpo-a-corpo. Quando os corsários negros chegam a um tiro de dardo, os atlantes de Negari enviam a eles uma chuva de lanças, a maioria das quais ricocheteiam nos escudos dos piratas das Ilhas do Sul; e depois, com um rugido gutural, o ataque deles lança-se ao alvo.

Quem disse que a ordenada disciplina de uma civilização degenerada pode defrontar-se com a pura ferocidade da barbárie? Os negaris marrons lutam para combater como uma só unidade; Conan, Bêlit e os corsários negros lutam como indivíduos, lançando-se de cabeça contra as lanças atlantes, e talhando e perfurando como loucos.

Toda sua primeira linha cai sob as lanças sibilantes de N’Gora, Ajonga, Yasunga, Laranga e as dezenas de corsários ali presentes; as filas posteriores recuam e hesitam, quando seus guerreiros sentem o impacto brutal da incrível força do cimério e dos piratas de Bêlit. Se houvessem aguentado, poderiam tê-los cercado, com seu número superior e os degolado. Mas não conseguem resistir. Os lobos da costa meridional abrem o caminho deles como um arado numa tormenta de golpes martelantes, rompendo suas linhas e pisoteando seus mortos enquanto prosseguem inexoravelmente adiante. Sua formação de batalha se dissolve; eles lutam homem a homem contra os negros, a descendente de shemitas e Conan, e a batalha torna-se uma carnificina. Pois em força individual e fero-cidade, não conseguem comparar-se aos bárbaros que ainda não conheceram a decadência.

Com uma coordenação cerebral invejável, Conan abre um profundo corte horizontal nos olhos de um dos militares de pele marrom, rasgando em seguida o ventre de outro. Esquivando-se de uma espada negari, Bêlit corta, com seu punhal, o pulso de seu pretenso assassino para, no instante seguinte, lhe abrir a jugular com o mesmo punhal. O atlante seguinte, a correr com a espada erguida em direção à líder pirata, tem sua garganta perfurada pela ponta da lança empunhada por Bêlit. Em seguida, a descendente dos reis de Asgalun desembainha uma espada curta – cujo manuseio ela aprendera facilmente com Conan nos últimos meses – e, com um véu vermelho de fúria nos olhos, arrebenta crânios sob capacetes de cobre, despedaça peitos, rasga entranhas e arranca membros, deixando atrás de si um rastro de sangue quase tão grande quanto o que fora feito por Conan, Sakumbe e cada um dos corsários negros.

Com um largo sorriso de orgulho em seus lábios finos, Conan vê sua amada líder pirata segurar uma lança, a ela endereçada, e desviá-la ao coração de um dos negaris, ao mesmo tempo em que estripa, com sua espada, o que tentara matá-la. Em seguida, com força e agilidade espantosas, Bêlit parte dois guerreiros marrons ao meio, na altura da cintura, e decepa a cabeça de um terceiro. Os atlantes sobreviventes rompem filas e fogem, atirando suas lanças sem efeito nos atacantes. Thutmekri consegue fugir. Akana mata o rei Karawan, cravando-lhe no peito o bastão de madeira desconhecida, o qual reduz o monarca a pó, mas é morta pela lança do fugitivo general Hakizimana. Conan a vinga, atirando nas costas do general uma das lanças atlantes que resvalaram nos escudos dos piratas negros e, assim, são frustrados os planos imperiais do falecido rei de Negari.

Conan e Bêlit sabem que é inútil procurar o traiçoeiro Thutmekri naquele caos. Assim, a líder pirata comanda a fuga daquela antiqüíssima cidade. Mais tarde, eles saquearão a costa de Zembabwei – cuja embaixada o stígio pretende visitar –, em vingança à traição de Thutmekri. Enquanto arqueiros cor-de-ébano dão cobertura, durante a fuga, Bêlit vê o cimério parado e com os olhos voltados para o palácio. Então, a descendente de shemitas pergunta delicadamente a Conan:

– O que houve? Esqueceu algo no palácio?

– Não… Nada que eu vá esquecer. – ele responde e, tomando a amada nos braços, Conan segue seus piratas no longo caminho até a praia, onde o Tigresa os espera. Em seguida, ele se dirige a Bêlit: – Como nos encontrou aqui?

– Aquele porco do Thutmekri conseguiu fugir, como você mesmo viu, e nós o seguimos até aqui. Vendo que ele estava entrando em Negari pelos portões da frente, procuramos por alguma entrada secreta. Chegando aos penhascos que cercam essa cidade maldita, N’Gora nos mostrou uma: era uma janela gradeada em pleno chão! Um único corsário foi suficiente para arrancá-la, e nós entramos e atravessamos um corredor estreito e cinza, sem rumo nem planos, pelo que pareciam ser milhas e milhas. Descíamos cada vez mais por passagens que ficavam sob passagens. A luz ficava mais obscura, e um lodo úmido aparecia nas paredes.

“Após percorrermos diversos corredores e passarmos por calabouços vazios, chegamos a uma escadaria, na qual ouvimos um estranho burburinho. Galgando-a e adentrando o corredor acima, seguimos uns cem passos com meus corsários e nos deparamos com o que parecia ser uma parede sem porta. Após ouvirmos um alarido, que era nada menos do que você e Sakumbe enfrentando os negaris, tateei e encontrei uma tranca; e então chamei Yasunga, Ajonga e Laranga para abrirem-na.

“Entramos, viramos à direita e tateamos nosso caminho por uns 500 passos. Lá, o corredor ficou mais claro; a luz se infiltrava de fora, e subimos uma escadaria por vários degraus. Numa espécie de patamar, a escadaria se tornou duas, uma conduzindo à esquerda e a outra para a direita. Subimos a da direita, guiados pelos alaridos de luta, e então encontramos você e Sakumbe.

