Cheech e Chong: Queimando Tudo – Crítica

Hey, man! What the hell is fuckin’ movie?

É praticamente um dever de cidadão-cinéfilo escrever sobre essa obra. Talvez esquecida pela nova geração, esse filme é quase mais velho que andar pra frente. Tá, nem tanto assim. Se você é um desses que vive pesquisando e fuçando acerca de filmes, raridades, referências e histórias sobre a sétima arte, provavelmente parecerei redundante, mas se estás meio “desligadão” do cinema, você já está fazendo o estilo do filme.

Resumir Cheech e Chong apenas como dois maconheiros hippies idiotas e desengonçados é ser verdadeiro superficial demais e menosprezar a importância dos dois. Importância pro cinema, claro. Lá nos fins dos anos 70, Cheech Marin e Tommy Chong iniciaram uma série de filmes sobre essa onda liberal, que refletia principalmente no cenário musical e no cinema. Mas dos mais de dez filmes que fizeram, darei ênfase apenas no primeiro, que é o mais conceituado e famoso, e é decisivo pra saber se você vai querer ver os outros ou não.

Queimando Tudo (Up in Smoke, 1978) é desses filmes de caráter idiota que é difícil não rir. E nada de risadinhas de canto da boca, ou de pensar que você vai ver o filme e apenas sacar mentalmente onde está a graça da coisa. É risada de verdade, isso se você se deixar levar pela fumaça onda dos caras. Se a nova geração gostou de Débi e Lóide (Dumb And Dumber, 1994), saibam que eles fumam bebem da fonte de Cheech e Chong. Para isso, deixe o preconceito de lado, e veja esse filme velho sobre dois maconheiros doidões.

Tudo se inicia de modo involuntário, quando De Pacas confunde Man Stoner como uma mulher à beira da estrada e decide dar carona. Ao perceber que se trata de um homem ainda mais barbado que ele, não exita em dar a carona. Eles vão se conhecendo e percebendo suas idiotices afinidades. Essa primeira e grande cena do carro é excepcionalmente bem-feita, e apresenta as maiores genialidades do filme. Contando com piadas muito bem construídas e improvisações interpretativas de primeira, eles deixam claro suas personalidades, em meio a muita fumaça, babaquice e inteligência. É com uma longa cena inicial que eles abrem caminho para todas as outras idiotices. O que é interessante e funciona como um motivador dessas piadas sequenciais e quase ininterruptas é que os acontecimentos passam longe de ser no estilo “altas confusões”, e acontecem unicamente devido à convincente babaquice dos dois.

As atuações merecem notório destaque. As facetas, olhares e risadas absurdamente bem interpretadas e apresentadas em imagens, realmente valem mais do que quaisquer mil palavras inocentes que tentem traduzir os momentos em cena. De primeira.

O absurdo é presente e ativo no filme, desde o tamanho do baseado que fumam à capacidade de esquecer o próprio nome e engolir ácido no lugar de remédio. De Pacas (Cheech) é um americano-mexicano, pobre e que dedica muito de seu tempo a somar enfeites do péssimo gosto em seu carro, e Man (Chong) um maconheiro de alto calão.

O nome dele é Raaaaaalph!

O nome dele é Raaaaaalph!

Nessas comédias protagonizadas por duplas imbecis, é comum perceber a liderança de um sobre outro. No entanto, essa característica não ocorre em Cheech e Chong, com níveis de sem-noção que se anulam e intercalam momentos de lucidez e maluquice.

As ideias originais e construções de roteiros são assinadas pelos próprios atores principais, além de dirigirem os próximos filmes da série. Vale lembrar que os nomes dos personagens no primeiro longa são diferentes dos demais filmes sequenciais, Cheech Marin é Pedro de Pacas, e Tommy Chong é Anthony ‘Man’ Stoner. E é apenas nos filmes subsequentes que eles adotam parte de seus nomes verdadeiros para os personagens.

As situações enfrentadas pelos personagens merecem uma atenção. A construção da história não se apega em conectar os atos dos protagonistas num interesse de dar sentido final à obra. O trabalho é conduzido com enfoque em cada situação aleatória e, ainda que muito bem boladas, em alguns momentos as cenas perdem o senso de conectividade com a história. Dessa forma, as situações enfrentadas por eles dentro de um próprio filme ou até mesmo nos filmes sequenciais, não correspondem às explicações lógicas dos acontecimentos. Mas é exagero querer diferente, já que o enfoque dos longas está unicamente nas piadas. E aí ele é fera.

Por esses e mais motivos Cheech e Chong ganhou reconhecimento e cravou seu nome na comédia protagonizada por duplas, desfilando com autoridade um humor invejável, de grande capacidade criativa e de improvisação. Suas obras merecem uma conferida.

Minha avaliação: 8/10
Definindo-o em uma palavra: Idiota.

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Marco Aurélio é cinéfilo para si e nerd para os outros. Caiu no mundo do cinema apenas desde 2005 e não parou mais, tornando-se um colecionador assíduo. Adora um horror, do melhor ao pior, e é grande apreciador de filmes independentes e B, com a liberdade de expressão que ele mesmo acha que tem. É editor do blog Cinemarco Cineclube.