Quadrinhos do Veríssimo – Se Não Leu, Leia!

Estes dias remexi em meu livros. Separei alguns com algo em comum (fotos abaixo), para comentá-los brevemente e fazer uma recomendação!

Luís Fernando Veríssimo é um narrador fluente. Ele nos conta histórias como se estivesse ao nosso lado, ao pé do ouvido. Sempre presente em jornais diários e sendo o mais festejado nome dado aos hoaxes na internet, nos deu várias antologias de contos e crônicas, recheadas de bom e refinado humor, do tipo difícil de se elaborar. Arriscou o romance e, novamente, não deixou a desejar, agradando o leitor exigente com em O Jardim do Diabo (1987), O Clube dos Anjos (1998), o “litero-policial” Borges e Os Orangotangos Eternos (2000), bem como a trama conspiracionista O Opositor (2004), entre outros.

Há alguns anos, todas as obras do tímido autor são publicadas pela Objetiva, com bastante zelo editorial. Entre os relançamentos, estão os quadrinhos As Cobras e Aventuras da Família Brasil, originalmente lançados pela gaúcha L&PM. Além desses títulos, a L&PM também lançou os grandes álbuns de Ed Mort, reunindo as tiras diárias do detetive subnutrido que não dá uma dentro. As tiras desse personagem (adaptado para o cinema em 1997, interpretado por Paulo Betti) tiveram arte de Miguel Paiva, criador de nossa conhecida Radical Chic.

Destaco que o volume da Família Brasil publicado pela Objetiva não segue à risca as mesmas tiras do primeiro; há novas tiras e outras foram suprimidas. Assim, não o considero uma republicação, embora citem-no dessa forma, por aí.

Enfim, o que dizer acerca da produção quadrinística de Veríssimo? Dá para ser em uma linha: a melhor produção de quadrinhos de humor nacional.

No volume As Cobras – Antologia Definitiva (2010), não há material ruim, não há ideia boba, criada apenas na intenção de causar uma mera gargalhada. Nos faz rir bastante, mas ainda nos deixa, depois, com aquele meio-sorriso de canto de boca, apreciando a perspicácia do autor pela inteligência do deboche, sarcasmo e ironia.

A Família Brasil reflete a família classe média-média, bem média, por nós bem conhecida. Quem não se recorda dos cortes de gastos de nossa infância, que sacrificavam nosso lazer, incluindo o gibizinho e o cinema do final de semana? Não sabemos se sentimos dó daquela família igual a nossa ou apenas nos acabamos de sorrir.

Mas é em Ed Mort que Veríssimo mostra que é bom, muito bom. O próprio reconhece que não é bom no desenho. Não teria como dar conta da produção das tiras detetivescas. Daí, chamou o Miguel Paiva,  os dois formam um belo casal. Não imagino Ed Mort com outra expressão que não a lhe concedida pelo desenhista. Todas as tiras cumprem sua função de encerrar uma piada. Mas, em Veríssimo, vão além, fomando uma grande painel coeso, sem se perder em momento algum. Assim, todas as tiras publicadas do investigador terceiromudista compõem cinco grandes arcos de histórias: Procurando o Silva (1985), Disneyworld Blues (1987), Com a Mão no Milhão (1988), Conexão Nazista (1989) e O Sequestro do Zagueiro Central (1990). E, o que é melhor, os álbuns do personagem foram lançados em formato grande pela L&PM, com capa cartonada, miolo em papel de gramatura elevada e em P&B. Neste formato também saiu a edição com as tiras da Família Brasil (1985) e O Analista de Bagé em Quadrinhos (1983), com arte de Edgar Vasques.

A antologia Objetiva d’As Cobras ganhou tratamento especial, em capa cartonada com orelhas, papel cuchê e formato grande.

São todos excelentes quadrinhos. Valem a pena, sem receio de errar. Os títulos lançados apenas pela L&PM podem ser encontrados em sebos, sem tanta dificuldade. Se ainda não leu uma HQ do Veríssimo, leia o mais breve possível.

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Kleiton Gonçalves é autor do blog Ordem do Eterno Grau de Neófito , sem nenhum seguidor.