“Não encontramos o tesouro, mas não saímos de mãos vazias. Além das cabeças dos negaris, que nos darão salvo-conduto para sairmos de Atlaia, eu e meus corsários conseguimos saquear alguns mantimentos daquela cidade maldita”, finaliza a pirata, com um sorriso contagiante no rosto.

4)

As mulheres mais velhas da tribo cozinham ugali – um prato à base de farinha – e servem a todos os que estão presentes naquela tribo atlaiana – inclusive os convidados Conan, Bêlit, Sakumbe e os corsários negros; todos eles homenageados por terem trazido para aquela tribo cabeças de negaris marrons, como prova de que haviam, não só matado inimigos dos negros tribais, como também impedido a expansão imperial de Negari. Os guerreiros daquela tribo estão pintados e vestem um pano de cintura vermelho, cada um. Seus troncos nus estão enfeitados com colares de pérolas. A pintura vermelha corre do pescoço até a metade do peito, terminando em ponta.

Jovens aldeãs dançam em fila, com enormes enfeites nos pescoços e viradas para os homens, com suas cabeças balançando no ritmo. Os cabelos dos homens esvoaçam a cada salto. Os peitos nus e suados de homens e mulheres brilham à luz das estrelas, lua e fogueiras. Os anciãos estão sentados em círculo no chão, envolvidos em mantas de lã.

Carnes de cabra e pães sem fermento são servidos a todos os que assistem à dança – tanto os nativos quanto os convidados. Algumas mulheres são oferecidas aos corsários negros ali presentes. Yasunga, Ajonga, Laranga e o subcomandante N’Gora são quatro dos primeiros a se aconchegarem nos braços das belas jovens atlaianas. Por um momento, Conan pensa, melancólico, na falecida Akana de Kush; mas tais pensamentos são descartados, quando Bêlit o beija ao sabor da cerveja nativa, feita de milho.

Um boi havia sido abatido no meio da tribo. Seis homens o deitaram no chão. Três deles o asfixiaram, enquanto outros o seguravam pelas pernas. Então, sua artéria principal fora cortada e todos os homens em volta lhe beberam o sangue. Após ele ser assado, homens, mulheres e crianças fazem fila para pegarem seus pedaços. As melhores partes são dadas aos idosos, e depois é a vez das mulheres e crianças, e, finalmente, dos convidados. Junto com o boi assado, é servido um chá nativo, ao qual se mistura leite de vaca e bastante mel – agora substituído pelo açúcar que Bêlit trouxera de Negari.

Em seguida, os idosos se levantam e dançam ao lado dos jovens. No momento seguinte, um dos jovens da tribo entra repentinamente numa espécie de frenesi. Ele se sacode, dança e o seguram no chão com força. Conan e Bêlit perguntam o que está havendo, e Sakumbe – também abraçado a uma atlaiana, a qual o suba logo levará para a cama – diz que, segundo o líder da tribo, aquele rapaz provavelmente bebeu sangue demais, e teria caído numa espécie de transe por causa da dança. Agora estaria lutando com um leão em sua alucinação. Eles dizem não ser tão grave, já que estava sendo vigiado e, em algum momento, voltaria ao normal. O homem se contorce no chão aos berros, com a boca espumando e os olhos fixamente voltados para o céu, mas a festa continua.

Leões rugem ao longe. Parte dos corsários negros já havia se recolhido às choupanas que lhe foram oferecidas. Por um instante, Bêlit pensa em fazer sua dança de acasalamento, mas, ao ser erguida pelos braços fortes de seu amado e levada à cabana que fora reservada a eles, a líder pirata muda de idéia. Conan, por sua vez, novamente excitado com a suada pele sedosa de Bêlit em suas fortes mãos calejadas – e, é claro, pela beleza dela –, beija-a quando chegam à cabana e despe o restante de sua armadura – a parte que lhe cobre o tronco –, ficando tão seminu quanto a rainha, não só da Costa Negra, mas também do seu coração. Lá fora, a festa continua, mas, dentro daquela choupana, o casal de líderes piratas passa boa parte da noite fazendo amor.

* * *

Os atlaianos daquela tribo oferecem um preço de 40 cabeças de gado para cada jovem, caso os corsários negros queiram levá-las. Aqueles piratas, contudo, não dispõem deste tipo de riqueza entre seus espólios.

– Além do mais – acrescenta o jovem Sakumbe ao líder da tribo –, essas garotas não foram feitas para a vida dura da pirataria. São jovens maravilhosas, em todos os aspectos, mas não são guerreiras endurecidas, como nossa amiga branca. – ele conclui, diplomático e sorridente.

No dia seguinte, contudo, Ajonga, Yasunga, Laranga e outros dez corsários negros preferem ficar naquela tribo e se casarem com as atlaianas, enquanto Sakumbe, Conan, Bêlit e o restante da tripulação seguem para a costa onde o navio Tigresa está ancorado.

FIM

Agradecimentos especiais: Aos howardmaníacos Al Harron, da Escócia, e Deuce Richardson, dos EUA, bem como à escritora Corinne Hofmann, da Suíça.

