Perigo em Alto Mar – Crítica

Em 1975, o jovem Steven Spielberg arrancou as pessoas das praias dos EUA em pleno verão norte-americano, tudo por causa de um filme: Tubarão. Todos estão familiarizados com a história e o sucesso do filme, que teve várias sequências ruins e inúmeras outras imitações. O brilho do original, evidentemente, jamais foi igualado, afinal Tubarão foi lançado em uma época na qual existia uma mítica em torno desses animais, pois muito pouco se sabia deles. Hoje, as mensagens ecológicas que estão em todos os lugares não nos deixam esquecer que na verdade as criaturas do oceano são as espécies em perigo, e não nós. Essa inversão de papéis quebrou grande parte do impacto que filmes como esse costumavam ter.

Ainda assim, em 2003, o diretor Chris Kentis lembrou-nos que o oceano é um lugar perigoso com sua pequena gema Mar Aberto, um tenso suspense que narrava a trágica experiência de um casal que havia sido esquecido no meio do oceano durante um curso de mergulho e, obviamente, encontrava-se com tubarões nada amistosos. O longa-metragem fazia com que o expectador se contorcesse de desespero (e olha que lá o casal era atacado por tubarões “pequenos”, de dois ou três metros). Kentis recuperou parte da experiência proposta por Spielberg, e assustou algumas plateias em todo o mundo.

Agora, o diretor Andrew Traucki nos concede uma experiência verdadeiramente aterrorizante, que vai muito além do que todos os filmes nos últimos 30 anos fizeram. Antes de falar sobre o filme, vale ressaltar que este é apenas o terceiro longa-metragem deste diretor, sendo que sua experiência anterior, o excelente Black Water de 2007 (lançado no Brasil com o infame título Medo Profundo), fica parecendo quase um passeio no parque, se comparado com a tensão que o diretor extrai desta sua nova película. Afinal, se em Black Water as pessoas tinham que lidar com um enorme e agressivo crocodilo que havia afundado seu barco, elas ao menos podiam encontrar alguma segurança nas árvores altas do pântano e ficar fora da água, ao contrário do grupo de amigos de Perigo em Alto Mar (The Reef). Na verdade, as semelhanças entre os dois filmes se limitam ao fato de ambos serem baseados em histórias reais e ambos terem animais que adoram comer gente – mas a coisa fica por aí. Medo Profundo e Perigo em Alto Mar são longas completamente diferentes, com ritmo e andamento diferente, estilo diferente e até propostas diferentes, que despertam sensações distintas no expectador.

Neste novo longa australiano, a trama não poderia ser mais básica; 5 pessoas partem para se divertir em um iate nas perigosas águas australianas. Um acidente com um recife afunda o seu barco e eles decidem nadar em direção a ilha mais próxima (que está a aproximadamente 15 quilômetros de distância). Tudo bem até aí, se no meio do caminho o grupo não começasse a ser perseguido por um enorme tubarão branco.

Eu disse tubarão branco? Daqueles que ultrapassam sete metros?

Sim, foi o que eu disse. E se os tubarões de Mar Aberto já assustavam, imagine este aqui.

Andrew cria uma sensação de desconforto como há muito tempo eu não sentia ao assistir em um filme; um pânico latente que o acompanha todo o tempo por simplesmente não conseguir ver o que está embaixo. Você sente na pele o que os personagens estão sentindo, pois goza de tanta informação quanto eles (claro, eles estão molhados e você seco), mas a verdade é que você fica tão tenso, mas tão tenso, que até mesmo os dois sustos fáceis (e até certo ponto previsíveis) que o filme dá, o fazem pular da poltrona.

As cenas com o tubarão são poderosíssimas. Destaque para o primeiro ataque. Rápido, brutal, cru, visceral. Nada de sensacionalismo – a coisa é o mais real possível. O expectador mal sabe o que o atingiu, afinal ele está acima da água e, na maior parte do tempo, tem a mesma visão que os personagens. Quando um deles veste a máscara e olha para baixo, na esperança de ver algo, o desespero aumenta. A iminência da morte é quase pior do que ela própria.

