Almanaque Sacarrolha 40 anos (de brincadeiras!)

Colaborador: Mawa

Você já foi ao circo? Eu já, e lembro bem, uma vez que minha infância é uma história recente. Lembro do cheiro de pipoca, de minha mãe me segurando na fila de entrada para eu não me perder e os números que via se apresentando no picadeiro. O meu favorito sempre foram os mágicos.

Não sei se hoje meus sobrinhos fazem o mesmo, mas sei que o circo(não aquele Du Soleil) mesmo cambaleante, ainda persiste, vejo algumas lonas por aí quando estou de passagem de um lugar a outro, mas o respeitável público de fato não é como já foi um dia.

Em comemoração à criação do personagem de Primaggio Mantovi, a Kalaco Editorial lança o álbum especial Sacarrolha: 40 anos (de brincadeiras!)contendo a história do simpático palhacinho que, assim como seu local de trabalho, andava esquecido.

A edição, que pega carona no troféu do prêmio HQ MIX 2012 baseado no personagem, em sua composição de 68 páginas resgata histórias de Sacarrolha em todas suas encarnações, de sua revista mensal a tirinhas e tabloides, preservando as histórias publicadas, a edição optou por manter a ortografia original das aventuras, provenientes dos anos 1970.

Os quadrinhos de tom infantil e humorístico apresentam além de Sacarrolha também seus amigos, como o palhaço Tantã, seu escudeiro de aventuras; Gambini, o caçador e domador de animais; Dom Pepe, o dono do Circo e Bamba, o cachorro de Sacarrolha.

Além de suas aventuras, a publicação tem uma ótima matéria de 10 páginas com a história de Sacarrolha e seu criador, imagens de eventos, produtos, campanhas publicitárias e aparições em outras mídias e histórias em quadrinhos de outros personagens. Por incrível que pareça, a matéria não é creditada.

Também temos duas galerias: Uma galeria com diversas capas de HQs estreladas por sacarrolha e outra muito especial, com Sacarrolha desenhado por vários outros artistas prestando tributo ao personagem.

Tudo isso tem um preço, que infelizmente é o ponto fraco da homenagem: 47 reais! E apesar do registro histórico a esse quadrinho nacional, não há o que justifique um valor tão alto: A edição tem formato álbum papel off-set e com grampos, sem lombada quadrada e nem a bacana edição fac-símile da primeira edição de Sacarrolha publicada pela RGE salva esse valor. Isso mostra que, apesar de Sacarrolha ser criado para crianças, esta edição tem como alvo os colecionadores mais crescidinhos.

Apesar do alto preço, a edição é bem cuidada e vale a pena aos colecionadores de HQ, mais ainda aos que gostam da História das HQs nacionais, e também aos que sentem saudades do palhacinho, que hoje tem suas edições originais difíceis de serem encontradas até em sebos.

Uma vez em um ônibus público presenciei a entrada de um palhaço pedindo ajuda financeira aos passageiros, e em seu discurso ele disse “para não se preocuparem, pois os palhaços estavam acabando”. Essa publicação com certeza dá um sopro de vida não só os palhaços, mas também a cultura circense, que mesmo aos poucos, luta para não desaparecer.

Minha avaliação: 9/10

O Palhaço – Crítica

O Palhaço
(idem – Brasil – 2011)
Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato
Elenco: Selton Mello, Paulo José, Teuda Bara, Ferrugem, Moacir Franco, Fabiana Karla, Danton Mello, Jorge Loredo, Emílio Orciollo Neto e Jackson Antunes.

Segunda incursão do ator Selton Mello na direção de um longa-metragem, O Palhaço conta a história de Benjamin (Mello), vulgo Pangaré, um palhaço de circo que viaja pelo país com a trupe comandada por seu pai (Paulo José). Em meio a dificuldades financeiras, Benjamin ainda tem que lidar com problemas pequenos, mas que o consomem; como fazer uma carteira de identidade, comprar um ventilador e conseguir um sutiã novo para uma colega de palco.

Encarnando o seu palhaço como uma figura triste e incapaz de sorrir, é impossível não comparar (salvas as devidas proporções, é claro) a concepção do personagem de Pangaré, com a versão que Robert Downey Jr. fez de Charles Chaplin no ótimo Chaplin (de 1992), quando o atual Homem de Ferro mostrou uma diferente faceta para um ícone da comédia. Sendo assim, é uma decisão um tanto corajosa, ainda que não necessariamente criativa, que Selton opte por apresentar ao público um palhaço depressivo.