Epílogo:

Obcecada pela idéia de um tesouro, Bêlit conduz o Tigresa pelo Rio Zarkheba em busca de uma cidade perdida. O amor entre ela e Conan se aprofundou, e a pirata diz ao bárbaro que se morresse, e ele estivesse lutando pela vida, ela voltaria para lutar ao seu lado. Enquanto Bêlit e seus homens saqueiam as ruínas da cidade perdida, Conan sai à procura de água fresca e mergulha num sono profundo devido ao cheiro exalado por um campo de lótus negros silvestres florescentes. Ele tem estranhos sonhos nos quais vê a queda de uma antiga civilização, com seus simpáticos habitantes alados sendo transformados gradativamente em monstros simiescos pelas águas tóxicas do Zarkheba. Ao despertar, ele se depara com os corsários negros assassinados de forma horrível, e N’Gora tão enlouquecido que só resta a Conan matá-lo. Pior de tudo, ele acha Bêlit morta, enforcada por um colar de jóias rubras que encontrou nas ruínas. O bárbaro faz a vigília do corpo de sua amada por toda a noite. Após afugentar uma matilha de hienas sanguinárias, é atacado por um imenso monstro símio alado – um infeliz herdeiro da raça antiga com a qual sonhou. Conan está lutando por sua vida quando repentinamente um clarão branco surge entre o cimério e a monstruosidade. É o fantasma de Bêlit, cujo golpe distrai o monstro o suficiente para que Conan o destrua. Bêlit cumpriu seu juramento de voltar para ajudá-lo, mesmo cruzando o abismo da morte. Dispondo seu corpo a bordo do Tigresa, ele coloca o navio à deriva e o incendeia como uma pira funerária. E assim é o fim de Bêlit, a Rainha da Costa Negra (A Rainha da Costa Negra, capítulos 2 a 5/ Conan – Espada e Magia #4, Ed. Unicórnio Azul/ Conan, o Cimério, Vol. 1, Ed. Conrad).

Tão cedo, Conan não voltará ao mar, pois a pirata Bêlit muito significou para o cimério. Após a trágica morte da Rainha da Costa Negra e seus corsários negros, Conan segue para o norte e chega a Shumballa, capital da semi-civilizada Kush, onde se torna capitão da guarda da Princesa Tananda. Porém, existem intrigas suficientes em Shumballa para enlouquecer a cabeça de um jovem bárbaro. Assim, quando eclode uma rebelião, liderada pelo farejador de bruxas Ageera, Conan parte novamente para o norte, desta vez com uma escrava nemédia de nome Diana (Um Focinho na Escuridão).

Após devolver Diana à sua família, na Nemédia, o cimério se alista no exército mercenário de Amalric, e segue para Coríntia, Koth e Khoraja.

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Fernando Nesser Aragão é editor do blog Crônicas da Ciméria, onde você encontra tudo sobre Conan e outros personagens de Howard!

Contos de Conan – Parte 4

Fernando Neesser Aragão, editor do site Crônicas da Cimeria, cedeu gentilmente ao PN uma série de quatro contos inéditos de Conan. Os pastiches, todos de alta qualidade, são de sua autoria – e você poderá acompanhá-los semanalmente aqui no Pipoca. Os anteriores você lê aqui, aqui e aqui! Se os leitores aprovarem, traremos mais contos inéditos do cimério e outras criações de Howard. Por ora, esperamos que vocês gostem desta justa homenagem ao bárbaro mais famoso dos quadrinhos.

Além das Colinas

(por Fernando Neeser de Aragão)

Descendentes dos gigantescos macacos brancos das neves – os quais haviam sido expulsos, há muitos milênios para o norte, pelos primeiros hiborianos –, o povo alto e forte de Nordheim (com aparência e cultura humanas, desde há muitos séculos antes de Conan) se divide entre os ruivos de Vanaheim – os vanires – e os loiros de Asgard – os aesires. Todos, contudo, desconhecem sua ancestralidade simiesca – tanto os bárbaros de pele clara das planícies nevadas, quanto o adolescente moreno das colinas escuras que se aproxima daquela tribo de aesires.

A maioria deles usa elmos decorados com chifres. Todos usam coletes de malha metálica sob as roupas de pele. Todos estão armados – a maioria com espadas e arcos, e alguns com lanças e machados. Quase todos usam enormes escudos de madeira. São homens musculosos, de feições duras e barbas douradas.

Aqueles loiros, ao verem um jovem cimério se aproximar com um escudo vanir na mão e uma bolsa de pele na outra, ficam desconfiados, com espadas, machados, flechas e lanças de prontidão. Contudo, eles sabem que os cimérios só usam cotas-de-malha quando as roubam de invasores vindos do norte, como eles – ou ao invadirem o norte, como aqueles taciturnos guerreiros de cabelos negros faziam. E – pelo fato de cobrir braços e pernas, além do tronco – aquela cota-de-malha, usada pelo rapaz moreno, não é aesir nem vanir. Não havia qualquer indício de que o jovem, tão alto quanto eles, fosse espião dos vanires – exceto pelo escudo – ou houvesse roubado algum aesir. Niord, um homem de aproximadamente 40 anos e líder daquela tribo aesir, fica intrigado.

Sem pensar duas vezes, o cimério tira, da bolsa de pele, a ruiva cabeça decepada de um vanir.

– Era um batedor, se esgueirando pela sua tribo, para ver as possibilidades de invadi-la. – diz o jovem moreno – E os companheiros de tribo dele estão a caminho… ouçam!

Sem pensar duas vezes, o rapaz deixa a cabeça cair ao chão nevado, vira as costas para os aesires e desembainha a espada, pronto para a invasão iminente.

Os ruivos de Vanaheim se aproximam como lobos, num bando furioso. Haviam encontrado o corpo decapitado de seu batedor sobre a neve e seguido as pegadas do jovem cimério, de nome Conan. Para um vanir não havia insulto pior do que levarem a cabeça de um dos seus mortos.

Os guerreiros de cabelos dourados, por sua vez, ficam de prontidão, com suas espadas, escudos, machados, lanças e arcos preparados. De escudos prontos, os aesires se defendem da chuva de flechas vanires que se precipita sobre eles. Apenas um loiro morre, enquanto outro é ferido na perna. Mesmo que a flecha o deixasse aleijado, ele continuaria sendo aceito na tribo. Apesar dos aesires e vanires terem o costume – desconhecido e ignorado pelo cimério – de matar qualquer criança de seu povo que nasça defeituosa, eles consideram “superficiais” quaisquer ferimentos que não causem a morte.