Andrew sabe muito bem o que assusta o público e, tal qual Spielberg, evita mostrar seu tubarão demais. Você o vê com clareza em vários momentos, mas ele não é over. E felizmente, não temos nada de CGI e daquelas cenas babacas de porcarias como Do Fundo do Mar. Aqui o tubarão é real – tão real quanto o medo de qualquer pessoa de ser devorado vivo por uma fera dessas, que faz com que qualquer homem torne-se impotente. O diretor aposta em uma câmera intimista, muito próxima dos atores e diversos closes, o que faz com que você se sinta naquela posição.

O elenco, aliás, está perfeito. Zoe Naylor (Kate) é linda e prova que pode pular para fora da TV e ganhar os cinemas fácil, fácil. A expressão em seu rosto quando o tubarão passa ao seu lado e a deixa em estado de choque é de impressionar. Os demais também são competentes, com destaque para o mocinho Luke, interpretado por Damian Walshe-Howling, também saído da TV australiana. Desde o começo ele se mostra pró-ativo e decidido, o que faz com que o expectador simpatize com ele e torça até o fim.

No final das contas, Perigo em Alto Mar é uma experiência muito, muito assustadora. Quando o filme acaba, claro, toda aquela tensão se esvai – afinal não passa de um filme, porém é certeza que sua racionalidade fará com que sinta um frio no estômago e um cutucão atrás da orelha da próxima vez em que estiver no mar e olhar para toda aquela imensidão diante de si, que faz com que você se sinta pequeno e impotente. Principalmente nos dias de hoje quando vemos vídeos reais de ataques de tubarão a disposição no youtube.

Cinco filmes que vão te deixar tenso

Se você é como eu, que gosta da sensação de tensão proporcionada por bons filmes de suspense ou terror, não vai se arrepender de conferir as indicações dessa lista. Coloquei os filmes em ordem de minha preferência e acrescentei uma menção honrosa. Três, das seis dicas, são produções francesas, não por mera coincidência, o cinema francês de terror despontou nessa última década e nos entregou obras excelentes, que deixam os lançamentos de Hollywood do mesmo gênero no chinelo. Assim que assistir os filmes, volte para deixar sua opinião nos comentários, ok?

1) MÁRTIRES (MARTYRS – 2008)

Se você é uma pessoa muito sensível, esqueça esse filme e vá para o próximo. Sério, eu o considero como o mais chocante que já assisti em toda minha vida, e tenho quase certeza de que você vai achar o mesmo. Não por sua violência explícita, que não chega nem aos pés de produções gore como Albergue, mas por seu tema perturbador, que conseguiu me deixar pensativo nos três dias que se seguiram após ter assistido. É realmente chocante, podem acreditar. Não apenas chocante, é também EXCELENTE, com atuações competentes e excelente roteiro e direção do francês Pascal Laugier.

É sobre uma moça que foi mantida em cativeiro e torturada durante a juventude, mas 15 anos após ter escapado ela está completamente insana e deseja vingança. Não posso dizer mais pra não estragar a experiência impar que é conferir este filme, eu assisti sem saber a sinopse e isso contribuiu muito para que gostasse tanto quanto gostei.

O ritmo é frenético, a ação se desenrola rapidamente sem tempo pra respirar. Já na metade tudo está resolvido, e aí você vai se perguntar: “Caramba, o que mais vai rolar daqui pra frente? Tudo que tinha pra acontecer já aconteceu”. Meu amigo, nesse momento é que começa o filme. Até então você já roeu suas unhas e se impressionou com a frieza do diretor nas cenas, pois Laugier não prepara o espectador para o baque, ele pega desprevenido. Do meio até o final é quando você vai ficar chocado. As coisas terríveis que você ficou imaginando enquanto assistia vão ser jogadas na sua cara desse momento em diante. Aconselho que assista sozinho, nunca se sabe quem aguenta uma história assim.

 

2) A INVASORA (À L’INTÉRIEUR – 2007)

Outra produção da França. Enquanto Mártires pende mais pro lado chocante, esse pende mais pra tensão mesmo. É sobre uma moça grávida que perdeu o marido em um acidente de carro. Abalada, ela vive sozinha aguardando o dia de dar a luz. Quando isso esta prestes a acontecer, uma estranha mulher invade sua casa para tentar tirar o bebê de seu ventre. Tenso do inicio ao fim, impossível não prender a respiração enquanto torce pra protagonista escapar. Dirigido por Alexandre Bustillo e Julien Maury, o filme é bastante sanguinário, praticamente um gore, mas sem violência gratuita, tudo serve ao propósito de manter o clima de tensão. A conclusão é surpreendente e deixa tudo explicado, e aproveito para avisar: a cena de desfecho é bem forte, difícil evitar virar o rosto ou fechar os olhos e manifestar perturbação em voz alta.

