1968 – A vingança dos nerds

“Se maio de 68 dá a impressão de que a França se tornara um ringue no qual se enfrentavam o general De Gaulle e o anarquista Daniel Cohn-Bendit, três meses antes tínhamos a impressão de que o jogo era disputado entre De Gaulle e Langlois”.

François Truffaut

Compreensivelmente, é pouco lembrado que um grupo de alguns milhares de cinéfilos formaram a vanguarda dos célebres distúrbios urbanos ocorridos em Paris, em maio de 1968. Considerando as imensas dimensões alcançadas pelo movimento, que chegou a englobar protestos contra a Guerra do Vietnã, pelos direitos das minorias, apoio às ditaduras socialistas de então e coisas do gênero, é ainda mais compreensível que convenientemente tenha caído no esquecimento o fato de que essa vanguarda não protestava contra o imperialismo cultural estadunidense. Pelo contrário, eles costumavam idolatrar sua produção cultural de massa. Cultuavam nomes como John Ford e Jerry Lewys, respectivamente o rei do faroeste e o rei da comédia maluca, dois gêneros essencialmente norte-americanos. Com o passar do tempo, Ford e Lewys converteram-se em clássicos acima de qualquer suspeita, porém, na época, mesmo nos Estados Unidos, não eram considerados mais do que entretenimento de fim de semana.

Os franceses foram os primeiros a defender seriamente o cinema como arte de primeira grandeza. Um dos principais mentores desta concepção foi Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, que funcionava no porão do Palácio de Chaillot, em Paris. Toda uma geração de cinéfilos foi formada na cinemateca, recebendo influência direta de Langlois. Na década de 1950, alguns de seus pupilos passaram a escrever críticas na revista Cahiers du Cinéma e, posteriormente, tornaram-se cineastas, fundando o movimento da Nouvelle Vague. Destacaram-se no grupo François Truffaut, Claude Chabrol e Jean-Luc Godard.

Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa

Apesar de Godard ser mais celebrado, é provável que o mais preparado intelectualmente tenha sido Truffaut. Em 1982, ele escreveu o prefácio do livro L’Homme de la Cinemathèque, de Richard Roud, biografia de Langlois. Grande ensaísta e polemista virulento, Truffaut não se limitou a fazer apologia do biografado. Em momento algum demonstrou ressentimento, sendo inclusive simpático ao personagem, mas não pôde se furtar de traçar um perfil cru de Langlois. Descreveu-o como um tipo egocêntrico, supersticioso, vingativo e manipulador. Para Truffaut, “quando um velho amigo ou colaborador de Langlois deixava de lhe dar seu apoio ‘incondicional’, Henri, incapaz de aceitar a menor nuance numa amizade ou colaboração, logo o classificava entre seus inimigos, ao mesmo tempo em que continuava a falar dele sem ódio e dando quase sempre a mesma explicação: ‘essa briga é completamente normal, X sempre me viu como um pai e agora sente necessidade de matar o pai’”. Enfim, um francês típico, segundo o estereótipo. Mas, fosse como fosse, esse homem de difícil trato foi o marco zero de maio de 68.

A Cinemateca Francesa era patrocinada pelo governo. O velho general De Gaulle não via com bons olhos as excentricidades de seu administrador. Agravava a situação o fato dele realizar uma gestão incontestavelmente incompetente. Amante inveterado do cinema, Langlois não conseguia conceber seu trabalho como um serviço público. Via-o como o exercício de uma paixão pessoal. Tratava a Cinemateca Francesa como se fosse sua casa e os funcionários como seus empregados. Mas, obviamente, uma paixão pessoal não pode ser paga pelos contribuintes, nem aqui nem na França. Desentendimentos com alguns funcionários serviram de justificativa para sua demissão. Os círculos culturais franceses receberam a notícia como uma demonstração gratuita de autoritarismo por parte de De Gaulle.