No momento seguinte, os aesires devolvem a saraivada de flechas sobre os vanires que avançam temerariamente sobre eles, derrubando a primeira fileira de ruivos e deixando uma quantidade muito maior de baixas entre ruivos que entre loiros. Terminadas as flechas – capazes de voarem mais de 500 metros nas mãos dos arqueiros de Nordheim –, ambos os grupos inimigos largam seus arcos e se lançam ao ataque.

Niord estripa o mais adiantado dos vanires com sua espada, ao mesmo tempo em que racha o crânio de outro com o machado. Um terceiro tenta atingir o líder aesir por trás, mas é morto por uma estocada nas costas, dada pelo recém-chegado cimério.

Com a estupenda força que um bárbaro possui, mesmo na velhice, o esguio Gorm detém o braço de um ruivo com sua mão esquerda e arremete-lhe a espada no peito, fazendo-o cair para trás, com o coração transpassado.

Um dos aesires decepa a cabeça de um vanir, num jato de sangue sobre a neve, e em seguida é morto por outro ruivo, com uma lança no peito. Este, por sua vez, não vive o bastante para se vangloriar, pois é atingido por uma flecha aesir no pescoço.

Agachando-se como uma pantera, uma jovem guerreira aesir, de nome Gullvia, se esquiva do golpe de espada de outro vanir e lhe decepa a perna esquerda na altura do joelho, para, no momento seguinte, abrir a cabeça ruiva de seu inimigo caído, num jato de sangue e miolos sobre o rosto enfurecido da jovem loira.

Outro vanir tenta abrir o torso de um jovem aesir com um giro de sua espada, mas este se esquiva, dando um salto para trás, e o desarma como contragolpe. O ruivo acerta um chute nas gônadas do loiro e, largando a própria arma, começa a estrangular o aesir com uma chave-de-braço por trás. O aesir, desesperado com a asfixia, tateia por sua arma na neve e, ao achá-la, esmaga a testa de seu pretenso assassino ruivo com o cabo da espada, à qual acabara de recuperar.

Com as costas coladas às da bela Gullvia, e quase invulnerável em sua armadura de cota-de-malha, Conan decepa a cabeça de um atacante vanir num giro sangrento, ao mesmo tempo em que a aesir atrás do cimério mata outro ruivo, ao cravar a espada no pescoço do mesmo. Ambos os vanires cambaleiam e caem sobre a neve já tingida de vermelho. Como todos os cimérios, Conan é um lutador mais de ofensiva que de defensiva. Assim, ele se afasta da jovem e corre atrás do agrupamento mais próximo de guerreiros vanires, em meio àquele caos de gritos de morte e triunfo, e do entrechocar de armas metálicas e de escudos de madeira.

Um corpulento vanir investe contra Horsa, fazendo-o recuar aos primeiros golpes de sua espada. Mas, apesar de mais leve, o aesir tem agilidade e resistência superiores, de modo que, alguns minutos depois, o loiro reage contra seu adversário, de tal maneira que somente a habilidade espadachim do ruivo o salva da velocidade cegante de Horsa. Então, o loiro acerta um murro no queixo do vanir, derrubando-o sobre a neve com a barba um pouco mais vermelha. Agarrando uma ensangüentada adaga vanir caída ao chão, ele se esquiva de um mortal giro descendente da espada de Horsa e se ergue de um pulo. Na investida seguinte, o ruivo tem que cruzar a espada e adaga para aparar o giro do loiro; no momento seguinte, o aesir acerta um poderoso chute na parte lateral do joelho do vanir e, em seguida, enquanto o ruivo cai ao chão, atravessa-lhe o pescoço taurino com a espada. O vanir morre, soltando golfadas de sangue pela boca e narinas.

No momento seguinte, outro vanir, com um machado em cada mão, investe contra Conan. Este, usando seu escudo, roubado do vanir que decapitara antes de encontrar os aesires de Niord, apara o primeiro golpe do agigantado ruivo que o ataca, empurrando este com a própria proteção que usara contra o machado do rival. Em seguida, o jovem moreno gira a espada, tentando estripar o vanir, mas este se esquiva e cruza os dois machados, aparando um segundo golpe de Conan, e, descruzando os machados, empurra o jovem cimério à sua frente. Logo, o atacante de barba ruiva erra um golpe com o machado esquerdo e, ao investir com o direito, a lâmina deste fica presa no escudo nórdico de madeira usado por Conan. Este, aproveitando que o ruivo chegou perto demais, enfia a espada na cota-de-malha do vanir, de modo que a ponta desta atravessa peito, costelas e coração do ruivo, até se sobressair pelas costas do musculoso atacante barbado.

Então, todos ouvem um grito:

– Taave está morto!

Logo, Conan e os aesires percebem que o vanir morto pelo cimério era líder do bando, o qual bate em retirada.

* * *

Após a batalha, as demais mulheres da tribo saem ao campo, para arrebentarem os miolos dos inimigos feridos com pedras, ou lhes cortarem as gargantas com facas. Se fosse na Ciméria, Conan pensa, todas as mulheres lutariam como tigresas, como aquela linda jovem espadachim. No entanto, as aesires – bem como suas vizinhas de Vanaheim – só lutam quando acuadas; Gullvia foi a única que participou ativamente da batalha.

De qualquer modo, o adolescente cimério, por ter enfrentado inimigos ainda mais fortes e ágeis que os próprios aquilonianos de Venarium, sente uma onda ainda maior de alegria e triunfo que na sua primeira batalha, ocorrida meses antes. Sem contar que, pelo fato inédito de um homem das colinas cimérias lutar pelos aesires, um cimério é, pela primeira vez, acolhido e bem-vindo entre aquele povo loiro.