Ainda assim, o filme conta com boas tiradas de humor (como as conversas dentro do carro) e um ótimo tempo para comédia – a história do gato Lincoln é hilária. Porém, tal humor muitas vezes é prejudicado pelas fracas e irregulares atuações de quase todo elenco, inclusive do próprio Mello, algo raro de acontecer. Mantendo aqui todo o respeito que tenho pelo mestre Paulo José (e lembrando que isso nada tem a ver com seu talento ou capacidade de atuar), sou obrigado a admitir também que, em alguns momentos, é difícil entender o que ele fala, devido à sua saúde debilitada.

Problemas a parte, o cineasta mostra que conhece bem a linguagem cinematográfica e sabe como construir seqüências criativas. Colocando os personagens sempre no centro do quadro, e muitas vezes mostrando eles parados antes de darem sua ação, o ator/diretor cria uma ambientação que remete diretamente ao teatro e ao universo diegético em que vivem aqueles personagens.

Reparem também como, no início da projeção, quando tudo ainda está relativamente bem, os planos em contra-luz falseiam a pequena dimensão do público que assiste ao espetáculo, fazendo a pequena apresentação parecer um grande show. Posteriormente, quando Benjamin já está consumido por seus problemas, tais recursos não são usados, o que ilustra bem as mudanças de “humor” de seu protagonista.

Ainda que tenha os seus defeitos – a parte da alucinação com ventiladores é inexplicável –, O Palhaço comprova (mais uma vez) o talento de Selton Mello no comando de um longa-metragem. Em entrevista, ele admitiu que ainda tem muito o que aprender, e que é exatamente a possibilidade de melhorar e aprender mais que o fascina nessa profissão. Tendo isso em mente, confesso que fiquei curioso para ver um possível próximo filme sob seu comando.

Trailer:

Minha Estante #14 – Afonso Andrade

Olá, colecionadores de quadrinhos do Brasil!

Hoje apresentamos a vocês a eclética coleção de Afonso Andrade, coordenador geral do FIQ, o maior festival de quadrinhos do Brasil! Então você imagina o amor que ele possui por essa arte e o quanto se dedica em divulga-lá, né?!

Com essa entrevista o Pipoca e Nanquim completa um pequeno ciclo de apresentação dos organizadores do evento. Primeiro conversamos com o curador e expositor Ivan Costa e depois com o curador Daniel Werneck e agora com Afonso.

Comentem lá em baixo o que acharam dessa estante e se vão ao FIQ! Nos aqui do PN não vemos a hora de chegar 9 de Novembro!

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Olá, Afonso! Desde já agradeço sua participação. Para começar nos conte um pouco sobre você, onde nasceu, mora, o que faz na vida profissional?

Nasci e moro em Belo Horizonte. Sou formado em História, mas desde 2002 atuo profissionalmente na área cultural. Em 2005 fiz parte coordenação do 4º FIQ e, a partir de 2007, assumi a coordenação geral do evento.

Quando você começou a se interessar por quadrinhos?

Gostava de quadrinhos quando era criança. Lia muito Turma da Mônica, especialmente as histórias do Pelezinho, e Disney. Adorava Disney Especial, aquelas edições temáticas: inventores, astronautas, detetives. Na adolescência o interesse diminuiu e praticamente parei de ler quadrinhos.

Você se lembra da primeira vez que se viu fascinado por uma HQ? Qual foi a história ou revista?

A redescoberta dos quadrinhos aconteceu quando estava na Universidade. Por causa do Pasquim já gostava de cartuns e comecei a acompanhar a Chiclete com Banana e a Circo. Uma história do Laerte, os “Palhaços Mudos”, me deixou de queixo caído. O que era aquilo? A narrativa, a dinâmica da história. Nunca tinha lido nada parecido. Depois um colega da faculdade me mostrou um quadrinho que estava lendo: Batman: o Cavaleiro das Trevas. Aí não teve mais jeito, precisava de mais (risos).

Autógrafo do Laerte na história dos palhaços mudos, publicada na Circo.

Quando aconteceu a mudança de leitor ocasional para colecionador inveterado?