Em 15 de fevereiro de 1968, cerca de três mil pessoas foram protestar em frente ao palácio Chaillot. Marcaram presença nomes importantes do cinema francês, como Michel Piccoli, Jeam-Paul Belmondo Alain Resnais, Barbet Schroeder, Jean-Pierre Kalfon e Jean-Pierre Léaud. No Making Of do filme Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, que reproduz esse episódio, vemos o depoimento de Gilbert Adair, contando como os protestos se tornaram inesperadamente violentos: “foi incrível. Todos esses tipos certinhos, que eram os cinéfilos, seguravam cartazes que diziam ‘fims, pás flics’, ‘filmes, não tiras’, de repente havia esses robôs, esses caras com máscaras e cassetetes, armamento de choque e armas de impacto, e de repente atacaram”. Nerds que até recentemente só se preocupavam em discutir se Buster Keaton era mais engraçado do que Chaplin, começaram a jogar paus e pedras em autoridades policiais, bater a apanhar. Nos dias, semanas e meses que se seguiram, esparsamente de fevereiro a maio, às manifestações cresceram em tamanho e ferocidade. Não havia mais apenas cinéfilos e artistas de cinema no centro da ação. Todos os tipos de pessoas aderiram, incluindo estudantes da Sorbonne, desocupados dispostos a extravasar sua raiva e intelectuais de peso, como Sartre e Simone de Beauvoir. Os paus e pedras foram substituídos por coquetel molotov.

Significativamente, foi um dos principais cineastas da época quem melhor demonstrou a ironia da situação. Pier Paolo Pasolini, assim que soube das manifestações, publicou um poema no qual denunciava os estudantes burgueses que agrediam os representantes do proletariado que tinham como meio de sobrevivência vender sua força de trabalho servindo como policiais. A patrulha ideológica da esquerda européia condenou Pasolini. O cineasta, que naquele ano lançou Teorema, sua obra-prima de contestação à hipocrisia burguesa, não se importou muito. Ao mesmo tempo comunista, católico e homossexual, Pasolini estava mais do que acostumado com situações contraditórias.

Mas Pasolini tinha razão. De lado a lado, a violência tornou-se o mote principal das manifestações. O efeito suplantou a causa. A truculência da polícia contra manifestantes que, inicialmente, só queriam fazer barulho foi excessiva. Do mesmo modo, a violência latente dos manifestantes é inegável. Remetia a um desejo nostálgico de reviver a Comuna de Paris em pleno século XX. O fato é que, independentemente da pancadaria injustificável, a Revolução dos Costumes já estava em curso e era inevitável. Os Beatles já tinham fumado maconha dentro do Palácio de Buckingham. Para ver a Revolução Sexual em pleno curso bastava ir assistir uma aventura do agente 007 no cinema. O festival de Woodstock aconteceria no ano seguinte de qualquer modo. Afinal, quem precisa dos franceses para fazer rock?

Mas, depois de tudo, o que houve com Henri Langlois? Durante as manifestações, segundo Truffaut, “passava o tempo consultando as cartas ou indo a videntes, únicos capazes, segundo ele, de predizer o futuro da Cinemateca”. No mundo real, não foram as cartas de tarô que decidiram o futuro da instituição. Foram às centenas de cartas enviadas a  Cahiers du Cinéma pelos mais diversos cineastas, de Rosselini a Kurosawa, ameaçando retirar seus filmes da Cinemateca Francesa, que fizerem De Gaulle ceder. Langlois foi readmitido. Permaneceu no trono até morrer, em 1976.

Em retrospectiva, Truffaut, um dos mais ativos aliados de Langlois durante a crise, observa que talvez os burocratas do governo francês não estivessem errados. Langlois era uma figura canônica e colocar-se contra ele exigia coragem. Em muitos quesitos, seus defeitos prevaleciam sobre suas qualidades. É provável que os filmes estivessem mais seguros em outras mãos. Mãos menos apaixonadas e mais profissionais. Mas, em 68, venceu a paixão. Truffaut admite que “devemos ter sido peremptórios, odiosos e um pouco terroristas, pois a militância, consciente ou não, não raro comporta boa dose de má-fé”.

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Ademir Luiz é doutor em História. Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Autor do romance “Hirudo Medicinallis”. Correio eletrônico: [email protected]