Embora as mulheres preferidas dos aesires sejam um pouco mais magras que as cimérias, as loiras de Asgard têm seios generosos, os quais atraem o desejo do adolescente Conan – além disso, suas peles e revoltos cabelos, bem mais claros que os do povo da Ciméria, fazem aquele recém-chegado jovem moreno se lembrar dos gunderlandeses que enfrentara em Venarium. A diferença é que os cabelos dos aesires são de um dourado bem mais intenso que o daquele povo de cabelos claros do norte da Aquilônia – a cabeleira dos bárbaros de Asgard possui um dourado vivo que captura a luz flamejante do sol. Sem contar que seus olhos, tão azuis quanto os do jovem cimério, percebem detalhes microscópicos desconhecidos aos olhos dos civilizados. Apenas Conan tem uma visão ainda melhor que os aesires, vez que, ao contrário dos loiros, que cresceram em planícies nevadas e ensolaradas, o cimério vivia até pouco tempo atrás numa região de florestas escuras e quase sempre nublada.

Após terem cremado os corpos de seus mortos em piras funerárias e curado seus ferimentos, os aesires acenderam duas grandes fogueiras dentro do círculo de cabanas, além de fogueiras menores ao redor da aldeia – estas últimas, para manter as feras à distância.

As cabanas aesires diferem das cimérias por serem feitas com caniços, barro e pele de cavalo – havendo um predomínio maior das tendas de pele de cavalo. Aquele povo loiro ri abertamente, não apenas nas batalhas, mas também nos banquetes ao ar livre, onde gamos inteiros são assados e a cerveja espumante, preparada num enorme caldeirão, é servida em canecas de madeira e chifres ocos de boi. Nestes banquetes noturnos, organizados após as longas batalhas diurnas, aqueles bravos guerreiros do norte gargalham ao som de canções bárbaras a noite toda.

O cimério fica extasiado e contagiado com tanta alegria – quase inexistente entre seu povo, e da qual ouvira o avô falar, quando este lhe contava sobre os povos hiborianos que vivem ao sul da Ciméria. Através dos sorridentes Niord, Horsa e Gorm – este último, um dos homens mais velhos daquela tribo –, o cimério fica sabendo que a concepção de vida pós-morte daqueles homens de barbas loiras é menos sombria que a dos taciturnos moradores das colinas escuras ao sul. Enquanto os conterrâneos de Conan acreditam que o mundo dos mortos é um lugar frio e sem sol, sempre envolto em névoas, onde fantasmas errantes lamentam pela eternidade, os aesires crêem em planícies geladas – não muito diferentes daquelas nas quais eles vivem – e em corredores fechados, os quais compõem um lugar chamado Valhalla, governado por Ymir, o Gigante de Gelo e principal divindade daquele povo loiro, bem como de seus vizinhos de Vanaheim.

Ao ser interrogado sobre o motivo de ter ido se aliar aos aesires, Conan fala em como os relatos de seu avô – aliados à sua primeira batalha e à morte do velho Tassach – o deixaram cada vez mais entediado com o cotidiano de sua terra natal. Embora o falecido Tassach lhe tivesse falado das maravilhas do sul, o cimério preferira se aliar a saqueadores tão fortes a ágeis quanto ele. Tal elogio, aliado ao fato de Conan ter lutado por eles, deixa os aesires lisonjeados e aumenta ainda mais a amizade dos loiros por aquele jovem forasteiro.

Casais de desgrenhados cabelos dourados bebem cerveja e hidromel, gargalham e se beijam, ao som das canções. Os homens cortejam as mulheres ostentando proezas, e com relatos de rapina e matanças. Tais relatos de batalha e massacres atraem até a mais esquiva das mais selvagens belezas de Nordheim. E assim, Conan conta para Gullvia – que é filha caçula do velho Gorm – todos os detalhes do que viu em fez em Venarium, alguns meses antes.

* * *

Embora a pele de Gullvia seja rosada pelo sol de Nordheim, seus firmes seios fartos – assim como seu corpo – são tão alvos quanto a neve que recobre aquelas planícies. Somente os bicos pontiagudos daquele busto são tão rosados quanto a pele do rosto da filha caçula de Gorm. Não muito diferente dos cimérios, o amor das mulheres aesires é como uma chama devoradora que destrói a fraqueza.

Assim, no momento em que Conan despe a parte superior da armadura de cota-de-malha, Gullvia fica seminua e o abraça feroz e apaixonadamente, pressionando-lhe os lábios nos dela, e os grandes e desnudos seios redondos no musculoso peito peludo do jovem cimério. Este, por sua vez, beija a jovem loira na boca, olhos, bochecha, pescoço e seios, fazendo-a gemer e ofegar de prazer e desejo. Logo depois, despidos de suas respectivas tangas e totalmente nus, os dois bárbaros já estão ofegando de prazer, devido à relação carnal que lhes lateja cada vez mais nas genitálias unidas e palpitantes, levando Gullvia a morder e arranhar pescoço e torso de Conan, e desembocando num intenso orgasmo onde o jovem casal atinge o ápice do prazer e desejo, como uma bola de neve que aumenta de tamanho antes do impacto explosivo.

Após breves minutos de descanso, o filho de Criomnthan e a filha de Gorm têm outra não menos prazerosa relação sexual, na qual o cimério massageia o clitóris e morde o busto volumoso e firme de Gullvia, ao mesmo tempo em que esta arranha as fortes costas nuas de Conan, durante aquele segundo orgasmo, no qual a aesir enrosca as pernas no torso nu do cimério. Ela nunca havia sentido tanto prazer assim, apesar de ser sexualmente experiente.