Na época da Circo, Chiclete, Cavaleiro das Trevas, o Brasil vivia um momento de expansão da publicação de quadrinhos, com a chegada de vários títulos nas bancas. Acho que sou mais um leitor inveterado, do que um colecionador. Como, na época, as bibliotecas não tinham quadrinhos e eu quase não conhecia outros leitores, comprar era a solução.

Quantas HQs você tem?

A última vez que contei, girava em torno de 4000 exemplares.

Visão geral do escritório e “centro de entretenimento” da família, onde ficam os quadrinhos

Baú, onde guardo formatinhos. Ele foi feito pela minha esposa com recortes de Batman P&B.

Baús e caixas com parte da coleção

Quais são os principais itens de sua coleção, séries e mini-séries completas, encadernados de luxo, edições raras, etc.

Tenho bastante material da década de 80, acho que praticamente tudo o que foi publicado na época. Também tenho uma boa coleção de Metal Hurlant e El Víbora.

Tenho um gosto bastante eclético, até por dever profissional, gosto de acompanhar o mercado, lançamentos e novos autores.

Voltei a comprar mais coisas, principalmente, a partir de meu envolvimento com o FIQ.

Não tenho tantas edições raras, talvez os livros e revistas autografados.

Qual o item mais raro de todos todos todos?

Tenho uma edição de um livro do Ota sobre o Zéfiro, autografado por ele. Até a 1ª Bienal de Quadrinhos do Rio, em 1991, a verdadeira identidade do Zéfiro era desconhecida, um segredo de estado. Os organizadores do evento conseguiram que ele viesse a público e participasse da Bienal. Assim consegui sua assinatura no livro. Pouco tempo depois da Bienal, Zéfiro faleceu.

Tenho dois outros autógrafos que tenho carinho, do Eisner, de 1997, quando esteve  na 3ª Bienal de Quadrinhos, em BH e uma edição de Top 10, nº 1,  com autógrafo do Alan Moore, que ganhei do grande amigo Ivan Costa.

Autógrafo do Zéfiro

Autógrafo do Alan Moore na Top 10 #1

Autógrafo do Eisner em 'Nova York a Grande Cidade', um dos meus livros favoritos

Desenho feito pelo Bem Templesmith

Belo autógrafo do Craig Thompson

Autógrafo do Liniers. Alguns autores estrangeiros acabam grafando meu nome errado: “Alfonso”

Como você guarda sua coleção de HQs? E qual técnica usa para conservá-los?

Os colecionadores vão querer me matar, mas sou meio desorganizado. Como disse me considero mais um leitor que propriamente um colecionador. Guardo os livros e revistas em estantes de aço. Procuro manter longe do sol e umidade. Ultimamente o espaço está pequeno e preciso reorganizar a coleção e aumentar o número de estantes.

Tem algum item ou coleção que tem vergonha de deixar em posição de destaque na estante? Eu mesmo deixo lá no fundo minha coleção do Spawn, Heróis Renascem…

Não sei, talvez as edições da Image e outras publicações da década de 80. Naquela época conseguíamos comprar tudo que saía, tarefa impossível nos dias de hoje. È claro que a gente acabava comprando muita coisa ruim.

Já aconteceu alguma tragédia envolvendo suas preciosidades, como umidade, traça, roubo, fogo…?

Infelizmente, sim. Perdi há alguns anos, quando morava em outra casa, parte de minha coleção de formatinho por causa de traça. Ah, e sempre tem algum item que você empresta e não te devolvem.

Algumas publicações dos anos 70

Quadrinhos da década de 1950, com exceção do 'Rango'

O Gibi e Primeira edição do 1º livro do Henfil

O Gibi e Primeira edição do 1º livro do Henfil

Nos bastidores você comentou que não liga de emprestar seus quadrinhos. Mas com isso você não perde muita coisa ou recebe de volta amassada, suja e tal? Isso não te irrita profundamente?

Sabe que não. Sou um proselitista dos quadrinhos (risos). Se a pessoa leu e passou a gostar de quadrinhos, fico satisfeito. Claro que algumas raridades, principalmente com autógrafos e dedicatórias, evito emprestar.

Todo colecionador tem manias, eu, por exemplo, sempre cheiro meus quadrinho novos e não empresto, qual é sua?

Quando viajo sempre levo uma pilha de quadrinhos, que daria para ler durante meses, mesmo que a viagem só dure alguns dias.

