Tubarões Voadores – O Dia que Arrigo Barnabé Musicou os Quadrinhos de Luiz Gê

Colaborador: André Rocha (@andrerocha_r)

Arrigo Barnabé, como ele mesmo diz, é um inventor. Geralmente o processo criativo (ou inventivo) não segue uma racionalidade fria e possui uma polifonia interessante. Curiosamente, as referências de Arrigo são aparentemente contraditórias: Música Erudita, Tropicália e a cultura pop (dentre outras, é claro).

Paranaense de Londrina foi para São Paulo nos anos 70 para estudar Arquitetura e Urbanismo na FAU (USP), mas não chegou a completar o curso. Se encontrou mesmo quando cursou composição no Departamento de Musica na ECA (USP). Grosso modo, isso explica suas referências: o gráfico da arquitetura, a música erudita do curso de composição e a cultura pop do tropicalismo dos anos 70.

Arrigo, no início de sua carreira estava numa pegada de transar música popular com música erudita, como conta em uma entrevista à Cristina Fonseca:

“meu trabalho está ligado às expectativas abertas pelo tropicalismo. A mistura de erudito e popular apareceu no tropicalismo. Rogério Duprat principalmente, ele iniciou uma espécie de fusão entre a música erudita, moderna e contemporânea e a música popular urbana. E eu me insiro dentro desse negócio aí, que tá ligado diretamente com o Rogério Duprat. Comecei em 1972. Em Londrina, a gente achava que, depois do avanço de Caetano, Gil, Gal, pintaria uma coisa que incorporasse de forma mais intensa as conquistas recentes da música erudita”

Quando Arrigo fala sobre as conquistas recentes da música erudita ele refere-se à música atonal e à dodecafonia de Schoenberg e do silêncio e inventividade de John Cage. Segundo ele, a bossa nova chegou até o “impressionismo musical” e a tropicália, apesar de informada sobre música dodecafônica, atonal, eletrônica, voltou-se mais para a elaboração das letras, dos textos e para a revolução no comportamento e, depois dela, em vez de evolução, houve involução. A tropicália, segundo Arrigo, em termos harmônicos e musicais, pode ser considerada um retrocesso em relação à bossa nova, salvo algumas exceções, como Araçá Azul de Caetano.

No curso de linguagem para Arquitetura Arrigo conheceu Luiz Gê. Luiz Gê já publicava seus primeiros trabalhos gráficos quando Arrigo começou a se enveredar pelas Vanguardas musicais. Tornaram-se grandes amigos. Luiz é paulistano, conhecia a cidade e guiou Arrigo pela cidade revelando os detalhes ocultos da narrativa urbana que somente São Paulo possui, narrativa essa que ele empregava em seus quadrinhos, cuja paixão contagiou o colega. Em um desses passeios Luiz Gê levou Arrigo para uma exposição de história em quadrinhos que estava no MASP que o fez se apaixonar também pelos quadrinhos. (Há quem diga que era uma exposição com as obras do Will Eisner)

Esses elementos foram transpostos para a obra de Arrigo também. Em seu primeiro trabalho – Clara Crocodilo – Arrigo já demonstrava a aproximação com os quadrinhos não só no projeto gráfico do disco, o qual também é de Luiz Gê, mas também na narrativa da saga de Clara Crocodilo que poderia ser, sem sombra de dúvida, uma história em quadrinhos. Clara Crocodilo tornou-se, merecidamente, um marco na história da música brasileira (e arrisco, mundial) não só por ser lançado de forma independente (ser independente nos anos 80 era completamente diferente de ser indie hoje em dia) e ser considerado porta-bandeira do movimento chamado “Vanguarda Paulista”, mas também por ser aquilo que Arrigo queria quando falava em “evolução musical” e pelo transporte da linguagem dos quadrinhos para a música.

Em 1984 após o reconhecimento e o relativo sucesso de Clara Crocodilo Arrigo assinou contrato com gravadora Ariola que deu sinal verde para produção de um novo disco, que inicialmente se chamaria Crotalus Terrificus cuja arte foi encomendada ao amigo Luiz Gê.

Um dia Luiz Gê recebeu a visita de um amigo em sua casa, onde este ao observar um pôster dos Tigres Voadores (esquadrilha aérea composta por aviadores americanos, cuja característica visual em seus aviões P-40, era uma enorme boca de tubarão pintada), deu a idéia de uma HQ protagonizada por eles, porém dentro da cidade. Imediatamente Luiz Gê estalou a idéia de ao invés de aviões, seriam tubarões, tubarões voadores e iniciou os esboços de modo tão frenético que deixou o amigo pasmo. Nos dias que se seguiram, foi-se montando o roteiro da história e acertando os detalhes, até finalizá-la.