3) A ÚLTIMA CASA (THE LAST HOUSE ON THE LEFT – 2009)

Este filme americano, dirigido por Dennis Iliadis, é uma refilmagem que consegue superar seu original, Aniversário Macabro, de 1972. Um casal resolve passar as férias com a filha adolescente em sua casa de campo. Ao se estabelecerem, a menina resolve sair com uma amiga da cidadezinha local e ambas são sequestradas, estupradas e “mortas” por uma gangue de inescrupulosos bandidos. Sim, “mortas” entre aspas, porque a filha do casal sobrevive por um triz, sem que os malfeitores percebam, e tenta voltar para a casa de seus pais. Mas o destino ainda lhe reserva surpresas. Uma forte tempestade pega a todos sem aviso e obriga os bandidos a procurar um refúgio temporário. Adivinha onde esse pessoal vai pedir abrigo? Exatamente, na casa dos pais da vitima, que até então não sabem de nada. Um filmaço! Quando o casal descobre que aqueles que estão abrigando são os desgraçados que estupraram sua filha, começa um tenso esquema de vingança. É muito bom! A Última Casa tem uma das cenas de estupro mais pesadas que já vi, ficando atrás apenas de Irreversível e A Vingança de Jennifer, mas mesmo assim eu consegui assistir com minha família numa boa.

4) ALTA TENSÃO (HAUTE TENSION – 2003)

O último filme francês da lista, dirigido por Alexandre Aja. Esse é forte hein? Meu Deus do céu, inventei de assistir com minha namorada e quase enfartei a menina, pois a violência é cruel. Duas estudantes vão passar uma temporada na fazenda da família de uma delas, mas logo na primeira noite um psicopata invade a residência e mata todo mundo sem dó nem piedade, exceto as duas garotas. Uma delas consegue escapar e a outra é levada pelo maníaco em um furgão. Cabe àquela que fugiu a arriscada tarefa de resgatar sua amiga. Um apreensivo jogo de gato e rato, o diretor soube criar o clima de suspense no esconde-esconde da personagem. O filme todo se desenrola muito bem, só não gostei do final, achei completamente sem noção. Prestem atenção e percebam se não tem várias cenas que fazem daquele final algo incabível.

5) MEDO PROFUNDO (BLACK WATER – 2007)

Não costumo gostar de filmes sobre feras aquáticas, Tubarão acho que foi a única exceção, mas esse aqui vale a pena. Dirigido pelos australianos David Nerlich e Andrew Traucki, conta a história real de três pessoas que resolveram passear de barco em um rio e acabaram vitimas de um crocodilo. O réptil vira a embarcação e devora o piloto, tempo que os demais aproveitam para subir em uma árvore onde vão permanecer como reféns durante muito tempo, já que ninguém sabe que eles saíram pelo rio. O suspense é garantido, pois o crocodilo se mantém submerso e a espreita o tempo todo, nunca se sabe onde ele pode estar; terror psicológico puro. Sempre que um dos personagens resolve entrar na água a apreensão vem à tona, pode ter certeza de que você vai levar bons sustos. Eu assisti a esse filme deitado em minha cama, quando acabou e me levantei tive a sensação de que minhas pernas seriam abocanhadas pelo crocodilo, parecia que estava adentrando no rio. Estranho não?

Menção Honrosa
HERANÇA MALDITA (BABY BLUES – 2008)

Tenho pelo menos que citar esse filme americano, que não é tão tenso como os demais, mas também é bem legal. Baseado em fatos reais, é sobre um menino forçado a proteger seus irmãos mais novos e a si mesmo de sua própria mãe, que está sofrendo um surto de depressão pós-parto (uma psicose real que aflige várias mulheres que dão a luz) e quer matar seus filhos. Se não gosta de violência contra crianças, passe longe de Herança Maldita. Depois desse filme passei a olhar desconfiado para minha mãe.

É isso aí, aguardo os comentários!