Somente mais tarde, finalmente levados pelo sono, o jovem casal de bárbaros adormece sobre seu estrado de peles, dentro daquela tenda também de peles, com seus corpos aliviados pela doce mistura de cansaço e prazer, decorrente de horas fazendo sexo.

Contos de Conan – Parte 1

Fernando Neesser Aragão, editor do site Crônicas da Cimeria, cedeu gentilmente ao Pipoca uma série de quatro contos inéditos de Conan. Os pastiches, todos de alta qualidade, são de sua autoria – e você poderá acompanhá-los semanalmente aqui no Pipoca. Se os leitores aprovarem, traremos mais contos inéditos do cimério e outras criações de Howard. Por ora, esperamos que vocês gostem desta justa homenagem ao bárbaro mais famoso dos quadrinhos.

Filho da Batalha!

(por Fernando Neeser de Aragão)

“Paisagens se sobrepondo, colinas sobre colinas,

Encosta por encosta, cada uma povoada de árvores tristes,

Nossa terra descarnada jazia. E quando um homem subia

Um pico áspero e contemplava, olhos protegidos,

Via nada além da paisagem infinita – colina sobre colina,

Encosta por encosta, cobertas como suas irmãs.

.

“Era uma terra de melancolia que parecia abrigar

Todos os ventos e nuvens e sonhos afugentados do sol,

Os galhos despidos agitavam-se por ventos solitários,

E florestas recolhidas, de todo meditativas,

Nem mesmo iluminadas pelo sol raro e esmaecido,

Que tornava homens sombras encolhidas; eles a chamavam de

Ciméria, terra da Noite e das Trevas”.

(Robert E. Howard, em “Ciméria”/1932)

O verão cimério se caracteriza pelo verdor em quase toda a região, com poças de lama aqui e ali, decorrentes das chuvas que contribuem para reduzir a quantidade de nuvens no céu, fazendo o sol banhar aquele país – que é totalmente nublado, sombrio e nebuloso durante o outono, inverno e primavera. Mesmo assim, as florestas da Ciméria são tão espessas, e com árvores tão próximas e densas que a luz do sol mal penetra pelos bosques de folhas verde-escuras.

Durante o dia, quem adentra aqueles bosques tem a impressão de que é noite; já à noite, o interior das mesmas florestas esconde qualquer luz externa, ficando em total escuridão – sem contar que aquela região tem névoas em qualquer estação do ano. De qualquer forma, os ventos, quase sempre frios, que sopram por aqueles vales, agora estão mornos.

O povo da Ciméria descende dos atlantes da Era Thuriana, apesar de desconhecer sua ancestralidade – tendo evoluído, por esforços próprios, dos homens-macacos nos quais seus antepassados se transformaram. Povo constituído por pessoas altas, dolicocéfalas e morenas, de cabelos negros e olhos azuis e cinzas, seus homens são robustos e musculosos, enquanto suas mulheres são esguias, de curvas firmes. Têm uma vida tribal, como seus vizinhos nórdicos de Asgard e Vanaheim, e moram em aldeias construídas em clareiras – naturais ou não – das densas florestas daquela região de montanheses.

As choupanas são circulares e feitas de pedra e madeira, com tetos cônicos, de madeira e palha. Somente a oficina do ferreiro é totalmente de pedra, a fim de evitar um incêndio acidental.

Além de cercados por povos inimigos – como vanires e pictos – ou pouco confiáveis – como hiborianos da Bossônia e Reino da Fronteira, além de aesires –, os cimérios também lutam uns contra os outros em esporádicas guerras tribais. Assim, tanto homens quanto mulheres sabem guerrear e manusear espadas. Suas habilidades – de guerra, caça, metalurgia, confecção de lanças e machados com lâmina de pedra, dentre outras – se dividem de acordo com a aptidão e hereditariedade de cada um, e não com o sexo.

É meia-noite e a lua está em seu zênite. Mulheres cimérias dormem completamente nuas com seus maridos, quando são subitamente acordadas pelo barulho abafado de cascos de cavalos, por botas de pele sobre a lama e pelo latido dos cães de caça da tribo. A aldeia está sendo invadida! Sem tempo para se vestirem, elas se levantam rapidamente e saem de suas choupanas, de espada em punho, para, juntamente com seus maridos seminus, defenderem a si mesmas e à própria tribo.

Os invasores, munidos de espadas, machados, lanças e escudos, são homens tão altos e fortes quanto os cimérios, mas têm a pele branca e os cabelos ruivos. São os temíveis guerreiros de Vanaheim – os vanires –, que vivem a noroeste da Ciméria. Aquele bando vanir vem saqueando algumas aldeias e se escondendo, desde que cruzou a fronteira noroeste daquela região enevoada. Infelizmente, as tribos cimérias não são unidas a ponto de mandarem mensagens umas às outras. Os vanires – cujo número diminuíra desde o primeiro ataque a uma aldeia ciméria – pensavam estar pegando aquela tribo desprevenida, ao se aproximarem à noite.

Súbito, com um sorriso sinistro, um dos cimérios – líder daquela aldeia – sai de trás de uma cabana e, empunhando duas espadas, abre a garganta de um dos invasores, de cabelos ruivos e olhos azuis, e tem início, naquela tribo daquele país montanhoso, uma luta sangrenta entre cimérios e vanires. E, em meio à feroz dança de espadas, machados, escudos, ossos quebrados, tendões partidos e carnes rasgadas, uma guerreira quase nua, em estado adiantado de gravidez e cabelos negros como a escuridão das florestas daquela nação, abre caminho por entre uma verdadeira muralha de guerreiros ruivos. O nome da jovem lutadora gestante, de olhos cinzas, é Ealadha, filha dos guerreiros Cliodhna e Murrad.