Quando Arrigo Barnabé foi em seu ateliê para tratar sobre o disco novo, viu a HQ dos tubarões e disse: “Ah!! Luis Gê, vou musicar essa historinha e o disco vai chamar “Tubarões Voadores”. O que era um antigo projeto de ambos, fazer uma HQ com trilha sonora se concretizou naquele momento.

Medindo o tempo de leitura de cada quadrinho, Arrigo Barnabé foi musicando quadro a quadro, obtendo um resultado surpreendente, algo inédito até então. Redefinindo o nome do álbum para “Tubarões Voadores” cuja faixa-título abria o disco, manteve a HQ completa sob a forma de encarte do álbum.

Em Tubarões Voadores Luiz Gê sintetizou todo o medo e paranóia da classe média, que se tranca dentro de seus apartamentos e carros blindados se isolando dos demais habitantes, por não se sentirem seguros. Onde um passo em falso, uma janela aberta na hora errada, pode resultar em uma absurda tragédia. A HQ começa em tom de humor, evoluindo para o puro terror, onde a violência é mostrada sem glamour ou justificativa, entre cada ataque dos tubarões são mostradas cenas de violência urbana cotidianas de qualquer cidade: acidentes, mutilações, crimes, atropelamentos e suicídios. Tudo isso se encerra com a cena final de um corpo sendo dilacerado por vários tubarões sob a legenda: “Pois no coração do prudente, descansa a sabedoria

Para transpor para a música todo esse clima de terror e medo, Arrigo Barnabé dividiu os vocais com Vânia Bastos, e introduziu a superposição de vozes e instrumentos em tonalidades diferentes para criar a percepção de profundidade do desenho, dando a ilusão de movimento. A utilização de citações musicais (ciranda, cirandinha) ajudam a dar clima à cena, e a HQ reforça a dimensão sangrenta e dolorida, tornando visualmente impossível escutar a música de maneira entorpecida.

Além da faixa-título o disco apresenta outras experimentações fantásticas com música modular, dodecafonia e demonstra a graficidade do som em outras músicas e outros personagens (“Neide Manicure Pedicure”, “Kid Supérfluo” e “Papai Não Gostou”). Há quem diga que Arrigo é difícil de ouvir, para esses, Arrigo deu seu recado em entrevista à Charles Gavin:

“Eu queria fazer uma música que provocasse também uma revolução auditiva nas pessoas; que fizesse com que a pessoa para achar que aquela música era bonita, para entender que aquela música era bonita, para entender o pensamento estético da música ela tivesse que ter uma transformação interior. Ela teria  que deixar de pensar na beleza como só um produto da consonância.”

Aos dispostos a se transformar fica o conselho: ouça Arrigo Barnabé, mas antes Feche a janela Joãozinho, ou seremos comidos pelos… TUBARÕES VOADORES!

Referências:

ARRUDA, Maria Arminda do N. Metrópole e Cultura. São Paulo no Meio Século XX. Bauru, Edusc, 2001.

BARNABÉ, A. Clara Crocodilo. São Pauto: Ariola. 1983. 1 disco sonoro (45 min), 33 1/3 rpm, estereo, 12 pol.

_____. apud GAVIN, C.: O Som do vinil. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=mp9KgHPxge4 >. Acesso em: 28 jun. 2011.

FENERICK, José Adriano. Façanha às próprias custas: a produção musical da vanguarda paulista (1979-2000). São Paulo: Annablume/Fapesp, 2007.

FERNANDES, F e SATO, P. : Vertigem: os vultos da vanguarda. Disponível em: < http://www.culturabrasil.com.br/especiais/vertigem-os-vultos-da-vanguarda-2>.

GUIMARÃES, A. C. M. A “nova música” popular de São Paulo. Editora da UNICAMP, 1985.

OLIVEIRA, Laerte F. de. Em um porão em São Paulo: o lira paulistana e a produção alternativa. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2002.

VAZ, Gil N. História da música independente. São Paulo: Brasiliense, 1988.

GUEZZI, Daniela Ribas. De um porão para o mundo: a vanguarda paulista e a produção independente de LPs do selo lira paulistana nos anos 80: um estudo dos campos fonográficos e musical. Dissertação (Mestrado em Sociologia). UNICAMP: Campinas, 2003.

LOPES, J. Arrigo Barnabé, passado a limpo. In: Revista Bravo! Janeiro/2000, ano III, nº28, p. 70-72

DAPIEVE, A. Brock: o rock brasileiro dos anos 80.  São Paulo: Editora 34, 2000.

NIXON, Nikki. Tubarões Voadores – A HQ que virou música. Disponível em: <http://www.hqmemoria.com/?p=44 >. 2009

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