Sem contar Watchmen, Cavaleiro das Trevas, Sandman e Piada Mortal, quais os quadrinhos que você sempre indica pra as pessoas?

Como acabo tendo contato com novos leitores ou com pessoas que querem começar a ler quadrinhos, gosto de indicar Persépolis, Gen: Pés Descalços, Supremos e dois livros novos, A Guerra de Alan e Três Sombras.

Em sua opinião, quais são os mais importantes quadrinistas do Brasil?

Assim fico numa saia justa. Vou falar de dois. Maurício de Sousa, pelo seu pioneirismo, visão, criatividade. Sempre desbravando novas fronteiras na linguagem dos quadrinhos, além de conseguir, num ritmo industrial, não perder a qualidade e o cuidado com o leitor.  Laerte que é o grande gênio de sua geração. Poucos sabem contar tão bem uma história como ele.

Recentemente eu conversei com o Ivan Freitas da Costa que contou alguns convidados confirmados para o FIQ 2011, principalmente os brasileiros e também o francês Cyril Pedrosa. Dias atrás foi divulgada a participação da excelente Jill Thompson. Tem mais algum nome que pode revelar pra gente que vai arrebentar a boca do balão?

São mais de 60 convidados, entre artistas nacionais e internacionais. Os dois últimos confirmados foram o Horacio Altuna e o Bill Sienkiewicz. Mas o restante dos nomes podem ser conferidos no site: fiqbh.com.br

Esse ano o homenageado será o Mauricio de Souza, pode adiantar algumas atrações envolvendo o pai da Turma da Mônica

Como homenageado, o Maurício criou a identidade visual do evento, teremos uma exposição alusiva ao seu trabalho e sua presença na abertura do FIQ.  Estamos conversando com sua equipe sobre outras possibilidades.

Autógrafo do Maurício de Sousa

O FIQ 2009 recebeu o dobro de público que do de 2007, cerca de 75 mil visitantes durante os cinco dias. Será que esse ano dobra novamente?!

Difícil saber. Estamos nos preparando para um público em torno de 80 a 90 mil pessoas. O interesse pelos quadrinhos aumentou bastante nos dois últimos anos. O movimento e a expectativa nas redes sociais estão bem grandes.

O local do evento já foi definido? Comportará a massa de 90 mil ávidos leitores de quadrinhos?

Sim. Será na Serraria Souza Pinto, local da edição de 2007. A Serraria tem capacidade para receber um grande público, com certeza.

Sendo um grande colecionador e diretor geral do FIQ, creio que já conheceu muita gente bacana e alguns ídolos, tem alguma história que queira compartilhar com a gente?

Isto me lembrou uma entrevista que ouvi com uma pessoa que trabalhava com desenvolvimento de games. Perguntaram se jogava muito. Ele disse que a partir do momento que começou a trabalhar com games, parou de jogar. Em um evento do tamanho do FIQ, ficamos muito envolvidos com a produção e logística. Assim, sobra pouco tempo para interagir e conversar com os artistas, como gostaríamos.

A grande vantagem de trabalhar com quadrinistas são o apreço, atenção, gentileza e, algumas vezes, paciência que todos os artistas têm com os leitores.

Ano passado homenageamos o Canini. Foi emocionante ver a alegria dele e da esposa, aqui em BH. Conversava com as crianças, distribuía autógrafos para todos. Outro momento memorável foi testemunhar o encontro dele com o Mauricio de Sousa, durante um almoço.

Para finalizar, deixe um recado para os leitores do Pipoca e Nanquim e colecionadores do Brasil.

Fica o convite para todo mundo vir a BH em novembro, de 09 a 13, participar do FIQ. O festival é inteiramente gratuito e repleto de atrações. Podem acompanhar pelo site: fiqbh.com.br, twitter: @fiq_bh ou facebook.com/festivalinternacionaldequadrinhos

Afonso, muito obrigado pela conversa! Em novembro espero encontrar com você ai em BH, para uma entrevista pro nosso videocast.

Obrigado a vocês e parabéns pelo ótimo trabalho de divulgação da cultura dos quadrinhos. Espero vocês aqui em novembro.

Desenho do Demolidor feito pelo Cris Bolson e Júlio Ferreira

Desenho feito pelo João Marcos (autor de Mendelévio e Telúria

Homem Aranha vigia alguns quadrinhos sobre guerras e aquisições recentes

Anéis dos Lanternas