Ealadha crava a espada no coração de um atacante de barba ruiva – um dos poucos a cavalo –, o qual se inclina de sua montaria galopante, para tentar agarrá-la. Ela sorri levemente, ao ver o corpo varado do saqueador de Vanaheim desabar da sela e jazer estendido sobre a lama. Um giro da espada daquela mulher ciméria decepa o antebraço de outro vanir a cavalo, que tentava atingi-la com um enorme machado. Quando este ruivo cai, apertando o coto ensangüentado do cotovelo, uma outra mulher salta sobre o cavaleiro, o qual geme caído sobre a lama, e decepa-lhe a cabeça num só golpe. Com um sorriso degenerado, outro vanir a cavalo agarra uma criança a pé e arrebenta-lhe o crânio contra uma viga. E, com um rugido de puro ódio, o ferreiro da tribo – marido de Ealadha – dá um pulo para o alto e decepa a cabeça do covarde assassino ruivo.

Urrando feito um urso, Tassach, pai do ferreiro Criomnthan, enfia sua espada no olho de um atacante vanir a pé, fazendo a lâmina de aço se projetar pela nuca do ruivo, e o sangue do mesmo se misturar ao vermelho da barba do invasor nórdico até a cota de malha. Figuras selvagens correm até a batalha – mulheres altas e flexíveis, totalmente nuas, os cabelos negros soprados pelo vento agora morno, os olhos azuis e cinzas faiscando, e as espadas em punho, gotejando sangue vanir.

Medindo 1m83 de altura, Criomnthan não é mais nem menos alto que a maioria de seus conterrâneos – embora seja 3 cm mais alto que o pai Tassach. Mas, devido a longos anos de forja, o ferreiro de farta barba negra – agora aparada, devido ao calor – e olhos azuis é um dos homens mais musculosos da tribo. No entanto, é um guerreiro ágil, de corpo flexível e com uma tremenda força nos braços de forjador.

Nenhum daqueles vanires, em cota-de-malha e escudo, é páreo para o ferreiro Criomnthan. Embora seminu e sem escudo, o forjador de metais empunha perigosamente a espada contra aqueles invasores ruivos, girando e estocando para atacar, e se abaixando e pulando para se esquivar – ou para ambos. Numa finta enganadora, ele fura a boca-do-estômago de um vanir; noutra, ele abre o crânio de outro ruivo na altura dos olhos, em uma explosão de sangue e derramar de miolos.

Enquanto isso, apesar das rugas no rosto e dos pêlos grisalhos em seu peito musculoso, o velho Tassach – assim como o filho Criomnthan –, mata dois invasores para cada conterrâneo morto.

Um gigantesco vanir a pé – um dos mais musculosos da horda – investe contra Ealadha, de machado na mão, imaginando-a frágil. Contudo, mesmo grávida, a esposa do ferreiro é mais ágil que a maioria dos aldeões sob ataque – e muito mais do que o corpulento ruivo que investe contra ela. Este tenta matá-la com dois giros mortíferos de seu enorme machado. Contudo, ao tentar atingir Ealadha, o vanir se aproximou demais da gestante seminua, de modo que esta acerta duas estocadas no homem de barba ruiva: a primeira, na genitália do ruivo, fazendo o vanir urrar; a segunda, no grosso pescoço daquele brutamontes de Vanaheim, matando-o.

Outro vanir, sentindo uma estranha excitação sexual ao ver os balouçantes seios nus de Ealadha, com as largas auréolas escurecidas pela gestação, tenta agarrá-la por trás, a fim de violentar a jovem. Contudo, a desnuda guerreira Cliodhna, mãe da futura mãe, salva a honra da filha, decepando por trás e de um só golpe, a cabeça do ruivo, a qual voa para longe num chafariz de sangue, indo rolar pela neve já avermelhada de sangue cimério e vanir.

Os cães de caça cimérios, que haviam alertado a aldeia da invasão estrangeira, voam em direção às gargantas dos ruivos; alguns deles as despedaçam; outros são mortos a golpes de espada e machado pelos vanires, enquanto outros enfrentam os poucos cães-de-guerra, trazidos pelos guerreiros ruivos de Vanaheim. Crianças – de recém-nascidos a meninos e meninas de dez anos – assistem à batalha, pelas frestas das choupanas nas quais se escondem, protegidas pelos anciãos – alguns dos quais, oráculos da tribo. Caso sobrevivam à invasão, as crianças mais velhas repetirão, com bastões de madeira, os golpes da batalha, como treino para futuros combates na adolescência e idade adulta.

Girando seu machado de duas lâminas, um dos vanires decepa a cabeça de uma mulher e racha o crânio de um homem, em seu avanço a uma das cabanas, mas é detido por duas espadas cimérias: a primeira, empunhada por um homem, furando-lhe os intestinos; e a segunda, de uma mulher que decepa a cabeça ruiva do assassino vanir.

Uma das cabanas é incendiada por duas tochas vanires, fazendo sua ocupante – uma grisalha mulher de mais de 70 anos – sair da mesma, com o recém-nascido bisneto caçula nos braços. No momento seguinte, ela e o bebê são mortalmente atravessados por uma lança vanir, com ponta de bronze. Tomada de ódio ao ver a velha e o bebê serem covardemente assassinados, a seminua gestante Ealadha – tão hábil na luta quanto o marido ferreiro – agarra uma lança de ponta de sílex com a mão esquerda e a arremessa, certeira e fatalmente, em direção ao musculoso pescoço do assassino ruivo. Este cai agonizante para trás, com o esôfago, traquéia e vértebras cervicais perfurados pela lança, cuja ponta se projeta pela parte posterior do seu pescoço.

Os dois incendiários, por sua vez, são mortos por um giro fatal da espada de Tuathal, o marceneiro da tribo, cuja filha de nove meses está dentro de sua cabana, sob a proteção da mãe. A seguir, uma das mulheres a guerrearem nuas é atingida por um mortífero machado vanir entre os seios morenos, ao mesmo tempo em que vinga a própria morte, enfiando profundamente a espada gotejante entre o pescoço e queixo de seu algoz.

Ao mesmo tempo, outro bisneto da recém-vingada idosa – uma menina de uns dois anos – é derrubado por outro vanir, o qual pisa sobre o pescoço da criança, rindo e estrangulando-a sádica e lentamente. Mas a menina crava os dentes no calcanhar do ruivo, cortando-lhe o tendão. O homem de barba vermelha cambaleia de dor e ergue a espada, pronto para rachar o crânio moreno da garota, mas é morto por um giro mortal da lâmina do velho Murrad, pai de Ealadha. O golpe de Murrad abriu as costas do vanir, partindo-lhe a coluna vertebral ao meio e talhando costelas e pulmões. O velho guerreiro cimério só não reclama com a menina porque acaba de ver o sangue inimigo nos dentes dela, o que arranca um sanguinário e sombrio sorriso de orgulho dos lábios do sogro de Criomnthan.

Dali a pouco, o ventre de Ealadha começa a se contrair, para libertar uma criança que ali ficara por nove meses. A mulher grita de dor, mas continua manejando sua espada implacável contra os gigantes de Vanaheim. Num dado momento, os vanires cercam a mulher, abafando o choro de uma criança recém-nascida com seus urros bestiais de guerra. Entretanto, uma massa de guerreiros de cabelos negros alivia a pressão vanir, ajudando a esposa do ferreiro a se livrar dos últimos incursores que invadiram sua tribo.

Tão nu quanto quase todos ali, o líder da tribo lidera, ao lado da também desnuda esposa, uma curta e implacável perseguição aos vanires sobreviventes, os quais tentam fugir. Os ruivos que não morrem com golpes de espadas e machados nas costas – ou decapitados por trás enquanto correm – são mortos à distância por lanças de metal e sílex, arremessadas contra suas costas ou nucas – a depender do material da ponta da lança: as de metal eram endereçadas às costas blindadas dos incursores de barbas vermelhas; e as de pedra, às nucas e partes posteriores dos pescoços dos guerreiros de Vanaheim.

Enquanto isso, as crianças saem correndo de suas choupanas e, sorridentes, se divertem decepando as cabeças dos cadáveres inimigos, antes que os adolescentes e adultos carreguem os corpos para apodrecerem longe da tribo.

Embora os vanires sejam lutadores implacáveis, os cimérios – apesar de não usarem arcos nem cotas-de-malhas, como seus inimigos vanires e aesires – possuem, além da agilidade, uma furtividade, adquirida nas montanhas e florestas escuras, a qual é ainda maior que a dos nordheimeres das ensolaradas planícies geladas do Norte. Sem contar que as mulheres ruivas e loiras de Nordheim são mais guerreiras defensivas que ofensivas, lutando apenas em ocasiões especiais – e, portanto, menos freqüentemente que as das colinas sombrias – e não participando de incursões, como esta que os cimérios acabam de repelir.

Os cavalos sobreviventes dos recém-eliminados invasores vanires serão aproveitados para futuras incursões a povos rivais, ao leste, norte e sul – embora os cimérios lutem quase sempre a pé. Neste momento, todas as atenções se voltam para uma das guerreiras, não apenas ensangüentada pela luta, mas também enfraquecida pelo parto, a qual, mal conseguindo se manter de pé após o duplo esforço, é prontamente amparada pelo marido, ao mesmo tempo em que ainda segura o recém-nascido no colo – e sem ter ainda cortado o cordão umbilical que une o bebê à mal-coberta vagina da mãe.

– Quando eu não puder me erguer sozinha, é porque minha hora já chegou, Criomnthan. – ofega Ealadha, se apoiando na própria espada, e disfarçando sua gratidão e amor ao marido com a típica seriedade ciméria. À exceção de Tassach, a maioria dos cimérios só sorri em meio às batalhas. Logo, a esposa do ferreiro acrescenta: – Alguém me traga um pano para eu limpar esse maldito sangue vanir desta adaga e cortar este cordão umbilical! Por Crom, minha tanga está ensangüentada demais para limpar qualquer coisa.

Uma das guerreiras da tribo atende prontamente ao que fora solicitado.

– Qual será o seu nome? – pergunta Criomnthan, ajudando Ealadha a ir para a cabana, pouco depois da mesma cortar o cordão umbilical.

– O menino se chamará Conan. – ela responde.

– “Co-nan”… “Nascido em Batalha”. Excelente nome! Será um grande matador de vanires… como nós!

– E de hiborianos, aesires, pictos e bossonianos também… assim como todos nós! – Ealadha acrescenta.

Chegando à cabana – logo após terem lavado o sangue de seus corpos e do bebê –, eles encontram a mãe de Criomnthan cuidando da pequena neta, Rotheachta, primogênita de Ealadha e seu marido ferreiro. Naquele país bárbaro, as pessoas, apesar de melancólicas, só choram no dia em que nascem. Lá dentro, o casal troca um beijo e se veste, enquanto Tassach adentra sorridente a choupana e é logo informado do nome de seu segundo neto – o primeiro do sexo masculino.

O pai do ferreiro – e outrora membro de uma tribo do sul da Ciméria, além de aventureiro pelos reinos hiborianos quando jovem – sorri ao saber disto e ergue a espada ensangüentada, gritando com extrema alegria o nome do mais novo neto, de olhos tão azuis quanto os de Criomnthan. Tendo aprendido, com os hiborianos, a sorrir mesmo longe da loucura da batalha, o velho Tassach, avô do recém-nascido Conan, é um dos poucos oásis de alegria constante entre aquele povo taciturno e melancólico, em cujo seio nascera.

FIM